04 | ainda não amanheceu hoje…

Setembro foi embora como chegou… demorei a dar por seus dias, de tão cansativo que foi. Os assuntos foram os mesmos. Não amanheceu um único dia, sem que o passado não assolasse o presente… com seus conhecidos equívocos.
Setembro não teve culpa. Fomos nós e nossas certezas de sempre.
Perguntei, em meados de setembro, não me lembro em qual dia: o que há de errado com o mundo? E a resposta soou como um tapa, daquele que estala na pele e marca. Nada. O mundo continua no seu devido lugar, com suas coisas e causas de sempre… a ser mais de uns, que de outros. A ser estranho-estrangeiro. Longe-perto. Fora de alcance… a Ser.
Somos nós os errados. Nossa falta de tato-cuidado-zelo. Nosso descaso com os diálogos. Não sabemos mais ouvir. Não estamos dispostos a escutar. Coletamos uma coisa aqui e outra ali. Apenas o que nos agrada. Tudo pela metade, aos poucos. Quase nada. E, juntamos ao que é nosso. Pronto… vira voz. Ouvimos a nós mesmos e nos contentamos.
O mundo segue em frente. Mas, e nós? Ficamos para trás, pelo caminho. Empacados na história. E, pior… do lado errado. Homens e mulheres estacionados nesse tempo, de ontem-nunca. Esse tempo que não se mede, não se soma, apenas nos limita e afunda.
Setembro passou… e nós: não. Eu senti cansaço-preguiça… falta de ar. Ainda sinto.  Setembro deixou rastros no meu corpo-pele-alma.
E pensar, que nesse (eterno) tempo de eleição… têm candidatos a oferecer a volta do ontem. Não quero. Não aceito. Já chega de promessa. Quero o amanhã, o depois. O dia seguinte. Qualquer coisa de futuro. Eu já me cansei de tanto ontem…

Errar é humano… eu sei! E concordo…
Mas insistir nos mesmos erros de sempre: é desumano.

Por aqui já é outubro, mas ainda é ontem!

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22 | meus três verbos favoritos…

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Escrever. Escrever. Escrever. Muitas vezes o mesmo texto. Encontrar palavras no ar… que interpretem o que vai dentro. Nem sempre conquisto o resultado esperado. Insisto. Eu sou a própria metamorfose “kafakaniana“. Foram tantas as vezes em que acordei na pele de um bicho-monstro-coisa-outra. Mas, ao contrário do personagem de Kafka, nunca houve susto. Apenas a constatação da loucura — foi saudável —, e não demorou para que eu entendesse que enlouquecer era uma saída-fuga. Uma maneira de permanecer invisível. Longe de tudo-mundo-pessoas… e suas sanidades-insuportáveis. As histórias sempre têm começo. meio. fim. A realidade também. Mas é tudo tão modorrento-demorado. Sometimes, parece que nada acontece. Eu ainda me lembro do momento-lugar onde deixei de me incomodar com as coisas que não posso mudar-alterar. Baixei os olhos. Varri o chão. Lembro-me bem das ranhuras no piso — uma espécie de mapa para lugar nenhum. Das pessoas a me rodear — arrulhavam-alto… não como os pássaros. As gaivotas quando arrulham, é como um chamado. Respirei fundo e me senti leve. Meu corpo carregado por elas — pelos ares. No alto — em voos panorâmicos. Avistei os humanos, com seus pés enraizados em suas próprias ruínas. Escrever. Escrever. Escrever… são três verbos-poderosos. Alguém — em algum lugar — irá dizer que é apenas um. Espero que ao chegar a essa conclusão-equivocada… leia o texto de novo!

 

| experimenta ler com trilha sonora |

 


maratone-se grupo interative-se

Beda | Um quarto que seja nosso…

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Na tarde de ontem, enquanto aguardava por abraço-café-e-diálogos… em meio a balbúrdia dos cenários urbanos que tanto amo, diretamente de meu canto de mundo-vida… saquei o meu notebook da mochila, pedi um latte e, com os fones nos ouvidos… comecei a escrever um texto.

Nesse instante, eu me ausento da realidade… sem dar pelo tempo e, pelo lugar-cenário-espaço, onde estou. Mas, às vezes, sou trazida de volta à realidade das coisas e suas causas — numa espécie de susto que arranca-e-devolve a alma ao corpo —, por alguém que resvala em minha superfície anestesiada.

Dessa vez foi uma senhora-leitora… que ocupou a cadeira à minha frente… com sua xícara-caderno-e-livro. Depois de virar algumas páginas em pares… ela era todo alvoroço e incomodada com a cena do livro, esbravejou-alto  se esquecendo, que estava em público — uma cena pitoresca.

Descobri  ao me comportar como um cão  que ela estava a ler ‘os olhos amarelos do crocodilo’… literatura francesa-conhecida. Lhe sorri cúmplice  como quem acena — tentando descobrir por qual página navegava seu olhar. Percebi que se travava de uma leitura recém-iniciada — e, me posicionei imediatamente sobre os acontecimentos.

A personagem de Josephine  figura encolhida , descobre a traição do marido… e reage como quem não sabe o que fazer com a vida-realidade. Se sente incomodada em ser obrigada a tomar uma atitude. Expulsá-lo de casa seria o certo a fazer. Mas, ao fazê-lo teria que assumir tantas coisas  o próprio fracasso, a casa, as filhas e os olhares inquisidores de sua mãe e irmã… que afirmariam de maneira sonora a sua incompetência em manter um casamento. Algo que as duas faziam havia anos  com louvor.

Conversamos um pouco… sobre a vida, a personagem, a trama, os cafés e em algum momento, anunciei que estava a trabalhar em um livro. Ela arregalou os olhos —  surpresa — percorrendo todo o espaço-cenário com os olhos. Disse sem titubear que não daria conta de escrever uma única linha ao pé de tantas pessoas. Precisaria de seu espaço-silencio-dicionários e outras tantas coisas mais  numa lista recém-preenchida.

Eu apenas sorri… e me lembrei de um texto-crônica, escrito para esse blogue em que citava Virgina Woolf… e sua famosa frase: ‘um quarto que seja seu’… usada para afirmar a necessidade que toda mulher sentiria ao se aventurar  pelo mundo das letras.

Essa frase pertence a um texto… que reproduz duas palestras dadas por Virginia Woolf em uma universidade feminina, cujo tema era: ‘mulheres e ficção’. O texto foi escrito em 1920… e acho bom pousar os olhos sobre ele para nos dar conta do que se passou com nossas antecessoras  e tentar nos entender enquanto personagens de uma realidade contemporânea, que ainda não abandonou certos ranços.

Quanto a senhora-leitora-cúmplice… ela me entregou um sorriso cúmplice e acenou ao voltar para a sua realidade. Não sei o que faz…. mas tenho certeza de que percebeu que há diferentes meios de se conseguir silêncio-espaço… um mundo que seja realmente nosso.

 


beda interative-se

BEDA | inspira-me…

Eu busco inspiração nas pessoas… em seus movimentos de vida e diálogos de momento. Gosto de provar de seus contornos len-ta.men.te. Ouví-las durante suas distrações… e avançar por dentro, até me misturar de tal maneira que não sei mais quem sou.

Não são todos as pessoas que encontro pelos caminhos que me inspiram. Apenas as que despertam em mim… aquele precioso minuto de silêncio. Gosto de me calar… perceber-ouvir-sentir.

É como acender um cigarro e tragar pesado… lançando no ar pesadas baforadas de nada. Eu não fumo! Mas gosto imenso dessa cena que me remete a tantas autoras-minhas.

Eu costumo sair para caminhar nas primeiras horas da manhã, antes que o sono atormente os meus olhos e me obrigue ao travesseiro. Gosto da perspectiva das calçadas… de onde posso apreciar as cores a sofrer mutações. As janelas abertas para a manhã. As pessoas com seus passos apressados-equivocados a tropeçar na realidade…

Às vezes, paro alguns instantes na Banca de jornal.
Leio rapidamente algumas capas.
…são sempre as mesmas noticias às segundas-feiras.

Atravesso a rua… cumprimento um desconhecido apressado que passa por mim. Vejo amigos se abraçando num reencontro não programado. Atendo um telefonema. Quem ainda se lembra de usar o telefone para essa estranha finalidade em dias tão contemporâneos? A moça-com-sua-voz-de-sexta-feira — carregada de sotaque — fala tão rápido que eu não consigo saber o que está a me oferecer alguma coisa.

Entro no café entre esquinas… peço meu latte e me sento no balcão — depois de alguns alôs-e-olás. Descubro que minha caixa de entrada está lotada. Respiro fundo e vasculho a realidade… esbarro em um casal se dissolvendo em palavras agudas. Uma mãe a sacudir o filho. A criança escapa… corre-atravessa-a-rua.

Rotina alterada. Gritos. Freadas bruscas… a criança nem sabe o que fez. A mãe — com o cuore fora do peito — a alcança. Dispara falas-gestos-corretivos-sem-efeito. A criança — a bordo de sua inocência — parece achar tudo muito exagerado.

A vida volta a normalidade… uma estranha se senta ao meu lado. Lamenta a quase morte-da-menina. Saia da farmácia com dúzias de remédios para a voz-garganta-nariz-olhos-sofrimentos-eternos-da-mente-e-do-cuore. Morreu no lugar da menina. A moça espirra-tosse-reclama do outono… e dispara falas sobre o assunto de todos os dias: algum político foi preso. Aquele velho-conhecido discurso sobre corrupção do qual me afasto len-ta-men-te…

Um estranho se senta do outro lado… coloca sobre o balcão o copo brando de latte, um livro-conhecido — 1984 de George Orwell — com marcações coloridas… e um pequeno caderno com Hopper na capa. Me interesso… seria ele o personagem que procuro para me habitar-ocupar. Me apresso por sua figura. Tomo emprestado seus moldes.

Ele percebe meu interesse. Sorri… corre o olhar por minha figura. Desbrava-me… e se apressa em falas bobas-agudas. Tudo e nada. Sobe o dia-lugar-café-livro-mundo. E eu lamento sua fala.

Bebo o que resta de café no copo. Me despeço… ainda tenho um punhado de coisas por fazer. Calçadas para andar. Pão para comprar. Meio fio onde me equilibrar. Um personagem para encontrar. Um punhado de páginas para ler. Uma folha que se desprenderá do alto de alguma árvore para colher. E uma crônica sobre as manhãs de abril… para escrever.

 

Uma dúzia de ovos…

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O que sabemos do tempo, afinal? Eu sei que passa… dizem que é ágil-astuto-ardiloso. Eu olho para trás e nessa soma que me acompanha… há um punhado de lembranças que me seguem. Uma espécie de rastro que eu mesma deixei… uma trilha de migalhas para não me perder… de mim — como se a alma precisasse disso para permanecer atrelada ao corpo.

Me lembro dos lugares por onde passei… das pessoas com quem estive… de coisas que marcaram a pele-alma-passo e outras que, de tão transitórias, se desfizeram no ar — feito grandes chumaços de nuvens com suas promessas (não cumpridas) de chuva.

E no meio de todas essas lembranças… está o meu menino. Me lembro de seu olhar entristecido e de seu sorriso travesso-arteiro. Tudo dentro de um mesmo segundo-cenário. O abraço demorado-gostoso-tranquilo e aquela velha sensação (clichê) de sabê-lo. No entanto, não há rastro algum em meus dias passados.

Vasculhei tudo o que tinha a partir de seu traço, guardado em mim como desenho feito com grafite numa folha branca na última porção de segundo a que se tem direito, para preservar um pouco de tudo-nada.

Revirei toda a minha bagagem, que já era imensa naqueles dias. Nada. Passei horas a vislumbrar seu contorno de homem-menino. O levei comigo por aí — sem sucesso. Mas aconteceu algo inédito… o encontrei em outros olhos-lábios, em movimentos desarticulados de falas… em outros passos pequenos-largos. Figuras inteiras se dissolveram e se misturaram ao que trazia no fundo de mim, esse abismo onde permanecer em queda.

Nos reencontramos dias depois… para um diálogo de minutos. Falas cheias. Frases completas. Não tínhamos perguntas — apenas respostas. E tudo foi se encaixando… olhares, mãos, passos, vontades, sorrisos, lábios, corpos, espaços… como ovos que acomodamos na caixa… um a um. Eu prefiro os brancos-grandes, mas há quem prefira os vermelhos-pequenos.

Parece que não há segredo em escolher uma dúzia de ovos… são parecidos em formatos-cores-tamanhos. Será? Já descobri várias curiosidades sobre como escolher e acomodar os ovos com a moça da feira. E sempre há alguém para anunciar uma ou outra particularidade… para a qual a “dona da banca”, com seu jeito peculiar de vendedora, sorri e diz: “será?” — dividimos o riso e a desconfiança. Sua piscadela de olho diz muito sobre as lendas e mitos que cada um carrega em si…

Mas e se ao invés de ovos, escolhêssemos os anos para ali acomodar? Uma dúzia deles… é o que temos, pois não? O primeiro ingrediente dessa nossa receita… e então, como vais querer os ovos hoje?