30 | The cat´s house

…de todos os livros disponíveis na pilha, ele escolheu o único que poderia iluminar a sua anatomia de homem — que, minutos antes, tinha aberto a porta para que a autora de dias desfeitos… entrasse.
Ele tinha recusado Modigliani — o primeiro. Picasso — o segundo… e todos os outros artistas, que foram deixados sobre um banquinho-de-madeira — um item de decoração de um espaço colorido por ilusões particulares.
Inconsciente e disperso da realidade… se fez visível aos olhos da figura indomável, que bufava pesado contra os diálogos disparados em bocas nada santas, dentro de uma tarde aquecida.
Atenta à porta… ela planejava uma saída à francesa e enquanto tramava a fuga, entregava sorrisos opacos-amarelos-envidraçados à quem se lembrava de sua presença. Não dizia palavra. Seu olhar atravessava a parede… e pousava nas muitas páginas que tinha para si, em seu universo alternativo àquele. Uma mesa cheia de papéis, deixados de lado.
Concluiu ao espiar o tempo nos ponteiros do dia, que era cedo demais para estar ali e tarde para permanecer. Ponderou os passos e os caminhos — contando-os. Era a única soma que se permitia. Observou os estranhos na contramão durante suas andanças lentas por calçadas-ruas-esquinas… desenhando na pele  — por dentro — os traços dos personagens que se ofereciam ao seu olhar guloso.
Mas… de todos os livros disponíveis: ele escolheu Hopper. Um café na esquina, uma rua vazia. Olhares distantes. Espaços. Sombras. Frio e silêncio. Uma barbearia. Um escritório. Um posto de gasolina. Um teatro. Uma mulher. Um homem. Centenas de objetos. Dúzias de personagens. Milhares de perguntas. Nenhuma resposta! Apenas um único elemento a vibrar…
Estão todos — em cena — entretidos por uma solidão urbana — quase inevitável. Um espaço que a maioria não quer estar-ocupar… de quietude — invisível! Condição que ele — convertido em personagem —  experimentava ao folhear as páginas daquele livro.
Café frio, esquecido no fundo da xícara que a boca recusa… ele avançava rápido demais, sem cuidado ou fôlego. Não se detinha tempo o bastante nas figuras nada modernas do artista. Parecia preferir o diálogo servido em bandejas imaginárias por aquela gente de frases prontas.
Parou — sem querer — na página cinquenta e seis… atraído que foi por uma nova conversa. Algo sobre reformas. Não reparou na personagem retratada por Hopper — manhã numa grande cidade — que se ofereceu ao olhar da autora sem papel… que escreveu por dentro: “o olhar do homem nesta janela, não procura apenas o horizonte, o céu ou a fachada e o telhado da casa do outro lado da rua. Está alienado, ausente de si…  preso no verso de sua própria pele“.
De coadjuvante, o estranho em pé junto ao balcão passou a ser uma espécie de citação de Ralph Waldo Emerson — ‘o grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão“… The cat’s house

20 | * tarde numa Grande Cidade…

Passa das quatro, o céu está nublado e a cidade sem movimentos, é um dia frio… as horas avançam em pares e a tarde se perde dos meus olhos. As preces crescem nas janelas que os meus olhos alcançam. Tenho essa mania — desde a infância — observar esses espaços onde vez ou outra um rosto se deixa emoldurar…
Não é curiosidade o que me ocorre-move. Eu não tenho apreço algum pela vida alheia. É qualquer coisa cinematográfica — roteiros que se desenham na imensidão do ar. Como espiar uma tela de Hopper na parede de uma galeria-museu. Atravessar o olhar do artista ou apenas alcançá-lo…
E com essa sensação de filme que se escreve no verso da folha… permaneço em pé-imóvel, com a xícara de chá em mãos. Vasculho possibilidades. Tantas vidas por um fio. Formas de silêncio inquisidor. A última volta do ponteiro… tic tac.
Uma vida urbana captura o meu olhar. Um veglio signore no prédio da frente. Quinta janela no canto esquerdo dos meus olhos. Ele caminha pelo quarto com alguma dificuldade. Há um andador ao  lado da cama e uma enfermeira vigia o que lhe resta de vida. Lhe entrega pontualmente os medicamentos. Se em algum dia a sua vida foi uma desordem, hoje cumpre as horas marcadas.
Os cuidados não agradam… ele ralha-resmunga. E se pudesse fugiria dali. Está cansado-e-sem-forças para mais uma batalha — a essa altura da vida. Ele recebe um copo com água em uma das mãos. Respira e atira contra a boca um punhado de comprimidos. Um gole de água e pronto.
Ele é tão submisso…  seu olhar vasculha a paisagem como fosse sua última noite. Um sono que respeita a morte e o que foi vida… e que hoje é apenas dor pessoal. Se encolhe num gole raso de ar. Já não tem mais disposição para grande feitos-somas — não precisa mais do tudo. Recorda a si. Tempo anterior. A força dos músculos-nervos. Tudo tão frágil. A coluna dobrou e não volta mais para o lugar. Recorda os dias quentes-febris.  A juventude e os excessos. Levanta a cabeça e lamenta não enxergar mais as estrelas. É apenas imensidão escura, embaçada. Nem os óculos lhe devolvem as paisagens roubadas. Faz anos que tudo virou um grande borrão.
Nos encontramos — repentinamente — dentro de um mesmo instante. Sinto vontade de sorrir-acenar… dizer “estou aqui”. Mas, o único gesto é dele… fecha a cortina e o filme se encerra… mas eu permaneço dentro da mesma cena. Avanço e retrocedo um sem-fim de vezes. Certos filmes não se encerram ao subir das letrinhas apressadas. O livro nunca chega ao fim quando o fecho.

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  | * título adaptado da tela de Eduard Hopper
“manhã numa Grande Cidade” |