BEDA | meus exercícios diários…

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— eu tinha quase vinte… havia concluído minhas pesquisas-estudos… realizado um considerável número de publicações. Tinha me mudado para um antigo endereço e vestia-me com as roupas de outra pessoa. Eu era uma fraude com diploma em mãos que convencia a todos em meu palco de ilusões primárias.
Mas o universo é ardiloso e tem o estranho hábito de agir contra ou a favor de seus pares — geralmente na contramão dos nossos movimentos…
Era manhã de quarta-feira — e esse rapaz entrou em meu espaço em busca de socorro para sua mente alucinada. Pesquisador de Shakespeare. Diretor teatral. Autor. Ator. Professor de técnicas corporais — denominado ‘mestre’ por muitos.
J. foi a primeira pessoa a não demonstrar espanto ao se deparar com minha figura humana. Não quis saber minha idade. Não pediu para ver meus diplomas. Não se interessou pelo nome da instituição de ensino na qual havia me formado…
Ele trazia no fundo da mortalha apenas uma pergunta: “você pode me ajudar?”… seu desespero era visível… sua aflição e comiseração impressionantes.
Eu disse sem titubear que iria tentar — e foi o bastante. Ele confiou a mim sua longa narrativa impressionista. Anunciou, assim que se sentou… que era um impostor! — e eu me esforcei em conter o sorriso que implodia em meus lábios, enquanto tomava nota de um pensamento particular: não somos todos?
Ele falou de si na primeira pessoa do singular durante os cinquenta minutos seguintes… e para o meu desconforto: me reconheci em cada uma de suas frases-fases.
Seu desespero de momento tinha origem na personagem de um livro — lido dúzias de vezes nas últimas duas semanas — no qual tinha tropeçado e ficado sem conseguir escapar… porque eram uma mesma face.
Disse repetidas vezes que não era uma coisa boa… porque estava a estragar sua vida, atrapalhar o seu trabalho, a azedar sua existência e a deteriorar sua matéria.
O fundo do espelho já não refletia mais suas vertentes. Tinha perdido a capacidade de mutação… deixado de ser um camaleão. Não se sentia mais capaz de se convencer através de suas fraudes… o que o impedia de convencer também aos outros — o seu público. Seu corpo acusava falência.
Em sua profissão era um golpe fatal… estava em crise desde então. E para piorar, se encontrava no meio de uma importante produção. Ou seja, tinha pouco tempo para recuperar-se… reagir e agir!

ah! o universo…


— In, Septum, projeto diário das 4 estações… scenarim | 2016
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beda interative-se

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Septum

septum, lunna guedes

 

Sete… Septem… Setembro… Septum, do latim ‘aquilo que contém’ — quem conhece esta artesã das palavras sabe bem que se encontrará lá dentro, em cada linha de cada página, porque a colecionadora age assim… na calada da noite, nos gritos do dia, transformando pessoas em arte”.

Adriana Aneli

 


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As estações da minha escrita…

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Minha escrita já foi primavera… mínima! Totalmente livre de conceitos-estilos-pesos… apenas palavras no papel, sem a preocupação do olhar alheio. Fruta no pé… água da fonte. Uma noite inteira. Ingredientes para uma receita antiga, que se repete na memória. Roupa no varal, a secar ao sabor do vento. Manhã de chuva. Tarde de sol. Noite de ventos afoitos…

…verão, malas prontas, casa fechada e a hora do embarque. As cidades-paisagens e as horas em pares até o desembarque. O corpo em efervescência. A alma a habitar a matéria, convertida em calabouço para as emoções empíricas. O som do carrilhão a ressoar pela casa e a combinar contrários. Foi indiferença-rebeldia-susto-sobressalto… absurdo e espanto. A Realidade a sobrepor a Ilusão. A verdade servida em aromas conhecidos.

…outono, a casa vazia e as janelas fechadas. O som do vento a percorrer os labirintos urbanos-humanos da pele-casa. Manta para os pés. Livros abertos. Cama desfeita. Meias para os pés. Xícaras de chá-café. O pão a assar no forno e o açúcar a caramelar no fundo da panela. Rascunhos antigos revisitados, reescritos, rasurados, amassados.

E foi inverno… qualquer coisa outra! Silêncio-quietude. Caderno fechado. Folhas em branco. Filme em preto e branco. Melancolia dentro-fora da pele-casa. As paredes a pedir uma nova camada de tinta. A chaleira a apitar e as emoções a implorar por um instante de pausa.

 



“vivi centenas de partidas e dúzias de chegadas, como se meu corpo
fosse a plataforma de uma estação e os lugares…
um comboio a passar por mim…”

Lunna Guedes, in;  Septum

Eu {ainda} escrevo diários…

 

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…porque certos rituais não se perdem de nós. Colocar a água para ferver e aguardar pelo som da chaleira a apitar desesperada. A xícara com o saquinho de mate em cima da mesa. O tempo de espera — uma espécie de meditação que nos une e separa dos mundos que somos-habitamos.

O livro que deixou a prateleira e veio se abrigar em minhas mãos-olhos para um passear de emoções diversas. O caderno de capa vermelha e suas folhas de amarelecidos tons.

E eu — uma equilibrista de realidades-ficções — a espiar os contornos alheios, a vivenciar-experimentar outras vidas-silêncios-pausas. A sentir tudo… por dentro ou por fora e a confessar-me ao papel, esse fiel companheiro que a tudo aceita e guarda. Ainda que, em algum momento severo, eu prefira senti-lo deformar-se entre meus vãos…