BEDA |Antes do dia seguinte: vem o ontem…

…ocupei o lugar no elétrico 408 – A | Machado de Assis — que percorre o centro velho paulistano, com sua atmosfera deliciosamente antiga: onde a cidade começou. É um dos trajetos mais interessantes, com direito a pausas repentinas para conectar o cabo aos fios. Acho que não existe motorista nessa cidade que não conheça o ritual do trólebus: esperam o cobrador saltar, calçar as luvas e fazer seus malabarismos para religar o ônibus. É um curioso instante de calma no meio do caos urbano, que eu gosto imenso de apreciar essa espécie de reticências inserida na pressa urbana.

A bordo do trólebus comecei a pensar o primeiro semestre desse ano. Não sou dada a retrospectivas, mas gosto imenso daqueles antigos ‘álbuns de fotografias‘. Era divertido esperar pela revelação do rolo de filme Kodak asa 400 e suas 36 poses. e receber o resultado {em vinte e quatro horas} que nem sempre agradava: filme velado, fotos tremidas, olhos vermelhos…

Hoje em dia, basta um click e pronto: o momento está guardado nos modernos e enfadonhos Smartfones. Caso não agrade… tenta-se de novo dentro do mesmo segundo e pronto. O engraçado, no entanto, é que não revemos mais as fotografias… ficam estocadas em pastas. Quando muito compartilhamos em redes sociais (esse rolo compressor) ou nos apps de mensagem. Eu tenho dúzias de pastas em estado de esquecimento.

Para escrever esse post… revirei os meus arquivos e escolhi uma fotografia para ilustrar cada mês do primeiro semestre de 2017.


 

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Janeiro foi um mês que me deixou ‘fora do ar’… tratar os dentes, revirar caixas, cortar os cabelos… visitar os espaços urbanos. Comer ‘bola de berlim’ na Casa Mathilde. Ir ao Municipal assistir ao coral. A cidade parecia sonolenta… as ruas vazias.

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Fevereiro é um eterno carnaval de movimentos… a cidade ferve. O verão atingia o auge e os cenários se reinventavam. Era preciso esperar o ‘maior espetáculo do mundo’ acontecer… para finalmente o  ano começar. Fui ao cinema… a livraria… e redescobri o Mirante Nove de Julho…

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Março finalmente foi ‘ano novo’… primeiro lançamento da Scenarium em 2017. Costurar livros e apresentar o resultado aos autores e seus amigos. Gosto imenso de observar o que é surpresa-novidade nos olhos de quem tateia o objeto-livro. Já colhi todo tipo de reação… a mais divertida foi a de uma senhora, que parecia ter uma vaso de cristal em mãos, que iria se quebrar ao menor toque. Mas a pupila de seu olhar reluzia imensa.

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Abril foi outono nas ruas, na alma, na pele. Estação predileta. Dias mais curtos. Noites mais longas. Abraços, passos — e café entre esquinas.

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Maio trouxe uma missiva para as minhas mãos. Atravessou o Atlântico… nela havia um poema de Mr. Walt. O que me obrigou a buscar meu velho ‘folhas da relva’ nas prateleiras… e levá-lo para um passeio pela cidade. Ler esse Senhor no Mirante — com sua paisagem imensa — na companhia de um latte muito bem feito… foi inspirador. 

coletivo

Junho foi todo no plural… as emoções, os sorrisos, o lugar e o livro ‘coletivo’ que veio a luz dos nossos olhos, numa noite de lua cheia no coração da metrópole, com o vermelho das ‘tulipas’ na janela… ali no famoso e delicioso Cine 4…

 


 

blogagem coletiva

selo para o BEDA

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Projeto fotográfico 6 on 6 | minha cidade

São Paulo não é uma cidade… é um cenário-universo-mundo… com suas contradições de espaço-pessoas-figuras. Tudo aqui se mistura. O diferente se iguala-nivela. O igual se atropela-desespera. As cores se apagam. As luzes se acendem.  Janelas se abrem. Portas se fecham. Estações começam e terminam (no mesmo instante). A lua muda de fase. A rua troca de nome-sentido.  Prédios sobem. Casas descem. Ruas mudam de mão. Pessoas chegam e partem. A paixão nasce intensa em uns. Em outros é ódio que se amplia. Em mim é caminho-casa-pedaço… uma cidade…

 

‘Meu São Paulo da garoa, | — Londres das neblinas finas — | Um pobre vem vindo, é rico! | Só bem perto fica pobre, | Passa e torna a ficar rico’.  — Mário de Andrade

 


 

babilônia— São Paulo! Comoção de minha vida… | Os meus amores são flores feitas de original!…
Arlequinal!… 

DSC_0162— Trajes de losangos… Cinza e ouro…  | Luz e bruma… Forno e inverno morno…

2017-04-25 17.42.58— Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…

sampa— Perfume de Paris… Arys!  | Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…

2017-05-11 19.57.53-1— São Paulo! Comoção da minha vida…

IMG_20140503_164550— Galicismo a berrar nos desertos da América.


 

Participam desse desafio
Frasco de MemóriaO lado de dentro 

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | TEMA JANELAS

Tenho verdadeiro fascínio por janelas… desde a infância. Creio que tudo começou por volta de meus quatro ou cinco anos, quando me deparava — ao sair as ruas — com duas signoras… devidamente posicionadas em suas janelas de existir. As duas irmãs tinham o hábito de tomar conta da vida alheia. C., tinha verdadeiro horror por elas. Eu, no entanto, nutria certo fascínio por aquela cena corriqueira.
Gostava de espiar os interiores sempre bem cuidados-perfumados das casas. Colhia pouco ou nada: um quadro na parede, uma santa numa espécie de altar e o lustre de gotas de cristal. E a partir disso, imaginava um sem-fim de coisas.
Elas acenavam para mim e eu acenava e volta. Elas sorriam e eu também… mas dado o número de confusões que causavam na nossa rua — graças as suas ‘línguas sempre afiadas’ — C., reprimia qualquer possibilidade de amizade com seu olhar inquisidor.
De qualquer maneira… o meu fascínio pelas janelas abertas-fechadas-acesas-ou-apagadas… já tinha se iniciado… através daquele desenho delicado de realidade… com suas venezianas verdes, que hoje não existem mais.
A casa foi ao chão durante o tempo em que estive longe… deu lugar a um sobrado garboso e muito elegante. Suas janelas vivem fechadas: faça chuva ou faça sol. Nunca mais vi uma só pessoa naquelas janelas… e a casa nem mesmo parece habitada. Mas a minha memória preservou certos traços e sou capaz — se fechar os olhos — de ouvir as fofocas das ‘esquifosas signoras’

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No bairro da Bela Vista, em São Paulo, há inúmeros casarões antigos. A maioria está abandonado e em ruínas… mas ao observar o que resta de suas fechadas, dá para imaginar um passado elegante e simpático…

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No Alto da Lapa… algumas casas do começo do século XX — com datas impressas na fachada de seus imensos casarões — resistem bravamente ao tempo, ao abandono e as invasões! As que ainda não foram demolidas, nos últimos anos, passaram a abrigar asilos.
Essa, situada em esquina, teve seu traço alterado… e a velha janela cor de sangue foi substituída por uma de ferro com pesadas grades…

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Localizado no Centro da cidade, na Praça Ramos de Azevedo… o Teatro Municipal foi inaugurado em 1911 para atender o desejo da elite paulista da época. Seu estilo arquitetônico foi inspirado no Ópera Paris.
Passou por uma grande reforma recentemente, mas infelizmente a ‘cultura do pixo‘ já manchou suas paredes novamente com grafias negras e horrendas.
Eu já fiquei um bom par de horas a espiar suas janelas em estilo colonial e suas estátuas — ‘gargulas’ — que segundo as lendas urbanas, ganham vida durante a noite! Será que dançam pelo Viaduto do Chá?

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A região da Bela Vista é excelente para se observar imóveis antigos, dado ao grande número construções do início do século XX que, ainda se fazem presentes por ali, por quanto tempo, contudo, é impossível dizer.
Localizado entre os números 276 e 286 da Rua Major Diogo… esse prédio um dia foi um elegante sobrado… localizado quase diante do prédio do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Sua lateral e fundos atualmente são ocupadas por um estacionamento {mania local, privilegiar os veículos, que entopem as ruas}… mas o seu interior encontra-se abandonado e em ruínas.

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Na mesma Rua… estão as ruínas de um dos mais importantes Teatros de São Paulo. o TBC — ‘teatro brasileiro de comédia‘ — construído na década de 40 no Bixiga. Foi palco para uma geração empenhada em modernizar as artes cênicas do país. Por lá passaram Cacilda Becker, Paulo Autran, Tonia Carreiro, Walmor Chagas, Sergio Brito e tantos outros. Atualmente, vive a promessa de recuperação…

Geografias poeticas

Enquanto alguns casarões tombam pela cidade… outros são mantidos intactos-preservados… como esse, que fica entre as esquinas do Jardim América (jardins)… um pedaço nobre da cidade. O bairro foi projetado pela dupla de urbanistas Barry Parker e Raymond Unwin, contratada pela Companhia City — empresa de investimentos imobiliários criada em 1912 e que teria papel estratégico no desenvolvimento da cidade.
Localizado em uma região considerada inadequada para a habitação, o bairro surgiu após a drenagem de um milhão de metros quadrados de charcos e pântanos.

Espero que tenham apreciado o passeio pelo minha Paulicéia e seus muitos {estranhos} contrastes…

Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários 

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | TEMA MULHER

Em março, o tema do projeto fotográfico ‘6 on 6’ devido ao calendário é: mulher… e, desde que soube da proposta, apontei a câmera do meu celular para todos os lados, na incerteza do que registrar. Pensei a temática e sua cadência, senti o ritmo e as flutuações do caminho… e nada. Resolvi me orientar em palavras, antes de ir à caça. Ser mulher é quase uma filosofia… porque não se nasce mulher. Torna-se Mulher ao longo da vida. E cada Mulher que floresce nesse jardim denominado realidade é única. Tem estilo, cor, raça… aroma, sensualidade. É firme. É rara. É linda… tem graça. Raiva. É cruel. Diabólica. Imatura. Sensível. Indiferente. Febril. Voraz. Cada mulher é o que o espelho anuncia, mas não é o que estampam as capas de revistas…

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‘as pessoas vão, mas como elas foram sempre ficam’

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‘você disse. se é pra ser. o destino vai nos unir de novo’

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‘eu não fui feita com um incêndio na barriga para que pudesse me apagar’

thais e lu

“você me tocou sem nem precisar me tocar’

lu e taty

‘o amor não é cruel, nós somos cruéis’

projeto paralelo, in lançamento lua de papel

..’não sei dizer quando é que acontece de ‘crescermos’. Acho que ninguém sabe. Sei apenas que não é algo repentino. Não é um estalar de dedos. Um passe de mágica… é gradativo! Tenho pra mim que é algo que vai acontecendo aos poucos… cada atitude nossa é determinante. Cada passo dado gera uma possibilidade, mas acredito que, se você ficar parado, um vento forte vem em sua direção e, te obriga a qualquer coisa de movimento… Absolutamente tudo, no mundo, nos afasta de nós mesmos… nos manda embora, pra longe daquele ‘eu’ que somos ou que pensávamos ser. E assim nos transformamos em outra coisa… é nossa ‘pequena epifania’. — trecho de lua de papel!

Acompanham as fotos tiradas ao longo dos dias… pequenos trechos do livro
outros jeitos de usar a boca‘ de rupi kaur… que combinam com as figuras femininas que são raras-diabólicas-insanas-humnas-amigas… mulher!


Participam também
Avesso da Coisa – Retratos e DiáriosSariando por aí