Diário de minhas insanidades, 17

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…cheguei pontualmente! Nos oferecemos uma a outra, como sempre fazemos. Acenos curtos. Palavras poucas. Um sorriso pequeno-miúdo… e pronto! Ela quis saber como foi o meu dia e eu disse ‘entre esquinas’. Ela riu, sabendo que não diria mais nada… era tudo. Palavras alheias. Latte no copo. A luz do ecrã. Os movimentos disformes. Os personagens em transe…

Observei o cenário — como de costume — ao me sentar… varrendo as superfícies com os olhos, e identificando as coisas fora do lugar. Os livros sumiram e as cortinas marrons foram substituídas por uma cinza rua.

Sorri aquele novo detalhe em silêncio… W., continua a mesma, com seus óculos nos olhos e outro pendurado no pescoço por um fino fio de prata. Perto e Longe. Longe e perto. Eu de um lado e ela do outro. Sorri de novo uma antiga brincadeira da minha infância…

Ela fez sua Parker correr o papel, tomando nota de alguma coisa… sem que eu dissesse uma única palavra. Conversou com seu moleskine, enquanto eu não me enveredava pela fala. Algo que ela sabia que poderia não acontecer. Gosto do cenário-silencioso onde nos encontramos, posso ouvir meus pensamentos, as batidas do cuore e o som do ar indo até os pulmões e de lá… atravessar toda a extensão do meu corpo.

Mas, depois de engolir uma generosa poção de ar… me ocorreu que não tenho a menor curiosidade em saber o que ela escreve a meu respeito. Talvez porque o meu imaginário agudo já o tenha feito uma dezena de vezes, confeccionando um diálogo particular, muito mais interessante…

ela adora a falta de tato – aprecia o outro em movimento para longe. Deixa as pessoas irem  porque gosta de observar o passo e também a distância – na qual se alimenta. Ela tem fome devora substancias inteiras. Existe visivelmente qualquer coisa de satisfação em apreciar anatomias, como se fossem vitrines iluminadas. Só se incomoda quando o outro parte levando tudo consigo, sem deixar migalhas. Ela aspira impressões particulares ao observar as pessoas. É um jogo sem regras, tabuleiros ou peças. De cartas, é bem provável. Em algum momento tudo vira palavras, caso contrário, abstrai e a memória apaga todo e qualquer possível rastro. Na sua realidade, o passado é um traço no papel, sem isso, é como na música de Elis”.

‘como se fora a brincadeira de roda. Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos. Macias!
O suor dos corpos, na canção da vida. Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos. Magia!’

Ah, minhas premissas… 

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Diário de minhas insanidades, 14

Deixa-me adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi alheio e a vida foi comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Alberto de Lacerda

…sai de casa pouco depois das seis horas de um quase noite tumultuado. As ruas estavam entupidas e fiquei com a sensação de que não chegaria ao meu destino comum às noites terças a tempo. Desci no meio do caminho… e mergulhei nos contornos de sempre. Atropelei uma dúzia e meia de figuras estranhas, dispostas a tumultuar uma realidade frágil… e pronto. Cheguei ao prédio espelhado no começo da Avenida Paulista…

W., é uma dessas senhoras com olhar atento às coisas frágeis… sabe o outro apenas por ouvir um combinado de vogais e consoantes que podem ou não ser separados por vírgulas, pontos, exclamações e/ou interrogações. Toma nota de tudo… Às vezes, penso que até a quantidade de vezes, que respiro, estão anotadas em seu velho caderno, sempre apoiado sobre as pernas cruzadas. A caneta, que usa, foi presente do marido. Ela não exibe fotografias dos filhos em sua sala… mas em sua mesa, a fotografia de uma gata-branca-gorda-e-velha tem lugar de destaque.

Assim que me sentei… ela fez duas perguntas — uma depois da outra, em sequência, sem me dar tempo para respirar. Geralmente fica sentada… em estado de espera. Não tem pressa. Deixa que eu me acomode. Parece saber da necessidade de me adaptar ao espaço-lugar. Deixa meu corpo se misturar as figuras todas. Mas hoje foi diferente… perguntou como foi o meu dia? Havia qualquer coisa de apreensão em seus gestos, que poderia ser motivada pela bagunça nas ruas. Uma gente movida pelo ‘não querer’.

Não sou acostumava a responder essa pergunta… meus dias são combinados expressivos de palavras no papel. Monótonos por definição. Ariscos por natureza. São bons quando domo todos os elementos e os organizo. São indóceis quando os personagens do meu dia se rebelam. Mas nada disso se resume a bom ou ruim. É apenas mais um dia nessa seara de dias-semanas-meses-e-ano nesse calendário humano.

Depois quis saber sobre meu novo projeto de vida — vermelho por dentro. Respirei fundo. Minha resposta foi breve… curta. Duas palavras bastaram. Ela exibiu um sorriso estreito e pouco depois: respirou fundo… demonstrando que esperava mais. Ela queria reticências…  e eu ofereci um ponto final.

Ela insistiu com dizeres estranhos… disse que eu devo viver a minha vida sem desperdiçar o meu tempo. Não deixar passar as oportunidades e, ao me ver sorrir… quis saber o que eu pensava sobre aquelas afirmações…

…’não sou laranja para ser espremida e virar suco’ — foi o que pensei, sem nada dizer… enquanto procurava por um porto onde atracar o meu corpo. Queria não ter ido até lá, agora estou aborrecida a pensar no que não se desenha através de mim. O livro é um rascunho antigo, mas precisa de tato e eu não tenho conseguido me desvencilhar de todas as coisas da minha vida para pensar nele. Preciso me render-entregar-me-doar, mas por enquanto, olho para ele e penso no tal do amanhã, como a chata da Scarlet no igualmente chato: ‘e o vento levou’…

Diário das minhas insanidades, 09

 

ela gostava de sofás compridos, e eu de longos navios ela gostava
de sussurrar e suspirar nos cafés eu gostava de saltar e gritar
nas ruas e, apesar de tudo, os meus braços vastos
como o universo estão à espera dela.
Muhammad Al-Maghut

 

reallity

 

Comentei com W. que recomeçar me causa cansaço… numa obvia referência a maldita mania de festejar o ano novo, que tem os humanos. Ela se acomodou na cadeira num movimento novo, como se soubesse que a observo enquanto falo — antes ela apenas cruzava as pernas, acomodava o cotovelo  no braço da poltrona e o queixo sobre a mão.

Exibi uma espécie de sorriso nos lábios e continuei minha fala segura: “eu não gosto de deixar certas coisas para trás, de maneira definitiva. Gosto de levá-las comigo para os lugares que visito: a mesa do canto do café entre esquinas”…

Trocamos olhares silenciosos sometimes… e, como se fôssemos espelho uma da outra, nos encaixamos dentro dos mesmos movimentos sometimes. Aprendemos muitas coisas sobre nós duas nesses meses de visitas – sempre nas noites de terça – mas nem sempre ela me brinda com falas — curtas ou longas — às minhas introduções. Isso não me incomoda… pelo contrário, prefiro o silêncio à intromissão… porque sou como um velho e bom livro! Preciso de uma epígrafe antes de começar a contar a história, mas não de um prefácio, que eu nunca leio… se fossem como uma missiva, mas são apenas o que são, uma espécie de mapa impreciso e totalmente desnecessário…

W., pela primeira vez olhou para o relógio em seu pulso – presente de natal – com seus ponteiros pontuais a dizer as horas, os minutos e também os segundos. Foi um olhar rápido, sem qualquer ansiedade, como quem observa a certeza… e não o tempo. O relógio estava no lugar certo, assim como os móveis, as paredes e seus quadros, a estante, os livros e seus porta-retratos.

Nada mudou naquele cenário bucólico depois desses meses… eu continuo a ocupar o meu lugar e ela o dela, que segue a fazer pequenas anotações, em seu caderno de capa cinza-chumbo. E vez ou outra, o meu sorriso arisco, põe um ponto final em algum pensamento seu…
Passados alguns minutos… um novo olhar para o relógio dourado… a dividir espaço com uma pulseira onde adormece seu nome, desde os quinze anos… igualmente dourada. Ela passa mais tempo no conserto, que em seu pulso… graças a um fecho, que vive a causar problemas. É tão frágil quanto suas vontades.

E depois de conferir as horas, W. levantou a sobrancelha esquerda e se pronunciou: ‘você tem tanta coisa guardada dentro de si, que me faz pensar constantemente em uma tarde de chuva, xícara de chá e em uma velha caixa de sapatos escondida embaixo da cama

Suspirei, sorri… e me lembrei, quase que instantaneamente, do primeiro baú, que ganhei do nono… onde costumava guardar meus cadernos, diários, folhas avulsas e uma caixinha com folhas, gravetos e pedras recolhidas durante a caminhada. Mas eu nunca tive uma caixa de sapato embaixo da cama… não é o tipo de argumento que combina comigo.

Cinquenta minutos concluídos em mais uma noite de terça… soubemos que o tempo e as palavras vêm à boca, mas guardamos tudo em nós duas para a próxima semana…

Diario das minhas insanidades, 07

“In the name of the Bee — And of the Butterfly
And of the Breeze — Amen!”

Emily Dickinson


“vamos na mesma direção” anunciou para meu desconforto quando eu passava pela porta.  Precisei respirar fundo para não dispensar o convite e seguir meu caminho de passos estreitos e lentos. Chovia fortemente na cidade — chuva de verão dentro da noite — e eu lhe causaria preocupações desnecessárias — foi o que me fez ficar e esperar. Conheço bem tais alegações… elas gritam em meu íntimo: ‘leva guarda-chuva, vai chover’ — ‘não esquece a blusa de frio’…

Enquanto esperava… apreciei o céu da Paulicéia ‘nada’ desvairada… que se iluminava de tempos em tempos — com seus múltiplos relâmpagos, seguidos de agudos trovões. Um belo espetáculo da natureza para os meus olhos mas, principalmente para a minha alma.

A bordo do carro, seguimos pelo Corredor Norte e Sul — caminho de casa.  W., fez questão de dizer em voz alta e com um sorriso sarcástico nos lábios “não se preocupe, não seremos amigas e você nunca irá para a sua cozinha preparar um daqueles pratos típicos, como presente de aniversário para mim”.  — ela parecia satisfeita por, supostamente, se antecipar o meu pensamento.

Ela ligou o rádio como se o movimento fosse uma continuidade de sua fala, permitindo que Turandot se precipitasse entre nós… e foi o bastante para o silêncio se acomodar em nossos corpos — enquanto nos apoderávamos do que acontecia ao nosso redor: o asfalto molhado, poças largas pelo caminho, os veículos em alta velocidade, os faróis vermelhos de um lado e brancos do outro……

W., dirige com calma e segurança… segura firme o volante com as duas mãos. Não tira os olhos da pista e do retrovisor. É atenta a si mesma e aos outros… e não se importa de ser ultrapassada por outros veículos. Ela não gosta de dirigir, mas também não suporta a idéia de que alguém conduza seu carro do ano — com cor e modelo escolhidos de acordo com o seu perfil.

Vinte e dois minutos depois… ela estacionou em frente ao prédio em que moro. Segundos antes de eu me despedir, ela fez a pergunta que embalou em seu íntimo durante todo o percurso: “ainda não sei por que a noite é tão importante para você! Pode me dizer?”…

W., me olhou com seus olhos de águia no escuro… tudo muito rápido — e esperou. Uma vida inteira atravessou a minha matéria. Pensei em Cecilia Meireles, que esperava o filho dormir para escrever suas linhas. Em Jane Austen que aguardava pelos últimos instantes da madrugada para começar a escrever… porque gostava de amanhecer. Em Emily Dickinson, que saboreava o silêncio da casa, dentro das noites insones.

Investiguei a mim mesma rapidamente: lembrei-me da falta de sono… dos livros-palavras — e do fascínio pelo silêncio-escuro-embriagado que a noite sempre me ofereceu e sorri ao recordar a fala de uma personagem que reinou em minha infância ‘é quando caí a noite que a realidade vai dormir‘. Respirei fundo e me abriguei na canção…

W., fez questão de ressaltar que não tinha pressa, logo, esperaria por minha resposta — entreguei a ela um sorriso em sépia, abri a porta do carro, agradeci pela carona e destilei meu veneno: “cada um de nós reza para o ‘deus’ que melhor lhe convém. Amém”.