20 | era uma vez…

lua de papel lunna guedesGosto das manhãs de segunda… com sol ameno, ruas para andar. O movimento dos meus pés pelas calçadas e o olhar a perceber as pessoas em suas idas e vindas. O som da chaleira…. a xícara de chá, os cômodos da casa e um livro de poesia.
Aprendi com a nonna que a Segunda é dia da lua… e como criatura lunar que sou, a começar pelo nome e as fases, me sinto a casa.

Foi numa manhã de segunda-feira — no mês de maio — que decidi… ao olhar a cidade que chegava a janela de um velho Casarão no Alto da Lapa, que decidi: escrever um romance. Até então eu tinha produzido apenas rascunhos-ensaios… um sem-fim de tentativas abandonadas em gavetas-caixas-baús. Nada que eu me atravesse a pensar em formato-impresso, entregue aos olhos outros.

Consciente de minha decisão-definitiva… fiz uma faxina em minhas coisas, que consumiu um dia inteiro. Rasguei quase tudo que encontrei de papel-rascunho… quase nove anos — uma vida inteira — de escritos. Me fiz em pedaços…

Eu tinha consciência de que não tinha experiência literária… era apenas uma leitora apaixonada por livros e suas tramas impossíveis. Uma leitora sem critério, que lia pelo prazer de ler e não pelo compromisso com a escrita.

Escrever reticências... na primeira pessoa, com frases confessionais… serviu para me fazer perceber que eu era apenas uma ‘escritora de diário’. Alguém que escrevia por escrever somente.

Um romance, no entanto, seria o maior dos desafios… escolhei os meus favoritos. De Jane Austen à Katherine Pancol. Virginia Woolf à Angela Becerra… e tantos outros e tratei de buscar através deles um ritmo de escrita que me agradasse. Sabia, no entanto, que precisaria preservar certas características minhas.

De todos os meus escritos… o único preservado foi ‘pequenas epifanias‘… um ensaio-miúdo, escrito — como de costume — a partir de uma pessoa-figura-inquieta… que apareceu a casa, num dia de visitas. Um capítulo por dia — exercício necessário — para dar ritmo ao meu pensamento e disciplina ao meu traço.

O título definitivo — lua de papel — veio quando a trama tinha mais linhas que história. Estava na fase dos cortes-recortes. Andava pela casa-rua-cafés — com um calhamaço de folhas impressas — a ralhar com o texto escrito… lido em voz alta para ver se o ouvido aceitava o ritmo proposto ao papel.

Não é o meu melhor escrito — reconheço, mas lhe sou eternamente grata por ter me tirado da condição de autora de rascunhos de gavetas e me ensinado caminhos desconhecidos na arte da escrita, como ritmo-disciplina-estilo e outras artimanhas que a apenas o escrever nos permite.


beda interative-se

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22 | fingida em lua cheia…

projeto paralelo, in lançamento lua de papel

Alexandra Mendes é uma menina que cresceu dentro dos muros de uma cidade… inventada no papel, que não consta em nenhum mapa. É um vilarejo, com regras de viver-existir, o que dificulta a vida da personagem, que se acostumou a não-ter. Mas acalenta o sonho de fugir… para viver dentro das fotografias, que recorta das revistas, que Maria, a costureira da cidade, usa… para entreter as clientes.

Menina de sonhos e desejos podados… ela embala seu futuro com cuidado, enquanto espia o horizonte que chega a sua janela e trama sua fuga-definitiva, em segredo. Sem saber que ao percorrer a estrada que serpenteia por entre os vales de eucaliptos… viverá o maior dos desafios: despir-se.

 


 

[ …“ela tem olhos de alvorada! Cabelos mal cortados e armados. Suas vestimentas são sempre negras, como se vivesse em estado permanente de luto. Sua voz é melodiosa… pouca-certeira-definitiva. Seus movimentos parecem uma extensão de seus pensamentos. É livre, sem rédeas ou regras. Sua única preocupação parece ser o som de seus próprios passos.
Tenho para mim que não habitamos o mesmo mundo.
No começo, ela era uma presença exclusiva das aulas de literatura inglesa. Mas faz alguns dias que a vejo por todos os lugares. Passa por mim e por todos os outros, como se fôssemos ausências futuras. Ela parece gostar de sombras de árvores… onde se deixa ficar com seus muitos livros. Tem predileção por mesas solitárias e cantos vazios. Seu passo não veste pressa e suas mãos vivem dentro dos bolsos da velha calça jeans, cheia de rasgos. Gosta, estranhamente, de ler em movimento e, em voz alta“. trecho de: “lua de papel”…

20 | Status atual: natimorto!

Peguei meu calhamaço de folhas impressas… e fui as ruas. Três esquinas depois… estava no café ‘entre esquinas’ com suas mesas em pares e livres para uso. Ocupei a primeira que me atraiu… por sua posição estratégica: perto da porta.

Pedi meu latte à menina e sorri quando ela perguntou pelo meu nome. Disse, em meio a um sorriso travesso: ‘ca-ta-ri-na’.

Foi como denunciar-me.
Meu momento ‘crime e castigo’…

Ela me olhou como se soubesse se tratar de um engodo. Acho que não sou a única a oferecer outro nome, que não o meu…

Espalhei as folhas por cima da mesa… e li tudo de um fôlego só.
Não gostei do que li-senti. Tive vontade de me rebelar e amassar todas as folhas com as mãos-braços-pescoço, o corpo todo.

Eu não tenho uma história e talvez nunca venha a ter.
Meu primeiro fracasso!
Vinte e poucas páginas escritas e reescritas, em pouco mais de três meses.

Ouvi o ‘meu nome’ ressoar, pelo espaço… o que me arrancou, por alguns segundos, da realidade do papel… e, me levou em outra direção.

Voltei à Coimbra e às tardes de sol… e os poemas de Jorge a ressoar no ar. Deitadas no gramado, em meio a sombra da Castanheira, observava o azul indolente e os maços de algodão a fingir-se figuras em movimento.

Catarina era uma menina-mulher avessa as regras, a pulsar em ritmo próprio. Ela gostava imenso de se equilibrar no impossível. Alguém enviado — um demônio certamente —, para arrancar-me da pele.

Um gole da bebida… me arrancou de lá, devolvendo-me ao lugar entre esquinas. O latte precisou ser refeito, duas vezes. No caso de minha história… considero que o melhor a fazer: é abandonar o que foi feito até aqui, e começar do zero. Não há o que refazer, apenas o que descartar!

19 | status: a escrever na própria pele…

Sai com o cão para fazer a minha caminhada habitual pelas ruas do bairro, que é esse lugar estranho… casas sem alma, praças sem bancos com estranhos contornos, calçadas sem passos… e pessoas sem pele.

É um cenário que me lembra certas cidades fantasmas, pelas quais passei rapidamente durante viagens de reconhecimento. Não consigo me encontrar nesse bairro, nem mesmo nos dias de chuva, em que a paisagem se iguala, em ausências.

Faz algum tempo que ando por aí… a praça Alzira Ferraz é o meu limite a Sul. Percorro seus contornos de um lado para o outro, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça — e o cão ao lado. Ele ronda o caule de todas árvores enquanto eu piso o chão de cimento irregular, tentando não tropeçar…

E foi ao ‘tatear’ esse cenário de ruas-nada-humanas… que comecei a escrever as primeiras linhas dessa trama-nova, Escrevi na própria pele — por dentro, sem me preocupar se a perderia antes de deixar na tela um combinado de frase bem pontuadas.

Tomei emprestado os desenhos de algumas casas… as menores e mais antigas, com muros baixos e janelas bem abertas, com vidraça e cortinas. Roubei um jardim da rua debaixo, onde o mato cresce sem cuidados e as flores despertam sonolentas. Duas ruas mais para baixo, encontrei a casa perfeita — entre esquinas — para a minha personagem nascer-crescer-existir.

Falta, contudo, a cidade… porque a minha Paulicéia não lhe serve, em tamanho-medidas. É muito para alguém tão miúdo. Não tenho dúvida de que virá para cá, em algum momento. Mas não nesse tempo, em que a apresento ao mundo.

 

18 | tempo de colheita…

Pouco depois das quatro… a campainha ressoou pelos cômodos da casa. Tínhamos visita. S., e sua amiga de viagem… figura sem voz, apenas um sorriso sem moldura na face dourada de sol, onde meu olhar tropeçou e ficou.

Tomamos uma xícara de chá fumegante, comemos uma fatia de bolo de baunilha… enquanto os diálogos distribuíram as novidades. S., trocou de curso novamente, deixou de escrever versos e se enveredou por outros projetos. Disse estar disposta a trocar de cidade: viver em São Paulo ou no Rio.

Enquanto falava, a companheira de viagem, a observava sem dizer palavra. Fingia ouvir e se esforçava para conter seus gestos. Havia algo aprisionado dentro de si há tempos, querendo sair. Ela tinha colocado novas trancas.

Ofereci mais chá… ela recusou, exibindo a educação aos moldes antigos. Outra fatia de bolo… também recusado, enquanto S., a tudo aceitava, sem travas ou freios.

Depois de algum tempo… as consoantes e vogais se encadearam em pequenas frases. Soube da família ma-ra-vi-lho-as que têm… marido-filhos-casa… uma vida. A ouvi conclamar em voz alta: ‘sou uma mulher realizada e feliz’. Não me convenceu… mas eu sorri, como sempre faço nessas horas..

Disse com a voz-rouca-pouca, que tinha gostado da casa, do bairro, das pessoas… e anunciou com qualquer coisa de satisfação: ‘gostaria de viver os meus dias em um lugar assim. Nem parece que estou em São Paulo‘.

…naveguei por cada um dos movimentos inquietantes de sua derme, em chamas. Percebi sua necessidade, baseada no vicio. Suas falas erráticas — todas as sílabas saltavam de sua boca, como se caíssem diretamente num abismo. Suas mãos tremiam descontroladas, presas de histeria… e as baforadas se multiplicavam, ao mesmo tempo que as angústias.

 

Me interessei mesmo, pelo que ela não disse. A., nasceu e cresceu em uma cidade pequena, com pessoas igualmente pequenas. Aprendeu a costurar-bordar-cozinhar. Foi domesticada para ser esposa de alguém. Casou-se com um menino, da vizinhança. Figura quieta-muda, de olhar rude e gestos poucos. Com ele se mudou um sem-fim de vezes, depois do casamento. O corpo-alma só conheceu pouso após o nascimento do primeiro filho do casal. Ela não sabe o que é amor. Nunca sentiu. Mas, desconfia o que seja desejo… é o que tenta conter no fundo de si. Há tempos, isso lhe rouba o sono e consome a paz. Ela se refugia no silêncio, como se habitar o lado de dentro da pele fosse algo seguro, já que ninguém chega a esse lugar secreto.