BEDA | criação de personagem…

…em todo o processo de escrita, a fase em que estou a conhecer meus personagens é a preferida. É como sair para andar ruas, dobrar esquinas, esbarrar multidões durante a travessia da faixa de pedestre. Alguém lhe sorri. Um estranho, com suas feições estranhas. Seu desenho de corpo em movimento. Seu olhar de horizonte distante-impossível e tudo que não sei.

Cada pessoa é um personagem com a melhor das histórias arquivadas em suas memórias, prontas para serem escritas. Gosto imenso de observar os moldes e me debruçar-deitar sobre eles, adequando primeiro o meu corpo, depois a minha alma-memória.

Conhecer um alguém não é a mais fácil das tarefas… já convivi com algumas pessoas durante anos para, em algum momento, perceber que eu nada sabia sobre aqueles humanos-estranhos com quem pensava partilhar vivências.

No entanto, conhecer personagens requer muito mais de si que do outro, sobretudo é preciso cuidado para não transpor certos limites. Gosto quando descubro alguém que conquista a minha atenção no café entre esquinas, fazendo com que eu me sinta à vontade para espiar suas fôrmas e formas. Absorvo gestos… repito-os. Dou aos meus lábios o movimento de palavras. Moldo o meu corpo. Me esqueço-abandono. É como recomeçar a vida, reaprender a fala, os passos. Descobrir a vida-realidade.

Não que seja tudo realmente novo, algo de mim permanece intacto-preservado. Eu primeiro vou atrás da pessoa-personagem. Passado algum tempo, caminho lado-a-lado com essas figuras para, só então, tê-las em mim. E novamente Pessoa “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Chega um momento em que o olhar no espelho me atravessa e pousa imediatamente na figura-outra. Tomo banho. Uso outras roupas. Bebo café. Transcrevo notas-falas-cenas. Vivo outra vida. Me levanto, saio às ruas, converso com conhecidos (que são estranhos a esse ser que habita a minha pele) e me deito com uma-duas-três figuras novas-inéditas.

Tudo é sempre (quase) novo e eu sou (quase) sempre outra.


 

beda

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Brinca-se com o passado… alguém quer jogar?

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

— Fernando Pessoa —

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Já devo ter dito aqui o quanto gosto de andar de Coletivo pela cidade… principalmente a bordo de um Trólebus — conhecidos por suas pausas no meio das ruas paulistanas — e foi ao voltar para casa, pouco antes da tempestade de verão dessa tarde que ao ocupar meu lugar e me distrair com a paisagem do bairro de Higienópolis, em movimento… percebi que tenho passado um bom punhado de tempo com o olhar detido à janela —  seja de um Coletivo, seja do quarto ou de algum outro lugar.  Há muitas vidas lá fora e não nego meu interesse por aqueles humanos fantasiados de pessoas.

A minha paixão por janelas começou na infância… quando ao sair de casa, me deparava com figura folclórica de dona M., que a bordo de seus setenta anos e tantos anos — tempo demais para uma menina de quase seis compreender — , se dedicava a sua tarefa favorita: tomar conta da vida dos vizinhos a partir de sua janela. Ela sabia das chegadas-partidas. Ouvia conversas inteiras, pela metade e inventava possibilidades que, às vezes, determinava o caos em nossa rua.

Eu era a única a me divertir com aquela “figura mística”… que sabia se fazer ouvir. Sua voz alcançava as duas esquinas de nossa rua e invadia qualquer cômodo da nossa casa. Sempre acreditei que ela adorava quando um ou outro vizinho ralhava com ela. Tinha para mim que ela era solitária. Os dois filhos viviam em outro país e nunca a visitavam. O marido tinha morrido havia alguns anos — o coração simplesmente parou. E ela ocupava a mesma casa-grande desde os anos quarenta… pela manhã limpava os enormes cômodos e fazia bolinhos para ninguém. Sua casa era a única da rua a não receber visitas durante o ano. Era sempre quieta-e-silenciosa. Sem sons de criança no quintal… apenas um velho gato-branco-folgada passeava por cima do muro, mas não era dela, embora o alimentasse com bolinhas de carne, que ela mesma preparava.

Nas vezes em que me sentava no portão de casa para esperar pelo babo… tinha vontade de ir até ela e dizer ‘olá’… mas C., não a suportava por causa das fofocas que fazia. Tinha horror a língua felina dela, embora nunca tivesse sido alvo de suas fofocas. Nunca atravessei a rua… apenas lhe sorria e sentia qualquer coisa de empatia em seus gestos menores… qualquer coisa de sorriso em seus lábios, qualquer coisa de lágrimas em seus olhos.

Ela — rapidamente —, fechava as cortinas com as duas mãos num gesto rude…  e desaparecia. Eu ficava a observar o formato da janela, as cortinas em movimento de vento e o sol a resvalar sorrateiro na parede da casa com os três números bordados na fachada.

Ela foi a minha ‘primeira tela de Hopper’… e, às vezes, como hoje… lamento não ter lhe dito ‘olá’… de não oferecer a ela um instante de companhia. Foi estranho me deparar com a janela de sua casa: fechada… o lugar abandonado e uma placa de ‘vende-se’ amarrada no portão… mas, com ela aprendi a espiar realidades, imaginando-as a partir dos personagens que vez ou outra se precipitam ao olhar.

No caminho de casa, esbarrei nas janelas da Santa Casa, no alto… e graças ao sinal fechado pude observar atentamente a fisionomia do velho prédio e avistar um grupo de pessoas em abraços de ‘nunca mais’…

07 | domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,

“Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles…  Domingo…
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo…
Nenhum domingo. —  Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem”.

—  Álvaro de Campos —


Cara Z.

 

…hoje é domingo e, como no poema de Campos, eu fui à horta, digo: à feira. A manhã vestiu raios dourados a cegar-me os olhos e, um vento assanhado causou tumulto em meus cabelos cada-vez-mais-brancos — para desconfortos de uns e outros.

Percebi minha cara, que não haveria chuva nesse dia de novembro. Nada de trovões, tampouco fúrias brancas. Respirei fundo — meu lamento comum — e dei aos pés o sabor dos passos-largos pelas calçadas com seus desenhos de andar.

Gosto  imenso de transitar entre as cores e aromas que as barracas coloridas — armadas na rua dos pássaros — exibem. Provo da textura das frutas bem arrumadas numa —  singular — geografia de cores-formas-tamanho. Não seria capaz de repetir, se me fosse pedido tal artimanha. Não sei dizer como se equilibram uma por cima da outra sem se misturar… sendo laranjas-maçãs-peras-melões-melancias-uvas. Sem falar nas hortaliças com suas cores tão próximas e folhas tão distintas…

A feira que se esparrama ao longo da rua, tropeça na figura do famoso café entre esquinas —  onde comecei e terminei um livro, sentada à mesa ao lado da porta de entrada-saída. Respiro fundo essa saudade e sigo com as compras. Há ingredientes a escolher e o faço sempre nas mesmas barracas, com as pessoas que já sabem do que gosto e escolhem com o cuidado necessário, como se fossem convidados à mesa.

Hoje eu pretendia comprar tomates — vermelhos — para um molho-salsa… o meu preferido. Gosto de pedaços da fruta, que se mistura as lascas de cebola, filetes de alho e punhados de salsinha maceradas entre as mãos. Há um pequeno segredo para deixá-lo cremoso. Mas não lhe posso contar… não é nada impróprio, mas como se trata de um segredo, o impróprio seria revelá-lo, pois deixaria de ser o que se é…

Mas não encontrei tomates — estavam verdes-feios… e sem a textura aveludada que tanto aprecio e gosto de sentir na ponta dos dedos, acariciando-os como se fosse a pele daquele que amo.

Restou-me apenas o poema de Campos e os sabores que se precipitam em minhas falanges quando penso ingredientes. São como as letras, que antes de irem para a tela, se anunciam dentro… eu sou toda precipitações, não há meios!

Bacio cara mia

L.

Ano 02 | Ensaio

heteronimospessoa
Álvaro de Campos

AH, UM SONETO…

Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava… e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?…

 


12-10-1931?

Álvaro de Campos — Fernando Pessoa.
— 148.