Sebo praia dos livros

Sebo Praia dos Livros 2

Eu gosto imenso do outono… e isso não é uma novidade para quem me conhece pessoalmente ou através de meus escritos. Espero pelo outono com o mesmo prazer que espero por uma deliciosa xícara de chá, de preferência na companhia de um bom livro.

Dias menos quentes… nublados. Tardes frias… regidas por rajadas de ventos. Madrugadas silenciosas. Manhãs menos azuis… lenços coloridos no pescoço e a cidade para tragar a cada passo.

São Paulo é uma cidade para se andar. Subidas insanas. Descidas perturbadoras… a exibir o inesperado-inusitado. Cada bairro é uma pequena cidade. Um cuore a pulsar acelerado no meio do peito.

No verão eu prefiro o conforto dos carros com ar condicionado… que me leva de porta a porta sem me impor aos desmandos dos trinta e tantos graus que faz a anatomia da cidade turva. É difícil respirar-pensar-existir… o que me deixa alheia aos espaços urbanos e tudo que eles tem para me oferecer. De dentro do carro, a cidade se afasta… se ausenta do olhar, que fica reduzido a mínima emoção.

Se fosse hoje um dia quente… esse cenário teria ficado para trás uma vez mais. Não teria percebido suas cores-aromas-fôrmas-formas-sons-sabores… combinações insólitas. Uma pausa para o passo-olhar-sentir. Aquele tempo precioso de espera, que eu tanto aprecio.

A vitrine do sebo praia dos livros te acena com discos de vinil e alguns livros que narra a vida antiga desse país represado em milhares de esquinas. Um convite para quem veio do século passado. Recordei as manhãs de sábado a vasculhar as melhores lojas de discos em busca do melhor do Rock… e o ritual de passar o pano flanelado nos dois lados do long-play, posicioná-lo no aparelho e conduzir a agulha a primeira faixa. Adorava ouvir aquele chiado gostoso e o som que se espalhava por todos os cômodos da casa.

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sebo praia dos livros


Rua Bernadino de Campos, 33
Metrô Paraíso


 beda

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06. Nada quebra a moldura dos dias…

Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens
enquanto a alma, no puro sopro da madrugada,
se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê
o que os outros viajantes, ao passarem
pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo
é único, não se confunde com nenhum outro.

{ Al Berto }

6 on 6 - tempestade

Caríssima A, 

 

…me perdi do tempo assim que aterrissei meu corpo na janela, para onde fui, assim que ouvi um trovão ressoar pelos cantos da casa-corpo-alma. Fechei meus olhos. Respirei fundo e vesti a pele com um punhado de sensações novas e antigas — devidamente misturadas… enquanto a mente ‘folheava’ as páginas do livro de Helder… “agora sei que devo saber, só. As letras da chuva loucas nas costas” e a alma começava a urdir esse diálogo silencioso contigo…

Gosto imenso de tardes nubladas. O som da Chuva é uma das minhas paixões mais antigas, minha cara. Penso que eu era a única menina da escola a ficar feliz com a temporada das águas. Apelidei maio de: o “mês das trovoadas”… e novembro de o ‘mês dos desaforos‘…

E quando os céus anunciavam suas tempestades… eu corria para a janela — movimento que se repete nessa fase (?) adulta.

Gosto imenso de apreciar as nuvens se avolumando, por cima da cidade. A escuridão a moldar os cenários urbanos. As pessoas em desespero, em busca de abrigo. O medo latente nos músculos e nervos.

Eu vou na contramão. A euforia cessa. Uma calmaria imensa se apodera de minha anatomia. Não sinto medo ou pavor… apenas uma vontade de fechar os olhos e trazer à tona a língua dos lençóis. Uma cama virada a sul, onde as gaivotas arrulham durante seus vôos de ocasião.

Os sons do trovão sempre pareceram uma espécie de diálogo entre a realidade e o imaginário — esse barco de papel abandonado à corrente.

 

Au revoir

ca.ta.ri.na voltou a escrever!

Catarina voltou a escrever
dias de outono

Nada mais existe, nada mais tem importância,
para quem viu a treva nos intervalos das coisas.

Jorge de Sena


 

Depois de tantos começos-meios-e-fins… de silenciar as teclas, volto ao som opaco e apresso-as em ritmos alucinados de consoantes e vogais. Agora, orientada por essa figura-minha-inventada-talhada-no-verso-da-folha.

Ca.ta.ri.na é a menina que me olha do fundo do espelho… é por quem chamo na noite escura. Com ela vou ao passado — esse barco-nau —, em busca de tempestade.

Quero a escrita-livre… descompromissada. O caderno novo. Um dia de outono. Fim de tarde. Ventos mornos. Noite fria. A garoa a cair serena. Uma xícara de chá-café. A lapiseira 0,5 e um punhado de livros empilhados ao lado, ao alcance das mãos-olhos-boca. Uma canção de fundo. Trilha sonora para uma espécie de pausa…