O que ando a ler

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Um dos primeiros espaços urbanos que visitei ao chegar a São Paulo, em meados de dois mil e dois foi um Sebo… gosto de navegar entre prateleiras cheias, pilhas e mais pilhas de livros. Esses espaços possuem estruturas curiosas que desafiam a gravidade.
E foi em um Sebo que garimpei o livro que estou a ler contra a interpretação, de Susan Sontag… impresso por aqui no outono de 1987 — com tradução de Ana Maria Capovilla e publicado pela L&PM.
A leitura me deixou inquieta… me obrigou a pensar no perigo que reside na interpretação. É fato que ao ler, trago do conteúdo oferecido pelo Autor, tornando-o meu… trazendo para dentro de minha realidade aquele conjunto de informações e a maneira como dissolvo tudo isso… resulta em compreensão ou incompreensão.
Mas, tudo isso depende da minha carga emocional, dos meus níveis de consciência e de como reajo à realidade, ao mundo… e suas pluralidades.
Estamos cada vez mais dispostos a dizer o que é Arte — a partir de nossos conceitos pessoais, como certo e errado determinasse quais cores-elementos-conjunto-de-símbolos usar para agradar o olhar ou o sentimento de determinada pessoa.
A mostra Queermuseu, em Porto Alegre foi fechada um mês antes do previsto porque não agradou a um determino grupo de pessoas, que não entenderam como sendo Arte o que ali se exibia. Muitos não viram e replicaram frases prontas — como Monteiro Lobato, que escreveu o famoso artigo “paranóia ou mistificação” contra a exposição de Anita Malfatti, criticando seu estilo, cor e modernismo, considerado pelo conservadores da época, uma ofensa ao critério estabelecido de Arte — um hábito cada vez mais comum nesse tempo de: não vi e não gostei.
A Arte de nosso tempo tem fugido da interpretação… impondo legendas, de maneira a conduzir o individuo a entender o que vê-pensa-sente — marionetes controladas por fios invisíveis.
E eu nem posso criticar os nossos artistas contemporâneos… seus abstratos fantásticos, ou atribuir a pecha de não-arte. É preciso respirar fundo, sair da zona de conforto e compreender o tempo em que vivemos, os níveis de consciência — cada vez menores — o abandono da poesia, do lirismo e a imposição de uma regra normativa: a Arte enquanto fôrma a criar uma única forma, que agrada pequenos grupos — específicos — que não querem ser questionados-criticados-incomodados… e estão satisfeito com o mesmo velho ontem e suas rotinas pré-estabelecidas.
Ler  Susan Sontag é sempre um desafio… ainda mais quando seus escritos de ontem atingem — como se fosse uma flecha certeira, em pleno voo — o tempo de hoje, do qual já não faz parte… a ensaísta, no entanto, parece ter antevisto esse cenário espalhafatoso, a partir de seu vanguardismo, digo de admiração.

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Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.
Mais do que isso. É a vingança do intelecto sobre o mundo. Interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo — para erguer, edificar um mundo fantasmagórico de “significados”. É transformar o mundo nesse mundo. (Esse mundo! Corno, se houvesse algum outro.) O mundo, nosso mundo, já está suficientemente exaurido, empobrecido. Chega de imitações, até que voltemos a experimentar de maneira mais imediata aquele que temos.
(…)
O que importa agora é recuperamos nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais.
Nossa tarefa não é descobrir o maior conteúdo possível numa obra de arte, muito menos extrair de uma obra de arte um conteúdo maior do que já possui. Nossa tarefa é reduzir o conteúdo para que possamos vera coisa em si. (…) A função da crítica deveria ser mostrar como é que é, até mesmo que é que é, e não mostrar o que significa.”

 

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10 coisas que eu diria para Lunna de 15 anos

escolho a música. o momento do domingo. chove lá fora. a tarde se perdeu dos meus olhos pouco depois das quatro. vento forte. pesadas nuvens… pedi um copo de latte. observei as pessoas em seus movimentos miméticos. guarda-chuvas a proteger-lhes a cabeça. me lembrei de Alice e a Rainha Vermelha… e de mim mesma nesse tempo outro — ontem. me distraio com o refrão — I fell it now / much harder than I´ve ever done now, now / Hey, I´m gonna do the right thing — os fones nos ouvidos, o sofá e um livro em mãos. O que dizer a essa menina que nunca gostou da realidade e sempre preferiu se fechar em páginas?
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1. A essa altura você já percebeu que a vida é impermanência e tudo muda de maneira definitiva de tempos em tempos…

2. Não tente ser adulta, isso não irá funcionar com você…

3. Infelizmente o mundo não vai acabar no ano 2000, em 2012 tampouco… e a população mundial só faz aumentar.

4. Sabe aquele seu plano de vida: ter um apartamento, um cachorro, um monte de livros e ser totalmente sozinha? Tudo isso mudou… de uma maneira inesperada.

5. Você continua a ter preferência por cães…

6. Você finalmente concluiu que as pessoas são a sua melhor matéria prima… e tem feito bom uso disso. A maioria se revolta e te odeia o que faz você sorrir e tocar uma guitarra imaginária…

7. Pouca coisa mudou: a paciência ainda é curta e você ainda sorri quando ouve argumentos pouco convincentes e ergue sobrancelha esquerda. Continuam a te achar inteligente e você continua a discordar.

8. Você ainda não conseguiu ler todos os livros que pretendia, mas isso já não te incomoda, porque há muitos livros que você não faz questão alguma de ler.

9. O silêncio segue sendo o seu melhor amigo…

10. Pelo que eu te conheço, você não se daria ao trabalho de ler uma única linha e se fosse um pedaço de papel em suas mãos… já o teria amassado apenas para ouvir o som do papel e depois realizado um arremesso perfeito e dito “yesssssssssss”… afinal, o futuro nunca te interessou. E, isso não mudou…

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coletiva

Abril, o mais cruel dos meses!

Eu nunca tive para com Abril uma relação próxima… sempre foi uma espécie de caminho do meio… para se chegar a maio — um dos meus favoritos no calendário, desde a infância. Justamente por suas sonoridades peculiares — o mês das trovoadas.
Sempre tentei relacionar os meses do ano a qualquer coisa minha — para facilitar a convivência, mas nem sempre funciona. Um ou outro mês acabava em suspenso, a deriva — o suficiente para eu me perder dos dias e suas estações inquietas.
Abril, por exemplo, passou a pertencer a Eliot… depois da leitura de seu poema The wast land — e só.
Como nasci invertida… Abril era o mês da primavera-flores-cores-aromas. A época favorita de C., que gostava de sentir o cheiro da flor de laranjeira no quintal de casa. Enquanto eu me aborrecia com o prolongar gradativo dos dias e as noites cada vez mais curtas. Desse lado do atlântico, no entanto, é outono… e, por mais que eu goste dessa estação — ela não pertence a Abril… não combina. Simplesmente não acontece em minha matéria.
E mesmo assim, os dias estão mais curtos… ainda quentes. O outono — estranhamente — foi pontual… chegou na data e horário marcados, expulsando sem cerimônia o verão mais chuvoso dos últimos anos. As noites estão mais frias-escuras e o entardecer acelerado… perfeito para ler poemas em páginas.
Eu fui à prateleira e voltei com Al Berto… que me arrancou o fôlego com um de seus poemas — não nos conhecemos nunca — e tamanho foi o desassossego que precisei escrever ao poeta…

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