Beda | — ‘poemas canhotos’…

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…ao degustar as páginas de ‘poemas canhotos‘ — o último livro escrito por Helder —, no meio dessa tarde de domingo-cinza… me vi em busca de um Norte para o qual apontar a minha bússola interna: “esses poemas que chegam / do meio da escuridão / de que ficamos incertos / se têem autor ou não / poemas às vezes perto / da nossa própria razão / que podem nos fazer ver / o dentro da nossa morte“.

Herberto não era um homem-poeta de multidões, era o homem com o olhar cheio e sorriso guardado. Figura de passo estreito, a percorrer suas calçadas de cimento. Não visitava e pouco era visitado. Mas a sua poesia sempre serviu de mapa para os olhos, que se atreviam por suas linhas.

Eu leio Helder com o entusiasmo de quem bebe uma xícara de café, em pequenos goles. Faço pausas… dou pequenos passos pelos cômodos e fico em silêncio enquanto vasculho o que sou…

Faz algum tempo que tenho seus livros por perto, para uma nova leitura — emergencial… quando a mente pede uma pausa das coisas do dia-vida-realidade.  No entanto, não sei dizer como foi que esse poeta português e sua poesia atracaram em meu olhar-corpo-matéria.

…’poemas canhotos‘ — foi presente da amiga-portuguesa Manuela, que escolheu um dos que faltavam em minhas prateleiras. Em suas poucas páginas adormecem treze poemas — número denso-forte-definitivo… quase um testamento. Em edição única — como determinou seu autor. Se a vida se esgota… é poético propor o mesmo fim aos livros!

Mas dói  um bocadito pensar que tudo que resta do homem é um espólio de linhas que agora pertence a alguém que não ele. E tudo será publicado nesse pós… poesia-vida-poeta-homem. Respiro fundo! — e me contento em degustar o que foi sua vida, enquanto lido com a estranha sensação de ser pouco, quando na verdade, é tudo-muito… o mundo de Helberto Herder!

 

“em boa verdade houve tempo em que tive uma/ ou duas artes poéticas / agora não tenho nada: / sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas”

 

beda interative-se

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BEDA | Uma prece à você…

…outro dia uma pessoa, depois de me contar sobre um momento ruim que estava a viver… me pediu para colocá-la em minhas preces. Não recusei, afinal, não se recusa um instante de silêncio a ninguém.

A maioria das pessoas sabem que eu não tenho religião. Eu acredito em muitas coisas, principalmente nas paisagens que trago em mim — do lado de dentro. Esse cenário imenso que eu costumo chamar de abismo, onde é possível viver em constante estado de queda. Os religiosos dão a isso o nome de Alma. Mas, eu não acredito em seres onipresentes. Tenho minhas próprias definições e não abro mão delas…

Respirei fundo. Fechei os meus olhos, mergulhei dentro… e me lembrei de minha meninice, quando aprendi a fazer uma prece — na mesa da cozinha, durante o tempo de espera por uma xícara de chá.

O que me fez ir até a prateleira… voltei de lá com um dos meus Poetas em mãos. Herberto Helder. Senhor-Poeta-Homem insano, que tanta paz atribui aos meus olhos.

 


estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quando aumenta o mundo


 

De posse do livro… fui as ruas, espiar movimentos, ver a cidade diferente, as cores da tarde. Havia um dourado grave a lambuzar tudo com promessas de tempestades.

Andei pelos arredores… esbarrei na velha casa abandonada, com seus mesmos traços-cor. Sempre imagino o meu passo pelo caminho de cimento — ultrapassando o mato, que cresce sem controle — até a porta. Me vejo forçar a maçaneta quebrada da porta. Busco pela vidraça toda suja. Impossível ver dentro. E eu continuo sem saber seu interior… sempre acho graça de meu imaginário nesse momento. Essa incapacidade de avançar por um mundo onde meu olhar não tem acesso.

Segui com o caminhar… passei por pessoas cabisbaixas-agitadas-atormentadas. Nada veem além do próprio passo. São marionetes… e eu sempre me pergunto: ‘onde estarão presos os seus fios’?

Ocupei um dos banco da Praça-deserta e pensei — imediatamente —, nos projetos deixados em cima da mesa. Nos textos por escrever… nos trinta dias de abril. E o pedido feito emergiu em minha mente. Abri o livro… e li outro poema e outro e outro e mais outro.

Me lembro de ter lido em algum lugar que ‘poemas são músicas no meu silêncio’. E isso me fez recordar a voz do padre a dizer sua oração cristã… um combinado de palavras misturadas para nada dizer. Ninguém ouve. Apenas repetem frases inteiras que não tocam, não dizem. Pássaros presos numa gaiola. Eles até cantam, mas lhes falta as asas bem abertas e a imensidão azul com todas as suas belezas.

Na ocasião… me lembrei de Emily Dickinson e me distrai com os versos sobre abelhas-manhã-de-sol-flores-vida. Eu quase podia tocar naquelas coisas das quais a Poeta falava. Tudo tão lindo-aquecido-agradável… silencioso. Eu sorri e o padre insistiu em sua ave-maria, pai nosso. Não sabia nada daquilo…

Fui expulsa do catecismo… para onde tinha ido por livre e espontânea vontade. Queria entender como se ensinava religião a uma pessoa — algo que eu considerava impossível e não demorei a perceber que estava certa, apesar da pouca idade.

Contei os passos até a casa… me sentei à mesa da cozinha e esperei pelo chá que chegou pouco depois. Duas xícaras. Dois olhares bem acesos. Dois sorrisos imensos e as mãos unidas sobre a mesa, numa espécie de prece.

Poemas são preces verdadeiras. Partem do silêncio. Aquele que temos dentro, quando precisamos nos ouvir. Poemas me calam… às vezes, falam por mim e, eu alcanço a paz que preciso para existir na realidade das coisas onde tudo se nomeia… inclusive o grande mistério inominável.

 



que implacável poder o desta ordem das matérias

a ordem do acessível,
e o prodígio oh
do ar na luz resolvidos de um espaço para outro,
e de repente entende-se
que um corpo é só um corpo: prova do improvável, ou
impossibilidade, ou
esplendor, ou
que alta tensão! e diz-se:
toca-me, e toca-se, e os dedos
despedaçam-se, e aquilo em que se toca alumia-se
até ao intacto, o intocável



Amém..

 


 

beda

…aconteceu Agosto!

queria ver se chegava por extenso ao contrário:
força e pulsação e graça,
isto é: luz, de dentro, despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela / estela

Herberto Helder


 

Desde que eu me mudei para São Paulo, no começo a década passada, deixei de apreciar o mês de agosto… que por aqui tem a estranha mania de aventurar-se para dentro dos outros meses.

Invade setembro… e avança severamente para dentro de outubro, feito vento forte-cortante. E sem nenhuma cerimônia se apropria de novembro, como se os dias do Centauro fossem meros degraus de pedra.

É um daqueles meses que não quer deixar o calendário… não vai embora. O ano todo avança às pressas de janeiro a julho. E a gente mal comemora o ano novo e pronto… já chega julho com seus dias confusos, de ventos frios-fortes-furiosos… e num estalar de dedos acontece agosto.

E então tudo empaca… a gente vive todos os seus trinta e um dias… e reza, como na infância, com as duas mãos bem juntas, para que nenhuma tragédia aconteça.

Se bem que, como anda tudo as avessas por aqui, não vou me espantar se agosto acabar antes mesmo de começar. Vivemos dias de avesso, onde nada é como costumava ser. Tudo está fora do lugar. Alguém pegou os meses, colocou numa caixa e os chacoalhou, esparramando tudo por cima da mesa.

Agosto sempre foi um mês de gosto forte-denso… uma xícara de café ristretto nas primeiras horas do dia. Veremos como será…