Ontem amanheceu de novo…

“É porque existe o desejo, o olfacto, e o medo, e os vivos apaixonam-se
por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos;
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias
um orçamento incomportável”.

Gonçalo M. Tavares


 

mapa

Julho era o tempo das pausas… de viajar com a família, reencontrar os meus… e me perder pelos quintais de frutas. Era tempo de ouvir o carrilhão na sala… com seu som agudo a se esparramar por todos os cantos da casa quando a noite se impunha. Aquele som sempre deslocava a alma do corpo, nas primeiras noites. Meu sono era intercalado por sustos sonos-robustos…

Julho sempre foi premissa de gargalhadas sonoras… dentro da noite e sua escuridão menos severa, menos intensa — pela metade. Os dias de verão prolongavam os dias e encurtavam as noites… combinavam com a infância e a intensidade das vontades, impregnadas de coisas menores.

Eram dias dourados, de céu azul e vôos de pássaros no infinito blue… de ausentar-me do quarto e ir para fora, visitar a paisagem. Tempo de acordar cedo… com o cheiro gostoso do café feito com grãos colhidos no ‘quintal’ e moídas no velho moedor caseiro de ferro, preso a mesa da cozinha… e dos pães feitos pela nona e a moça — cujo nome eu me esqueci.

Mas não consigo me esquecer do problema que ela tinha na perna… o que fez dela — segundo as falas adultas — uma moça solteira e infeliz porque houve um tempo em que a felicidade das mulheres dependia das alianças feitas em vida.

Todos que olhavam para ela… enxergavam apenas a perna torta, mais curta. Sua bota preta-pesada e os ferros que subiam pela perna — uma geringonça que lhe permitia ficar em pé como o resto de nós. As crianças — em referência ao mágico de Oz — a chamavam de: mulher de lata.

Ela teve paralisia aos oito anos — a única vítima da poliomielite que conheci — e se acostumou a conviver com os desiquilíbrios de seu corpo. Era uma figura triste, de poucas falas, que falseava os passos, enroscava-se nas coisas… e acusava cansaço ao ir de um cômodo ao outro. Mesmo assim, limpava a casa com esmero e ameava as crianças — que não se cansavam de importuná-la. Havia quem sentisse pena de sua solteirice… e quem dissesse que ela tinha o que merecia.

Foi ela quem me deu uma sonora bronca por gastar meu tempo a espiar os pássaros no quintal: ‘não seja estupida, você não tem asas, não pode voar. Vá procurar algo melhor para fazer’. Ela se aborrecia por me ver imóvel-quieta-sentada-no-muro, tendo pernas e podendo correr, escalar árvores com as outras crianças. Eu sempre fui quieta, tinha preferência por livros e conversas de adulto, com os quais me misturava com imenso prazer. Ela não conseguia entender-aceitar, fechava a cara, apertando bem os olhos e, furiosa, tentava me acertar com sua muleta de ferro.

Mas, ao contrário dela, eu tinha asas… e sempre consegui escapar de seus ataques!

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A viagem que se repete dentro…

comboio


“Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar”.

Alfonso Barrocal


 

Eu passei boa parte da minha infância sob trilhos… visitei cidades, conheci países, me apaixonei por arquiteturas incríveis, culturas fascinantes e amei incondicionalmente os estranhos, nos quais tropecei.

Gostava imenso de observar o movimento nas plataformas: chegadas e partidas. Esperas que se encerravam em abraços demorados… outras que se iniciavam com o apito “rude” da locomotiva…

Certa vez… vi um rapaz correr ao lado do trem, mantendo a mão no alto — como se quisesse atrair a atenção de alguém — sem sucesso. Me pareceu um gesto tão duro-difícil-indigesto-definitivo — ficou vivo em meu íntimo, enraizado na pele-alma.

O trem avançou forte com seus sons de metais a riscar o trilho — não existe melhor escrita que essa — e ele sucumbiu. Foi desmoronando gradativamente como se fosse um prédio com seus muitos andares. A multidão na plataforma o devorou e a distância o fez desaparecer de meus olhos…

Seguimos viagem… ultrapassamos cenários inteiros-cheios e eu pensei nele durante boa parte do trajeto. O vi em diversos olhares, nas outras plataformas… enquanto chegadas e partidas — encontros e desencontros… se repetiam.

Me lembro de tentar inventar uma história para aquele ‘personagem solitário’ em minhas páginas-diárias, mas conclui três paradas depois… que ele era apenas mais uma pessoa atrasada no mundo. Chegou tarde demais… e perdeu a oportunidade do gesto, da palavra — ficou para trás-depois-nunca-mais… para sempre.

Ainda hoje, sempre que ocupo o meu lugar no acento do Comboio, olho pela janela e procuro por ele e o encontro em outros olhos-boca-mãos-braços… e aceno com o atraso de uma vida inteira.

| escrito ao som de home |

Os dias de julho…

dias de julho

“e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio… e a difícil arte da melancolia”
al berto


 

…eu não me lembro de ter escrito — em momento algum — meia dúzia de frases sobre o mês de Julho e seus trinta e um dias. Revirei a minha mente-diários-notas-mentais… fiz avesso da minha matéria: e, nada!

…o mês de julho sempre foi o tempo de estar do lado de fora da pele-casa-casca… fazer as malas e partir. Por o cuore nos trilhos…os olhos à janela e a alma a vagar desatenta pelos vilarejos. Era o tempo das pausas, de desacelerar e se aventurar por dias dourados de nada-tudo fazer…

Eu costumava levar um ou dois livros comigo. Mas, os cadernos ficavam guardados-esquecidos no fundo de alguma gaveta para depois do verão.

Não aprendi a fazer malas… por mais que C., tenha tentando me ensinar. Ela tinha uma invejável técnica… sabia com absurda precisão tudo que iria precisar durante o verão. Eu sempre fui seu contrário nisso também… partia levando comigo a sensação que me acompanha até hoje: “eu sinto que estou a esquecer alguma coisa”.

 

E os seus dias de julho, como eram?