6 ON 6 | Passos

Gosto imenso de andar porque o passo avança no mesmo sentido da pena-lapiseira e o chão é uma espécie de papel onde escrevo. Tomo nota das coisas que vejo-sinto-percebo…

dsc_00321  — gosto imenso quando o passo é pausa e eu posso fechar os olhos, descansar os pés e beber pequenos goles de ar-vida-quietude-serenidade… 

Outono - estação favorito do ano— quando meu passo é ultrapassado por outros passos… a caminho de minha porção de mundo, o porto onde ancorar meus pés. 

img_20180811_141417_948— quando as distâncias se reinventam e na melhor das companhias, eu alcanço outras paisagens… que mesmo inéditas, sempre estiveram em mim…

dsc_00911— quando o passo do outro se encontra com o meu e avançamos por caminhos urbanos, dessa metrópole que me convida as suas vias…

perceber o dia— de chegar a casa e despir os pés… sentir as ranhuras do chão, os aromas conhecido do lugar e reconhecer que o melhor verbo a se conjugar é: voltar…

DSC_0135— e não importa o caminho que eu percorra, quando na companhia dele, ainda que a gente vá até a cozinha para brincar de ‘nós dois’ é o melhor destino possível. 

 


 

Ana Claudia | Anália BossClaudia Leonardi  | Fernanda Akemi  Luana de Sousa
Mari de Castro | Maria VitóriaMariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega

 


 

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BEDA | Cada escritor tem um lugar para chamar de seu…

2017-03-31 17.23.17São Paulo é uma cidade logarítmica… com dúzias de árvores prestes a cair e centenas de portões incumbidos de manter inúmeras pessoas do lado de fora e outras tantas do lado de dentro.

Milhares de carros, passos e olhares passam pelas mesmas ruas todos os dias num atropelo desenfreado de movimentos. Os congestionamentos batem constantes recordes, como um nó impossível de desatar.

Quando chove… litros de água desmoronam em cortinas de gotas furiosas que levam poucos segundos para inundar as ruas, que nascem sobre rios que, enterrados ou não: transbordam… e muitas pessoas “se afogam” em lamentos repetitivos.

O clima mudou: o calor persiste… há tempos não fazia tanto calor — diz a moça do tempo… querendo impressionar, como se já não bastante as altas temperaturas anunciadas por um dos diversos relógios espalhados pelas vias da desorientada Paulicéia.

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Alguém pichou recentemente o muro da casa do prefeito — sampa não está à venda — com a mesma tinta e caligrafia horrenda que pode ser vista em dúzias de paredes dos prédios da cidade, que me faz lembrar a velha Europa em seus piores dias. Mais uma soma nessa metrópole matemática.

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São Paulo sempre esteve a venda — retruco de dentro ônibus — enquanto aprecio os desenhos da Avenida Paulista… essa reta inventada em terras alheias para ser futuro-promessa. Quem aqui vive desconhece a história que cada construção esconde e grita bobagens para meia dúzia de tolos… repetir e se engasgar.

A maioria não sabe absolutamente nada do lugar onde pisam-moram. Aqui é terra de quem paga mais… leva. E foi assim desde o começo. Os portugueses ao desembarcarem no ‘planalto paulista’ cuspiram no solo pantanoso. Não havia o que aproveitar: ‘em se plantando nada dá’. Era um lugar com ‘clima ruim’, solo irregular — entrecortado por dezenas de rios. Foram embora… explorar outros lugarejos. E a ‘cidade’ descoberta em 1554 não conseguiu ser nem mesmo um traço no mapa do país. Esquecida, virou abrigo para os jesuítas e pouco depois… vila de passagem para os Bandeirantes — heróis para uns, vilões para outros. Com o facão em mãos, mataram índios e rasgaram matas… fizeram os primeiros traços do mapa do ‘futuro’ Estado mais rico do Brasil.

Quem estuda a história dessa cidade, talvez se surpreenda ao saber que São Paulo se inventou para o Brasil em pouco mais de cem anos. Ironicamente… soube seguir o fluxo do rio. Aproveitou-se do dinheiro verde… quando foi o maior produtor de Café do país  — se reinventou… investindo na indústria, comercio e entrou para o mundo dos negócios, atraindo investidores do mundo inteiro. São Paulo aprendeu a andar na contramão de si mesmo. Talvez por isso, seja tão estranho esbarrar em tantas pessoas conservadoras… a reclamar-esbravejar das mudanças que emergem desse solo.

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Da Vila de Piratininga, nascida nos arredores do Pátio do Colégio  — pouco resta. São Paulo se transformou num monstro urbano, que se reinventa de tempos em tempos  — mastigando e engolindo o próprio passado, cuspido em forma de futuro.

São Paulo não foi pensada para ser uma cidade… foi o sonho individual de alguns. Um belo punhado de milho atirado aos pombos — que dividem espaço com os pardais. Cada bairro da cidade é um pequeno país. É delicioso ouvir tantos idiomas, provar de tantas cores e saber que aqui ser estrangeiro é um prazer que divido com muitos, curiosamente somos mais paulistanos. Conhecemos a cidade, como se repetíssemos nossos antepassados.

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Quando cheguei… São Paulo era cinza-quase-incolor, o verde estava em extinção. As ruas eram sujas. Os prédios envenenados e as pessoas viviam engessadas numa pressa insana de ir e vir, sem saber o lugar. À primeira vista foi ódio-desconforto — quis ir embora e fui… voltei quase dez anos depois para me apaixonar por esses traços irregulares, essa realidade perturbadora, que não cansa de gritar com os nossos olhos. E me saber a casa, porque cada escritor tem um lugar para chamar de seu… aqui é minha ilha, ‘minha pequena porção’ de mundo-realidade.

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02 | No interior do silêncio mais silêncio

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Carissima A.a,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente, em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo. Uma espécie de halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece a simbiose… tudo que me tocou até chegar aqui: emerge.

Ouço Mercedes Sosa — ‘todo cambia’ — enquanto re-visito suas linhas — ainda frescas em minha memória: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“…

Fecho os olhos, me afasto de sua escrita e fico dentro da canção… sinto o efeito da música na pele: ‘cambia, todo cambia — cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto à realidade… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural… sem compromisso algum com a realidade e suas academias. Gosto e preciso desse escrever livre — sem amarras, solto no ar-espaço-tempo. Uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Narro minhas vivências-conflitos-dúvidas… ralho com meus desaforos! Afronto vontades-desejos. Dou risada de meus questionamentos e das perguntas que não preciso fazer por não estar interessada em obter respostas. Gosto do impossível… do não saber.

Gosto imenso de escrever-me, sabendo que se trata de um diálogo com alguém, feito uma garrafa atirada no mar, com um bilhete dentro. Alguém há de encontrar e percorrer o caminho de volta.  Se a onde chegar até você, hei de saber!

Au revoir

 

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| MISSIVAS DE PRIMAVERA |

A cidade da minha escrita…

“A forma de uma cidade muda mais rápido – ai de mim!
Que o coração de um mortal”.

Baudelaire

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São Paulo não é uma cidade… é um labirinto de ruas-esquinas-avenidas-alamedas, com  construções contraditórias a brotar no espaço-vago e a se amontoar uma por cima das outras. Uma aldeia de ninguém… a se esparramar pelos quatro pontos cardeais-colaterais …com efeitos diversos e adversos.

Atemporal… impregna-se de novidades e dispensa o que se sabe. Acumula descaso-afrontas.

São Paulo não é uma cidade… é um cenário para mil e tantos personagens, que se equilibram em falas-gestos-movimentos e se desorientam por traços e retas de um mapa de ilusões perdidas entre ontem e hoje. Um verso perfeito para Mário de Andrade, contemporâneo de Baudelaire…

12. E lá se foi a minha hipótese de paz…

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

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Caríssimo…

Quase cinco horas de uma dessas tardes febris… vim me sentar aqui nesse canto de mundo, para escrever-te. É algo que tento fazer há dias, mas as horas de janeiro foram um desespero de ruas-lugares-paisagens-e-pessoas! Não era para ser assim porque janeiro costuma ser um mês calmo-pacato-ameno… para dentro! Mas esse ano foi o contrário disso.

A cidade não se esvaziou como nos anos anteriores… esbarrei em muitos estrangeiros, a transitar seus idiomas pelas ruas. Falei francês com um estranho. Percebi que perdi um ou outro idioma: do alemão restou uma ou outra palavra e descobri que, na tentativa de nos comunicar com alguém, recorremos inutilmente a mímica, como se fossemos atores de um teatro de marionetes. É uma cena curiosa…

Os lugares estavam todos cheios. O sol tocou fortemente o asfalto, que ardeu como nunca antes. Foi cansativo existir dentro dos primeiros dias do ano de dois mil e quinze. E eu quase me arrependi da pausa a qual me obriguei.

Mas eu concordei com você: era preciso parar… ponderar, sobretudo, desacelerar. Foram apenas os primeiros seis meses de tantas coisas que pensamos-possíveis. Era necessário refletir nossos passos-atitudes. Precisávamos nos permitir outro ponto de vista desse ‘scenarium’, que estamos a inventar.

Mas, eu senti falta da cidade com seus traços comuns… sendo apenas uma pincelada do que costuma ser. Senti falta de caminhar por alamedas desérticas e ocupar cafés vazios. Deitar ao sol, na grama do velho Ibirapuera e entrar e sair dos nossos museus favoritos. Mas, com tanto sol e calor e verão… ficamos onde a temperatura era controlada.

Gosto imenso de São Paulo e seus movimentos desarticulados. Amo sua bagunça-confusão e todo o seu exagero! Adoro transitar suas alamedas, desviando de sua gente apressada. Tragar de seu ar equivocado e beber um pesado gole de café a qualquer momento do dia. Ter para aonde ir-fugir-escapar quando a vontade grita pelos cantos do corpo-matéria. Atravessar ruas, tropeçar em figuras inusitadas, que o imaginário guarda para dias de escrita. Ouvir reclamações acerca do trânsito que impulsionam velhas desculpas.

Mas, eu gosto imenso quando tudo deixa de ser o que se é. E nesse ano… janeiro se esqueceu de acontecer. Foi atípico, estranho, desagradavelmente pesado. Choveu pouco-quase-nada… e quando veio a chuva foi perversa-e-cruel. Ficamos ilhados em nossa prepotência humana. A menina foi levada pela enxurrada no meio da tarde, bem diante dos meus olhos e eu acompanhei a tudo como se fosse uma cena-de-filme-antigo, a famosa sessão da tarde, que eu nunca assisti.

E agora que janeiro se foi… respiro fundo e me lembro que depois de amanhã será carnaval e quando acabarem essas falsas alegrias populares o ano finalmente começará. Mas não podemos esperar até lá… precisamos nos preparar, pensar esse ano, essas coisas de livros-páginas. O que ler-publicar. Ainda é tudo tão recente e sei que o tempo que rege nossos movimentos é outro, mas ou nos organizamos ou será como essa cidade e sua gente, um acontecer desorganizado, sem cuidado, sem direção.

 

Au revoir