BEDA | escritores-mudos…

…passei os últimos dias sem ou quase sem voz. Uma crise alérgica afanou meus ‘preciosos’ acordes… e eu, que tenho imensa preferencia por ouvir o outro, tive uma desculpa perfeita para fazer o que prefiro: calar-me.

No entanto, para minha surpresa… não ter voz, foi bastante desconfortável… porque preciso ouvir-me. Não sei escrever sem ler incontáveis vezes o que escrevo. Não basta murmurar palavras. Mover os lábios… e ouvir dentro as frases entregues ao papel-tela. Para ser eco, é preciso que exista qualquer coisa de som.

Descobri que não tenho vocação para morcego… captar ondas não serve para mim. Preciso do som da minha voz — feito música —, a reverberar o que brota dos dedos-mente-memória… tanto para os meus escritos quanto para os escritos alheios, que avalio para publicações pela Scenarium.

E a rouquidão — que inicialmente foi motivo de satisfação —, acabou por ser motivo de aborrecimento e resultou em acúmulo de trabalho. E o sorriso por ter em mãos uma desculpa convincente para o silêncio que tanto aprecio… esvaziou-se, convertida que fui a condição de escritora-muda.

Todo esse cenário-inédito — nunca passei tanto tempo sem voz —, bastou para voltar a questionar-criticar-e-esbravejar com os escritores-contemporâneos que apenas escrevem… e não lêem — outros autores —, quiçá os próprios escritos, tecidos em meio ao silêncio de paredes do corpo-casa-lugar.

Esses escritores-mudos, no entanto, querem ser lidos. Contudo, como pretendem ser um Eco para o leitor é um grande mistério para mim…


beda

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Sou uma naufraga da tua lembrança

A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer

José Miguel Silva


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…a juventude chegou até mim como se fosse um interruptor, que alguém toca sem cuidado, e pronto: uma lâmpada se acende no meio desse cômodo que sou. Eu existia de maneira contida, indiferente ao que era realidade, imersa  em um mundo  particular sem me ocupar de tempo-espaço-lugar.

Ocupava sempre a mesma porção de mundo-vida, cercada por paredes brancas… uma janela sempre aberta para os dias de chuva e fechadas para os dias de sol. Distraia-me com filmes em preto e branco… com as páginas dos muitos livros que devorava nas primeiras horas das manhãs e, fundamentalmente, com as palavras que deitava nas folhas dos cadernos que aprendi a colecionar na infância.

Não me misturava porque não fui forjada para existir em bandos… acontecia em minha anatomia uma espécie de prazer quando me permitia lugares vazios: a mesa do canto, a sombra distante de uma árvore em algum lugar obtuso ao fundo, o espaço entre prateleiras na biblioteca da escola. Era desses lugares que partia meu olhar, indo tropeçar em um ou outro humano em movimento, aprendendo-o com o cuidado de quem gosta de saborear anatomias.

Foi a bordo de meu “canto de mundo” que eu a descobri… com suas mãos em movimentos perfeitos, livros empilhados de maneira precisa, caderno de notas… todos os acessórios de uso pessoal para o seu trabalho — e sua boca de silêncio preciso.

No começo os nossos diálogos eram mínimos… devido a distância natural que existia entre nossos corpos. Cumprimentos rápidos, acenos lentos e diálogos moderados a partir de seu discurso eufórico… sempre em língua estrangeira.

Aprendi outros nomes, novas palavras, reformulei frases inteiras… reaprendi a mim mesma! Fui outra ao misturar  nossas geografias. Seu olhar era sempre mais manso para mim, enquanto para os outros mais severo.

Com ela que aprendi o efeito calmante de uma xícara de chá inglês… e o prazer de sorver pequenos goles espaçados. Descobri o prazer de se chegar primeiro aos lugares, antecipando-se as pessoas. A cheirar as páginas dos livros antes de iniciar uma leitura. Sentir a textura das paredes e das superfícies dos móveis na ponta dos dedos e a me esparramar em diálogos amenos, sem precisar pensar a melhor pontuação, ponderar os hiatos ou escolher com algum cuidado os verbos.

Mas, foi ela quem me deixou sem ar-fôlego e fez o cuore pausar no meio do peito quando me disse — sem titubear —, que seria a autora da peça de teatro do ano… como se fosse a coisa natural-comum-rotineira. Eu a odiei por isso… me senti traída-molestada-ferida… engoli o que existia de saliva na boca e não mais respirei. Ela foi a causa de minha primeira morte!

Através dela, no entanto, me dei conta do quão prazeroso é ouvir o outro… sua voz era suave-amena, quase como um canto. Suas frases bem pontuadas e havia sempre um sorriso moderado entre uma frase e outra. Parecia que estava sempre a virar as páginas de um livro… um verdadeiro cálice de brandy degustado antes do jantar, que ela nunca me ofereceu porque não tinha idade para isso… ao contrário dela, cuja maturidade, suas rugas confessavam sem cerimônia alguma.

Ela era ousada nos gestos, nos passos, nos vôos-pousos… e sobretudo, nas vontades. Citava Woolf, escrevia à Auden e Dickinson… dormia na companhia dos russos e acordava ao lado dos portugueses. Calçava os óculos feitos sob medida para se encaixar em suas orelhas pequenas. Não usava maquiagem… e eu sempre reparei no imenso prazer que sentia em cobrir suas vestimentas com seu velho avental azul.

Quando dizia poesias de Borges — um estranho naqueles dias… me fazia eclipse. Quando empilhava os livros diante de mim — para que eu provasse de novos aromas… me fazia lua cheia.

Percebi através dela que o primeiro amor não é oferecido a nós como sendo coisa entre homem-e-mulher ou mulher-e-homem… é apenas um crepitar do fogo junto a acha recém-chegada… esse cuore de batidas irregulares acontecendo dentro do peito.

A., foi o amor da minha juventude… a mulher que se aconchegou em meus olhos, permanecendo ali até o final do colégio, quando deitou em meu corpo um abraço demorado e meia dúzia de palavras em meus ouvidos: “eu fiz a minha parte, agora é com você”. Eu segurei firme em suas mãos… como quem se recusa a partir, consciente de que não poderia ficar. Nosso tempo juntas tinha chegado ao fim…

E o seu pulsar se encerrou nessa semana de janeiro. O filho mais velho dela — também professor —, fez a gentileza de avisar-me em poucas linhas… o suficiente para sabê-la em paz. ‘O cuore parou, disse ele, como o de seu personagem. Por sorte finalizamos a leitura de seu vermelho em tempo’.

Beda | O velho casarão da ‘du Passe-Mussete’…

Comecei a escrever assim que ocupei o último banco do ônibus 805-L — com suas curvas a direita e a esquerda… até chegar à Avenida Paulista — meu destino de hoje. Vou saltar no ponto em frente ao antigo prédio da Gazeta, com suas escadarias sempre ocupadas por insólitas figuras… não importa a hora do dia.

O ônibus subia pela Topázio (as ruas da Aclimação têm nomes de pedras preciosas) quando eu esbarrei nesse sobrado, com uma placa de madeira presa ao portão de ferro, a determinar a sua condição em demolição: a DEMOLIÇÃO foi autorizada pela Prefeitura.

Não consigo me acostumar com os hábitos paulistanos. Prédios morrem todos os dias… estacionamentos edifícios, e shoppings nascem de qualquer jeito, no meio do caminho, num piscar de olhos. Um instante de distração e você se perde da paisagem de ontem.

O ônibus parou no semáforo e o meu olhar aterrissou na janela balcão de madeira no segundo andar. Foi meu guia… me levou de volta no tempo e fui esbarrar em um velho casarão em Paris, que pertencia a sobreviventes da guerra. O casal trocou de sobrenome, escondeu a origem e sepultou os antepassados. Uma história bastante comum a milhares de famílias.

Descobri esse casarão ao ir para as famosas feirinhas de fim de semana, perto do boulevard, no final da Rue du Passe-Mussete. Estava fechado havia anos e era motivo de discussão dos vizinhos, que gostariam de vê-lo ocupado.

Havia perto dali um café-livraria… e da janela era possível observar a ilustre figura do casarão com seu estilo de casa europeia, com muitas janelas espalhadas ao longo da fachada. Todas fechadas, o que não permitia saber o interior e se tem algo que gosto de experimentar, são os interiores dos lugares.

Soube através do dono do Café que o casarão estava fechado desde a morte do casal, que não tinha filhos… herdeiros tampouco. Foi ele quem me entregou um pequeno flyer, anunciando uma interferência, promovida por um grupo de artista que tinha ocupado o lugar.

A casa virou um grande palco… durante ‘quarenta e cinco minutos’ percorremos os espaços mantidos intactos. O piso estava gasto, os móveis empoeirados. Mas, nos armários da cozinha, as louças permaneciam empilhadas com o cuidado de quem prepara as refeições do dia… e no quarto, as roupas apodreciam nos cabides. A cama estava feita e sobre o tapete, estavam a esperar por pés as chinelas.

A sensação ao percorrer cada um dos cômodos do velho sobrado… era de que as pessoas que ali viviam, tinham feito a mala e saído às pressas. Como se tivessem atendido a um chamado… da morte.

O casal foi encontrado na cama — lado a lado, de mãos dadas. Ela com sua camisola branca e ele com seu pijama marrom. Se despediram um do outro, tomaram seus remédios — em doses exageradas — e se adormeceram.

Ela estava frágil e o resultado dos últimos exames anunciou o inevitável: o sofrimento do corpo e da alma. Ele não estava disposto a vê-la sofrer, tampouco a viver o que lhe restava de vida sem sua ‘menina’. Foi essa a história que os autores contaram — a verdade que nos permitimos e imprimimos às paredes do lugar, que fechou suas portas imediatamente a nossa saída.

Sempre que vejo casas abandonadas, em ruínas — imagino vidas-histórias. Imagino o que não sei e invento o que posso.