O fio das missangas (mia couto)

“há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol.
O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem.
O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.
Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir as contas”…
Trecho do conto “a despedideira”

o fio das missangas

 

O livro “o fio das missangas“ de Mia Couto foi minha companhia na madrugada, que passou. É um livro típico de um “contador de histórias”, que alinhava suas histórias de desamor-desencontros-incompreensões-sonhos-não-realizados, são as missangas em redor de um fio, a formar o colar, no caso: o livro…

Mia Couto é um ‘contador de histórias’ como era o mio nono, que esperava pelos dias de domingo para contar suas histórias impossíveis. Eu gostava de ouví-lo. Aprendi com ele a história da minha cidade-país. Entendi as dores do horror e as alegrias que mesmo sem licença, diante de tanta falta, acontecia. São vozes diferentes, mas gosto de ouví-las — cada qual em seu tempo de vida.

Descobri Mia Couto através de uma missiva — dessas que chegam pelos correios com selo, envelope e, endereço no rodapé. A pessoa-correspondente usou um trecho do livro “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” para justificar suas sentimentalidades de momento. E sem saber, me deu muito mais que um punhado de vida-realidade.

Encontrei o autor Mia Couto e seu livro numa dessas livrarias pequenas-encantadoras-e-charmosas, que — infelizmente — estão a desaparecer. Dizem que ainda restam algumas em Lisboa e Coimbra. Mas já ouvi dizer que estão com os dias contados. E, isso me deixa ser ar… a pensar nos muitos encontros que deixarão de acontecer. Mas a vida é assim, com suas histórias impossíveis, alinhavadas pela realidade.

O fio das missangas eu encontrei tempos depois, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, aqui em São Paulo. Não procurava por Mia — nem por outro autor. Apenas percorria prateleiras, como de costume. E lá estava o seu ‘novo livro’… de contos.

E em cada página, uma realidade feminina — real e também imaginária — salta das páginas. Comecei a ler ali mesmo para ter certeza da aventura proposta e fiquei com a sensação de que o autor se empenhou em não deixar se perder-desaparecer… as histórias das mulheres de seu país que, em ‘sua voz’, passam ser histórias de todas nós.

Na África de Mia Couto, as mulheres ainda são objetos descartáveis. E, uma vez esgotado seu valor de uso, são equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora a um simples fio de missangas.

Eu ainda estou a bordo do livro — confesso — a pensar em Maria Metade, que nunca se sentiu inteira e sempre sonhou com cuidado porque ‘pobre não sonha tudo, nem depressa‘. Essa foi uma das histórias que se enroscaram na pele e me calou. Precisei fazer pausa. Chá. Pão. Silêncio… olhar para o branco da parede e pensar em todas as Marias que já conheci… e as que não sei, mas que vivem por aí.


 

Fio das Missangas
Companhia das Letras
Mia Couto

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Escrever é estar sempre a deriva…

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Pela manhã… comecei a escrever mais um capítulo de minha ‘novella’. É isso que escrevo: novella… como Jane Austen — essa senhora a quem atribuo a culpa pelo despertar da paixão por esse gênero literário. Já li tantas vezes seu ‘orgulho e preconceito’ que me antecipo aos diálogos e cenários.

Escrever não é algo simples ou fácil, você deve saber… requer disciplina-entrega-rendição. Não é uma equação nada fácil — com somas-subtrações e seus resultados inquestionáveis. Não mesmo…

A vida de uma pessoa-escritora acaba convertida em barco à deriva, em busca de um cais. Sem bússola, mapa — nada. E parte de mim sempre soube que seria assim. Por isso a recusa existiu. Fugi dessa realidade e fui navegar outros mares. Buscar outras direções — que fossem um ponto seguro no meu mapa de vivências.

Mas olha o cais onde o Barco que sou… inventou de atracar. E a vida? — esse elemento estranho — se deixou converter em coisa sem substância. Meus dias passaram a ser uma busca desenfreadas por metáforas. Esse estar aqui, alheia a tudo que suspira lá fora. Esse estar aqui… a viver coisas várias — tudo e nada. A saltar no escuro… a cair no abismo-mundo… inventado a partir de formas e espaços subtraídos de cada passo dado. Uma fruta madura colhida do galho mais alto.

…tudo partindo sempre do mesmo branco — aquele pálido lugar, que reina durante horas inteiras até você encontrar o diálogo e o cenário perfeito. Não é possível menos…

Mas até acontecer esse instante único… é um transitar por ruas com casas lado a lado… a dizer realidades secretas, que você quer emprestada para si e nem sempre consegue porque a folha não aceita qualquer coisa. E o vazio é a única substancia que insiste em si… essa coisa dura-crua-fria-cruel a rasgar a pele-alma ao meio.

Mas há quem diga que escrever é apenas um deitar fora o que está dentro. Eu finjo um sorriso nos lábios e engulo o soluço — esse desaforo perverso — e volto para o canto, de onde nem sempre quero sair.

Hoje a personagem fez confissões e o branco acabou povoado pelo vermelho que trago dentro. Bebi vários goles de café e acumulei inúmeras xícaras vazias ao meu redor. O capítulo sangrou e eu também.

BEDA | Cada escritor tem um lugar para chamar de seu…

DSC00848.jpgSão Paulo é uma cidade logarítmica… com dúzias de árvores prestes a cair e centenas de portões incumbidos de manter inúmeras pessoas do lado de fora e outras tantas do lado de dentro.

Milhares de carros, passos e olhares passam pelas mesmas ruas todos os dias num atropelo desenfreado de movimentos. Os congestionamentos batem constantes recordes, como um nó impossível de desatar.

Quando chove… litros de água desmoronam em cortinas de gotas furiosas que levam poucos segundos para inundar as ruas, que nascem sobre rios que, enterrados ou não: transbordam… e muitas pessoas “se afogam” em lamentos repetitivos.

O clima mudou: o calor persiste… há tempos não fazia tanto calor — diz a moça do tempo… querendo impressionar, como se já não bastante as altas temperaturas anunciadas por um dos diversos relógios espalhados pelas vias da desorientada Paulicéia.

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Alguém pichou recentemente o muro da casa do prefeito — sampa não está à venda — com a mesma tinta e caligrafia horrenda que pode ser vista em dúzias de paredes dos prédios da cidade, que me faz lembrar a velha Europa em seus piores dias. Mais uma soma nessa metrópole matemática.

São Paulo sempre esteve a venda — retruco de dentro ônibus — enquanto aprecio os desenhos da Avenida Paulista… essa reta inventada em terras alheias para ser futuro-promessa. Quem aqui vive desconhece a história que cada construção esconde e grita bobagens para meia dúzia de tolos… repetir e se engasgar.

A maioria não sabe absolutamente nada do lugar onde pisam-moram. Aqui é terra de quem paga mais… leva. E foi assim desde o começo. Os portugueses ao desembarcarem no ‘planalto paulista’ cuspiram no solo pantanoso. Não havia o que aproveitar: ‘em se plantando nada dá’. Era um lugar com ‘clima ruim’, solo irregular — entrecortado por dezenas de rios. Foram embora… explorar outros lugarejos. E a ‘cidade’ descoberta em 1554 não conseguiu ser nem mesmo um traço no mapa do país. Esquecida, virou abrigo para os jesuítas e pouco depois… vila de passagem para os Bandeirantes — heróis para uns, vilões para outros. Com o facão em mãos, mataram índios e rasgaram matas… fizeram os primeiros traços do mapa do ‘futuro’ Estado mais rico do Brasil.

Quem estuda a história dessa cidade, talvez se surpreenda ao saber que São Paulo se inventou para o Brasil em pouco mais de cem anos. Ironicamente… soube seguir o fluxo do rio. Aproveitou-se do dinheiro verde… quando foi o maior produtor de Café do país  — se reinventou… investindo na indústria, comercio e entrou para o mundo dos negócios, atraindo investidores do mundo inteiro. São Paulo aprendeu a andar na contramão de si mesmo. Talvez por isso, seja tão estranho esbarrar em tantas pessoas conservadoras… a reclamar-esbravejar das mudanças que emergem desse solo.

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Da Vila de Piratininga, nascida nos arredores do Pátio do Colégio  — pouco resta. São Paulo se transformou num monstro urbano, que se reinventa de tempos em tempos  — mastigando e engolindo o próprio passado, cuspido em forma de futuro.

São Paulo não foi pensada para ser uma cidade… foi o sonho individual de alguns. Um belo punhado de milho atirado aos pombos — que dividem espaço com os pardais. Cada bairro da cidade é um pequeno país. É delicioso ouvir tantos idiomas, provar de tantas cores e saber que aqui ser estrangeiro é um prazer que divido com muitos, curiosamente somos mais paulistanos. Conhecemos a cidade, como se repetíssemos nossos antepassados.

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Quando cheguei… São Paulo era cinza-quase-incolor, o verde estava em extinção. As ruas eram sujas. Os prédios envenenados e as pessoas viviam engessadas numa pressa insana de ir e vir, sem saber o lugar. À primeira vista foi ódio-desconforto — quis ir embora e fui… voltei quase dez anos depois para me apaixonar por esses traços irregulares, essa realidade perturbadora, que não cansa de gritar com os nossos olhos. E me saber a casa, porque cada escritor tem um lugar para chamar de seu… aqui é minha ilha, ‘minha pequena porção’ de mundo-realidade.

selo para o BEDA

Os cafés da cidade…

 

Passa da uma — a cidade arde — e tudo parece banhado por um falso dourado, que desenha sombras pelas calçadas do bairro. Arrastei o meu corpo para fora, levando-o até o café entre esquinas… aquele com sua sereia de duas caudas, que herdou o nome do personagem do livro Moby Dick.

Sentada na mesa mais ao canto — lugar que gosto e prefiro — aprecio alguns movimentos até me distanciar totalmente deles. Algo em mim se desliga… e, as palavras povoam os meus hemisférios todos.

É sobre esse ato de escrever em cafés… a matéria da Revista literária Plural. Tornou-se um hábito comum na cidade da garoa: trabalhar-estudar-escrever nos famosos cafés descolados, que ocupam as principais esquinas da cidade. Ainda há muitas pessoas que não compreendem a “nova mania”, que desembarcou na Paulicéia do Mário… ainda que tardiamente.

Quando cheguei por aqui, trouxe esse ‘velho hábito’ na bagagem… me lembro de alguns cafés europeus, onde escritores tinham cadeira cativas e ‘seus donos’ — como cães abanar a cauda — anunciavam eufóricos os livros, que ali haviam sido concebidos… exibindo eufóricos as fotografias de seus ‘clientes famosos’.

Eu ainda me lembro do desconforto demonstrado por alguns garçons — em um velho café do Alto da Lapa — que se incomodavam com a minha presença. Eles passavam inúmeras vezes pela minha mesa e pareciam contar as inúmeras xícaras de café — machiatto, ristreto, com ou sem gengibre… sempre sem açúcar. 

Passado algum tempo, a minha ausência passou a ser motivo de preocupação. Se mostravam aliviados quando eu ultrapassava a porta. Não demorou para se mostrarem satisfeitos em antecipar-se ao meu pedido. Bastava levantar o dedo para ouvir  a voz rouca-satisfeita do rapaz indagar: ‘machiatto?’…

Certa vez um deles — ao trazer minha xícara de café — quis saber: “o que tanto escreve nesse computador?”… e, a resposta espalhou-se pelos quatro cantos do lugar — trazendo a gerente a minha mesa. Acabou o sossego…

Em formato artesanal, meu primeiro livro foi lançado ali mesmo… os “amigos do café” receberam exemplares em mãos e diziam, com estranho prazer, que iriam ler e comentar.

A gerente já não é mais a mesma, mas antes de embarcar para sua viagem, fez questão de me apresentar ao ‘novo diretor’… e, dizer a ele, que a minha mesa (reservada) é a do canto junto a janela — de onde posso observar as pessoas, colher pedaços de diálogos e, descobrir personagens…

E sempre que alguém me pergunta: como consigo trabalhar em um lugar assim… recordo esses momentos singulares. Minha escrita pressupõe movimento e me pede essa ‘viagem atemporal’, que me leva de encontro a esse lugar confortável… a mesa da cozinha nas férias de verão, com seu horizonte particular e o cheiro delicioso do café feito pelo nono a transbordar sensações.

Me organizo por inteira… dou rumo aos meus personagens, escrevo minhas linhas em pares, traço diálogos entre nós duas — a criança que eu fui e a adulta que finjo ser.  Tudo isso… entre um gole e outro de café…

Virginia Woolf disse, em suas linhas, que todo escritor precisa de um quarto para organizar suas palavras — mas eu vou na contramão de sua voz aguda, porque eu só preciso de um café numa das esquinas da cidade…

Escrevo enquanto percorro calçadas…

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Sai com o cão para fazer a minha caminhada habitual pelas ruas do bairro, que é esse lugar estranho… casas sem alma, praças sem bancos… com estranhos contornos, calçadas sem passos… e pessoas sem pele.

É um cenário que me lembra cidades fantasmas, pelas quais passei rapidamente durante viagens de reconhecimento. Não consigo me encontrar nesse bairro com ruas em pares, vielas escuras-obtusas e esquinas vazias.

Desde 2010 que ando por aí… a praça Alzira Ferraz é o meu limite a Sul. Percorro seus contornos de um lado para o outro, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça e o cão ao lado. Ele ronda o caule de todas árvores enquanto eu piso o chão de cimento irregular…

Foi ‘tateando’ esse cenário que me ocorreu as primeiras linhas dessa história que voltou a minha pele na última chuva. A cada passo dado… um capítulo foi se desenhando naturalmente. Escrevi na própria pele, no chão, nas árvores… enquanto o cão confeccionava seu mapa particular de movimentos.

Voltamos para casa, conscientes de que ‘vida não nos falta’… e a realidade é essa coisa composta por horas e mais horas que alimentam o meu imaginário. Depois veio a parte ‘mais fácil’: transbordar-sangrar-vivenciar-escrever…

Tudo que de fato preciso é de um canto a parte de tudo… dois cigarros, uma xícara de café, um pouco de silencio e a nudez de minha alma.

Eu disse que era a parte mais fácil… não disse?