livros artesanais, autora e editora, scenarium

Catarina

Noite alta a queimar substâncias… livros empilhados sobre a mesa de trabalho e uma xícara de chá com um último gole esquecido no fundo. Viro páginas. Me distraio com o brilho do ecrã a iluminar a parede, onde desenhos de ontem me lembram as muitas pessoas que fui-sou.
O ano era dois mil e um… o menino de riso solto me apresentou ao universo dos blogues: essa ferramenta será útil para o seu novo personagem. Sua fala rápida-sonora-certeira me fez sentir uma atriz a decorar um texto, a se deixar de lado para assumir um papel e subir ao palco, onde uma multidão a espera…
Não entendi, no entanto, como uma página em branco… a me pedir um título-texto poderia servir de Norte para os meus novos planos à época — escrever um romance. Ele fez uso de suas melhores frases para me convencer e eu concordei em ter um blogue.
Acompanhei — sem nenhum entusiasmo — todo o processo de criação da página durante dez intermináveis minutos… e pronto: agora é com você! E a página ficou lá… sem que eu a alimentasse — durante dias-semanas-meses. Sempre fui péssima com inícios — páginas em branco, caderno novo, pacotes de sulfite.
Eu já tive vários blogues desde aquele dois mil e um. Fui mudando — saltando de galho em galho — até que aconteceu Catarina. Tinha esvaziado caixas-gavetas e queimado alguns papéis. Estava cansada de acumular rascunhos que não alcançavam outra condição. Minutos depois… me sentei diante do ecrã — uma boca bem aberta-faminta e eu convertida em colher — escrevi de um fôlego só: catarina voltou a escrever… e fiquei a espiar aquela frase solta na tela. O ano era 2013…

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Capítulo 04 | voltar a escrever…

Eu tinha sete anos — talvez um pouco mais — quando decidi escrever um texto — o primeiro — e para isso imitaria — inconscientemente — o mio nonno, que se sentava diante da sua Remington Victor T, estalava os dedos e escrevia — repetindo cada uma das palavras em voz alta. Ele precisava agradar os ouvidos e quando não acontecia… usava um lápis-preto para riscar a frase… e reescrevê-la. (dezenas de vezes)
Gostava do que parecia ser um ritual — folha em branco, carbono, outra folha em branco. Uma pequena batida na mesa e o encaixe no tambor… tomando o devido cuidado para que as folhas ficassem perfeitamente alinhadas na horizontal. Um pesado gole de café e os dedos em movimento no ar… só então começava a sinfonia — uma metralhadora a disparar palavras, a ferir gravemente o papel.
Eu adorava observá-lo, ouví-lo… sabia que ele não era um Escritor — não tinha livros publicados. Era apenas um homem simples, criador de cavalos, cultivador de uvas-oliveiras e um habilidoso contador de causos — que escrevia crônicas nas manhãs de sábado e as publicava no jornal da cidade, que pertencia a um velho amigo.
Quando saia para caminhar seu lugarejo… se divertia com os relatos sobre seus escritos. As pessoas gostavam de se reconhecer em suas linhas. Saber-se personagem de suas narrativas curtas e pareciam felizes por saber o lugar do texto. Sempre havia alguém disposto a lhe pagar um cálice de vinho ou uma caneca de cerveja.
Quando me proponho a começar um texto — revisito esse ontem, incontáveis vezes. Agito os dedos no ar… aceno à memória, as emoções, respiro fundo e escrevo dentro — primeiro. Só então me atrevo a disparar palavras na tela… é sempre bom voltar a escrever.