Diário de minhas insanidades, 14

Deixa-me adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi alheio e a vida foi comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Alberto de Lacerda

…sai de casa pouco depois das seis horas de um quase noite tumultuado. As ruas estavam entupidas e fiquei com a sensação de que não chegaria ao meu destino comum às noites terças a tempo. Desci no meio do caminho… e mergulhei nos contornos de sempre. Atropelei uma dúzia e meia de figuras estranhas, dispostas a tumultuar uma realidade frágil… e pronto. Cheguei ao prédio espelhado no começo da Avenida Paulista…

W., é uma dessas senhoras com olhar atento às coisas frágeis… sabe o outro apenas por ouvir um combinado de vogais e consoantes que podem ou não ser separados por vírgulas, pontos, exclamações e/ou interrogações. Toma nota de tudo… Às vezes, penso que até a quantidade de vezes, que respiro, estão anotadas em seu velho caderno, sempre apoiado sobre as pernas cruzadas. A caneta, que usa, foi presente do marido. Ela não exibe fotografias dos filhos em sua sala… mas em sua mesa, a fotografia de uma gata-branca-gorda-e-velha tem lugar de destaque.

Assim que me sentei… ela fez duas perguntas — uma depois da outra, em sequência, sem me dar tempo para respirar. Geralmente fica sentada… em estado de espera. Não tem pressa. Deixa que eu me acomode. Parece saber da necessidade de me adaptar ao espaço-lugar. Deixa meu corpo se misturar as figuras todas. Mas hoje foi diferente… perguntou como foi o meu dia? Havia qualquer coisa de apreensão em seus gestos, que poderia ser motivada pela bagunça nas ruas. Uma gente movida pelo ‘não querer’.

Não sou acostumava a responder essa pergunta… meus dias são combinados expressivos de palavras no papel. Monótonos por definição. Ariscos por natureza. São bons quando domo todos os elementos e os organizo. São indóceis quando os personagens do meu dia se rebelam. Mas nada disso se resume a bom ou ruim. É apenas mais um dia nessa seara de dias-semanas-meses-e-ano nesse calendário humano.

Depois quis saber sobre meu novo projeto de vida — vermelho por dentro. Respirei fundo. Minha resposta foi breve… curta. Duas palavras bastaram. Ela exibiu um sorriso estreito e pouco depois: respirou fundo… demonstrando que esperava mais. Ela queria reticências…  e eu ofereci um ponto final.

Ela insistiu com dizeres estranhos… disse que eu devo viver a minha vida sem desperdiçar o meu tempo. Não deixar passar as oportunidades e, ao me ver sorrir… quis saber o que eu pensava sobre aquelas afirmações…

…’não sou laranja para ser espremida e virar suco’ — foi o que pensei, sem nada dizer… enquanto procurava por um porto onde atracar o meu corpo. Queria não ter ido até lá, agora estou aborrecida a pensar no que não se desenha através de mim. O livro é um rascunho antigo, mas precisa de tato e eu não tenho conseguido me desvencilhar de todas as coisas da minha vida para pensar nele. Preciso me render-entregar-me-doar, mas por enquanto, olho para ele e penso no tal do amanhã, como a chata da Scarlet no igualmente chato: ‘e o vento levou’…

Diário das minhas insanidades, 10

“existir à sombra de alguém é a mais difícil das artes — porque significa que estamos a olhar constantemente em um espelho”
Lacan

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A caminho de meu encontro semanal com W., observava o chão onde minha sombra perfazia seu traço comum, enquanto relembrava a conversa da sessão anterior, quando sutilmente — de seu canto de mundo-vida, ocupando seu papel comum na realidade que lhe cabe — me questionou: “quem é a sua sombra?”… 

Eu fiz silêncio, respirei fundo e visitei minha vida inteira — trinta e cinco anos — em poucos segundos… e de imediato, me lembrei de um sonho dentro da noite passada, que me fez sentir imensa falta dos diálogos-abraços-olhares de C.

Recordei as manhãs de sábado, vividos em sua companhia, as caminhadas pelo bairro até o mercado. A vi preparar os vasos da casa, com suas flores favoritas. Ouvi sua voz imersa em pequenas pausas, a narrar seus contos favoritos. A tomar nota de sua realidade nas páginas de amarelecidos tons de seu moleskine. A escrever missivas, em brancas folhas… e esperar pelo babo, no final de mais uma tarde, sentada no último degrau da escada, com um livro de poesias em mãos.

Voltei, por um breve instante, às ruas de Gênova, onde certa vez, percebi que nossas sombras eram uma mesma coisa no chão: um desenho uno, uma mistura perfeita… uma espécie de treva espessa…

Conclui que somos sempre a sombra de alguém, para alguém… e por um milésimo de segundo… quis devolver a pergunta à W., mas não o fiz — não sou dada a perguntas… mas por alguma estranha razão sempre tenho as respostas — reais ou imaginárias.

Gosto imenso de observar o desenho — estranhamente — humano, que se forma a partir de mim… como se um espelho fosse, a refletir a realidade que sou, sem artifícios mil.

A sombra é o que temos de mais verdadeiro… uma noite inteira se impondo dentro das luzes do dia. Um intervalo de tempo e espaço entre as coisas demasiadamente humanas. Uma coreografia capaz de nos fazer perceber o quanto nossos movimentos no mundo são limitados. Julgamos existir acima de tudo e todos e, no entanto, somos incapazes de alguma coisa ser de fato, sem a luz do sol, o ar que respiramos, as pessoas a quem abraçamos… absolutamente tudo depende da maneira como nos posicionamos no mundo. É preciso a luz natural-artificial para que essa pintura no chão seja esse reflexo que não se apaga, tampouco se recusa.

W., é figura sarcástica, mas é um humano contido… a luz da luminária que mantêm em seu espaço não permite um desenho dela junto ao chão, e como seus movimentos são poucos – quase inexistentes — pouco de si se espalha. Acho fascinante como o sorriso dela costuma determinar o impacto que minhas falas causa em sua figura humana.

…e hoje, ao medir meus passos e a realidade pela Paulista, concluo: nem todos sabem ser sombra ou existir à sombra! A maioria dos humanos não está preparada a confessar sua escuridão… prefere acreditar que é apenas luz… e o que fica no chão é qualquer coisa menor-sem-importância-ou-substância — qualquer coisa que se apaga, como se fosse uma palavra escrita a lápis, cuja existência se limita ao efeito da borracha…

Reticências | Verão

1.

— é noite lá fora e eu repito pra mim mesma, como se fosse um mantra: “é preciso calma para não perder o rumo”. Trago em meus músculos (cansados de não parar) o cansaço de um dia inteiro a andar por aí…

Enquanto penso no cardápio para mais tarde — risoto branco, insallata romana — repasso o punhado de imagens de um dia que começou com chuva. Manso e Lento. Impreciso, com a janela umedecida pelas chuvas de verão que, começaram mais cedo esse ano… e de repente, se apressou por todos os cantos da casa, me expulsando do lugar. O sol invadiu as frestas, se apoderou da sala e me mandou sair… dizendo — com sua voz rude — para eu me perder em diversas direções.

Eu apenas obedeci porque conclui pouco antes de abrir a porta, que um escritor, precisa alimentar-se diariamente das coisas — todas — que a vida oferece, renovando todo os dias os seus argumentos…

Me deixei conduziu pelo olhar… percebi no meio do passo vago-sem-pressa-ou-mapas, os diferentes cenários da cidade: poças que ninguém lembrou de pisar. Um homem a arrastar seu passo, sua carcaça, seu descanso consigo mesmo, sua tristeza mais imunda, sua dor mais ingrata por um traço conhecido. Um cachorro sujo a seguir-me com sua calda em movimento e seu olhar mais humano. Sua alegria mais simples. Sua emoção mais sincera. Ele queria afago, companhia, um canto no sofá, uma vasilha com água, outra com comida e eu não lhe pude oferecer, nem mesmo o olhar, pois seria um aceno-convite… tropecei nessa mulher rude, a esbravejar contra o vento seus lamentos. Ela sujava o mundo com suas palavras equivocadas. Rasgava o ar com sua faca cega. Chutava o que encontrava para longe sem se importar se atingiria ou não alguém. Esbarrei em um pássaro em seu voo lúcido-lúdico-sereno pelo meio da rua, como se fosse pousar, mas foi preciso repensar a trajetória. Deixou comigo seu canto intenso-agudo-perfeito…

E por assim dizer, o presente que eu degustei há pouco já se desfez… virou passado em frações milimétricas de segundos, mas permanece aqui dentro — a salvo — e eu sigo embaralhando-as numa tentativa de abotoar as imagens à minha matéria, negando-as o inconveniente de não serem nada mais pela manhã… porque sou desde sempre, como um velho álbum de fotografias sempre as mãos…

Reticências | Outono

1.

 

Chove lá fora, talvez por isso eu tenha arrastado minha carcaça humana até esse canto da casa. Acomodei minha anatomia no sofá e fiquei a observar a chuva por alguns minutos, até me perder totalmente de mim mesma… gosto imensa dessa premissa que soa como prece que faço aos ares que respiro. Em dias de chuva fica tudo mais leve…

Conto os dias nos dedos das mãos… como no tempo da infância — uma brincadeira de pedras — e me perco. Erro a soma — respiro fundo — o tempo segue seu destino metódico e os ponteiros contam sua prosa infernal. O riso vai surgindo — arteiro — no canto dos meus lábios e sem saber se cedo ou tarde, vou até a cozinha preparar uma xícara de chá…

O meu silencio hoje é de brisa no meio da tarde "orvalhada"… em mim, é sempre assim: acontecem diferentes tipos de silêncios. Dos passos junto às calçadas, de uma janela fechada, de uma madrugada a desaparecer, de uma casa branca no meio do quarteirão em estado de abandono, da página de um livro que esqueço de virar, afastando-me das palavras por uma pequena eternidade, do outro que vem em minha direção e pensa me entregar um aceno, mas prefere — no último segundo — reter o movimento em seu corpo, ignorando-me.

E com a xícara de chá em mãos, volto ao canto do sofá, ao olhar pela janela junto as ruas e as páginas desse caderno velho — meu diário — onde escrevo outonos, reinventando-o já que por aqui faltam folhas-cores-galhos-nus-e-pesadas-sombras…

 

— Lunna Guedes, in: Reticências —

Reticencias | Inverno

 

1.

Cinco horas – diz o relógio. Vinte e um de junho – diz o calendário… E quanto a mim? – o que eu digo? Um punhado de silêncios enquanto deixo escorrer dos lábios qualquer coisa de sorriso imerso em qualquer coisa de ironia. Encaro a parede branca a minha frente, respiro fundo e penso nos anos que se acumulam junto à soleira da minha alma que de certa maneira é uma porta e nem sempre está aberta…

Já confesso sentir o peso de um arrependimento que ainda não existe, mas que de certo irá se precipitar junto a mim amanhã ou depois. Por enquanto tudo que sinto de fato é esse precipitar de sensações. Olho a minha volta e questiono os objetos todos: como começar? O que dizer? – e nenhuma resposta me alcança de fato. A única coisa que de fato me alcança é essa sensação de fracasso porque já tem algum tempo que eu insisto nessa história de voltar a escrever um diário e não satisfeita inventei de transformar isso num projeto de vida – como forma de afrontar a minha própria recusa…

Foram seis tentativas até agora – o que faz dessa a sétima e mesmo gostando muito desse número que sempre se precipita junto a minha anatomia – tenho pra mim que o dia seguinte, desde já é minha maior dicotomia e, confesso que já percebo em minha derme o cansaço, o descaso e consequentemente o abandono…

E o amanhã distribui suas ironias dentro do tempo presente do qual me afasto para buscar aconchego em qualquer coisa de memória. Houve um tempo anterior a esse em que tudo se orientava sem demora. Hoje, as coisas são um combinado de equívocos – nada a minha volta se completa. Tudo converge no sentido de esvaziar-se antes do derradeiro fim… Ao depois pertencem todas as minhas coisas que já nascem fadadas ao fracasso – fadadas a serem figuras em branco. Incompletas. Um comboio a descarrilhar-se depois da segunda curva…

Confesso que comprei um caderno qualquer, sem muitas folhas. Não tive cuidado. Não houve preocupação alguma da minha parte. Peguei o primeiro que vi. Deixei-no ali no canto da mesa para onde olho sempre, mas até agora nenhuma palavra e o inverno segue sua marcha. Acho que desisti antes mesmo de iniciar-me nessa aventura e está é minha carta de demissão regada com uma bela quantidade de frases imprecisas.

 

 

Eu só queria entender
porque eu sempre
desisto dos meus diários.

 

— Lunna Guedes, in: Reticências —