Teorias impossíveis em uma xícara de chá…

O mapa de vênus
Livro artesanal… “o mapa de vênus”

Às vezes, para escapar da realidade e suas coisas demasiadamente humanas… eu faço uso de certos artifícios para distrair a mente — ocupando-a com bobagens-particulares. Há quem se embebede, mas, como eu não tenho apreço por bebidas alcoólicas, prefiro colocar a água no fogo, preparar uma xícara de chá — o que impõe uma pausa natural nos ponteiros da realidade — e pronto, me ocupo com coisas que não acrescentam absolutamente nada à vida… que passa.

Os mais diversos assuntos surgem no horizonte dos olhos a cada novo generoso gole de chá… e, de repente, lá estou eu a navegar por mares de águas revoltas.

Nesse fim de tarde nublado — com promessas de temporais — me surpreendi analisando a relação que estabeleci com alguns autores ao longo dessas quase quatro décadas de vida… o que me levou à inevitável conclusão de que se trata de uma amizade deliciosa-indecente-imoral… quase doentia e totalmente estranha — afinal, estão quase todos mortos.

Eu desconfio, mas não posso afirmar com absoluta certeza como se estabelecem as relações humanas. Gostamos mais de uns… menos de outros e quase sempre acontece tudo à primeira vista — como nas comédias românticas açucaradas.

Mas eu não funciono assim — embora tenha certo apreço pelo inédito… aquele exato instante em que alguém atravessa o meu caminho e causa uma espécie de estalo. Gosto imenso e preciso — enquanto autora —, do sentir que se revela por trás do tato, na primeira vez. Meus personagens acontecem nesse ‘subir do pano’. O olhar descobre a figura dentro da pequena distância segura e desfruta dos traços-retas-paralelos… cartas embaralhadas e lançadas à mesa para um jogo de pares — tudo ou nada.

Mas, quando se trata da vida… é preciso mais. Leva tempo para se aprender o outro — e esse aprendizado se inicia pouco depois do primeiro olhar, que se apaga tão rapidamente quanto um piscar de olhos. Não é nada fácil conviver com pessoas… seus gênios-manhas-manias-humor. Figuras complexas que não se cansam de nos deixar a deriva e nos aborrecer com suas monotonias.

Com autores-mortos… a relação é parecida: existe o tato — com o livro e sua primeira página. Se trata de um caso de amor-ou-ódio. Ou fica na pele ou se espalha. Eu acho mais fácil porque tudo que temos é esse testamento. Não há presença… apenas ausência sentida de todas as coisas i-materiais. Quando nos aborrecemos com as linhas por eles deixadas, só podemos ralhar com o teto o as paredes. Escrever a eles também é uma opção para alguns de nós — consciente de que a resposta já caducou…

Com Virginia Woolf, por exemplo, mantenho uma relação equidistante… escrevo a ela com alguma frequência — missivas incompletas que terminam no meio da terceira ou quarta linha.

Com Sexton… é uma espécie de encontro no comboio — dividimos por algumas estações o diálogo nada inédito-sincero que jorra das bocas alheias — nada é sincero nesses movimentos de trilhos e nos despedimos consciente de que haverá um reencontro e fatalmente seremos outra. Adeus.

Com miss Emily Dickinson descobri uma espécie de irmã-mais-velha… com sua voz sempre mansa-breve, a dizer quase tudo que pensa-sente-sabe, enumerando seus medos como se fosse uma receita de vida-e-morte — uma espécie de bolo servido no meio da tarde.

E com Susan Sontag? Eu a admiro e, às vezes, me irrito com suas excentricidades. Sinto vontade de me sentar ao seu lado e dizer-lhe meia dúzias de frases prontas… consciente de que me faltaria voz e sobrariam pesados goles de tudo e generosas tragadas de nada, em meio a qualquer coisa de sorriso nos lábios.

Com Wislawa é um diálogo de almofadas… numa tarde de sábado chuvosa e preguiçosa. Somos duas estranhas… a tentar driblar nossos idiomas sonâmbulos.

E quanto à Jane Austen… desenvolvi uma cumplicidade natural de traço-trago e formas singulares de silêncio para com essa dama. Somos amigas-cúmplices. A melhor dentre todas. Está morta, não é possível escapar.

 

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05 | * Os sutis movimentos do cuore que nos salvam…

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Lady S.,

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Está demasiado quente na Paulicéia contemporânea, minha cara… é verão por aqui e o céu absurdamente azul doura as tramas desse dia. A moça do tempo não se cansa de anunciar em sua enfadonha previsão que vivenciamos o verão mais quente dos últimos anos — como se tomasse emprestado de vossa ironia para pontuar a realidade… enquanto eu olho lá para fora a procura de nuvens.

Passo os olhos por cima das linhas de seu romance primeiro como quem percorre a cidade a pé — antes de o sol aquecer o asfalto — sentindo os músculos e nervos, as irregularidades do caminho e as geografias de ontem, convertidas em paisagem de hoje.

Me aborreço com Marianne e sua maldita ingenuidade… tento decifrar o que pretendia dessa sua menina, mas os rompantes — próprios da pouca idade —, me incomodam. Ralho com suas ações precipitadas-equivocadas. Não a considero a altura do Coronel — um  homem adulto-sensato —, ao contrário de Lizziê que fez Darcy melhor… ela nada acrescenta ao homem que é Brandon e o julga do alto de sua romântica e tola existência, que se encaixa perfeitamente a de Willoughby — não à toa, apaixonam-se…

Não sinto qualquer simpatia por esse rapaz ou por Wickham — são igualmente detestáveis… tal qual um dia de verão agudo. Não os considero vilões… são figuras de caráter duvidoso e você foi brilhante ao desenhá-los. Não nos deixou outra opção que não a de detestá-los — por representar uma espécie de homem que não se extingue — infelizmente.

De todas as suas histórias — sense and sensibility — é a única que me aborrece em seu desfecho. A ironia que escolheu para pontuar a trama me agrada imenso… ao contrário dos remendos feitos — uma espécie de improviso-remendo — que tornam possíveis os enlaces nas últimas páginas. É quase um final clássico  e foram felizes para sempre — que não combina em absoluto com a ousadia vitoriana de sua escrita.

Mas não é possível degustar do outono — a melhor das estações — sem antes vivenciar o verão e seus dias turvos de sol… reconheço, conscientemente que é necessário enfrentá-los para apreciar o cair as folhas.


Participam

Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega

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…cada um enxerga o mundo a partir de suas próprias cores!

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Eu nunca lidei com proibições a casa. Havia limites… mas a palavra proibido não encontrava abrigo na casa 141 da Rua Amélia Maranghoni, onde aconteceu a minha infância. Os livros viviam espalhados por cima dos móveis, empilhados nos degraus, ao lado das poltronas e alguns em prateleiras-estantes, facilmente alcançáveis. Não havia restrições de leitura. E eu tinha acesso a poesia de Emily Dickinson… os romances russos- franceses-lusitanos e os meus favoritos: os ingleses.

A proibição — curiosamente —, aconteceu quando chegou a idade escolar… os livros eram adequados a idade e turma e ficavam dentro de uma caixa, na sala de gramática. Cada aluno podia ler um daqueles livretos se terminassem as atividades curriculares, antes dos demais. Uma espécie de prêmio de consolação por ser mais ágil.

Fiquei interessada até que tive acesso a tal caixa… livros coloridos, ilustrados e com histórias pequenas-curtas… que me aborreciam devido ao teor infantil. Virei aquelas páginas enormes, sem empolgação e o devolvi a caixa com o descaso típico de quem era uma leitora de livros de verdade.

Me refugiei na Biblioteca da escola… e ao caminhar por entre as prateleiras, encontrei uma versão de ragione e sentimento e foi como emergir do fundo da piscina após longo período em imersão.

Escolhi a mesa do canto, me acomodei e fui virando as páginas — uma a uma — até ser descoberta, de posse de um livro impróprio para a minha idade, portanto, proibido para mim. O livro foi retirado das minhas mãos, o que me deixou furiosa. O meu comportamento foi considerado irregular e além de ‘ouvir’ um longo e monótono discurso sobre o perigo de consumir literatura inadequada para a minha idade… chamaram os meus pais, na escola para lhes contar sobre o meu gesto.

Antes de ir para a escola… eu era uma criança livre dos enquadramentos sociais e dos muros convenientes — inventados para ‘nos proteger de nós mesmos’. A escola, no entanto, me oferecia uma lista de perigos e regras estranhas, com as quais impliquei desde o primeiro momento.

Tinha a sensação de que no fluxo da vida, eu tinha perdido a hora — chegado atrasada. O tempo corria de maneira diferente naquele mundo comandado por adultos esquisitos, diferentes dos meus.

Para a minha alegria, no entanto, encontrei na figura de J., — uma senhora simpática: dona da Biblioteca da escola — uma cúmplice. Ela me deu um livro enorme, com capa de couro-marrom, que continha todos os contos de fadas da Disney — em suas páginas ilustradas, coloridas e com letras bem desenhadas.

Me aborreci assim que vi do que se tratava. Cruzei os braços a frente do corpo e disse que não queria ler aquele livro bobo. Ela não desistiu. Me acompanhou até a mesa, esperou que eu me sentasse e colocou o livro aberto, em meu colo. Me ensinando a manuseá-lo. Era bem pesado para o meu tamanho. Mas, dentro dele, cabia um livro menor: ragione e sentimento — que ela abriu e disse: esse o nosso segredo.

Durante todo o primeiro ciclo escolar… li muitos livros, em segredo, sem que ninguém desconfiasse. Fato estranho, já que eu nunca aturei os tais contos de fadas e suas bobagens de príncipes e princesas, reinos distantes e bruxas malvadas.

Mas, como disse C., ao tentar explicar ao diretor que a leitura não iria além das portas do meu imaginário: cada um enxerga o mundo a partir de suas próprias cores.

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~ participam dessa postagem ~

Ale Helga | Ana ClaudiaFernanda Akemi Gustavo Barberá
Maria Vitória | Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega | Roseli Pedroso

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blogagem coletiva

20 | era uma vez…

lua de papel lunna guedesGosto das manhãs de segunda… com sol ameno, ruas para andar. O movimento dos meus pés pelas calçadas e o olhar a perceber as pessoas em suas idas e vindas. O som da chaleira…. a xícara de chá, os cômodos da casa e um livro de poesia.
Aprendi com a nonna que a Segunda é dia da lua… e como criatura lunar que sou, a começar pelo nome e as fases, me sinto a casa.

Foi numa manhã de segunda-feira — no mês de maio — que decidi… ao olhar a cidade que chegava a janela de um velho Casarão no Alto da Lapa, que decidi: escrever um romance. Até então eu tinha produzido apenas rascunhos-ensaios… um sem-fim de tentativas abandonadas em gavetas-caixas-baús. Nada que eu me atravesse a pensar em formato-impresso, entregue aos olhos outros.

Consciente de minha decisão-definitiva… fiz uma faxina em minhas coisas, que consumiu um dia inteiro. Rasguei quase tudo que encontrei de papel-rascunho… quase nove anos — uma vida inteira — de escritos. Me fiz em pedaços…

Eu tinha consciência de que não tinha experiência literária… era apenas uma leitora apaixonada por livros e suas tramas impossíveis. Uma leitora sem critério, que lia pelo prazer de ler e não pelo compromisso com a escrita.

Escrever reticências... na primeira pessoa, com frases confessionais… serviu para me fazer perceber que eu era apenas uma ‘escritora de diário’. Alguém que escrevia por escrever somente.

Um romance, no entanto, seria o maior dos desafios… escolhei os meus favoritos. De Jane Austen à Katherine Pancol. Virginia Woolf à Angela Becerra… e tantos outros e tratei de buscar através deles um ritmo de escrita que me agradasse. Sabia, no entanto, que precisaria preservar certas características minhas.

De todos os meus escritos… o único preservado foi ‘pequenas epifanias‘… um ensaio-miúdo, escrito — como de costume — a partir de uma pessoa-figura-inquieta… que apareceu a casa, num dia de visitas. Um capítulo por dia — exercício necessário — para dar ritmo ao meu pensamento e disciplina ao meu traço.

O título definitivo — lua de papel — veio quando a trama tinha mais linhas que história. Estava na fase dos cortes-recortes. Andava pela casa-rua-cafés — com um calhamaço de folhas impressas — a ralhar com o texto escrito… lido em voz alta para ver se o ouvido aceitava o ritmo proposto ao papel.

Não é o meu melhor escrito — reconheço, mas lhe sou eternamente grata por ter me tirado da condição de autora de rascunhos de gavetas e me ensinado caminhos desconhecidos na arte da escrita, como ritmo-disciplina-estilo e outras artimanhas que a apenas o escrever nos permite.


beda interative-se

15 | meu personagem favorito

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Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy

Abro o livro… e a frase — “é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar à procura de uma esposa” — me posiciona no século XVII… a famosa era vitoriana. Sou transportada imediatamente para a fictícia Meryton… onde vive Elizabeth Bennet.

Jane Austen foi feliz em suas escolhas… não a descrevendo de imediato, não nos oferecendo muito — o que nos permite ir conhecendo-a aos poucos. Porque essa é a proposta da trama: conhecer-se.

Elizabeth é uma jovem com uma personalidade marcante — algo pouco comum as moças de seu tempo. Ela consegue se impor e ter opinião própria, a ponto de não concordar com as atitudes da mãe, sempre em busca de maridos ricos para as suas cinco filhas.

Gosto, sobretudo, quando diante do erro de julgamento, Elizabeth se encolhe e evita o olhar de Darcy. Tímida, como ainda não havia se mostrado na trama e, já sem a segurança de antes… chega a temer seus próprios passos. E, numa sociedade onde bons casamentos são o desejo de toda e qualquer moça, ao saber-se diante da enorme propriedade, daquele que é, sem dúvida alguma, o personagem mais apaixonante da literatura inglesa, não é de se espantar, que ela tenha engasgado… no que considero ser a melhor cena escrita por Jane Austen para uma de suas personagens.

Gosto de imaginar que nesse momento, Elizabeth Bennet tenha ouvido a própria voz… recusando o pedido de casamento feito por Darcy. E respirou fundo ao recordar toda a perplexidade sentida diante de um homem que lhe confessa admiração e amor, de maneira nada gentil… como se lhe fizesse um imenso favor ao lhe confessar que não é capaz de reprimir os sentimentos contra os quais vem lutando — em vão.

Obviamente que Darcy não esperava ser rejeitado — “ele é um tipo de homem a quem não se deve dizer não” — mas Elizabeth o fez, corajosamente, dirão uns… talvez se não existisse a recusa, a história tivesse outro rumo e acabaria ali mesmo, com o famoso ‘e foram felizes para sempre’. Mas com uma personagem decidida-forte-e-teimosa não poderíamos esperar outra atitude da jovem Bennet.

Darcy é pego de surpresa… e talvez por isso, exija uma explicação de sua pretendente — que não economiza palavras e tem todos os seus motivos enfileirados em mente e os apresenta de maneira incisiva, sem deixar margem para que o cavalheiro a sua frente os questione, restando a ele, apresentar um pedido de desculpas e uma retirada estratégica.

Darcy e Elizabeth são personagens cheios-imensos… oriundos de mundos totalmente diferentes. Ele é um nobre, acostumado as cortesias, deferências e as mulheres com quem convivia estavam sempre a aguardar por sua aprovação… ao contrário de Elizabeth, que era uma criatura rural, que encontrou no pai uma saída para uma realidade limitada: viver a espera de um pretendente.

Os dois são personagens que não dependem um do outro para serem o que são. Mas, em determinado momento dependem-se… porque se permitem olhar nos olhos um do outro e ver além das primeiras impressões — título que Jane Austen chegou a propor para a trama —, e, ao se permitirem conhecer-se, reconhecem seus defeitos e qualidades, e a admiração começa a existir gradativamente — sem pressa.

 

“Tenho a certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente. Minha afeição permanece inalterada; basta porém uma única palavra sua para fazer com que me cale para sempre.”

Mr. Darcy

 

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