— Que mundos te guardem e te apartem de mim…

2017-04-10 21.19.18

Eu fui uma criança saudável… tive as doenças comuns à infância e não me lembro de longos períodos de convalescença. No entanto, eu vivia Febril. Tinha facilidade em elevar a temperatura do corpo e acusar moleza nos músculos e nervos… a ponto de causar preocupação nos adultos. Por causa da febre alta... fui enviada para casa várias vezes e a Enfermeira do colégio insistiu com os meus… para que me levassem ao médico, afinal, em um único semestre… minha temperatura tinha se elevado uma dúzia e meia de vezes.

A Febre, contudo, cessava — milagrosamente — assim que eu me sentava à mesa da cozinha e recebia uma xícara de leite-quente-caramelado em mãos. Obviamente que C., não demorou a perceber minha artimanha, mas não houve repreensão… apenas me perguntou certa vez: a senhorita pretende adoecer nesse dia?


 

Eu fui uma criança feliz… na maior parte do tempo, principalmente na companhia dos meus. Adorava me sentar a mesa para as refeições e ouví-los em suas narrativas de vida. Provar do sucesso de cada um e das descobertas… certa vez contei a eles que uma casa da rua tinha mudado de cor. Mio babo arregalou os olhos e lá fomos nós conferir a novidade. Vi o sorriso começar nos lábios de um e terminar nos lábios do outro, mas eu só entendi a reação dos dois quando outra casa mudou de cor. A vida é uma coisa bastante simples… basta que um seja diferente.

Mas no colégio eu não sabia o que era felicidade, alegria tampouco. Vivia aborrecida… era a menina do canto — sempre mal-humorada, calada-cansada… sensivelmente irritada. A única pessoa a reparar nisso foi G., — minha professora de Latim. Ela era uma mulher excepcional, com quem travava demorados diálogos na biblioteca. Com ela eu aprendi Borges, Bishop, Sexton, Auden, Baudelaire e tantos outros. E, ingenuamente, lhe apresentei Pizarnik, Wolf, Dickinson e Eliot.

 


 

Eu fui criança… e aprendi no tempo certo a força das palavras. C., era uma mulher sonora. Sua fala era firme e suas frase bem pontuadas. Ela não tropeçava nos argumentos, sabia ser rígida sem perder a calma e a tranquilidade. Ela cruzava os braços a frente do corpo e levantava a sobrancelha esquerda. Previsão do tempo? Tempestades isoladas — diria a moça do canal cinco.

Antes de sair de casa… repetia sua lista de recomendações: ‘não olhe outra pessoa se ela estiver a comer. Não me peça nada no mercado. Não solte de minha mão em momento algum. Não interrompa a conversa dos adultos. Não aceite nada que lhe for oferecido, apenas agradeça. Seja gentil com todos, mesmo com os que não forem gentis com você. Diga sempre ‘grazie e prego’. Não mastigue de boca cheia. Não repita tudo que ouvir. Não feche a cara, o tempo. Não faça graça. Não diga palavras desnecessárias. Não bufe. Não corra pelos lugares. E o mais importante: se eu lhe disser não… é não. Não quero ter que me repetir. Mas se eu o fizer, essa conversa só acabará ao chegar a casa. Estamos conversadas?’.

 


 

O adulto que eu sou… asseguro… é muito grato a criança que eu fui!

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | TEMA JANELAS

Tenho verdadeiro fascínio por janelas… desde a infância. Creio que tudo começou por volta de meus quatro ou cinco anos, quando me deparava — ao sair as ruas — com duas signoras… devidamente posicionadas em suas janelas de existir. As duas irmãs tinham o hábito de tomar conta da vida alheia. C., tinha verdadeiro horror por elas. Eu, no entanto, nutria certo fascínio por aquela cena corriqueira.
Gostava de espiar os interiores sempre bem cuidados-perfumados das casas. Colhia pouco ou nada: um quadro na parede, uma santa numa espécie de altar e o lustre de gotas de cristal. E a partir disso, imaginava um sem-fim de coisas.
Elas acenavam para mim e eu acenava e volta. Elas sorriam e eu também… mas dado o número de confusões que causavam na nossa rua — graças as suas ‘línguas sempre afiadas’ — C., reprimia qualquer possibilidade de amizade com seu olhar inquisidor.
De qualquer maneira… o meu fascínio pelas janelas abertas-fechadas-acesas-ou-apagadas… já tinha se iniciado… através daquele desenho delicado de realidade… com suas venezianas verdes, que hoje não existem mais.
A casa foi ao chão durante o tempo em que estive longe… deu lugar a um sobrado garboso e muito elegante. Suas janelas vivem fechadas: faça chuva ou faça sol. Nunca mais vi uma só pessoa naquelas janelas… e a casa nem mesmo parece habitada. Mas a minha memória preservou certos traços e sou capaz — se fechar os olhos — de ouvir as fofocas das ‘esquifosas signoras’

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No bairro da Bela Vista, em São Paulo, há inúmeros casarões antigos. A maioria está abandonado e em ruínas… mas ao observar o que resta de suas fechadas, dá para imaginar um passado elegante e simpático…

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No Alto da Lapa… algumas casas do começo do século XX — com datas impressas na fachada de seus imensos casarões — resistem bravamente ao tempo, ao abandono e as invasões! As que ainda não foram demolidas, nos últimos anos, passaram a abrigar asilos.
Essa, situada em esquina, teve seu traço alterado… e a velha janela cor de sangue foi substituída por uma de ferro com pesadas grades…

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Localizado no Centro da cidade, na Praça Ramos de Azevedo… o Teatro Municipal foi inaugurado em 1911 para atender o desejo da elite paulista da época. Seu estilo arquitetônico foi inspirado no Ópera Paris.
Passou por uma grande reforma recentemente, mas infelizmente a ‘cultura do pixo‘ já manchou suas paredes novamente com grafias negras e horrendas.
Eu já fiquei um bom par de horas a espiar suas janelas em estilo colonial e suas estátuas — ‘gargulas’ — que segundo as lendas urbanas, ganham vida durante a noite! Será que dançam pelo Viaduto do Chá?

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A região da Bela Vista é excelente para se observar imóveis antigos, dado ao grande número construções do início do século XX que, ainda se fazem presentes por ali, por quanto tempo, contudo, é impossível dizer.
Localizado entre os números 276 e 286 da Rua Major Diogo… esse prédio um dia foi um elegante sobrado… localizado quase diante do prédio do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Sua lateral e fundos atualmente são ocupadas por um estacionamento {mania local, privilegiar os veículos, que entopem as ruas}… mas o seu interior encontra-se abandonado e em ruínas.

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Na mesma Rua… estão as ruínas de um dos mais importantes Teatros de São Paulo. o TBC — ‘teatro brasileiro de comédia‘ — construído na década de 40 no Bixiga. Foi palco para uma geração empenhada em modernizar as artes cênicas do país. Por lá passaram Cacilda Becker, Paulo Autran, Tonia Carreiro, Walmor Chagas, Sergio Brito e tantos outros. Atualmente, vive a promessa de recuperação…

Geografias poeticas

Enquanto alguns casarões tombam pela cidade… outros são mantidos intactos-preservados… como esse, que fica entre as esquinas do Jardim América (jardins)… um pedaço nobre da cidade. O bairro foi projetado pela dupla de urbanistas Barry Parker e Raymond Unwin, contratada pela Companhia City — empresa de investimentos imobiliários criada em 1912 e que teria papel estratégico no desenvolvimento da cidade.
Localizado em uma região considerada inadequada para a habitação, o bairro surgiu após a drenagem de um milhão de metros quadrados de charcos e pântanos.

Espero que tenham apreciado o passeio pelo minha Paulicéia e seus muitos {estranhos} contrastes…

Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários 

Naqueles dias, eu só queria saber – inevitavelmente – do dia seguinte!

dia seguinte

Ele tinha belos olhos castanhos, agudos… os cabelos dourados de sol e o mais belo dos sorrisos. A., era um menino quieto, de poucas falas e, gentil… como poucos meninos sabem ser.

Nos encontramos em sala de aula… dividimos a mesma mesa e trocamos olhares enviesados-rápidos seguido por um cumprimento silencioso — quase mudo. Eu gostava de espiar a sua caligrafia arredondada e ele se divertia a observar a minha dificuldade de canhota, obrigada a escrever à mão direita. Para ele era tão fácil o movimento, enquanto para mim era quase impossível. A raiva amarrava os músculos e nervos tornando o movimento ainda mais complicado…

Certa vez A., — num gesto de menino — trouxe em mãos… uma margarida branca-miúda… a mais bela das flores. Tinha colhido em um jardim a caminho da escola. Não disse palavra… apenas realizou o delicado gesto: entregou a primavera em minhas mãos de menina…

Nos tornamos amigos-cumplices… dividíamos o lanche, o olhar, o sorriso e a vida mínima. Ele gostava de escrever versos, sabia rimar toda e qualquer palavra e eu achava divertido as invencionices que ele fazia. Mas eu preferia as frases inteiras, demoradas…

Éramos os únicos da turma de doze crianças a saber ler e escrever… os demais se limitavam ao monótono jogo de riscos e rabiscos…

Descobri através dele que gostava mais de meninos que meninas… elas eram barulhentas e brigavam por qualquer coisa ou motivo. Não gostavam de sujar as preciosas roupas e sapatos. E adoravam bonecas — objeto que eu sempre detestei.

Os meninos eram arteiros, audaciosos… e viviam com as roupas sujas, a pele rasgada e os sorrisos era imensos. Eles escalavam árvores… tinha brinquedos mais divertidos e combinavam artimanhas singulares. Vez ou outra tinha olhares furiosos, caretas engraçadas e troca de socos… com certeza eu gostava mais deles.

A., me dava a mão no caminho de casa e dizia que eu era a menina mais legal do mundo… eu corava e convivia com um sem-fim de pontadas na boca do estômago. O coração disparava. Os olhos arregalavam-se e as comichões se multiplicavam na pele, espalhando velozmente pelas veias, nervos e músculos.

Eu me alegrava facilmente em sua presença — o corpo todo era uma festa — mas, quando ele ia embora, deixava em mim o desespero do fim-do-mundo. Revia seus traços em minha mente… e me via imersa num confronto alucinado contra o tempo.

Naqueles dias, eu só queria saber — inevitavelmente — do dia seguinte!

A menina que um dia eu fui,

“Meu lar é qualquer um | as noites translúcidas
uma esquina, a aurora | um cartão postal antigo
as palavras perdidas”

Cris Campos

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Nasci em mil novecentos e oitenta e um… no primeiro minuto do dia vinte e nove de novembro. A lua estava em sagitário e, aparentemente, eu também. Chovia intensamente por toda a cidade… por isso cresci ouvindo que eu nasci “entre um trovão e outro”.

A cidade era Gênova, com seus sons de mar e seus caminhos de pedras. Ocupávamos uma casa antiga que tinha vista para o mar de um lado e, para os elementos urbanos do outro. Tinha varanda com mesa redonda e cadeiras de ferro para os fins de tarde regados a cantos de pássaros e pesadas sombras. Quintais de fruta e folhas para as manhãs por começar. Mesa grande para os dias domingos e, bancos para qualquer dia da semana…

Foi nessa casa que aprendi a ler e a escrever meu nome com suas cinco letras: duas vogais e três consoantes… e que ganhei meu primeiro “diário”. Na primeira página anotei o ano: mil novecentos e oitenta e oito e, na segunda folha: um poema de Emily Dickinson… poeta que ‘encontrei’ sob a mobília da sala.

Levei algum tempo para iniciar-me nas linhas seguintes do tal diário… mas quando o fiz foi na terceira pessoa do singular como se a menina a escrever ali — contasse a história de uma pessoa qualquer, que não ela-ninguém…

Escrevi em diários ininterruptamente até o dia vinte de junho de mil novecentos e noventa e quatro… até então o verão era a estação da minha alma: dias de festas, sol a dizer alegrias, realidade aquecida… vida que se expande em diferentes direções! Depois disso… o verão passou a ser qualquer coisa aborrecida-desagradável-cansativa… e extremamente extenuante. Não me lembro como se deu o fim do verão e também não me lembro dos verões dos anos seguintes… me lembro apenas, que encontrei outra estação para amar: o outono!

Não tenho saudades da minha infância, mas é como um livro que guardo na prateleira… sempre busco por ele para re-ler a história, que resultou nessa realidade atrevida, que sou. Gosto de correr os olhos sobre as páginas, que dizem a menina, a quem a mãe perguntava pela manhã, com um ar visivelmente preocupado e o olhar atento as poucas reações, que eu apresentava: “você dormiu?”. Eu sempre respondia com o olhar baixo, num quase sem voz: “uhummm” — era uma mentira necessária, que não convencia, afinal, o desenho escuro ao redor dos olhos denunciava as noites sem sono já naqueles dias.

Eu não dormia e ela sabia… mas fingia não saber. Entrava em meu quarto pontualmente às oito horas da noite para perguntar: “escovou os dentes?” e se dava por satisfeita com a rápida resposta, que eu lhe entregava. Colocava uma manta a mais no pé da cama e abria os braços para me receber em um abraço de urso, que parecia durar uma vida inteira. Me desejava boa noite com sua voz de veludo, apagava a luz… e fechava a porta len.ta.men.te.

Eu nunca tive medo de escuro… a noite foi sempre cenário das minhas invenções mais malucas. No começo eu não sabia se dormia ou se fingia que dormia. Não sabia se sonhava ou se inventava os meus próprios sonhos.

A dúvida entre o real e o imaginário teve início dentro daquelas noites… ao mesmo tempo em que a certeza de que seria alguém, pautado pela solidão, se estabeleceu. Quando a porta do quarto se fechava, a realidade era subtraída dos meus olhos, que se acostumavam facilmente ao breu… e eu me sentia agigantar.

A menina que eu fui, modelou todas as insanidades, que eu abraço… e sou e sempre serei grata a ela… vez ou outra, a espio nas páginas desse livro, que ela me ajudou a escrever. Preparo uma xícara de chá, sovo a massa, porque ela adora o cheiro de pão recém-assado… e conversamos. Ela me conta que gosta de sair para caminhar calçadas, depois das chuvas e eu de dormir pelas manhãs, quando as sombras recuam… e as luzes artificiais se acendem  no alto dos postes.

Nós duas ainda não conseguimos entender porque os dias — mesmo no outono — são muito mais longos que as noites… será que Freud explica?