24 | gostar ou não gostar, eis a questão

Eu gosto de gostar… estender a mão para um encaixe e ficar num abraço. De convidar à casa e por a mesa. Escolher o prato, o vinho. Servir o café… com biscoitos de leite que derrete na boca, às vezes, na mão — receita antiga que combina coco-trigo-amido-de-milho-e-manteiga.
Mas gosto imenso de não gostar porque há temperos que não agradam ao meu paladar e ingredientes que não uso. Considero natural existir pessoas estranhas à minha pele-alma. Que o olhar recusa e o corpo não deseja partilhar calor-sabor-aroma.
O que tento evitar é o deixar de gostar… mas, às vezes, acontece e eu tento não lamentar. Há xícaras que se quebram. Colheres de pau que estragam. Tábuas que deixam de servir. Facas que perdem o corte. Ingredientes com prazos de validades vencidos e que só percebo na hora de fazer uma ou outra receita.
Acredito que as relações se estabelecem através da empatia… esse ingrediente que nos faz prestar atenção em alguém e nos permite degustar qualidades-e-defeitos em pequenos goles. É preciso existir algo que nos una a alguém — um aroma âmbar —, nessa seara insana de humanos em movimentos. Não é possível gostar de todos.
Temos preferências… secretas-silenciosas — nossas. Eu gosto de ópera-rock. Vinho branco em cálice pequeno. Prato fundo para a massa. Pia sempre limpa. Faca bem afiada. Livro de poesia. Xícara de chá. Mesa posta. Legumes coloridos-firmes-bem-escolhidos-lavados.
Não gosto de louça suja. Bourbon. Prato de vidro. Talher sem peso. Panela queimada. Faca sem corte. Quiabo. Chuchu. Coentro. Café fraco-frio. Toalha de mesa.
Considero que convidar alguém a casa para um jantar… é coisa muito séria. Requer cuidados. Escolher o prato. Providenciar os ingredientes. Preparar a casa, a mesa. Cortar. Picar. Triturar. Aquecer panelas. Combinar tudo…
Eu não acredito que seja possível preparar um jantar sem unir o que há de melhor em si. Sentar-se à mesa para uma refeição é partilhar intimidade… avessos-contrários. Desnudar-se… oferecer sensações antigas-e-novas. Oferecer-se…
Outro dia, recebemos uma pessoa à casa. Nos conhecemos ‘entre esquinas’. Não oferecemos muito uma a outra nas primeiras vezes: olhares rápidos, sorrisos miúdos, duas ou três palavras pequenas. Nunca nos pedimos nada. Eu gostei dela assim que a vi. De seu olhar em fuga. De seus gestos em movimentos de calçadas-cigarros-telefone-falas-menores-passos-contados… de um lado para o outro — numa marcha lenta-pequena — de norte a sul.
Me lembro dela sempre que misturo farinha-açúcar-sal-ovo-água-morna-óleo-e-fermento… para fazer pães, no meio da tarde — sem compromisso com outro que não eu. Apenas vontade… feito chuva de verão. É como folhear um velho álbum de retratos… os mesmos que eu sempre penso em organizar e nunca o faço. Gosto de ter as fotografias espalhadas em caixas… para num dia qualquer da semana, fingir organizá-las… enquanto revisito momentos esquecidos dentro de um retrato.
Preparei o molho, a mesa… escolhi a pasta, o vinho-tinto. Encomendei trovoadas e esperei…

O tempo joga xadrez… sem peças

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Eu tinha oito anos quando entrei no templo sagrado da cozinha da nonna, pela primeira vez. Era o lugar das mulheres mais velhas da família — as donas do sabor, que cortavam, picavam, descascavam e se divertiam com suas falas secretas, em idiomas particulares.
Na cozinha falavam de tudo — aprendiam-se.
Eu gostava do som das gargalhadas sonoras — que se espalhavam pela casa toda —, quando diziam bobagens de adulto — em dialeto —, para que eu não entendesse.
Eu as espiava sem muito entender… consciente de que, queria fazer parte do grupo-bando. Pôr a mão na massa… e compreender aquelas falas, capazes de atiçar a curiosidade de quem as ouvia.
Foi o que fiz naquela manhã de sábado… era o primeiro final de semana das minhas férias de verão. Fui a primeira a chegar. A casa ainda estava vazia… e era toda minha. Percorria os cômodos. Entrava e saída dos quartos, imaginando-os cheios-povoados-ocupados por aquelas pessoas-estranhas — integrantes de uma mesma família — que começariam a chegar em breve. Ali era o nosso ponto de encontro, durante o verão.
A nonna me colocou em cima de uma cadeira mais alta, própria para a minha idade e tamanho. Vi os ovos serem quebrados na tigela — separando gema e clara. A ajudante da nonna — uma mocinha quase muda, em fase de aprendizado — batia a clara com o fouet até virar nuvem-neve e atingir uma brancura de algodão. A outra — um pouco mais velha, quase tão muda quanto — misturava leite, as gemas e o açúcar… e batia ferozmente até obter uma mistura lisa-perfeita, cujo segredo era a sua cor.
A nonna era responsável pelo buchamel… preparado com uma deliciosa delicadeza. Vez ou outra, levantava a colher no ar… e deixava correr aquele fino fio líquido amarelado.
Eu gostava de apreciar a sincronia dos movimentos, a velocidade, o ritmo de cada uma, as formas dos gestos. Tudo acontecia de forma coordenada-organizada.
Depois que todos os ingredientes se misturavam, era hora de sovar até obter nova textura e densidade. A bola de massa era coberta com um pano branco e ficava ali no centro da mesa farinhada, até dobrar de tamanho.
Dividida em porções iguais… cada um recebia a sua, para modelar. Eu também ganhei minha porção. Uma pequena bolinha de massa. Olhei os movimentos e os repeti. Esticando a massa com a ponta dos dedos, em cima da mesa. Fiz meu primeiro pequeno pão, que foi ao forno, ao lado dos demais. Quarenta minutos depois, a casa inteira cheirava pão assado e eu estava ansiosa para ver o resultado.
Comi com todo cuidado… pedaço por pedaço, partindo-o com as mãos. A nonna — consciente da minha satisfação —, sentou-se ao meu lado… e disse: ‘o principal ingrediente você tem aí dentro. O resto, aprende com o tempo. Cada cozinheiro tem seus próprios segredos: panelas, colheres, uma boa faca e o melhor jeito para escolher os ingredientes. Misturá-los é a parte mais fácil, depois que a gente entende a nossa própria alquimia. Agora vá ler seus livros, porque cozinha não é lugar de criança‘.
Respirei fundo e arrastei minha tristeza para outro canto da casa… foi apenas a primeira vez em que lamentei a pouca idade e calculei nos dedos das mãos, quanto faltava para deixar a infância…

 


trecho do livro de crônicas… meus naufrágios, publicado em 2018
pela Scenarium livros artesanais…