Se comporte como uma Menina…

O Coletivo noturno avançava pelo corredor norte-sul… dentro da noite — um pouco mais cedo que ontem, um pouco mais tarde que amanhã. Observo as luzes do Museu acesas… e me divirto a imaginar fantasmas a admirar as paredes, a mobília, os quadros e esculturas… do lugar.
Aproveito o silêncio dos bancos para abrir o livro e retomar a leitura de — o tempo é um rio que corre — e me lembro — rapidamente — que o sábado aconteceu como outro sábado qualquer… tomei café, vesti abraços, fingi diálogos-consciência-demência… e me distrai com movimentos humanos.
No ponto seguinte… acabou o sossego e eu me deixei seduzir por conversas alheias, pela metade… sem começo ou fim. Risadas extravagantes… histórias impossíveis. Um curioso capítulo novelístico da realidade.
Coloquei Elton John para tocar em meus ouvidos e retomei a leitura… interrompida um punhado de páginas depois para me dedicar a escrita de minhas lembranças — algo frequente em minha realidade…
Recordei a fotografia feita no final do primeiro ciclo… era o último ano e eu ainda era a menor, em tamanho-idade. Vesti o uniforme pela manhã… enfrentei o meu reflexo, no fundo do espelho e dei de ombros para as coisas do mundo-vida. Sai para as ruas… percorrendo o conhecido caminho de esquinas, praça, banca de jornal, a velha ponte, o rio quase sem águas… até a escola com sua cerca verde musgo e sua pesado porta de vidro e ferro que estremecia por inteiro ao ser fechada, por dentro.
No pátio montaram o teatro-circo: mesa, cadeira, a bandeira da escola, cidade, pais… o globo terrestre e uma pilha de livros didáticos — uma paisagem tão falsa quanto o painel colocado ao fundo.
A ordem dada era a de posicionar os braços sobre a mesa… e sorrir — mostrar-se comportada-adestrada-rendida. Eu bufei, cruzei os braços a frente do corpo e fechei a cara. Durou pouco… escapei da fila de crianças dóceis e saí para andar enquanto os cliques aconteciam e, só parei, ao encontrar uma sombra perfeita para o meu corpo. Me esqueci de tudo ao abrir um livro de poesias.
Não sei quanto tempo se passou porque eu e o tempo nunca nos entendemos. Ele dizia uma coisa, meu corpo dizia outra… e eu me perdia de suas teias, escapava de seus círculos…
A inspetora apareceu com sua sonoridade de sempre: aí está você — e me levou de volta, para fazer o tal retrato. Era a única que ainda não tinha encenado o seu papel naquele lugar-realidade-distópica.
Me sentei como quis… cruzei os braços e encarei o fotógrafo com todo o desdém que cabia em pouco mais de um metro e meio de altura. Ele se mostrou insatisfeito. — era para eu me comportar feito uma menina. Mostrei a língua e repeti o gesto dos roqueiros. Ele rosnou-esbravejou e me lembrou de que tempo é dinheiro — pensamento típico dos conservadores de plantão de ontem e de hoje. Ele desistiu de se impor e pediu ajuda. Posicionei os cotovelos sobre a mesa, a cabeça sobre as mãos e o espiei… curioso personagem adulto — sisudo-descontente, tão igual aos outros de sua espécie.
Sem opção… fez a foto assim mesmo e eu fui a única diferente do bando — esse era o meu padrão. Não me repetir. Não consentir. Não me conformar. Ser uma Menina…

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 | escrito ao som de your song |

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