Missiva de primavera | Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

Cartas-a-maio-Simone-Teodoro.jpg

Caríssima,

A tarde me trouxe novamente às tuas linhas… e enquanto bebericava alguns goles do meu ‘latte‘… ouvia alguém dizer que já é primavera nesse setembro quente-e-seco. Resvalei o olhar na capa do meu novo livro ‘em teu ventre’... e comecei a pensar nos muitos caminhos que os livros percorrem antes de saltarem do abismo que somos para o mundo, em voos (?) de vida e morte… para se aconchegarem no formato de páginas-capas e se jogarem no olhar dos leitores.

Percorri — em segundos — a estrada de vida que trilhei até aqui. Gosto imenso de pensar que é feita de terra. Chão batido com pesadas marcas deixadas por todos que por ali passaram — uma manada sem norte. Cercada por frondosas árvores, dá para ouvir o som das águas de um rio qualquer em paralelo aos meus passos. Minhas mãos — sempre em busca do que tocar — resvalam no cercado de arame farpado — a margear o meu destino… reconhecendo os famosos ‘nos’ de espinhos, que não me ferem… apenas alertam que nada é fácil nessa tal realidade.

Por entre as folhas, chega um pouco de sol-nuvem-chuva — a ilusão que somos. Sinto no rosto o vento frio, fecho os olhos, respiro fundo e alimento o meu imaginário — sempre tão faminto.

Tantos personagens se precipitaram em mim nessa caminhada. Certa vez, estava sentada em um Café em Paris… a esperar pelo meu fiel escudeiro de aventuras, quando se sentou ao meu lado uma Mulher-febril. Me encantei com os seus gestos-contornos e a bebi — sem modos — em pesados goles… receosa de que ela se fosse antes que eu a consumisse por inteiro.

Ainda hoje sinto o seu gosto em meus flancos. Gosto imenso de pousar meu olhar sobre seu desenho humano — o que tomei para mim. Folhear a história que nasceu ali, naquele instante de espera. Está inacabada, mas vez ou outra, na solidão de minha escuridão, busco pelas páginas no fundo de uma gaveta e retoco pequenos detalhes. É aquele último e precioso gole que fica no fundo da xícara.

Que bom que sentou a mesa comigo para esses sabores-saberes-futuros de páginas por mim alinhavadas.

 

Catarina.

Anúncios

20 – Uma sexta em ruínas…

WhatsApp Image 2017-08-18 at 23.59.34

Caríssima T.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir. 

 


 

selo para o BEDA

13 – A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer

Caríssima AA,

Quando suas linhas chegaram, no meio da tarde de ontem,  devidamente acomodadas, no envelope azul… estava a ler Rubem Alves e sua escrita amena e certeira. Ele escrevia como se estivesse sentado à mesa da cozinha, a esperar pela xícara de café fresco, preparado a moda antiga, em bule de ferro. Ele foi um desses meninos do campo… com árvores de frutas, chão de terra, estendal ao vento, fogão de lenha, e o silêncio de um lugar a céu aberto. Cidade pequena, a rotina e o tempo rural,  a conexão com os ciclos, a vida atrelada a morte.

Ele dizia,  em seu texto ‘a hora da poesia‘… ‘há de se saber o tempo do poema. A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer. Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio‘.

Em dias de contemporâneo existir, onde os excessos e as faltas se embalam num mesmo papel de pão… recordei o meu encontro com a poesia. Há pessoas que nascem na poesia — diz Rubem — como Fernando Pessoa, Baudelaire, Borges, Eliot, Mario…  mas eu tive que encontrá-la nas páginas de um pequeno livro — um presente — de capa verde, com versos de Amália Rosselli, Plath, Sexton e outras tantas… ainda na infância. E desse encontro nasceu aquela sensação de ‘estomago vazio’…

A poesia,  quase sempre, me cala-rasga-engasga-incendeia-acalma. É aquele pequeno intervalo entre soluços. Eu leio cada um dos versos em voz alta, pelos cômodos da casa,  calçadas da cidade… uma, duas, três vezes — exatamente como faço com sua missiva e a resposta que alinhavo nesse meu canto de mundo-vida-memoria-espaço. São minhas músicas e ao ouvi-las, o cuore imita o som mais antigo que trago em mim… fecho os olhos e volto no tempo, percorro as distâncias conhecidas. O tempo é outro, muito mais rápido… insano! Revejo a rua, com suas casas antigas, suas pessoas há muito perdidas. Aceno, ultrapasso o velho portão de ferro e seu conhecido barulho e me deparo com a velha figura do ‘móvel articulado’ no meio da parede… esse mio cuore. Sinto o cheiro do lugar, percorro os espaços com algum cuidado e alcanço a todos na cozinha, ainda vivos. ainda meus…

Sim,  minha cara,  nesse estranho  tempo em que tudo é barulho,  ruído, gritos e a poesia parece muda, eis que espero por ti para esse diálogo silencioso… e você vem, em azul!

Janeiro quase se foi — percebeu? Falta pouco… e nesse ano — o primeiro capítulo — as quietudes da Paulicéia foram poucas —  vivi dias de carnaval antecipado. Uma loucura. Que venha fevereiro — o segundo capítulo — e seus enredos de fim de verão… por aí dizem que o tempo está a ir mais devagar. Mas se a marcha desse Senhor está mais lenta, somos nós, que não conseguimos dar conta dos nossos passos?

Au revoir

3 – Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

“Quando a ausência de mim fizer presença em meu ser…
visitarei a mim mesmo para não me afastar de você”

Rubem Alves

 missivas-de-dezembro

Caríssima A.,

…esperei por você na semana que passou, mas você não veio! O que me levou de encontro aos rituais, que coleciono dentro e aos quais voltei… um a um. O prédio tem uma dessas caixas de correspondências coletivas. E eu a visitei, consciente de que não encontraria ali… naquele cenário frio… um envelope seu. Toquei a superfície metálica daquela estranha caixa de correspondência, que são pequenas janelas desse lugar… onde atualmente vivo.

Não é um espaço para correspondências… apenas contas e pequenos panfletos publicitários tem lugar ali. E talvez por isso tenha sido possuída por uma vontade-remota: escrever uma missiva para cada uma daquelas “janelas”.

A criança que habita o interior de minha pele sorriu… e eu voltei a dar aos pés o colorido dos passos… pelos caminhos de sempre. Obviamente inúmeros desenhos foram feitos nessa folha de papel imaginária, que sou… e voltei a pensar em você, nas linhas que não foram escritas…

Não sei porque você não veio! Talvez por ser dezembro… esse mês insano, que nos priva de nós mesmos e obriga a tolerar excessos.

Eu tenho alguns dezembros talhados na memória… a maioria deles pertencem a minha juventude. Eram todos brancos e povoados por uma ansiedade ímpar… malas-bilhetes-de-viagem… a plataforma da estação, o sonoro apito da locomotiva ao se aproximar da estação e a voz grave do Guarda a dizer: ‘todos a bordo’. O som dos trilhos… as vozes dos diálogos e as paisagens em movimento junto as janelas. As muitas chegadas e partidas… eu gostava imenso desse ritual de dezembro que agora revejo e revivo, nesse nosso diálogo de linhas.

O mio nono não ligava para datas, caríssima… difícilmente sabia o mês do ano, o dia da semana. Ele nem mesmo era cristão. Por isso não me causou espanto sua confissão, feita a mesa, pouco depois de um brinde — ele não sabia a história do “tal menino Jesus”.

Eu precisei engolir o riso… diante da indignação dos demais habitantes da mesa – em plena véspera de Natal…

O nono se importava mesmo… era com a casa e a mesa cheia. Ele espiava — satisfeito — os olhares… provava um a um dos sorrisos  e ouvia — atentamente — os diálogos, em pares. Em sua generosa porção de mundo-vida — do outro lado da mesa — eu assistia e compreendia a sua felicidade — era como se sua vida inteira fizesse sentido.

Certa vez — durante uma caminhada — ele me confessou, que esperava por dezembro — desde a infância — com a mesma intensidade. E, enquanto caminhava ao seu lado… não consegui saber se o que o encantava de fato… era o momento ou o instante que o antecedia…

Saber esperar é uma arte, que nos permite inúmeros aromas! — não fosse a espera, talvez essas linhas ficassem aqui dentro para todo o sempre…

Au revoir