06 | se eu tenho medo de pássaros?

Assim que aterrissei na pergunta feita com todas vogais-consoantes-e-a-interrogação —uma flecha em pleno vôo, com alvo certo —  ‘por acaso, você tem medo de pássaros?” — voei para longe e alcancei os meus céus de ontem. Acabei por pousar na minha infância, esse lugar particular, que guardo para dias de sol quente porque a minha infância foi um verão intenso, com dias longos, pautados a partir da Aurora.
Uma vez por lá, recordei as tardes em que ancorava o corpo na janela e deixava o olhar avançar por cima dos telhados vermelhos, até alcançar o mar. Investigava atentamente as quatro direções, me certificando de que todas as coisas estavam no seu devido lugar. À leste… estavam os trilhos da ferrovia. A oeste… os eucaliptos do bosque, onde havia um casebre-assombrando… destino das minhas fugas-inocentes. A sul… o azul mar e o cais, de onde os navios partiam e chegavam. Creio não ser necessário dizer que eu me considerava o Norte de todas as direções…
E era por cima daquele mar-imenso — todo blue — que eu encontrava as gaivotas em seus vôos na imensidão do ar. Pequenos pontos em movimentos circulares. Uma ou outra escapava, mas logo era alcançada. Gostava de apreciar suas quedas… mergulhos conscientes em busca de alimento. Eu fechava os olhos para ouví-las arrulhar alto. Tinha a sensação de que zombavam de nossa condição humana: pés-presos-ao-chão.
Mas essa não era a minha condição… eu equilibrava o corpo, abria os braços, sentia o vento, as nuvens… e voava com elas. Ainda hoje, as ouço cantar em minhas lembranças. É uma mistura de mar e céu azul, grandes maços de nuvens e o canto marítimo que me leva de volta para essa casa-corpo-lugar que sou…
Aqui em São Paulo… me mudei para uma alameda com nome de pássaros e, para a minha surpresa, me deparei com o sábia paulistano — uma ave de peito alaranjado que canta na madrugada e anuncia com suas notas altas… a primavera. Ouço a cantoria apenas quando estou na cozinha a ler um livro, a esperar pelo apito da chaleira. Costumavam ser pontuais… cantavam por volta das três, a partir da segunda metade de agosto. Esse ano, no entanto, atrasaram. E com tanta coisa acontecendo nos nossos ares, cada vez mais tóxicos, pensei que não fosse ouví-los. Chegou setembro e nada. As noites silenciosas me incomodaram. Abri janelas e o ar pesado-quente-seco entrou… nada de pássaro-canto-sinal-de-primavera. Engoli seco os meus desconfortos e, eis que, na véspera da primavera, cantaram… e eu tive minha paz de volta.
Há pessoas que reclamam da cantoria, na noite. Eu apenas me divirto quando os ouço… imagino-os em seus galhos a gargalhar dos barulhos humanos. São tantos sons precários-vários… e eles apenas cantam para atrair ‘suas garotas’ para uma dança noturna, demarcar território e ensinam para as suas crias, o seu canto.
Li alguns artigos — escrito por cientistas-pesquisadores — que eles trocaram o dia pela noite… devido ao excesso de barulho da cidade-capital-terra-da-garoa-sampa-metrópole-pauliceia-desvairada. Mas, não me convenceu. Alguns afirmaram que a ave sofre de insônia e vive estressado… achei tudo demasiadamente humano. Não combina com pássaros…
Na Europa, os Rouxinóis, assim como o sábia laranjeira também migraram o seu canto para a madrugada e eu prefiro acreditar que os pássaros — muito mais sábios — encontram um meio de ter voz, ao contrário dos humanos, cada vez, mais mudos e pouco interessados em ouvir. Não à toa, estão a reclamar do cantos na madrugada. De certo é apenas barulho nos ouvidos desacostumados a ouvir.

 

| fotografia. mariana gouveia |

 

04 | Borges Oral

Aproveitei dos aromas da manhã-esbranquiçada — segunda-feira a espreguiçar do lado de fora da janela — para ler mais uma vez o texto de Borges sobre a poesia, no livro borges oral & sete noites. É uma dessas leituras que não cabem dentro de um único momento. É preciso voltar às páginas e navegar palavras…
Gosto imenso quando autores tentam trazer um pouco de luz às sombras que inventamos pelos caminhos que percorremos nesse mapa de vivências de coisas e causas. Na semana passada… eu fiz o mesmo. Respondi em meia dúzia de linhas: o que é um romance? Me afastei da ideia pronta. Ignorei os moldes oferecidos… e parti do meu fígado-estômago-intestino-rim.
O Poeta português josé luis peixoto fez o mesmo. nas primeiras páginas de seu livro a criança em ruínas. Diz ele, com a calma de quem inspira e expira — os lugares onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos, o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me olhas, o poema é teu rosto, eu, eu não sei escrever a palavra poema, eu, só sei escrever o seu sentido.
Borges era um talentoso professor-homem-poeta, moldado por suas preciosas memórias. Embora acusasse estranha dependência dos fatos acumulados em vida. Certamente seria algo para se lamentar, não fosse a vida do homem, tão rica.
Em seu ensaio, ele nos diz: a poesia é o encontro do leitor com o livro, a descoberta do livro Há outra experiência estética que é o momento, também muito estranho, em que o poeta concebe a obra, no qual ele vai descobrindo ou inventando a obra. Como se sabe, em latim, as palavras “inventar” e “descobrir” são sinônimas. Tudo isso está de acordo com a doutrina platônica quando esta afirma que inventar, descobrir, é recordar. Francis Bacon acrescenta que, se aprender é recordar, ignorar é saber esquecer; já dispomos de tudo, só nos falta ver.
…e continua — quando escrevo alguma coisa, tenho a sensação de que esse alguma coisa preexiste. Parto de um conceito geral; sei mais ou menos o princípio e o fim, e depois vou descobrindo as partes intermediárias; mas não tenho a sensação de inventá-las, de que dependam do meu arbítrio; as coisas são assim, estão escondidas, e meu dever de poeta é encontrá-las.
Me lembrei — imediatamente — da paixão que sentia ao descobrir novas palavras, em idiomas outros — na infância. Eu tomava nota e as guardava no meu porquinho de porcelana. Era para guardar moedas ali — foi o que me disseram. Mas a minha riqueza era outra: as palavras, que eu acrescentava ao meu vocabulário particular. Ainda minúsculo naqueles dias…
Tinha medo (aos sete) de perde-las… soube, ao ler Amélia Rosseli que, palavras se perdem de nós. Vão parar no limbo, por desuso-descaso diário. Foi o que bastou para me incomodar a existência. Me lembro do sorriso de meus pais, que me davam as moedas — troco das compras — para juntar. Era parte do aprendizado. Aprender a somar para alcançar o valor de um caderno novo. Não pedir… conquistar.
Mas, quando viram os papelotes com palavras… se mostraram satisfeitos. Lemos juntos… palavra por palavra. Buscamos pelos significados e agreguei novas palavras ao meu vocabulário, cada vai mais distante do mínimo inicial.
No meu aniversário seguinte… ganhei um conjunto de dicionários: latim-inglês-espanhol-francês e português. Durante algum tempo foi toda a minha biblioteca e não passava um único dia sem que eu percorresse aquelas páginas a pescar significados. De idioma em idioma… uma aventura-descoberta e um novo mundo a partir das sonoridades que chegavam. Não gostei de algumas palavras, recusando-as. Outras, passaram a ter uso frequenta. Misturava os idiomas e me expressava com a certeza das melodias.
Borges tinha razão ao dizer que um poeta não inventa a poesia. Ele a reencontra. Está tudo no ar… nos lugares e nas pessoas. A estética se oferece ao olhar e o sentimento dá cor ou a abstrai — tudo em uma pequena fração de segundos em que podemos ter atenção bastante para, — como disse, Bradley — recordar alguma coisa esquecida.

03 | Meus cabelos grisalhos…

Eu tinha catorze anos quando ao escovar minha cabeleira, observei um cabelo branco e fiz uma enorme festa diante do espelho. A nonna — figura central de minha infância, uma das mulheres incríveis com quem tive o imenso prazer de conviver — tinha longos fios brancos, que eu admirava e desejava.
Pode parecer pouco… um mísero fio branco em minha cabeça. Mas foi o suficiente para  eu empilhar os dias seguintes e avançar no tempo-espaço e ter certeza de que meus cabelos estariam todos brancos, antes dos quarenta. Sorri toda a minha alegria-juvenil-saltitante e aguardei.
Nos anos seguintes, no entanto, nenhum outro fio branco apareceu. Os meus cabelos seguiam mudando de tom… ora mais escuro, ora mais claro. Dependia da lua, do sol, da poluição e do meu humor-sagitariano. Desanimei um pouco…
Eu tinha quase vinte e um anos quando ouvi o comentário — “você é muito jovem para ter cabelos brancos“. Com tantas coisas acontecendo na minha realidade prestes a metamorfosear, pouca atenção prestava a minha figura-humana. Levei um susto e corri para a frente do espelho mais próximo… e lá estavam os fios brancos, que segundo uma colega-de-profissão era sinal de uso demasiado da massa cinzenta. Gargalhei todos os meus vinte e um anos até doer o abdômen.
Fiquei feliz ao me deparar com a grande quantidade de fios grisalhos a formar uma espécie de trilha nos dois lados da cabeça. Mas me aborreci ao imaginar o tempo que levaria para que a cabeleira toda, prateasse. Calculei o impossível… o tempo que demoraria para ter mais um item em mim, a provocar as tradições sociais — porque dizem por aí que uma mulher não deve deixar pratear a cabeleireira para evitar confessar a idade que veste.
Demorou, mas o grisalho se espalhou — é maioria já tem alguns anos. Durante as idas ao cabeleireiro para cortar as madeixas — antes do grisalho virar moda nas cabeças mais famosas do mundo — me acostumei ao espanto: nossa, eu não teria a sua coragem. Mas, é natural, mesmo? ou a mais comum: pinta, sua boba. Irá se sentir melhor.
Dou de ombros! Não abro mão das minhas somas particulares — quase quarenta —, e nem das madeixas herdadas das mulheres, que sucedi. Mas, não advogo em pró dos tons. Cada um com os seus sabores… vivências e experiências. No seu tempo — real ou camuflado. Como for melhor… porque o que importa é a resposta que recebemos do espelho e como reagimos a ela.

02 | tempo. tempo. tempo

Eu nasci entre anciãos… e talvez por isso sempre me considerei igual a eles. Nunca soube conviver com pessoas de pouca idade. As crianças e seus porquês sempre me aborreceram. A juventude com suas inquietações me perturbavam. E a tal fase adulta-inaugural nunca se adequou à minha pele.
Gostava mesmo era de me sentar na poltrona da sala e dialogar com o nonno. Ouvir suas vivências antigas. Tantas experiências a compartilhar. Aprendia muito com suas narrativas de olhares e corpo cheios. Quando falava de seus dias de menino, o olhar exibia aquele brilho de quem soube viver e aproveitar a infância. Subir em árvores, mergulhar em rios, colher frutas do quintal-vizinho e correr pelos campos. Da juventude veio a sua primeira paixão. Da vida adulta o amor. Errou nas escolhas… e teve tempo de corrigí-las. Aprendeu com o passar dos dias… com o avançar da idade no corpo.
Gostava igualmente… de me juntar as mulheres na cozinha e observá-las somar os ingredientes necessários para suas receitas de pão-bolo-biscoitos. Era mágico vê-las sovar a massa na mesa. Era gostoso crescer ao som do fouet a misturar as claras — efeito de nuvem-neve. Aprendi com elas a esperar… para tudo tem o seu tempo. Não adiante se apressar… às vezes, tudo que se pode fazer, é esperar.
Nunca me preocupei com as somas que faço… nasci na estranha década de oitenta. Dos excessos, cabelos coloridos e roupas elásticas. Assisti Goonies e desejei viver aventuras iguais em minha vida. Fugi de casa algumas vezes… arrumava a mochila e escapava pelos caminhos da cidade em que cresci para viver aventuras. Acabava sempre no mesmo lugar — um bosque com trilhas bem definidas. O guarda responsável me encontrava e levava para casa, devolvendo-me aos meus. Na década seguinte, fui as outros lugares-cidades-países. Me perdi dos meus primeiros mapas-sonhos-ilusões… conheci pessoas. Aprendi idiomas. Mudei… de voz-corpo-pele. Era o tempo seguindo seus ciclos de décadas inteiras. Ganhei diploma-profissão-cenário e voltei para casa para ocupar o quarto da infância. Revi a paisagem de sempre e percorri o “perigoso” caminho das fugas de menina. Encontrei a velha casa no meio do Bosque e ouvi do mesmo guarda “vamos, vou te levar para casa‘. Sorrimos os dois… caminhamos lado a lado as ruas de ontem… e eu soube que ele já era avô e que se divertia contando das minhas fugas de menina, para as netas. Perguntei se não tinha receio de que fugissem como eu E ele, depois de um sorriso largo, disse: se for para imitar alguém, que seja você. Fiquei muda, a existir dentro daqueles belos olhos. Era o meu herói… e se lembrava de minhas fugas, muito melhor que eu.
Refiz o caminho de casa até a escola e passei pela praça onde os velhos-homens jogavam xadrez, nas mesas da praça. Desejava secretamente romper com os estudos e fazer companhia a eles. E foi o que eu fiz, certa vez… tinha onze anos, idade suficiente para seguir sozinha por aquela trilha conhecida. Deixei a mochila no chão e me ofereci a um signore na condição de sua adversária. Recebi dele… as peças brancas. Jogamos a manhã toda. Ele me falou de sua trajetória de homem. Quase oitenta, bambina. tenho filhos (quatro) netos (oito) e uma bela donna. Eu soube como se conheceram. Do namoro e do medo que sentiu na véspera do pedido de casamento. Da alegria que preencheu seu olhar ao vê-la entrar na Igreja cheia. Da felicidade que sentiu ao saber do primeiro filho e tê-lo em mãos. Soube dos desconfortos que os tempos de horror causaram. Das perdas. Dos amigos mortos e da certeza que foi feliz na maior parte do tempo. Empurrei a peça em direção ao Rei… anunciei cheque e interrompi o jogo. Eu não queria vencê-lo. Apenas jogar. Ele sorriu seu descuido com o jogo e seu apreço pela narrativa. Não é sempre que se pode contar a própria vida…
A cada encontro, uma certeza… só envelhece quem vive. Somos privilegiados por não ter ficado pelo caminho. Sigo com os meus experimentos e consciência. E quando penso na soma que se iniciou lá no distante ano de mil novecentos e oitenta e um… digo depois de respirar fundo: quase quarenta. Falta pouco para completar essa soma cheia, que persigo há tempos. Quatro décadas… ciclo-cheio que irei completar e, ao fazê-lo, talvez outro se inaugure… ou não. Eu confesso, que já começo a enamorar-me do prazer que será dizer… meio século de vida! Mas isso vai depender do meu corpo e de Kairos… se assim me permitirem, vou olhar no espelho, me encarar e cantarolar Caetano: e quanto eu tiver saído para fora do teu círculo. tempo. tempo. tempo. não serei, nem terás sido. tempo. tempo. tempo. ainda assim acredito, ser possível reunirmo-nos. tempo. tempo. tempo. num outro nível de vinculo. tempo. tempo. tempo. portanto peço-te aquilo, e te ofereço elogios. tempo.tempo.tempo. nas rimas do meu estilo.

 

| crônica escrita ao som de oração do tempo, clique para ouvir |

11 | uma pessoa-mês…

Se eu fosse um mês, ah… eu seria setembro — septem — o mês sete no calendário outro, antes da intromissão romana-cristã nas somas que nos orientam.
Setembro é dia seguinte, mas é também dia anterior. É a hora não marcada. A água que ferve. Ervas maceradas. As coisas mais simples. Xícaras na mesa. Livro em mãos… poesia em páginas. Um gole curto de café. O canto dos pássaros na madrugada e o espreguiçar demorado pela manhã. Portão aberto… o passo mais calmo numa manhã azul. As datas não circuladas no calendário… e as lembranças de um ontem que foi há pouco. Os aromas de daqui a pouco. Lápis de cor que se aponta. Folha branca que se risca — porque é ano novo em algum lugar.
Setembro é o número sete — septum — que representa a totalidade do movimento, a soma entre espirito e matéria — corpo-mente-alma… uma união que resulta em vivências. Ciclos que se completam. Somos nós, a experimentar e experienciar.
September — em inglês — tem cheiro de maçãs vermelhas fatiadas e sem as cascas, reservadas para um chá no final da tarde. Uma receita de bolo para as noites de quinta. Aliás, na Alemanha, para se fazer um bolo são necessários sete ingredientes.
Septembre — em francês — é janela aberta, vidraças baixas… os primeiros dias de aula, uniforme novo, banho tomado e os caminhos de sempre para esse dia seguinte.
Settembre — em italiano — é mãos dadas. Um dia de sol. Ruas caramelizadas e o vento frio do Atlântico sul a uivar pelos labirintos da cidade, da pele.
Ah, eu seria setembro — o mês de todos os inícios — um disco girando na vitrola… com a canção que esculpe um sorriso em meus lábios e me faz voar pelo tempo-espaço-lugar e dizer mi manchi em voz alta, como que pousa em algum setembro outro-eu…

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