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7. Nada quebra a moldura dos dias…

Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens
enquanto a alma, no puro sopro da madrugada,
se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê
o que os outros viajantes, ao passarem
pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo
é único, não se confunde com nenhum outro.

Al Berto

Caríssima A, 

…me perdi do tempo assim que aterrissei meu corpo na janela, para onde fui assim que ouvi um trovão ressoar pelos cantos da casa-corpo-alma. Fechei meus olhos. Respirei fundo e vesti a pele com um punhado de sensações novas e antigas — devidamente misturadas… enquanto a mente ‘folheava’ as páginas do livro de Helder… “agora sei que devo saber, só. As letras da chuva loucas nas costas” e a alma começava a urdir esse diálogo silencioso contigo…

Chuva e janelas são algumas das minhas paixões mais antigas, minha cara. Penso que eu era a única menina da escola a ficar feliz com a temporada das águas. Apelidei maio de o “mês das trovoadas”… e novembro de o ‘mês dos desaforos‘…

E quando os céus anunciavam suas tempestades… eu corria para a janela — movimento que não cessa.

Gosto de apreciar as nuvens se avolumando por cima da cidade. A escuridão a moldar os cenários urbanos. As pessoas em desespero, em busca de abrigo. O medo latente nos músculos e nervos…

Eu vou na contramão de tudo isso — para variar. A euforia cessa. Uma calmaria imensa se apodera de minha anatomia. Eu nunca soube explicar as sensações que se precipitam em mim durante as tempestades. Nunca senti medo ou pavor… apenas uma vontade de fechar os olhos e trazer a tona a língua dos lençóis. Uma cama virada a sul, onde as gaivotas arrulham durante seus vôos de ocasião.

Os sons do trovão sempre pareceram uma espécie de diálogo entre a realidade o imaginário — esse barco de papel abandonado à corrente.

Au revoir