Beda | Uma sexta-feira em ruínas…

Caríssima M.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir. 

 


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27. Nessa manhã de outubro, respiro!

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“Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna”

— Wislawa Szymborska —

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Caríssima A.a.,

…o dia amanheceu cinza-nublado por aqui, mas não há previsão de chuva… ao menos é o que diz a moça da previsão do tempo — tão confiável quanto os horóscopos diários.

Passei um punhado de dias em branco, minha cara. Completamente desalojada do corpo. A deriva, com o imaginário a naufragar e com o pensamento em total desordem e fui em busca de conforto para a alma, na poesia de Wislawa… um amor feliz (cia das letras) — e enquanto saboreava seus poderosos versos, comecei a tracejar esse nosso diálogo…

lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, 
mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores
sabemos quais dívidas não foram pagas
com quem as viúvas rapidamente se casaram

Me distrai da realidade a combinar os escritos (os seus e de Wislawa) e me lembrei das muitas linhas lidas nos últimos dias — escrita contemporânea, que me levou a suspirar meu desconforto antes de afirmar em voz alta: o atual momento da literatura vai mal.

E a turba se repete, like always! — as grandes livrarias do ramo já conhecem o movimento dessas ondas e se anteciparam. As melhores histórias ainda são as mais antigas: os nossos bons e velhos clássicos… a quem recorremos quando o momento atual não nos oferece conteúdo. Ainda somos Macunaíma. Orgulho e Preconceito. Dom Casmurro. Crime e Castigo. Vidas Secas. Orlando e tantos outros.

Ainda somos e não sei se algum dia… deixaremos de ser! Certos momentos se esgotam… mas, como antidoto para os possíveis efeitos, inventaram a frase clichê: “tudo que havia para ser feito, já foi feito“. Será que existe algum conforto nisso?

Não! Mas como ainda somos os mesmos… avessos as mudanças e ao novo, que fingimos celebrar e bendizer depois do amém — tudo bem! Até por isso, os velhos clássicos ganham de tempos em tempos uma nova capa… satisfaz os desejos e as vontades de velho e novo.

Nós já nos acostumamos a essa realidade falsamente mutável… usamos maquiagem para esconder as rugas, disfarçar os anos e enganar o espelho. Mas ainda somos os mesmos, do lado de dentro… com nosso velho discurso conhecido e gasto.

Ah, minha cara… eu ando com algum receio dessa ‘onda’ nada discreta que começa a varrer o país. Eu conheço esse roteiro e já vi esse filme. Acho que estamos a transitar por uma espécie de areia movediça — que está pela cintura. Afundamos cada vez mais rápido e eu lhe pergunto: por que ninguém repara?

Começou a chover, minha cara… a moça da previsão se equivocou de novo, como muitos de nós em nossas ações nada românticas. Eu sirvo o chá… você serve a poesia?

au revoir

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| MISSIVAS DE PRIMAVERA |

18. Ocupar de silêncio a casa…

Uma tempestade desmente… qualquer raciocínio!
Uma mulher não… Tememos vento?
Só ficamos desprotegidos…
— debaixo de uma mulher
…………qualquer (?)

Aden Leonardo

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Caríssima A.

Anoiteceu aqui dentro, cara mia… mas não olhe os ponteiros do relógio. Eles insistem em dizer outras horas. O relógio teima em discordar dos ponteiros que trago dentro do peito.

É véspera de feriado… e o sol tenta de todas as maneiras, ultrapassar as nuvens esbranquiçadas — grandes maços de algodão — que se agarram aos prédios — como se tivessem garras — para não serem levadas pelo vento que passeia por aqui com seus uivos instigantes. Gosto imenso desse canto. Fecho os olhos e me sinto Gaivota a flanar pelo ar… em queda.

As ruas estão vazias… e as calçadas recebem poucos passos. Algumas pessoas foram comprar pães na Padaria, atraídas pelo cheiro do conhecido ‘pãozinho francês’ e sua casquinha crocante. Alguns cães arrastam seus humanos — figuras mambembes —,  pelas calçadas do bairro. Gosto imenso de apreciar esses desequilíbrios…

Ainda é dia lá fora! Mas aqui dentro de mim… desde que mergulhei nas linhas de teu livro — dentro de um bukowski — na condição de leitora —,  é essa noite inteira-intensa-imensa… lua cheia a reluzir nessa janela que são meus olhos.

Eu te elegi minha Lua… e uivo alto em cada linha que meu olhar colhe do papel. Será que você me ouve?

Eu te sinto aqui… dentro do breu, que pintou em minha anatomia. E eu te abraço de novo… como se ainda fosse aquela quase manhã em que te encontrei em meio a uma multidão de estranhos — condição que nunca foi — e nunca será — sua…

 

Tua,

1. Nada é tão líquido assim…

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Meu Caro P.,

 

…remexia coisas antigas nesse fim de tarde, com a alma afundada em melancolia, quando encontrei uma velha caixa, que fez abrir o casulo da memória, em meu corpo.

Relembrei uma viagem, feita na companhia de C… percorremos as ruas estreitas, de uma pequena cidade alemã, com suas casinhas iguais e algumas lojinhas. Numa delas, encontrei essa caixa de madeira-artesanal… que anos mais tarde, usei para guardar a nossa correspondência.

Quando foi que nos perdemos? Foi o que me perguntei ao espalhar os envelopes, por cima da mesa da cozinha. Nos escrevíamos, com frequência voraz e as datas do carimbo postal estão ali a marcar a passagem do tempo através das nossas narrativas incansáveis.

Na primeira missiva… um poema de Eliot, seguidas por um punhado de frases eufóricas, de um menino-homem que achou melhor se apresentar: “creio que seja melhor dizer-me, já que somos apenas verão, sol quente e dias imensamente azuis. Não parece justo que não saiba que sou outono na maior parte do tempo e que vivo a tentar compreender que as manhãs se fizeram prisões e os dias sementes que nunca nasceram. Não sou triste, embora seja essa a impressão deixo nos olhos de quem ousa me olhar, mas a verdade é que não-sou, mas sonho Ser” (…)

Li tantas e tantas vezes aquelas linhas… recordei seus olhos. Nunca me pareceram tristes. Acanhados. Você nos mantinha baixos, rentes ao chão, como se quisesse evitar que enxergássemos dentro.

Mas ao transcrever-se para o papel, atracou em meus olhos e iniciamos a nossa troca, que durou até que o silêncio se impôs entre nós dois. Você não me escreveu mais… nem eu à você.

Mas, eu guardei todas as nossas missivas… e, agora que não está mais por aqui… volto a elas, como se fosse um de nossos verões e realizo todo o ritual de fazer malas, embarcar, apreciar a paisagem, conhecer figuras inéditas, mentir a elas sobre nome-realidade e te encontrar de braços abertos na estação.

Ao folhear a nós dois, no fim dessa tarde-cansada-de-novembro-outono… você se cansou de sua eternidade e veio bebericar essa xícara de chá de hibiscos e juntos, com as mãos encaixadas por cima da mesa, voltamos aos nossos versos de Eliot — ‘A meia-noite chacoalha a memória / Como um louco chacoalha um gerânio morto’…

Au revoir,

27 | O que a memória nos recorda (?)

Relógio da Estação de trem, Jundiaí - SP
Relógio da Estação de trem, Jundiaí – SP

 

Caríssimo,

 

…recordei enquanto degustávamos nossa generosa xícara de café… um dos meus primeiros correspondentes foi “M”.,  — um senhor adorável, que vivia em Santa Maria da Feira, Portugal. As missivas escritas por ele… chegavam dentro de um envelope artesanal na primeira e última semana do mês, respectivamente…

Suas linhas exibiam uma caligrafia sutilmente desenhada… devido ao uso de uma velha Sheaffer.  Depois de algum tempo de correspondência… passei a reconhecer seu envelope dentre os demais e passou a ser o primeiro a ser aberto. Me apaixonei pelo diálogo atemporal e pelo fato de ser um relojoeiro aposentado. Me lembro de lhe perguntar: o que faz agora que o tempo parou para sempre? E ele respondeu que estava a ensinar o ofício ao neto, apaixonado por mecanismos e engrenagens, desde a infância. O tempo estava novamente em movimento.

Enquanto lia… imaginava os passos dele pelos cômodos da casa e via tudo com seus olhos. O quintal de frutas onde corriam os netos. A mesa da cozinha repleta de ingredientes do almoço, preparado por sua senhora.

Ele falava de seus dias, suas paixões… as travessuras com os netos. Alegrias, frustrações  e saudades que sentia do filho, que tinha deixado Portugal em busca de melhores oportunidades. Havia qualquer coisa de insatisfação quanto aos ritmos de sua existência, contudo, ele dizia ser um homem feliz na maioria do tempo…

Certa vez, quis saber a minha idade… já nos correspondíamos havia três anos. Mas, quando soube que eu tinha míseros treze anos… nunca mais me escreveu. Esperei por notícias, mas não tive resposta. Eu insisti, duas-três-quatro vezes. Mas, os envelopes artesanais se foram para todo o sempre.

Anos depois, quando já vivia em Coimbra, decidi conhecer Santa Maria da Freira — cidade ao Norte de Portugal, perto do Porto. Levei comigo o endereço dele e fui até lá… fiquei do outro lado da rua a apreciar a arquitetura de pedra, da casa 22… estava para ir embora, quando o vi passar pelo portão ao lado de sua senhora…

Acenei com a mão bem aberta no ar… e ele, que gentilmente retribuiu, sem saber-me.  Acompanhei seus passos em pares, lado a lado com sua signora… ao longo da rua e comecei a escrever no ar uma missiva. Pouco depois, busquei pelo caderno dentro da mochila e deixei um bilhete para ele: ‘uma pena que o nosso tempo parou‘. tic tac.

Ele não foi o primeiro, nem a última a me julgar-condenar pela pouca idade. Mas, aprendi com ele que as pessoas dão atenção demais a essa coisa de “tempo”…

 

Au revoir