Beda | Uma sexta-feira em ruínas…

Caríssima M.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir. 

 


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Filme | Camille Claudel 1915

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SAI DE CASA PARA IR AO CINEMA… coisa que não fazia havia tempos porque, às vezes, nos perdemos das coisas mais simples e fazemos todo o resto. Hoje, no entanto, sai para caminhar calçadas, dobras esquinas, ultrapassar quarteirões e quando dei por mim, meus passos em pares tinham me conduzido ao Espaço Itaú de Cinemas — o antigo “Espaço Unibanco” que passou por reformas e exibe novo traço…

A peça “Camille Claudel 1915” estava em cartaz. Fui direto à fila… e quando estou a pedir o meu ingresso fui interpelada por essa senhora recém-saída de seu mundo cor de rosa com suas falas agudas e completamente dispensáveis: “não vale a pena, é uma peça muito triste. Nem dá pra entender direito. Achei tudo tão horrível”. Achei que num gesto indócil, ela fosse retirar o ingresso das minhas mãos e num rompante, iria fazê-lo em pedaços. Mas ficou apenas no discurso tolo-tosco-desnecessário. Mas a maneira agridoce como me olhava, fez parecer que eu estava insistindo em fazer algo indevido-proibitivo.

O filme começou pontualmente as 14 horas… e desde o primeiro instante percebi que se tratava de um filme sobre o tempo. A personagem em cena é uma Camille Claudel vazia — sem seu ateliê e também sem o seu talento. Sem Rodin e sem a si mesma.

Seus movimentos por aquele espaço (sanatório) são típicos de uma pessoa que não sabe onde está e tão pouco se reconhece. Talvez por isso reze tanto — porque é preciso acreditar que existe lucidez em algum canto do mundo e de nós mesmos. Precisamos acreditar — juntando as mãos em oração a algum salvador — que a tão desejada lucidez poderá enfim nos ser devolvida. Ainda que seja por esse deus que está no céu — esse lugar etéreo.

É desesperador o silêncio em cena… que de repente é quebrado por estranhos ruídos. Tudo se transforma em míseros segundos e provamos da loucura da personagem. É nesse momento que nos damos conta que a loucura é objeto comum à realidade de Camille.

Seu irmão — que a culpa, por sua loucura — é igualmente louco… ou talvez o único louco de fato na família. Mas ao contrário de Camille, ele desfruta da liberdade que falta a ela.

Em determinado momento do filme… a personagem de Juliette Binoche desce pares e mais pares de degraus, em meio a uma falsa calma que me fez questionar: “teria ela contado cada um daqueles degraus? E se o fez: quantas vezes os contou e qual seria o resultado dessa soma?” E o que me obriga a voltar a uma conclusão antiga: enlouquecer, às vezes, é tudo que nos resta.

Quando estamos enterrados até ao pescoço… precisamos — desesperadamente — nos agarrar a alguma coisa para que o ar adentre os pulmões e a vida prevaleça. É a sensação que tive ao vê-la amarrar os cadarços com tamanha facilidade. A coordenação motora que ela exibe, me fez perceber que a sanidade encontrou um meio de ser preservada dentro daquele corpo febril —mesmo estando na floresta com lobos.

E quando, em meio ao silêncio de um caminhar pelo jardim… ela busca no chão um pouco de barro — sinto que algo mais sobreviveu ao isolamento imposto por sua família.

O filme não é para qualquer um… há cenas complexas, intensas e lentas, que nos pede um olhar para nós mesmos… e não é fácil se posicionar diante do espelho e encarar essa “falsa verdade” que confeccionamos dia após dia.

Uma das cenas que mais  me incomodou… foi a caminhada de Paul — irmão de Camille — por uma colina, ao lado de um padre. A imagem do sagrado, lado a lado, a força do homem, colocado, propositalmente em primeiro plano… determinando a condição inferior do homem, inferior até mesmo… a de uma mosca, que surge com seu zumbindo imenso a zombar da podridão do homem. O irmão de Camille se mostra incapaz de perdoar a própria irmã, que não luta contra o demônio, que tem dentro de si. Ela se rende e se deixa possuir. Acusa suas fragilidades… e esse é seu maior pecado. O homem existe para travar suas batalhas, suas lutas. Existe para sobreviver em sua condição menor.

Sai do cinema com a alma em pedaços… e fui caminhar por uma daquelas galerias da Augusta. Me sentei num daqueles bancos de madeira… e fiquei a pensar na realidade de caminhos-ventos-dias-de-sol-e-palavras. Se fosse eu no lugar de Camille, talvez as minhas preces tivessem o mesmo destino que o dela: um deus que vive no céu… que, em momento algum veio em seu socorro. E implorar foi o que ela mais fez…

colegas de faculdade,

as“Algo em nós sempre ri,
sonha e fracassa”.

— Jacques Marie Émile Lacan —


Eu tinha quase vinte… ela vinte e seis. Eu era recém-chegada… e ela parecia estar lá desde sempre, a ocupar a mesma cadeira. Ela tinha olhos cor de caramelo… e os meus eram cor de café expresso. Sentava-se na primeira fileira de cadeiras… e eu mais ao fundo.

Não nos falamos nas primeiras vezes… apenas nos olhamos rapidamente — e confesso: foi como tropeçar…

Ela tinha marcas na pele: um dragão e uma meia lua em estado Minguante… eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina: joelho rasgado, sangue a escorrer, raiva a gritar junto aos punhos fechados… e pessoas a me segurar. Eu nunca fui alguém fácil de ser contida…

Eu ouvia Led Zepelim… ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto… e eu de vermelho. Eu era febril… ela delirava! Não me lembro qual das duas falou primeiro. Me lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das inúmeras tardes alaranjadas.

Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade… e eu era justamente o contrário. Talvez por isso, tenha sido muito assustador, mas completamente saboroso…

Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan… e eu ainda estava a descobrí-lo. E foi alucinante partilhar de sua paixão.

Ela cursou apenas o primeiro ano de psicologia… surtou e acabou internada. Não me deixaram vê-la.

As drogas que a fizeram dormir… roubaram toda a sua sanidade e capacidade de fazer de mim uma possível lembrança. Passei a ser apenas uma estranha e nada mais… alguém a quem agredir com gestos e palavras. Alguém a quem ignorar, acusar… alguém que vai embora e não deixa saudades. Alguém…

…a estranha que ficou com um caderno de notas onde ela escreveu a mesma palavra dúzia de vezes: “desire“… sinal de loucura? Para mim era prova irrefutável de in-sanidade. Eu quis ser ela. Provar da coragem que seus músculos vestiam… mas eu era apenas a menina que vestia um sorriso bobo-apagado-e-completamente-sem-graça nos lábios — sem muita disposição para pessoas… algo que sempre a fez sorrir.

Eu queria ser sozinha… viver no canto oposto às multidões. Ser silêncio… sem rastro. Uma sombra no chão que se apaga quando a noite acaba. Ela queria ser infinita, andar no meio da turba, fazer barulho — gritar cada vez mais alto até arrebentar os tímpanos alheios.

…e, mesmo assim ela veio ficar em mim, com seu sorriso imenso, seus gestos sempre indóceis, olhares imensos-gulosos… e ao dizer seu nome foi como ouvir um eco: Catarina…