12 | meus naufrágios…

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Passei as horas dessa manhã-dia, ocupada com: ‘os meus naufrágios‘ — esse novo projeto-diálogo-livro… que me permitiu praticar  — uma vez mais —,  os meus três verbos favoritos… até a exaustão da mente.

Escrevi. Escrevi. Escrevi… sobre a noite, em paralelo, a minha infância e acabei com uma xícara de café, em mãos — a lidar com um punhado de dúvidas… coisa típica de quem nunca teve certeza de nada.

E enquanto percorria calçadas, em movimentos de passos-lembranças-frases — a  mesma velha dança de sempre —, tentava pontuar as minhas emoções. Eu sempre vivi a deriva, em um barco frágil, com tempestades a gritar seus trovões e raios cortantes. Com os olhos fechados a sentir tudo dentro… a pele molhada de chuva e os arrepios de frio a correr de norte a sul. O movimento de ondas a me levar de um lado para o outro… e o corpo a se render a essa artimanha, que algumas pessoas gostam de chamar de: destino. Eu sempre dispenso os rótulos e fico com os versos de ‘meus poetas’.

Comigo é tudo sempre intenso… na voltagem máxima. Não sei ser diferente! Não me ensinaram a me preocupar com margem ou cais, onde atracar. Eu aprendi a navegar e com isso veio o desejo de ser marinheiro. Verso de Pessoa-Campos. Disseram-me, no entanto — o que me fez rir —, que era coisa da idade. Com o passar do tempo, eu ficaria mais calma…

E o tempo passou… e ainda estou a bordo daquele pequeno barco-frágil, construído ali na infância — a navegar nesse oceano cada vez mais blues… e ao lado, sopram ventos e a água pula dentro. É preciso aguentar firme, adequar-me. Pelo alto chegam os raios de sol a queimar forte a pele e as tempestades, com os seus muitos riscos prateados.

 


 

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A poesia me ensinou a ler…

“a palavra escrita me encarnou em um corpo onde eu podia viver. O corpo-letra. Ao fazer marcar no papel, com a ponta dura da caneta, entrei no território das possibilidades. As manchas da minha pele primeiro rarearam, em seguida desapareceram. A literalidade que assinala meu estar no mundo, fazendo de mim uma geografia em que os sentimentos escavavam quase mortes, encontrou uma mediação. Pela escrita eu tornava-me capaz de transcender o concreto, transformar impotência em potência. Fui salva pela palavra escrita quando comecei a ler — e (talvez) em definitivo quando escrevi. E — importante — quando fui lida”.

— Eliane Brum, in; a invenção da escrita

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Não me lembro dos detalhes, aliás, não me lembro de nada Não há memória minha… o que tenho é coisa alheia. Eu acordei cedo. Era sábado. Uma manhã colorida. Primavera… e o cheiro de laranja vem em ondas do passado… que é meu, mas não vive em mim, como coisa minha.

Fecho os olhos, respiro fundo e sinto o aroma, vejo as cores e as formas. Como também vejo o cenário da cozinha… mesa quadrada ao meio e os armários escuros por toda parte. No alto estão as panelas penduradas e eu gosto de ouvir o som do aço — como sinos — quando o vento passa pela janela.

Estou preguiçosa… ainda é cedo. Me sento na cadeira com almofada — deixada ali para que eu possa alcançar a mesa. Era figura miúda-pequenina. Pernas e braços curtos. Diziam que eu iria crescer… e isso de fato aconteceu — anos mais tarde, com certo atraso.

Olho para a figura dourada nebulosa da mulher mais incrível do mundo e vejo seu sorriso branco e a ouço dizer — ‘buongiorno bambina’ — num sem-voz cuidadoso. Ela sempre soube que abrir os olhos e acordar eram coisas diferentes em mim.

Eu ainda durmo… ela me entrega uma xícara de leite quente-caramelado e volta aos seus afazeres… tecer uma missiva para um de seus velhos amigos de envelope. Eu gostava de espiar os movimentos da caneta no papel, que eram como trilhos… e eu sempre imitava o som da locomotiva em seu ritual de chegadas-e-partidas.

Me distraio com alguma coisa… nessa idade, meu imaginário estava insaciável. Pouco o olhar em um livro de poesias em cima da mesa, por cima de outras tantas coisas e eu faço como os cães, viro a cabeça para espiar o título.

Reconheço as letras e num esforço particular… consigo pronunciá-las enquanto palavras — repetindo-a em voz alta. Título e Autor.

C., sempre prestava atenção a todos os meus gestos… e ao contar essa história, revela que fez enorme esforço para não transbordar. Calou-se e apreciou a primeira leitura, sem incomodar.

Foi o meu ponto de início… não parei mais. Lia tudo que encontrava… nas paredes-muros-pedaços-de-papel.

Do que eu realmente me lembro? — de um poema numa manhã de sábado, mesmo cenário. Aos cinco anos… escrito num pedaço de papel. Chamava-se ‘felicità‘ — felicidade — e o autor falava naquelas linhas, de suas emoções mais sinceras.

Depois de ler aquela espécie de lista de coisas particulares… fiquei a deriva, com a sensação de que o poeta tinha tentado arrancar beleza onde parecia não haver nenhuma. Eram coisas simples, que eu fazia todos os dias… que todos fazem, de maneira quase mecânica-natural — “escovar os dentes, molhar o rosto com água fria, enxugar na toalha felpuda, por água no fogo e preparar o café, cortar o pão, passar manteiga, abrir a janela e espiar a cidade feia”.

Fiquei um punhado de minutos a pensar naqueles versos… a sentí-los em mim. Peguei um pedaço de papel, caneta… e rabisquei minhas emoções. Me lembrei das palavras de C., — a poesia é uma pausa na realidade. O poeta respira fundo enquanto, fecha os olhos e sente. Cada vírgula é uma generosa porção de ar que leva para dentro. Cada verso é algo que ele escolhe guardar, como se fosse um baú de madeira.

A poesia me ensinou a ler e escrever… a prestar atenção nas coisas… feias-bonitas-alegres-tristes. Me ensinou a respirar e a fechar os olhos. A ficar quieta… fazer silêncio e compreender que símbolos podem ser atribuídos por outros e são, mas os significados.. são nossos.

 


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Meu imaginário bebe nessa fonte…

No tempo da minha infância, primos meus tinham medo de uma casinha nos fundos da casa do nono… era apenas um cômodo com fogão a lenha, uma prateleira antiga com coisas feitas de ferro. Uma mesa quadrada ao centro com suas quatro cadeiras capengas e uma janela que para se manter fechada, precisava de um calço de madeira.

Era a primeira casa deles, feita para ‘guardar a família’… quando eram apenas duas pessoas. O enorme cômodo era sala-cozinha-quarto. Dias difíceis… de luta. O casarão da frente foi construído tempos depois, com o dinheiro da segunda colheita. Um punhado de braços trabalharam duro — dia e noite —, para tudo estar pronto antes do nascimento do primogênito.

Quando eu cheguei a esse mundo… ali já era o cômodo dos jogos de cartas — nas noites de sexta. Eu gostava de ficar na varanda… de onde dava para ouvir gritos eufóricos e outras euforias que me faziam rir.

Certa vez, espiei o jogo pela fresta da janela… e me diverti ao ver quatro homens se comportando feio garotos. Um deles tinha uma carta colada na testa… outro tinha arriado as calças e mostrado a bunda. Arregalei os olhos, cobri a boca com a mão esquerda e corri para longe, onde pudesse deixar o riso solto.

O lugar era cheio de lendas… um dos meus primos repetia que se a meia-noite, espiasse o lugar pelo buraco da fechadura e rezasse o pai-nosso de trás para frente… enxergaria o diabo, em pessoa.

Eu ri… para desgosto de meu primo — que passou a descrever a figura da besta, com seus chifres enormes e cauda animalesca, com o intuito de me assustar. E como não deu resultado, fui desafiada a ir até lá… sozinha.

Aceite o desafio com um aparto de mãos bem forte — e lá fui eu… cheia de disposição. A parte mais difícil foi abrir a porta, que era pesada e precisava ser sutilmente levantada. Ultrapassado esse obstáculo, me deparei com um cômodo às escuras… as paredes estavam cobertas de fuligem e de teias de aranha. O chão era feito de tijolo de construção… e soltava uma poeira avermelhada, imprimindo ao resto do lugar pegadas alaranjadas.

Me lembrei dos contos de Edgar Alan Poe — lidos durante o verão anterior —, e minha imaginação se divertiu ao inventar uma realidade falsa, imersa em alegorias típicas de um filme de terror.

Encontrei dentro da gaveta da mesa… o meu troféu — uma caixa de baralho… e um punhado de sementes de feijão branco que eu entreguei nas mãos de meus incrédulos-primos-boquiabertos.

Eles nunca tinham entrado lá… além do medo que regia cada músculo do corpo deles, havia ainda a crença de que existia uma força oculta que os impedia de entrar. A força dos anjos, que velavam para que suas almas não fossem dominadas pelo Vingador, também conhecido por Satanás…


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05 | Um belo frasco de memórias

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Caríssima A.,

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…por vezes atravesso o oceano apenas para me sentar numa dessas mesas bem merecidas, de frente para as paisagens de teu sítio. Vejo pouco e ouço muito… sou uma dessas figuras em que vigora a saudade, embora essa palavra, para mim, tenha um sabor estranho. Soa como café frio-amanhecido… ou pior, café americano-carioca. Urgh

Aprendi — em meu idioma — a dizer “mi manchi”…  que quer dizer “sinto sua falta”…  ou “gostaria de sua presença”.

A palavra saudade, no entanto, parece ir na contramão disso… no Brasil, a maioria dos cemitérios se chamam “saudade”. Nada tenho eu contra esses espaços urbanos reservados para os mortos… mas é como se o sentimento por trás dessa combinação de consoantes e vogais se reservasse apenas aos mortos e, não para os vivos.

…sinto falta de muitas coisas. A cada minuto do dia, sou invadida por essa sensação gostosa que apenas a ausência é capaz de provocar. E quando leio seus escritos… mergulho no fundo de minha anatomia: esse baú de perdidas chaves… reviro tudo! Espalho todas as minhas coisas por cima da cama… tocando o passado como se fosse uma caixa guardada na parte mais alta do armário.

Eu tive uma infância agridoce… povoada por alegrias e tristezas. Creio que seja assim para a maioria de nós. Não me lembro de todos os momentos e creio que nem poderia, afinal, há coisas que pertence aos outros… mas há um punhado de coisas que a minha memória mantém intacta: o primeiro dia de aula está lá — em total segurança… e acena com o desconforto de quem estava acostumada a existir entre meia dúzia de pessoas: todas iguais e conhecidas. Fiquei emburrada por ter que deixar o ambiente confortável do quarto para frequentar — diariamente — uma sala de aula… onde vinte e duas crianças tentavam aprender o alfabeto e combinar as consoantes com as vogais. Foi qualquer coisa aborrecida para uma criança que já sabia escrever um belo punhado de palavras.

Os passeios pelas carrugi nas manhãs de domingo também tem seu espaço assegurado… eu tinha um par de botas vermelhas para os dias de chuva e como adorava usá-las. Pedia por chuvas a semana inteira.

Com ela nos pés… eu podia pisar poças e fazer minha própria algazarra — imitando os pássaros em meu quintal. C., achava graça dos olhares assustados das outras mães, que pedia as filhas, para se comportarem feitos meninas — ao contrário de mim. Ela nunca me repreendeu! Nem mesmo quando as botas ficavam cobertas por lama…

Também me recordo o dia em que ganhei meu primeiro livro de poesias. Um belo exemplar comprado em um sebo, com capa verde musgo e páginas amareladas. Emily Dickinson… em inglês — idioma que eu ainda não dominava, e passei a aprender nas noites de terça e quinta…

…mas existem muitas coisas perdidas cá dentro de mim. Vez ou outra uma foge e se precipita, como as famosas chuvas de maio a gritar seus trovões — como se a minha matéria quisesse valer a afirmação, que fiz ainda na infância: “eu sou toda tempestade” com a qual C. sempre assentia com seu sorriso primaveril.

abraço-te… ritorno a casa e, vou a cozinha combinar ingredientes, venha mais tarde provar um pão de ervas.

Au revoir

06. Nada quebra a moldura dos dias…

Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens
enquanto a alma, no puro sopro da madrugada,
se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê
o que os outros viajantes, ao passarem
pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo
é único, não se confunde com nenhum outro.

{ Al Berto }

6 on 6 - tempestade

Caríssima A, 

 

…me perdi do tempo assim que aterrissei meu corpo na janela, para onde fui, assim que ouvi um trovão ressoar pelos cantos da casa-corpo-alma. Fechei meus olhos. Respirei fundo e vesti a pele com um punhado de sensações novas e antigas — devidamente misturadas… enquanto a mente ‘folheava’ as páginas do livro de Helder… “agora sei que devo saber, só. As letras da chuva loucas nas costas” e a alma começava a urdir esse diálogo silencioso contigo…

Gosto imenso de tardes nubladas. O som da Chuva é uma das minhas paixões mais antigas, minha cara. Penso que eu era a única menina da escola a ficar feliz com a temporada das águas. Apelidei maio de: o “mês das trovoadas”… e novembro de o ‘mês dos desaforos‘…

E quando os céus anunciavam suas tempestades… eu corria para a janela — movimento que se repete nessa fase (?) adulta.

Gosto imenso de apreciar as nuvens se avolumando, por cima da cidade. A escuridão a moldar os cenários urbanos. As pessoas em desespero, em busca de abrigo. O medo latente nos músculos e nervos.

Eu vou na contramão. A euforia cessa. Uma calmaria imensa se apodera de minha anatomia. Não sinto medo ou pavor… apenas uma vontade de fechar os olhos e trazer à tona a língua dos lençóis. Uma cama virada a sul, onde as gaivotas arrulham durante seus vôos de ocasião.

Os sons do trovão sempre pareceram uma espécie de diálogo entre a realidade e o imaginário — esse barco de papel abandonado à corrente.

 

Au revoir