Beda | O que a memória nos recorda (?)

Relógio da Estação de trem, Jundiaí - SP
Relógio da Estação de trem, Jundiaí – SP

 

…um dos meus primeiros correspondentes foi “M”.,  — um senhor adorável, que vivia em Santa Maria da Feira, Portugal. As missivas escritas por ele… chegavam dentro de um envelope artesanal na primeira — na primeira e última semana do mês, respectivamente…

Suas linhas exibiam uma caligrafia sutilmente desenhada… devido ao uso de uma velha Sheaffer.  Depois de algum tempo de correspondência… passei a reconhecer seu envelope dentre os demais.

Passou a ser o primeiro a ser aberto… me apaixonei pelo diálogo atemporal e pelo fato de ser um relojoeiro aposentado. Me lembro de lhe perguntar: o que faz agora que o tempo parou para sempre? E ele respondeu que estava a ensinar o ofício ao neto, apaixonado por mecanismos e engrenagens desde a infância. O tempo estava novamente em movimento.

Enquanto lia… imaginava-o em movimento pelos cômodos da casa e via tudo com seus olhos. O quintal de frutas onde corriam os netos. A mesa da cozinha repleta de ingredientes do almoço, preparado por sua senhora.

Ele falava de seus dias, suas paixões… as travessuras com os netos. Alegrias, frustrações  e saudades que sentia do filho, que tinha deixado Portugal em busca de melhores oportunidades. Havia qualquer coisa de insatisfação quanto aos ritmos de sua existência, contudo, ele dizia ser um homem feliz na maioria do tempo…

Certa vez, quis saber a minha idade… já nos correspondíamos havia três anos. Mas, quando soube que eu tinha míseros treze anos… nunca mais me escreveu. Esperei por notícias, mas não tive resposta. Eu insisti, duas-três-quatro vezes. Mas, os envelopes artesanais se foram para todo o sempre.

Anos depois, quando já vivia em Coimbra, decidi conhecer Santa Maria da Freira — cidade ao Norte de Portugal, perto do Porto. Levei comigo o endereço dele e fui até lá… fiquei do outro lado da rua a apreciar a arquitetura de pedra, da casa 22… estava para ir embora, quando o vi passar pelo portão ao lado de sua senhora…

Acenei com a mão bem aberta no ar… e ele, que gentilmente retribuiu, sem saber-me. Ele era exatamente como eu imaginava. Cabelos grisalhos, magro e, corpo levemente inclinado. Deveria ser mais alto quando jovem, afinal, não é novidade que encolhemos ao longo dos anos…

Acompanhei seus passos em pares, lado a lado com sua signora… ao longo da rua e comecei a escrever no ar uma missiva. Pouco depois, busquei pelo caderno dentro da mochila e deixei um bilhete para ele: ‘uma pena que o nosso tempo parou‘. tic tac.

Ele não foi a primeira, nem a última a me julgar-condenar pela pouca idade.

Ao voltar para casa no final de semana… procurei e ateei as missivas de M., ao fogo. Mas escolhi guardar a primeira, para não me esquecer que foi ele quem primeiro me ensinou, que as pessoas dão atenção demais a essa coisa de “tempo”…

 


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Beda | Uma sexta-feira em ruínas…

Caríssima M.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir.