O meu segundo livro…

img_20180426_154132_049…pouco antes de me dedicar a escrita de lua de papel — meu primeiro livro — vivia dias de não saber. Aquela fase em que se imagina os caminhos, observa as paisagens, as pessoas… e escreve por escrever somente. Sem mapa ou norte.

Alinhavei dezenas de frases… amarrando-as uma às outras e sometimes conseguia qualquer coisa de ritmo que logo se esvaia.

Minha trilha sonora nesses dias era o som das folhas de papel sendo impiedosamente amassadas entre os dedos, de maneira grosseira-ríspida-rude.

O cansaço crescia… se apoderava da minha pele-alma e o questionamento fatal era um eco avassalador a urrar das profundezas desse eu que trago dentro: “tem certeza de que essa é a vida que escolheu e de que ela te aceitou?”

Nessas horas o cuore parava-desacelerava-engasgava e, desgostoso, chegava a abandonar o peito. Diante de tantos contrastes — o branco da folha sobre a mesa e as bolas de papel manchadas-amassadas no chão — me questionava: vai mesmo acontecer?

Eu escrevia dúzias de ensaios-diários… sobre tudo que percebia pelo caminho. Ainda não sabia o ritmo das mãos, dos olhos, do lado de dentro-fora. Sabia, contudo, ouvir o pulsar e essa vontade de ser história no papel.

Uma necessidade que me acompanha desde menina… contar histórias. Algo que aprendi com o mio nono — durante os almoços de domingo na varanda na parte de trás do velho casarão de pedras e madeiras a estalar ao vento. Ele narrava com emoção-alegria-tristeza os causos que trazia dentro. Tinha uma sonoridade tão gostosa que ficava fácil avistar todos os cenários de suas vivências — reais ou imaginárias.

Eu apenas queria fazer o mesmo… e se apanhei pela falta de experiência com lua de papel — foi completamente diferente com o segundo livro — vermelho por dentro —, que já estava escrito e guardado no fundo da gaveta, a viver o tempo das esperas.

Eu sabia tão bem a personagem principal da história — uma artista plástica que conheci nas ruas de Paris antes da fama lhe abraçar — e dialogava com Eva… sempre que pousava o olhar nas poesias de Al Berto.

Foi fácil encontrar o ritmo-tom e escrever apoiada nas minhas vontades de contar a vida dessa mulher que fez suas escolhas sem se deixar pautar por arrependimentos. Ela confiou em si e na vida — like me — amou-sofreu-caiu-levantou… foi sua própria bússola em dias tristes, o sol para o dia seguinte. E ao concluir seu segundo ciclo, resolveu aparar as arestas para não deixar pontas soltas, e poder dizer sim ao cuore uma vez mais.

Sou sempre eu e minhas personagens femininas… porque gosto imenso da maneira como se apresentam através do meu reflexo. É para elas que olho quando deixo o rascunho em fase de repouso em cima da mesa-cama-sofá e vou molhar o rosto com água fria — para baixar a temperatura da pele porque dentro é esse vermelho intenso-rubro, que ferve.

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18 | tempo de colheita…

Pouco depois das quatro… a campainha ressoou pelos cômodos da casa. Tínhamos visita. S., e sua amiga de viagem… figura sem voz, apenas um sorriso sem moldura na face dourada de sol, onde meu olhar tropeçou e ficou.

Tomamos uma xícara de chá fumegante, comemos uma fatia de bolo de baunilha… enquanto os diálogos distribuíram as novidades. S., trocou de curso novamente, deixou de escrever versos e se enveredou por outros projetos. Disse estar disposta a trocar de cidade: viver em São Paulo ou no Rio.

Enquanto falava, a companheira de viagem, a observava sem dizer palavra. Fingia ouvir e se esforçava para conter seus gestos. Havia algo aprisionado dentro de si há tempos, querendo sair. Ela tinha colocado novas trancas.

Ofereci mais chá… ela recusou, exibindo a educação aos moldes antigos. Outra fatia de bolo… também recusado, enquanto S., a tudo aceitava, sem travas ou freios.

Depois de algum tempo… as consoantes e vogais se encadearam em pequenas frases. Soube da família ma-ra-vi-lho-as que têm… marido-filhos-casa… uma vida. A ouvi conclamar em voz alta: ‘sou uma mulher realizada e feliz’. Não me convenceu… mas eu sorri, como sempre faço nessas horas..

Disse com a voz-rouca-pouca, que tinha gostado da casa, do bairro, das pessoas… e anunciou com qualquer coisa de satisfação: ‘gostaria de viver os meus dias em um lugar assim. Nem parece que estou em São Paulo‘.

…naveguei por cada um dos movimentos inquietantes de sua derme, em chamas. Percebi sua necessidade, baseada no vicio. Suas falas erráticas — todas as sílabas saltavam de sua boca, como se caíssem diretamente num abismo. Suas mãos tremiam descontroladas, presas de histeria… e as baforadas se multiplicavam, ao mesmo tempo que as angústias.

 

Me interessei mesmo, pelo que ela não disse. A., nasceu e cresceu em uma cidade pequena, com pessoas igualmente pequenas. Aprendeu a costurar-bordar-cozinhar. Foi domesticada para ser esposa de alguém. Casou-se com um menino, da vizinhança. Figura quieta-muda, de olhar rude e gestos poucos. Com ele se mudou um sem-fim de vezes, depois do casamento. O corpo-alma só conheceu pouso após o nascimento do primeiro filho do casal. Ela não sabe o que é amor. Nunca sentiu. Mas, desconfia o que seja desejo… é o que tenta conter no fundo de si. Há tempos, isso lhe rouba o sono e consome a paz. Ela se refugia no silêncio, como se habitar o lado de dentro da pele fosse algo seguro, já que ninguém chega a esse lugar secreto.

17 | um enredo para o meu romance…

Sai para caminhar calçadas… e, enquanto Patrick fazia suas inspeções pelo lugar… me distrai com duas figuras aninhadas uma na oura. Recém-saídas da escola, ainda de uniforme, com mochilas nas costas… caminhavam despreocupadas. Dois corpos onde os movimentos combinavam-se de maneira natural. O mundo inteiro se dissolvia à passagem delas.

Vinham em minha direção sem, contudo, deixar seus mundos, sem se ocupar do que acontecia ao redor… passos-pernas-braços-mãos-pensamentos-sensações tudo devidamente encaixados. Dividiam um mesmo fone e seus movimentos pareciam embalados por uma canção que tinha significado particular para elas.

Passaram por mim, sem reparar que eu as observava. Abraçaram-se demoradamente pouco depois. Duas meninas-amigas a sorrir… e a se separar. A que ficou, aguardou que a outra atravessasse a rua, saboreando o afastamento. Deixou no ar — em suspenso — um aceno de mãos, retribuído. Murmuraram qualquer coisa inaudível. O que era um mesmo mundo — tornou-se dois.

Ao perfazer o caminho, esbarrou em mim… sorriu e disse um ‘oi’ gentil e sorridente. Parecia flutuar pelo caminho. Abaixou-se para brincar com Patrick… soube fazer afagos, sem incomodá-lo — e mereceu uma generosa lambida na cara.

 

Abre aspas. Me lembrei de algumas figuras pertencentes à minha realidade, outro tempo-vida-momento… soube naquele exato instante qual será o enredo de meu primeiro romance. Fecha aspas.

03 | dos aprendizados!

“Deixa-me só, vegetal e só,
Correndo como rio de folhas
Para a noite onde a mais bela aventura
Se escreve exactamente sem nenhuma letra”.

Eugênio de Andrade

 


 

Aprendi nos últimos tempos… a identificar o exato instante em que alguém atravessa o meu olhar e se oferece como personagem para histórias não-escritas — que já existem em algum lugar de minha amalgama, em estado de espera…

Eu nem sempre soube o que fazer com o que chega-fica em mim. Resultado? Foram muitas as perdas ao longo dessas três décadas de vida. Não vou lamentar. Prefiro acreditar que contribuiu para o atual momento — e esse texto.

Aprendi que não adianta antecipar-se às emoções.
É preciso esperar que tudo transborde.
…cada coisa tem o seu tempo de ser-existir-maturar-acontecer.
Nem antes-depois…

É uma receita antiga-conhecida… uma das primeiras lições que tive na infância. E mesmo assim, insisti em atropelos. Tentei antecipar-me às conclusões-futuras… compreender olhares, gestos sem deles me apropriar. Me apoderar da sabedoria que apenas o dia seguinte nos oferece… um dia antes.

Fracassei!

…ao tentar evitar os desconfortos que o exercício de escrita, nos impõe: avaliar de maneira instintiva o outro. É preciso atenção-cuidado-desprendimento. Recusar as próprias críticas-preceitos e aceitar o outro enquanto fôrma e forma. Não é nada fácil ser um ‘observador de pássaros’ porque temos em nós todas as coisas do mundo-vida.

Ao final dessa pequena jornada… compreendi que ao conjugar o verbo evitar me faria refém de outro verbo: privar — o pior dos verbos quando se trata da escrita, afinal, o escritor é uma grande caixa cênica e toda experiência resulta em uma ordem, porque a vida restabelece os acontecimentos do mundo em que vivemos.

É como prender a respiração por míseros segundos, fechar os olhos e esperar. Uma pausa sem importância-significado aparentemente… que nos permite rever movimentos de vida. O ar volta aos pulmões e percorre todos os caminhos do corpo: veias-músculos-nervos-células.

A construção de um personagem é exatamente isso.

Status | deixei de ser eu…

Ela atravessou minhas pausas… insurgiu entre os meus avessos, infiltrando-se em minha geografia… feito o vento!

…a observo num sem-sorriso, dentro da distância segura das ausências que valem. Lá fora é essa estação de momento — tudo e nada se misturam entre nós duas — eu a decoro-devoro-aprendo… sorvo sua matéria-substância-amálgama!

Aprendo seus gestos menores: o cigarro entre os dedos da mão direita num encaixe silencioso. Repito-o como se fosse coisa minha. Levo o cigarro imaginário à boca, para pesados tragos de fumaça que percorrem vilas, despejando no ar uma falsa serenidade esbranquiçada.

Vou vestindo seus movimentos um a um… percebendo suas pausas. Na mesa, repousa um copo branco de café, levado aos lábios para goles entrecortados, estranhamente suavizados. Seu olhar aprecia o que é avesso-memória-ausência… ela  a tudo enxerga e nada vê — quer assistir às coisas acontecerem em vermelho, mas a realidade insiste em outros tons, que ela reprova.

Os óculos, afastados dos olhos — evitam os desconfortos recém-chegados — unindo-se aos objetos outros, que ela esparrama sobre a mesa: maço de cigarros, isqueiro, agenda, celular, chaves — tudo numa desordem natural — típica de quem escolhe o que é próximo-seguro-conhecido… ao lado, uma bolsa feminina carrega miudezas, que completam sua geografia singular.

Ela não é uma cidadã do mundo, mas quer ser. É uma colecionadora de fracassos-desconfortos. Cada gesto seu… carrega várias mortes e diversas não-vidas.

Ela acontece do outro lado do vidro — longe-perto-fora-de-alcance-dentro-fora. Não me enxerga. Seus olhos não tocam superfícies alheias. Se mantém ausente. Seus gestos mínimos seguem contidos dentro de uma tarde a dizer um dourado infeliz…

A distância entre nós duas não se dissolve… permanece imutável, exatamente a mesma de minutos atrás. E me agrada imaginar que tal condição é definitiva.

Ela acende outro cigarro… deixa no ar outro rastro de vida, como se fosse o próprio oxigênio, feito carbono a demarcar o território, que ela toma para si, conforme se deixa tocar pelas figuras que a rodeiam. Seu corpo é um quadro e a cidade sua moldura.

Meço suas realidades… e uma fragilidade — que é vento frio na pele — tropeça em minha anatomia. Eu vou acumulando riscos… desenhos que a mente faz do lado de dentro — onde tudo acontece primeiro e é esse silêncio agudo.

E, de repente, constato… sou outra! Ela!
Invento um nome e começo a desenhar esse mapa de vivências — uma cadência perfeita.