20 | espírito de tempestade

dsc_0075Treze e trinta e quatro. Um minuto antes eu pensava no vento de ontem. Lia na cama ”aqui de dentro‘ quando ouvi o uivo forte. Vento Sul. Céu encoberto. Fazia calor e eu me lembrei de uma reportagem sobre o inverno. A elegante moça do tempo falava: ‘foi o inverno mais quente e seco dos últimos vinte e três anos“. É o tipo de notícia que me faz desligar a televisão.

Treze e quarenta. Me lembrei que tenho um livro a organizar. Mas a minha mente não se orienta nesse sentido. Fica a dar voltas e voltas e voltas… feito ponteiro de relógio. Sinto como se a engrenagem mental estivesse com defeito e eu precisasse recorrer a um personagem que abandonei em algum rascunho-gaveta — um velho-relojoeiro-sapateiro — para fazer funcionar corretamente. Me lembrei de Nabokov e na sua razão para escrever: “êxtase estético” — seja lá o que isso signifique. Penso imediatamente na minha razão para escrever. Respiro fundo. Me lembro de ontem. do vento forte. do livro em minhas mãos. Olhos fechados. A tempestade chegando lentamente com trovões-relâmpagos. Uma conversa sobre o tempo, minutos antes. Choveu forte…

Treze e quarenta e seis. Vou para a cozinha colocar a água para ferver. Preciso de uma xícara de chá. Na pele ecoa ‘claire de lune‘. Sinto o silêncio emergir de meus cantos mais profundos. Penso no título que surgiu antes de qualquer texto. ‘meus naufrágios‘. Penso no que sou e no que nunca serei. Penso. Penso. Penso. De quantos minutos preciso?
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Treze e cinquenta e oito! Um gole de chá. Quais serão as notícias do mundo, nesse dia meio azul, meio cinza? Outro gole de chá. O vento sul foi embora. Deixou no ar qualquer coisa de primavera, que segundo a ‘simpática moça da previsão do tempo‘ só começa no sábado — com hora marcada. Mais um gole de chá. De onde será que eles arrancam essas certezas? Gostaria de ter um pouco delas para beber em pequenos goles também. Outro gole de chá


maratone-se grupo interative-se

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BEDA | Uma crônica urbana…

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Duas mulheres caminham pela manhã da cidade paulistana… e seu centro equivocado de traços inexatos, por onde também ia o meu olhar e de arrasto o meu passo.

De mãos dadas… elas avançavam pelo meio da multidão, que se abriu para dar passagem, muito a contragosto. Os olhares cresceram — incomodados — por sobre elas. Duas mulheres  — mãe-filha-irmas-amigas-vizinhas-amantes… futuras-inimigas?

Por que não? Eram Duas mulheres a mercê dos olhares intrigados… a vigiar atentamente cada movimento, na tentativa de decifrá-lo. À passagem delas cochichavam desaforos numa indústria de preceitos-e-conceitos equivocados.

Um homem chamou a atenção do outro com uma cotovelada —- leve — na altura das costelas. Mostrou a cena… que para sua surpresa e desagravo — não despertou interesse. Era dia de jogo de campeonato. Ainda há quem use rádios portáteis para saber as coisas do mundo — aquele lugar sempre igual, com as mesmas coisas de sempre.

Como em um palco… a platéia acompanhava cada passo das duas Damas… que seguiam — indiferentes ao que é mundo-vida-alheia —, com seus passos ritmados-encaixados um ao outro. Não havia pressa, apenas cuidado com o lugar do passo. É de conhecimento de qualquer paulistano a quantidade de buracos existentes nas calçadas e vias da cidade e são sempre os tornozelos as maiores vítimas.

O que acontecia bem diante de nossos olhos era uma espécie de dança em meio aos sons urbanos… essa caixa de abelhas. Quase ouvi Carlos Gardel a girar na vitrola do nonno…

De repente, sem nenhum aviso… as duas explodiram em uma gargalhada ritmada. Deixando no ar um rastro de felicidade não autorizada. O corpo todo participou do gesto, motivado por um diálogo íntimo que ninguém — nem mesmo eu — alcançou. Se esticaram músculos e nervos. Alguns corpos dobraram de tamanho. Outros entraram em colapso. Imaginou-se tudo-e-nada…

Olhei ao redor — como quem observa uma vitrine em liquidação — e num movimento pequeno… lancei um olhar de soslaio a tempo de compartilhar de um sorriso livre-gostoso-descompromissado-lindo… que se dilui no ar.

Duas mulheres de mãos dadas, vidas atadas e sorrisos compartilhados com uma multidão acostumada ao que é alheio… nunca seu.

 


beda interative-se