BEDA | baseado em fatos reais…

Aproveitei a noite-fria-gostosa de sábado para ir ao cinema… e assistir ao novo filme de Polasnki — diretor dos filmes: Bebê de Rosemary e O Pianista.

baseado em fatos reais nos apresenta Delphine Dayrieux,  uma escritora que acaba de lançar seu livro e se vê as voltas com o sucesso… que lhe obriga a incontáveis compromissos de lugares-pessoas-cenários. Lançar um livro é o ponta pé inicial para todo tipo de atividades, que a maioria dos autores quer rejeitar. Mas, não pode. Principalmente em tempos contemporâneos, que transformou o autor no personagem principal e o livro em mero coadjuvante.

E o que temos em cena e uma mulher-escritora em crise no auge de seu sucesso. Tudo que ela deseja é sentar e escrever… justamente o que não consegue fazer, porque precisa se fazer presente em cenários cheios e responder perguntas como: ‘onde você buscou inspiração para escrever esse livro?‘ — a resposta está no título do filme, afinal, é  para onde todo escritor se volta em busca de inspiração: na vida real.

É dentro de si que tudo começa-acontece. O autor escreve por dentro, na própria pele a partir do que guarda do mundo que devora-consome diariamente. Seu primeiro elemento são suas memórias — reais ou inventadas. É com isso que o filme brinca-delira-joga. Essa linha muito fina entre o real e o que não é real — essa fronteira para a loucura.

Delphine conhece Elle… uma mulher misteriosa, interessante, que desde a sua aparição em cena, está sempre dentro dos olhos da protagonista. E, de tão próximas, chegam a se misturar e ser uma mesma pessoa. Dona de um sorriso enigmático… Elle não demora a se mostrar útil-necessária. Um perigo… que a Delphine escolhe saborear em pequenos goles.

Temos duas escritoras em cena… uma conhecida-famosa a viver seus conflitos-turbulências. E, a outra… uma ilustre desconhecida, que escreve para que os outros sejam o que ela nunca será. Eis o elemento novo da trama: a farsa.

Todo escritor teme essa palavra. Porque ser-escritor é condição de momento. Enquanto se escreve você sabe o que é… quando a escrita cessa… o que se é? Existem muitos autores de um único livro e centenas e milhares de escritores de gavetas.

Delphine até conhecer Elle estava a sorver o medo de nunca mais voltar a tecer palavra. Encarava a figura fria da página em branco do Word. Se desconcentrava com e-mails, telefonemas, sonhos, eventos. Tudo era… e não era. Mas, ao se permitir a presença de Elle, tudo ganhava novo sentido-significado, e ela encontra a inspiração que tanto precisa.

Refeita-e-renovada… Delphine volta a escrever sobre… essa outra que habita a sua própria pele. E conforme os fatos nos levam de encontro ao lançamento de seu novo best seller… fica impossível não lembrar Fernando Pessoa e sua frase provocativa: ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’.


 

beda

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…melhor é impossível…

cena do filme melhor é impossivel


 

“E se melhor que isso for impossível?” — é o que se pergunta Melvin Udal em um momento de crise. Em cena, está Jack Nicholson e seu conjunto de gestos, que para muitos são grosserias, e para ele é apenas um retrato natural da indiferença, que ele acalenta em si, com relação ao mundo…

Melvin é um escritor, que sofre de ‘transtorno obsessivo compulsivo’ também conhecido como TOC… que o faz girar a chave na fechadura inúmeras vezes, numa insana tentativa de ter o que lhe falta: certeza. Ele evita as rachaduras das calçadas ao caminhar. Lava as mãos em água fervendo e usa o sabonete uma única vez, sempre que volta das ruas.

Jack Nicholson fez o seu melhor… ao dar vida a esse personagem neurótico, que consegue nos conquistar de imediato. Mesmo sendo ele, preconceituoso-racista-homofóbico-e-misantropo. Ele não finge-disfarça emoções… age a partir de seus tormentos, que se multiplicam a cada cena. Somos apresentados ao seu pior lado logo na primeira cena, quando ele simplesmente se livra do cachorro do vizinho… arremessando-o pela lixeira do prédio… como se o diretor do filme quisesse nos preparar para o melhor — porque pior que isso… é realmente impossível.

Filme | Philomena…

Em meu principio está o meu fim

T.S.Eliot

philomena


Philomena… personagem brilhantemente interpretada por Judi Dench, é uma mulher que pecou — se deixou seduzir por um jovem… que elogiou sua beleza e lhe ofereceu uma cerveja. Se rendeu as carícias e sensações. Se entregou e como Eva, o pecado culminou em ‘bendito fruto’.

Na condição de pecadora… teve que pagar o preço. Afinal, na igreja… pecado é moeda de troca. Ela devia pelos ‘serviços prestados a ela’ — ser acolhida dentro das paredes sagradas, após ter pecado contra deus — o montante de 100 libras ou o equivalente a quatro anos de trabalho ‘escravo’…

Enquanto pecadora-devedora — o que na igreja é a mesma coisa — não tinha o direito de contestar as decisões tomadas dentro das paredes sagradas do Convento de San Ross, na Irlanda e nada pode fazer para evitar que seu fosse entregue para adoção.

A igreja sempre usou da culpa e do medo para manter seus fiéis na linha… aterrorizando as pessoas submissas as suas regras.

Depois de confessar ‘suas vergonhas’ à filha anos mais tarde… uma humilde-humilhada Philomena consegue a ajuda de um ardoroso ateu Martin — jornalista que não se interessa por ‘histórias humanas’ e que parece entrar em cena para representar a nossa indignação.

Brilhantemente interpretado por Steve Coogan… o homem, que devido a um momento delicado de sua vida profissional — não tem outra opção que não seja, investir na história de Philomena e revelar toda a cruel realidade por trás da ‘venda de crianças’ no velho convento irlandês.

E depois da verdade escancarada… não surpreende a postura da velha-madre — em fase decrépita e miserável. Ela se mantém ‘fiel ao seu deus e a todas as premissas’ e do alto de sua arrogância, invoca o direito de ser julgada apenas por Deus… a quem se diz fiel, ao contrário de Philomena, que sucumbiu aos desejos primários da pele. Coisa, que ela nunca fez e lutou ‘bravamente’ para se manter fiel ao seu amor-de-deus.

É uma das cenas mais indigestas do filme… que nos põe diante do olhar azul de Judi, as rugas em seu rosto… onde desfila uma dor ímpar por tudo que lhe foi roubado, em contraponto ao da mulher-freira… cruel e indiferente, como se ela própria fosse o deus-todo-poderoso.

A essa altura do filme, já sabemos que a busca de Philomena, não era solitária… seu filho também buscou por ela, recebendo o mesmo tratamento — de indiferença. Mas, é ele quem encontra um meio de voltar para os braços de onde foi arrancado.

A interpretação de Judi Dench e Steve Coogan é repleta de contrapontos… ele esbraveja, se revolta, cobra explicações, exige um pedido de desculpas — nos coloca em cena. Martin se veste da mais fina ironia para afirmar em voz alta, que ele, no lugar de Philomena, não a perdoaria. E é a voz dele, que traz para o filme o verso-frase-prece de T.S.Eliot… que de certa forma explica toda a trajetória dessa mulher.


“O fim de toda busca será chegarmos onde começamos
e ver o lugar pela primeira vez”

T.S.ELIOT


Filme | Camille Claudel 1915

camille-claudel-1915

SAI DE CASA PARA IR AO CINEMA… coisa que não fazia havia tempos porque, às vezes, nos perdemos das coisas mais simples e fazemos todo o resto. Hoje, no entanto, sai para caminhar calçadas, dobras esquinas, ultrapassar quarteirões e quando dei por mim, meus passos em pares tinham me conduzido ao Espaço Itaú de Cinemas — o antigo “Espaço Unibanco” que passou por reformas e exibe novo traço…

A peça “Camille Claudel 1915” estava em cartaz. Fui direto à fila… e quando estou a pedir o meu ingresso fui interpelada por essa senhora recém-saída de seu mundo cor de rosa com suas falas agudas e completamente dispensáveis: “não vale a pena, é uma peça muito triste. Nem dá pra entender direito. Achei tudo tão horrível”. Achei que num gesto indócil, ela fosse retirar o ingresso das minhas mãos e num rompante, iria fazê-lo em pedaços. Mas ficou apenas no discurso tolo-tosco-desnecessário. Mas a maneira agridoce como me olhava, fez parecer que eu estava insistindo em fazer algo indevido-proibitivo.

O filme começou pontualmente as 14 horas… e desde o primeiro instante percebi que se tratava de um filme sobre o tempo. A personagem em cena é uma Camille Claudel vazia — sem seu ateliê e também sem o seu talento. Sem Rodin e sem a si mesma.

Seus movimentos por aquele espaço (sanatório) são típicos de uma pessoa que não sabe onde está e tão pouco se reconhece. Talvez por isso reze tanto — porque é preciso acreditar que existe lucidez em algum canto do mundo e de nós mesmos. Precisamos acreditar — juntando as mãos em oração a algum salvador — que a tão desejada lucidez poderá enfim nos ser devolvida. Ainda que seja por esse deus que está no céu — esse lugar etéreo.

É desesperador o silêncio em cena… que de repente é quebrado por estranhos ruídos. Tudo se transforma em míseros segundos e provamos da loucura da personagem. É nesse momento que nos damos conta que a loucura é objeto comum à realidade de Camille.

Seu irmão — que a culpa, por sua loucura — é igualmente louco… ou talvez o único louco de fato na família. Mas ao contrário de Camille, ele desfruta da liberdade que falta a ela.

Em determinado momento do filme… a personagem de Juliette Binoche desce pares e mais pares de degraus, em meio a uma falsa calma que me fez questionar: “teria ela contado cada um daqueles degraus? E se o fez: quantas vezes os contou e qual seria o resultado dessa soma?” E o que me obriga a voltar a uma conclusão antiga: enlouquecer, às vezes, é tudo que nos resta.

Quando estamos enterrados até ao pescoço… precisamos — desesperadamente — nos agarrar a alguma coisa para que o ar adentre os pulmões e a vida prevaleça. É a sensação que tive ao vê-la amarrar os cadarços com tamanha facilidade. A coordenação motora que ela exibe, me fez perceber que a sanidade encontrou um meio de ser preservada dentro daquele corpo febril —mesmo estando na floresta com lobos.

E quando, em meio ao silêncio de um caminhar pelo jardim… ela busca no chão um pouco de barro — sinto que algo mais sobreviveu ao isolamento imposto por sua família.

O filme não é para qualquer um… há cenas complexas, intensas e lentas, que nos pede um olhar para nós mesmos… e não é fácil se posicionar diante do espelho e encarar essa “falsa verdade” que confeccionamos dia após dia.

Uma das cenas que mais  me incomodou… foi a caminhada de Paul — irmão de Camille — por uma colina, ao lado de um padre. A imagem do sagrado, lado a lado, a força do homem, colocado, propositalmente em primeiro plano… determinando a condição inferior do homem, inferior até mesmo… a de uma mosca, que surge com seu zumbindo imenso a zombar da podridão do homem. O irmão de Camille se mostra incapaz de perdoar a própria irmã, que não luta contra o demônio, que tem dentro de si. Ela se rende e se deixa possuir. Acusa suas fragilidades… e esse é seu maior pecado. O homem existe para travar suas batalhas, suas lutas. Existe para sobreviver em sua condição menor.

Sai do cinema com a alma em pedaços… e fui caminhar por uma daquelas galerias da Augusta. Me sentei num daqueles bancos de madeira… e fiquei a pensar na realidade de caminhos-ventos-dias-de-sol-e-palavras. Se fosse eu no lugar de Camille, talvez as minhas preces tivessem o mesmo destino que o dela: um deus que vive no céu… que, em momento algum veio em seu socorro. E implorar foi o que ela mais fez…

Filme | Flores raras

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cena do filme ‘flores raras’

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.



Flores raras é um filme difícil…
porque brinca com a realidade — pronta, estabelecida entre duas mulheres que se encontraram e viveram juntas um ‘romance’ num Brasil, que as recebeu com naturalidade, sem preconceitos e intolerâncias… objeto cada vez mais comum nos dias denominados contemporâneos.

O desenrolar da realidade não foi justo para com a poeta Bishop… mas, não há como fugir do trágico final que a vida ‘escreveu’ — mesmo sendo o filme em parte: ficção. Lima Barreto ainda conseguiu agir como se a vida fosse feita de argila — como nos ‘ensina’ a bíblia — moldando as personagens ao seu bel prazer… para abordar um assunto, que na vida real não é nada fácil de tratar, quiçá nas telas do cinema, lugar onde nem sempre há espaço para temas tão profundos.

Falar das perdas e da consequência natural, que nos norteia: não saber perder… é inquietante-indigesto. Ainda mais quando temos em cena, duas mulheres intimamente ligadas a uma personagem, que nos parece forte-segura e que, no entanto, é incapaz de romper laços.

Lota dividia uma casa e a própria vida com Mary… a chegada de Bishop altera — em partes — essa realidade. Numa cena vemos os lábios da arquiteta brasileira se unir aos da poeta estadunidense e em paralelo a isso, acompanhamos a solidão de Mary…

Lota — para a nossa surpresa — decide não se afastar da amiga-namorada-amante, como se a paixão provocada em sua pele por Bishop… fosse desaparecer no dia seguinte.

Fiquei com a sensação de que Lota quis preservar um lugar para voltar quando tudo desmoronasse. E foi justamente nesse ponto que o enredo se dissolveu aos meus olhos… e eu recordei os versos do poema de Bishop… ‘a arte de perder não é nenhum mistério / tantas coisas contém em si o acidente /  de perdê-las,  que perder não é nada sério. / Perca um pouco a cada dia. Aceite austero, / a chave perdida, a hora gasta bestamente. (…) 

Lota não sabe perder… por isso, assistimos o seu lento definhar a cada cena… até não sobrar mais nada. E a partida de Bishop — que faz as malas e emerge em vida — não me causou surpresa alguma…

A última cena, com Bishop a beira do lago, me fez sair do cinema em meio a um pesado lamento… não ter levado comigo o exemplar de ‘north and south’. Seria excelente me sentar para um café numa das mesinhas bem merecidas do Cine Café Fellini e devorar um punhado de versos mais uma vez…