É hora de navegar outros horizontes…

a cidade que habito

Hoje nenhum sol brilha e é provável que chova até o final desse dia… o cão me faz companhia nessa vitrine urbana, onde a paisagem da cidade deixa seus traços de casas, ruas, árvores em fila, um emaranhado de prédios e um sem-fim de pessoas em seus passeios de minutos… na companhia de seus bichinhos de estimação e monstrinhos de criação…

E com o olhar detido nessa tela particular de Hopper… percebi, que São Paulo não serve como cenário para a minha escrita atual… e isso é como uma morte lenta-e-incomoda. Não me agrada, em absoluto, abandonar a premissa de escrever a partir dessa cidade, afinal, todo escritor é uma ilha e essa cidade é sem dúvida parte de minha anatomia — a minha ilha particular. Aqui  nascem e morrem todos os meus argumentos.

Gosto de percorrer suas calçadas na contramão do fluxo, com o passo mais lento e o olhar detido nas fisionomias, que não se repetem de uma esquina a outra — e se misturam e se confundem e se fazem ser uma nova figura, que se oferece ao espanto-gozo. São sempre outros e outros e mais outros…

Os prédios são sempre inéditos… uma casa antiga vai o chão hoje e amanhã sobe outra edificação monstruosa-nova-moderna-modorrenta. O passado tomba — exausto e a memória aos poucos se desfaz do que é ‘o mesmo velho’. Se acostumar não é um verbo em voga. Não há tempo para conjugá-lo.

São Paulo se reinventa em cada um de nós de tal maneira que fica impossível saber que raios de cidade é essa. Com seus milhões de habitantes espalhados por cada um de seus insanos pontos cardeais…  é necessário dizer que existe uma Sampa para cada um de nós e não existe Sampa alguma.

Contudo, não devo e não posso negar a realidade-condição de minha personagem, que não cabe nesses contornos imensos… ad infinitum. Ela é figura pequena-mínima-encolhida. E com certeza não conseguiria crescer-existir aqui. Seria engolida-devorada antes e acabaria morta por asfixia… antes dos quinze. E por ser assim é que terei que encontrar um território que seja para ela… uma espécie de segunda pele!

É hora de navegar outros horizontes em busca de possíveis geografias…

No interior do silêncio mais silêncio

latte para dois


Carissima A,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo.

Um halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece essa simbiose de tudo que me tocou até chegar aqui. Sou uma substancia que sofre alterações a cada novo segundo: o que eu era ontem já não sou mais.

Hoje me sinto impulsionada por uma emoção que não me pertence e, no entanto, arde-pulsa-se-agiganta-e-me-reduz-a-nada. Ouço Mercedes Sosa: ‘todo cambia’…enquanto visito novamente suas linhas — ainda frescas em minha memória.

Faço uma pausa aqui dentro e penso seu discurso: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“… repito incontáveis vezes essa frase, preciso ouvir-me dentro dessa fala que é sua.

Me disperso por alguns segundos… os olhos se fecham, a alma e o corpo se fecham e fico com o refrão da música que parece suor a varar os meus poros: ‘cambia, todo cambia – cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto a realidade dos dias e suas coisas… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural, como quem sai para uma caminhada pelas calçadas e encontra um amigo — real ou imaginário — pelo caminho e aceita o convite para um gole de café… aqui mesmo: entre esquinas, onde servem latte em copos brancos de papelão.

De gole em gole… uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Conto de meu dia, meus desafios de dar sentido as frases alheias. No momento trabalho em quatro livros… que me conduzem por viagens insólitas. Vou de São Paulo à Americana, do Rio à Amsterdã em poucos segundos. Deliro e me perco de mim mesma — sem saber se voltarei a me encontrar.

Gosto do impossível… do não saber, de não estar e, de voltar a mim apenas quando a ponta da  lapiseira repousa sobre o papel como quem caminha calçadas, atravessa ruas, dobras esquinas…

Há pouco, eu percorria as páginas de Auster — ‘diário de inverno’ — onde ele escreve como quem conversa e me deparei com esse diálogo ‘para fazer o que você faz, é necessário caminhar. São as caminhadas que trazem as palavras até você, que lhe permitem ouvir os ritmos das palavras à medida que as vai escrevendo mentalmente. Um pé para a frente, depois o outro, a batida dupla do coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isso, depois aquilo. Aquilo, depois isso. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham sentido, ainda que as palavras possam, às vezes, ter sentido, a música das palavras é onde os sentidos começam‘.

E volto ao meu silêncio, ao meu gole de latte, aos meus olhos fechados, ao refrão da música, a sua missiva e a minha resposta…

Au revoir

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman

…a pessoa que não somos!

café

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —

 

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente. Quase me escapa do olhar… distraída que estava — como sempre — alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Como de costume, estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco e o desejo de ter em mãos um copo branco — grande — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa — desviando do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim. Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro — com livros e folhas espalhadas. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário…

E você lá em sua mesa — do lado de fora — junto a árvore de minha infância, a embalar seu par de horas confusas… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: e quando foi que fomos algo diferente disso?

14 – E lá se foi a minha hipótese de paz…

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

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Caríssimo…

Quase cinco horas de uma dessas tardes febris… e eu vim me sentar aqui nesse canto de mundo, para escrever-te. É algo que tento fazer há dias, mas as horas de janeiro foram um desespero de ruas-lugares-paisagens-e-pessoas… não era para ser assim porque janeiro costuma ser um mês calmo-pacato-ameno… para dentro! Mas esse ano foi o contrário disso.

A cidade não se esvaziou como nos anos anteriores… embora tenha esbarrado em muitos estrangeiros, a transitar seus idiomas pelas ruas… mas, também tropecei em muitos humanos — aqueles de sempre — em movimentos erráticos pelas esquinas. Os lugares estavam todos cheios… e o sol tocou fortemente o asfalto, que ardeu como nunca antes. Foi tão cansativo existir dentro dos primeiros dias do ano de dois mil e quinze… que quase me arrependi da pausa a qual me obriguei.

Mas era preciso parar… ponderar, sobretudo, desacelerar, mas senti falta da cidade com seus traços comuns, sendo apenas uma pincelada do que costuma ser.

Gosto imenso de São Paulo e seus movimentos desarticulados… amo sua bagunça, confusão e todo o seu exagero! Adoro transitar suas alamedas, tragar seu ar equivocado e beber um pesado gole de café a qualquer momento do dia. Ter para aonde ir na hora em que quiser. Atravessar ruas, tropeçar em figuras inusitadas… mas gosto também quando tudo deixa de ser o que se é. Esse ano, contudo, foi como se janeiro tivesse se esquecido de acontecer… foi atípico, estranho, desagradavelmente pesado.

Choveu pouco esse ano… os relâmpagos e trovões aconteceram, mas foi tudo tão carregado de angústias e desesperos, que se tornou impossível apreciar.

Senti falta de existir dentro da poesia de Mário de Andrade, que me oferece em seus versos essa cidadela, habitada por seus mil e poucos habitantes… um punhado de casas e ruas… a vida parece ser mais palpável em seus versos…

Em outros janeiros meu caro, até mesmo o verão foi mais ameno – suportável. Senti falta do crepúsculo se impondo fortemente sobre a aurora de repente – sem avisar – da manhã a cair, a tarde a morrer e a noite a ser uma coisa gigantesca-imensa-quase-sem-um-fim (possível).

Não li Borges, Eliot, tampouco Emily… também não tomei xícaras de chá vermelho. Café tampouco! Foi tão difícil ler-escrever em janeiro. Foi angustiante e mesmo me propondo a quietude dentro de um isolamento pensado, foi muito difícil ser palavra na folha. Travei inesquecíveis batalhas e tudo se resumiu a pesados desaforos… com os sons agudos a prevalecer na derme-anestesiada!

E agora que janeiro se foi… respiro fundo e me lembro que depois de amanhã será carnaval. Seria tão bom se eu pudesse fechar os meus olhos agora e só acordar quando essas falsas alegrias já tivessem se liquefeito. Mas como não é possível, sigo a existir dentro desse estranho janeiro, que parece ter avançado sobre o fevereiro, numa insistente permanência…

Ao menos escrevo-te dentro dessa tarde esbranquiçada! Ainda há esperança de chuva para essa quase noite…

L.