BEDA | Minha lista de medos {aos treze}

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Encontrei no acaso do próprio acaso… o meu antigo ‘booklet journal’ — ferramenta habilidosa para se organizar e adquirir disciplina na lida com os afazeres, que se multiplicavam de um dia para o outro em meu tempo colegial.

Eu tinha — em meus dias de estudante — o estranho hábito de fazer listas… coisa que hoje é impensável-impraticável. Talvez por isso tenha me espantado ao me deparar com a tal ‘novidade’ imediatamente na primeira página do velho companheiro de estudos.

 


 

Tenho medo {aos treze anos}

  1. Do som das multidões
  2. Do sol do meio dia
  3. De pessoas enfurecidas
  4. Do menino bobo do segundo ano (o mais bonito, o mais forte, o mais seguro de si, o mais desejado pelas meninas… o mais, nunca menos) urgh
  5. De não ter tempo de chegar a última página do Romance do dia. (estou a ler MrsDalloway de Virginia Woolf)
  6. De ser reconhecida nos lugares onde passo.
  7. De ficar igual a minha tia (física e mentalmente)
  8. De formigas vermelhas
  9. Do som do telefone na madrugada
  10. De não conseguir calar a minha voz e dizer tudo que penso e sinto a alguém.


 

 …e lá se vão mais de vinte anos! — e eu confesso que senti uma enorme paz em me deparar com todos esses medos menores. Do menino do segundo ano — do qual não me lembro. Nem mesmo com grande esforço. Das formigas vermelhas, que viviam em nosso jardim… e que na infância ‘devoraram’ o meu pé. Era o espaço delas entre as margaridas {minhas flores favoritas até então}. Gostava de me enfiar entre elas e sentir aquele aroma sutilmente adocicado. Não havia aviso que ali era o ‘lar doce lar’ das benditas formigas vermelhas. Eu pisei, sem saber, num monte fofo de terra e depois disso só me lembro da forte dor que cresceu perna acima e me paralisou completamente. Voltei a mim apenas no dia seguinte… na cama de hospital. Tinha entrado em choque. Ganhei uma pulseira de identificação onde se podia ler: ‘alérgica’ com a minha cor favorita: o vermelho. E o conselho do simpático ‘doutor’: ‘fique longe de formigas e abelhas, bambina‘. Uma picada poderia me matar.

Ainda tendo medo de formigas e abelhas… e de multidões também. Do sol do meio dia… e acrescento, do verão tropical — porque meu corpo não se acostuma a essa brasa que faz arder o chão, o ar, a vida, a realidade e tudo que toca.

Mas, eu removeria alguns itens ali. Sinal de que algo mudou — em mim… ou no mundo.

Mas e você, tem medo de que?

 


selo para o BEDA

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S E P T U M

Sete… Septem… Setembro… Septum, do latim ‘aquilo que contém’ — quem conhece esta artesã das palavras sabe bem que se encontrará lá dentro, em cada linha de cada página, porque a colecionadora age assim… na calada da noite, nos gritos do dia, transformando pessoas em arte”.

Adriana Aneli


“minha pele tem…
suas próprias Estações”


 

 

 

 

 

Adriana Aneli também escreve diários…

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Lembro-me — e não sou boa em recordar pessoas — de nosso primeiro contato: apressado.  Seu passo pequeno sem deixar rastros. Olhar dissimulado… sem vertente de fazer somas. Nem mesmo voz parecia ter… foi apenas um gesto: cartão deitado em minhas mãos.

Bastou, no entanto, uma xícara de café, para sabê-la Mulher… de palavras e traços… de azul a bordô. Uma sombra no chão a marcar seus contornos, como se calculasse o espaço vago para si mesma.

Sempre breve e exata… um expresso degustado no final da tarde. Um bom presságio para um diálogo que não retorna… se espalha e se conjuga com sorriso esquadrilhado.

Foi café-amor, com narrativas que são tatuagens em busca de pele… e em linha reta foi… diário a narrar as peripécias do verão ao inverno, em poucas horas.

Também é poesia… missiva… é tudo que o papel aceita quando o silêncio se aconchega e e pais, mar… um céu esquecido. Memória. Ausência das horas. Caderno aberto. Xícara de chá quente. Um degustar demorado.

Senhoras e senhores: Adriana Aneli

adriana-e-lunna

 

 


Diário das Quatro Estações —  A construção da primavera
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação

Mariana Gouveia também escreve diários

Scenarium 381

Mariana foi gerada… no próprio útero — e dali se precipitou para o mundo… onde nos encontramos. Primeiro através de nossas palavras. Depois dentro de um abraço — onde nos esquecemos por um punhado de incontáveis segundos.

Gosto de “ouvi-la” narrar suas histórias — em linhas retas, que são ruas e quebras imprecisas — que são calçadas. Me sinto tragada por esse sopro de vento forte — rajadas tropicais — que varre a minha realidade.

Mariana é toda colorida de sol. Seus passos desenham mapas que os dias se ocupam de colorir. Seu nome é uma sonoridade antiga em meus quintais de fruta. A nona dizia que significava duas mulheres em uma mesma pessoa. Uma menina linda e uma mulher apaixonante.

Faz sentido… pois, não sei quem de fato escreve! Mas, desconfio que a menina junta as mãos em concha nos ouvidos da mulher… e cochicha seus sonhos e ilusões de vida. Uma espécie de itinerário — pequenos pontos no papel que a gente brinca de ligar um ao outro com um lápis preto para ver se vira desenho para fazer a menina sorrir.


 

Diário das Quatro Estações 

Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h

Biblioteca Mário de Andrade

R. da Consolação, 94 – Consolação

SEPTUM | Sou eu ali naquelas linhas…

Trago dentro do meu coração, como num cofre
que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive, todos os portos a que cheguei,
todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
ou de tombadilhos, sonhando, e tudo isso, que é tanto,
é pouco para o que eu quero.

Álvaro de Campos, in passagem das horas

seh M Pereira

Eu sou feita de metades… sou meio bruxa. meio arteira. meio artista. meio menina. meio moleque. meio mulher. meio homem. meio bicho. meio isso e meio aquilo…

Eu sou o que tiver que ser no momento em que as coisas se orientam junto a essa minha anatomia nada regular… já fui Deborah Bodeh, Julia Campos, Elizabeth Bennet, Alexandra Mendes, Anne Letrech, Mariana, Raissa, Catarina — a quem emprestei muito mais de mim do que eu realmente gostaria. Já fui tantos outros personagens que, não sei dizer como ainda não me esfumacei diante do espelho…

Tudo isso sou eu… tudo isso é minha escuridão-lucidez-perdição-insanidade, e outras coisas mais. Em ‘Septum‘, não posso dizer que sou apenas eu… porque, se você tropeçou em mim, eu também sou você! — e é exatamente sobre isso que escrevo em meu diário… um punhado de notas mentais para depois.



Diário das Quatro Estações 

Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h

Biblioteca Mário de Andrade

R. da Consolação, 94 – Consolação