BEDA |do verbo: transbordar…

lunna

…abril chegou, passou e acabou! Foi um a.b.r.i.l diferente por aqui, com posts diários, por causa do B.E.D.A (blog every day april).

Foi como pensar-escrever um livro-diário… com “apenas’ (?) trinta páginas. Escolhi o caderno vermelho, o tema… o lugar, a xícara de café e me pus a pensar os dias de Abril — e claro que nada saiu conforme o planejado-pensado porque faz tempo que a minha escrita tem vida própria.

Escrevo por escrever somente… um exercício natural-rebelde de palavra no papel. Um transbordar de sensações acumuladas. Eu preciso esvaziar-me de coisas que vão entrando e se acumulando pelos cantos da pele-alma-mente… e é exatamente o que eu faço.

Cheguei a conclusão de que sou como uma esponja — colho cenas dentro do Coletivo-trem… a cada passo dados pelas ruas-calçadas-esquinas. Falas inteiras ou pela metade. Uma janela que se abre no alto de um prédio. Uma criança que escapa do controle da mãe e atravessa — sem preocupação — a rua. Um estranho que se senta ao meu lado no café e fala de si, como se fosse eu um conhecido em que se pode confiar uma vida inteira.

Eu nunca sei quando-onde irei usar cada movimento que guardo e se de fato irei usar… mas não sou dada ao desperdício — guardo tudo.

E escrever, no entanto, me faz dialogar e traçar mapas de possibilidades futuras-secretas. Nesse Abril, eu abri essa caixa de pandora e os rascunhos de minhas vivências — que sempre guardo em pastas organizadas diariamente — transbordaram nessa página.

 


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BEDA | que tal um café?

Meio da tarde. O vento. Qualquer coisa de sol. Folhas avulsas-alheias. O futuro acena. Espero pela noite… para ver as sombras escorrerem pela parede. A xícara sobre a mesa. O último gole. Sempre café… preto-forte-denso. Observo o desenho de Mário preso a parede e me lembro que há um projeto sobre ele na gaveta.  Respiro fundo… ligo o com. Andrea Bocelli me devolve a paz por alguns instantes. Volto para casa. Viro páginas de livros.  Escrevo um texto pequeno sobre o movimento desse dia. Caderno vermelho. Folhas amarelas. Pés descalços. Vou até a janela. Fecho cortinas. Água na chaleira. Fogo aceso. Pó de café. Xícara. Passos pequenos por cômodos de ontem. Certos diálogos que trago na memória emergem. Me devolvem à realidade das coisas-horas-dias. Penso em Whitman. Mas o calendário me lembra que é abril… dias de Eliot. Releio ‘manhã à janela’. Tic tac. Ainda é dia-tarde-pelo-meio. Tenho uma última missiva a escrever. Já se foram três! São quatro. Os autores com quem trabalho já estão acostumados aos convites que faço — cartas para abril — foi um chamado, mas eles chamam de provocações. É sonoro… eu gosto. Me faz rir, como se alguém me fizesse cócegas. Escrevemos à Baudelaire, Ana C., Borges… falta escrever à Sophia… qual escritor recusaria esse convite? Escolher o lugar, a hora, a cidade, o poeta… chegar antes, esperar. Que tal um café?


 

Manhã à janela
T.S.Eliot

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

Tradução: Ivan Junqueira


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BEDA | escritores-mudos…

…passei os últimos dias sem ou quase sem voz. Uma crise alérgica afanou meus ‘preciosos’ acordes… e eu, que tenho imensa preferencia por ouvir o outro, tive uma desculpa perfeita para fazer o que prefiro: calar-me.

No entanto, para minha surpresa… não ter voz, foi bastante desconfortável… porque preciso ouvir-me. Não sei escrever sem ler incontáveis vezes o que escrevo. Não basta murmurar palavras. Mover os lábios… e ouvir dentro as frases entregues ao papel-tela. Para ser eco, é preciso que exista qualquer coisa de som.

Descobri que não tenho vocação para morcego… captar ondas não serve para mim. Preciso do som da minha voz — feito música —, a reverberar o que brota dos dedos-mente-memória… tanto para os meus escritos quanto para os escritos alheios, que avalio para publicações pela Scenarium.

E a rouquidão — que inicialmente foi motivo de satisfação —, acabou por ser motivo de aborrecimento e resultou em acúmulo de trabalho. E o sorriso por ter em mãos uma desculpa convincente para o silêncio que tanto aprecio… esvaziou-se, convertida que fui a condição de escritora-muda.

Todo esse cenário-inédito — nunca passei tanto tempo sem voz —, bastou para voltar a questionar-criticar-e-esbravejar com os escritores-contemporâneos que apenas escrevem… e não lêem — outros autores —, quiçá os próprios escritos, tecidos em meio ao silêncio de paredes do corpo-casa-lugar.

Esses escritores-mudos, no entanto, querem ser lidos. Contudo, como pretendem ser um Eco para o leitor é um grande mistério para mim…


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1/365…

‘eu nunca escrevi futuros
sempre escrevi passados’

 

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A agenda com sua capa vermelha exibe — como quem afronta — trezentas e tantas páginas em branco, o único novo que realmente conheço. E volto no tempo… não o ontem-velho — esse eu atravesso… e aterrisso no ontem-caduco.

Volto à infância, em mil novecentos e oitenta e oito-quase-nove… e vejo os meus olhos-de-menina, a enfrentar o vermelho da capa e um punhado de páginas em branco. Tremi por dentro, como um trovão no azul.

Passou o tempo, eu cresci (?), mas ainda sinto trovões do lado de dentro, impulsionados pelo vermelho… e pergunto o que escrever à minha alma, como se ainda não tivesse vocabulário o bastante, idioma próprio… e não ousasse dizer em voz alta aquele desejo tolo, considerado inadequado por mim e geografia tão minha… pela mulher que me olhava com suas certezas do outro lado da mesa da cozinha.

Ela sabia o futuro — como se fossem cartas na mesa de uma cartomante —, que eu recusaria no dia seguinte e em todos os outros. E fugiria como se o destino fosse uma folha de rascunho amassada com força, por meus dedos sempre pequenos.

Vou para a cozinha e separo os ingredientes… misturo-os. Faço pão e aguardo pela fornada. Eu sempre adorei o ‘tempo das esperas’... nossas somas secretas. O privilégio de saber o cuore um pêndulo dentro do peito. E, a bordo de tudo que sei sobre mim, misturo os tempos e escrevo… o branco aos poucos cede-se-perde e dois mil e dezoito acontece, enquanto futuro-premissa, figura tão incerta quanto o ontem.

BEDA | Minha lista de medos {aos treze}

Sempre a lápis

Encontrei no acaso do próprio acaso… o meu antigo ‘booklet journal’ — ferramenta habilidosa para se organizar e adquirir disciplina na lida com os afazeres, que se multiplicavam de um dia para o outro em meu tempo colegial.

Eu tinha — em meus dias de estudante — o estranho hábito de fazer listas… coisa que hoje é impensável-impraticável. Talvez por isso tenha me espantado ao me deparar com a tal ‘novidade’ imediatamente na primeira página do velho companheiro de estudos.

 


 

Tenho medo {aos treze anos}

  1. Do som das multidões
  2. Do sol do meio dia
  3. De pessoas enfurecidas
  4. Do menino bobo do segundo ano (o mais bonito, o mais forte, o mais seguro de si, o mais desejado pelas meninas… o mais, nunca menos) urgh
  5. De não ter tempo de chegar a última página do Romance do dia. (estou a ler MrsDalloway de Virginia Woolf)
  6. De ser reconhecida nos lugares onde passo.
  7. De ficar igual a minha tia (física e mentalmente)
  8. De formigas vermelhas
  9. Do som do telefone na madrugada
  10. De não conseguir calar a minha voz e dizer tudo que penso e sinto a alguém.

 

 …e lá se vão mais de vinte anos! — e eu confesso que senti uma enorme paz em me deparar com todos esses medos menores. Do menino do segundo ano — do qual não me lembro. Nem mesmo com grande esforço. Das formigas vermelhas, que viviam em nosso jardim… e que na infância ‘devoraram’ o meu pé. Era o espaço delas entre as margaridas {minhas flores favoritas até então}. Gostava de me enfiar entre elas e sentir aquele aroma sutilmente adocicado. Não havia aviso que ali era o ‘lar doce lar’ das benditas formigas vermelhas. Eu pisei, sem saber, num monte fofo de terra e depois disso só me lembro da forte dor que cresceu perna acima e me paralisou completamente. Voltei a mim apenas no dia seguinte… na cama de hospital. Tinha entrado em choque. Ganhei uma pulseira de identificação onde se podia ler: ‘alérgica’ com a minha cor favorita: o vermelho. E o conselho do simpático ‘doutor’: ‘fique longe de formigas e abelhas, bambina‘. Uma picada poderia me matar.

Ainda tendo medo de formigas e abelhas… e de multidões também. Do sol do meio dia… e acrescento, do verão tropical — porque meu corpo não se acostuma a essa brasa que faz arder o chão, o ar, a vida, a realidade e tudo que toca.

Mas, eu removeria alguns itens ali. Sinal de que algo mudou — em mim… ou no mundo.

Mas e você, tem medo de que?

 


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