Ano 06 | Ensaio…

ana_luisa_amaral

Ana Luísa Amaral

Outras vozes

Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado.
Pensar «podia ter outra cor de pele, outra pelagem»
E o tempo virar-se do avesso, e entrar-se ali,
em vórtice, pelo tempo dentro.
Escolher.

Trazer cota de malha e de salitre,
ter chorado quando o porto ao longe se afastara,
milhares de milhas antes,
meses em sobressalto para trás.

As febres e tremuras durante a travessia,
a água amarga, as noites
carregadas de estrelas,
junto ao balanço do navio, um astrolábio.

Numa manhã de sol, do porto de vigia,
ver muito ao fundo, em doce oval,
a linha, quase tão longínqua como constelação.
Gritar «terra», gritar aos companheiros
ao fundo do navio, do fundo dos pulmões gritar,
e o bote depois, os remos largos,
a cama de areia e o arvoredo.

Ou trazer na cabeça penas coloridas,
conhecer só a fundo a areia branca
e o mar sem fundo, peixes pescados ao sabor dos dias,
uma língua a servir de subir a palmeiras,
a servir de caçar e contar histórias.

Moldar um arpão, começar por um osso
ou pedra e madeira,
entrelaçar o corpo da madeira, e o afiado da extremidade.
Contemplar devagar o resultado do trabalho
e da espera.
Ou a beleza. Escolher.

Trazer o fogo na mão, escondido pela pólvora,
fazer o fogo na orla da floresta.
Os risos das crianças, tocar a areia branca, tocar
a outra pele. Cruel,
o medo, vacilar entre a fome e o medo.
Ou não escolher.

As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira alta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.

 


Ana Luísa do Amaral, poeta lusitana.

Anúncios

BEDA | Apenas uma personagem…

Sempre alguém me pergunta quem é Catarina… e em seguida: porque ela voltou a escrever. Exibo um sorriso nos lábios e me calo… porque não gosto de me explicar. Quer me ver naufragar… é ser questionada quanto a um título-rótulo — como se uma história simplesmente se explicasse sem que fosse preciso ler suas linhas.

Catarina é apenas uma personagem… a primeira, dentre todas, nas quais tropecei em meus caminhos de vida. A chamei assim, porque esse nome já existia em mim. Pertencia a uma figura — intempestiva. Habitamos o mesmo espaço… tropeçamos em nossos discursos contidos. Dividimos insanidades. E pouco depois — sem deixar rastros — ela simplesmente desapareceu…

Eu percorria uma das avenidas de São Paulo a bordo de um Coletivo… espiava as esferas urbanas, com seus movimentos humanos. Vivia dias de quietude, a afundar-se no abismo que sou. Não conseguia organizar uma única frase. As palavras soavam estranha. Faltava-me vontade-ânimo… e, pensei que jamais voltaria a escrever um mísero texto. Acabou — disse em voz alta sem me preocupar com o que eu faria com o que sobrou de mim no dia seguinte.

Encarei meu próprio reflexo no vidro da janela do Coletivo ‘lapa-vilamariana’… e vi meus lábios em movimentos-mudos a tramar uma espécie de diálogo… a soluçar a cidade. De dentro de mim — como quem escava as cavernas da pele — ecoou a frase que Catarina costumava anotar em si mesma e nas folhas brancas que levava consigo — “será que a gente morre quando não tem mais nada a dizer?”.

Ao chegar ao café entre esquinas, abri o meu notebook e digitei no espaço em branco do worpress… Catarina voltou a escrever.

 


Ano 05 | Ensaio…

jorge-luis-borges

Jorge Luis Borges

LIMITES

Dos caminhos que estendem o poente
Um (não sei qual) há de ser percorrido
A última vez, por mim, indiferente,
E sem que o adivinhe, submetido

A Quem prefixa onipotentes normas
E uma secreta e rígida medida
Às sombras, imaginações e formas
Que destecem e tecem esta vida.

Se para tudo há termino e há compasso
E última vez e nunca mais e olvido,
Quem nos dirá de quem, em nosso espaço,
Sem sabê-lo, nos temos despedido?

Sob o cristal já gris a noite apaga;
Do alto dos livros que um borrão tisnado
Da sombra espalha pela mesa vaga,
Algum deles jamais será folheado.

Há no Sul um portão enferrujado
Com grandes jarras de alvenaria
E tunas que a mim estará vedado
Como se fosse uma litografia.

Para sempre fechaste a porta certa
E há um espelho que te aguarda insano;
A encruzilhada te parece aberta
E a vigília, quadrifonte, Jano.

Entre as memórias sempre existe aquela
Que se perdeu um dia no horizonte;
Não se verão descer àquela fonte
Nem o alvo sol nem a lua amarela.

Não achará tua voz o tom que o persa
Deu à sua língua de aves e de rosas,
Quando ao acaso, ante a luz dispersa,
Queiras dizer as coisas mais preciosas.

E o incessante Ródano e o logo,
Todo o ontem sobre o qual hoje me inclino?
Tão perdido estará como Cartago
Que no fogo e no sal viu o latino.

Creio ouvir na manhã o atarefado
Rumor de uma longínqua multidão.
É tudo o que foi caro e olvidado;
Espaço e tempo e Borges já se vão.

 


Jorge Luis Borges, poeta argentino.

Ano 04 | Ensaio…

charles

Charles Baudelaire

EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a
única questão. Para não sentirem o fardo horrível
do Tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a
escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou
desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a
tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira,
a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o
pássaro, o relógio responderão: “É hora de
embriagar-se!

Para não serem os escravos martirizados do
Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem
descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a
escolher.

 


Charles Baudelaire, poeta francês, autor do livro ‘les fleurs du mal‘…

Ano 03 | Ensaio…

 

mario

 

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz, guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

 

 

 


Mário de Andrade, poeta paulistano-modernista, autor de paulicéia desvariada, macunaíma e tantos outros…