13 – A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer

Caríssima AA,

Quando suas linhas chegaram, no meio da tarde de ontem,  devidamente acomodadas, no envelope azul… estava a ler Rubem Alves e sua escrita amena e certeira. Ele escrevia como se estivesse sentado à mesa da cozinha, a esperar pela xícara de café fresco, preparado a moda antiga, em bule de ferro. Ele foi um desses meninos do campo… com árvores de frutas, chão de terra, estendal ao vento, fogão de lenha, e o silêncio de um lugar a céu aberto. Cidade pequena, a rotina e o tempo rural,  a conexão com os ciclos, a vida atrelada a morte.

Ele dizia,  em seu texto ‘a hora da poesia‘… ‘há de se saber o tempo do poema. A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer. Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio‘.

Em dias de contemporâneo existir, onde os excessos e as faltas se embalam num mesmo papel de pão… recordei o meu encontro com a poesia. Há pessoas que nascem na poesia — diz Rubem — como Fernando Pessoa, Baudelaire, Borges, Eliot, Mario…  mas eu tive que encontrá-la nas páginas de um pequeno livro — um presente — de capa verde, com versos de Amália Rosselli, Plath, Sexton e outras tantas… ainda na infância. E desse encontro nasceu aquela sensação de ‘estomago vazio’…

A poesia,  quase sempre, me cala-rasga-engasga-incendeia-acalma. É aquele pequeno intervalo entre soluços. Eu leio cada um dos versos em voz alta, pelos cômodos da casa,  calçadas da cidade… uma, duas, três vezes — exatamente como faço com sua missiva e a resposta que alinhavo nesse meu canto de mundo-vida-memoria-espaço. São minhas músicas e ao ouvi-las, o cuore imita o som mais antigo que trago em mim… fecho os olhos e volto no tempo, percorro as distâncias conhecidas. O tempo é outro, muito mais rápido… insano! Revejo a rua, com suas casas antigas, suas pessoas há muito perdidas. Aceno, ultrapasso o velho portão de ferro e seu conhecido barulho e me deparo com a velha figura do ‘móvel articulado’ no meio da parede… esse mio cuore. Sinto o cheiro do lugar, percorro os espaços com algum cuidado e alcanço a todos na cozinha, ainda vivos. ainda meus…

Sim,  minha cara,  nesse estranho  tempo em que tudo é barulho,  ruído, gritos e a poesia parece muda, eis que espero por ti para esse diálogo silencioso… e você vem, em azul!

Janeiro quase se foi — percebeu? Falta pouco… e nesse ano — o primeiro capítulo — as quietudes da Paulicéia foram poucas —  vivi dias de carnaval antecipado. Uma loucura. Que venha fevereiro — o segundo capítulo — e seus enredos de fim de verão… por aí dizem que o tempo está a ir mais devagar. Mas se a marcha desse Senhor está mais lenta, somos nós, que não conseguimos dar conta dos nossos passos?

Au revoir

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4 – Porque a morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao bater dos segundos?

 

“AS PALAVRAS DO ANO PASSADO
PERTENCEM À LINGUAGEM DO ANO PASSADO;
E AS PALAVRAS DO PRÓXIMO ANO
ESPERAM POR OUTRA VOZ”…

– T.S.ELIOT –

Caríssima A.,

…ainda ouço o espocar dos fogos na última hora, o estouro das rolhas e o tirintintar das taças nas casas, em meio a abraços, sorrisos e um bom quinhão de desejos manifestados. Velhas promessas são refeitas, algumas simpatias também: há quem coma lentilhas, quem guarde sementes de romã, coloque folhas de louro na carteira e espigas de milho atrás da porta… e em meio a tudo isso ‘nasce’ o ano novo! Eu me divirto com o último segundo da contagem regressiva — me calo, porque não faço parte da turbamulta, que pula, grita, canta, se veste de branco, lança oferendas ao mar, faz promessas que não serão cumpridas. Os meus rituais são outros.

Gosto de pesar os dias, medir as horas… é como fechar um livro após chegar ao fim da leitura. Última página… tudo em suspenso. Ando pela casa com os personagens e suas histórias grudados na alma. Revejo as cenas, os lugares… questiono as escolhas e, em alguns casos, me recuso ao final que ali se encerra, como no livro “a elegância do ouriço”, que na última semana do ano, voltou a me fazer companhia…

Dois mil e dezesseis foi um ano estranho — não foi bom, mas também não foi ruim. Mas eu acusei cansaço dentro de seus ‘trezentos e tantos’ dias… como nunca antes… e, ainda não acabou porque há um pouco de dezembro, em minhas laterais. De novembro e de todos os outros meses, que ainda não foram devidamente degustados por mim, porque eu sou feita de pequenos e demorados goles…

Dois mil e dezessete — esse caderno novo — vai chegar aos poucos, ao seu tempo… consciente de que, a mão que escreve é exatamente a mesma… e a única promessa que faço a mim mesma é de que darei o meu melhor, para cada um de seus doze capítulos.

Considero Janeiro o seu prelúdio… e ouso denominá-lo ‘fleurs du Mal por ser o tempo de aproveitar São Paulo, que nesse mês,  é de fato uma cidade — mais humana, menos mundana… como se, por ser seu aniversário, se sentisse a vontade, para convidar apenas os seus… para a festa. Mas, para não ser tudo tão perfeito: é verão e suas ruas ardem com suas altas temperaturas, que mudam a cor, o aroma e a textura dos lugares.

Ao menos, é a estação das tempestades, com suas nuvens densas, clarões em meio a densa escuridão e fortes trovões em meio a densa escuridão e fortes trovões a fazer estremecer a realidade. Avanço na companhia de Baudelaire, Mário e Susan (sontag) que conversa comigo, em seu diário, onde ficção e realidade são uma mesma coisa… e, daqui a pouco muda o capítulo!

É minha cara, ‘feliz ano novo’… enquanto ainda é novo! Aproveito para desejar que seus capítulos sejam um olhar demorado no espelho, a refletir os versos favoritos.

au revoir

Mais um ano sem fazer uma festa à-Gatsby.

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…amanheceu janeiro dentro dessa segunda-feira! A primeira do tal ano, que é novo, segundo as muitas bocas a conjugar verbos na primeira pessoa do singular.

Dentro da pele, o veneno ainda não fez efeito! A noite prevalece… e as sentimentalidades se misturam, como se fossem ingredientes a venda, em prateleiras de supermercados.

Não há de amanhecer dentro do mio cuore… que ainda soluça o ócio de fim de festa, fim de ano… e seus movimentos dispersos, em círculo, todos na mesma direção…

Chove… lá fora, desde a última noite do mês passado — um dezembro equivocado, que exibiu fogos a espetar os céus, a pele, os ouvidos e também os meus olhos. Não consigo me acostumar a tanto estrondo…

Chove… versos de Walcott, esse senhor que não se rende a mecânica dos versos e escreve um punhado de linhas retas e toras — assimétricas.

Chove… a vida de Rubem, que em vida, contou a si mesmo, em linhas perfeitas. E depois de sua morte — no ano que envelheceu e caducou — virou prosa na voz de Gonçalo Junior. Mas esse tropeçou nas linhas, e se mergulhou na vida do homem, não encontrou água onde nadar…

Chove… as canções de Natal, que ainda se fazem ouvir no ‘café entre esquinas’, como se dezembro não tivesse atravessado a rua e sido atropelado pelos excessos da última ceia.

Chove… e a poesia atravessa o meu caminho com seus trovões…  eu vou de um lado a outro na Paulista, em passos pequenos, livres da pressa tão comum aos outros meses, porque Janeiro não sabe se acena ao futuro ou ao passado! Do presente é certo que nada sabe! Janeiro é esse tempo perdido entre o ir e o vir. É dúvida… um livro que ninguém quer ler… ou ter em suas prateleiras.

Janeiro é esse poema que acena aos meus olhos com a confluência de dois verbos: silenciar e subtrair…

 

AR LIVRE
Blas de Otero

Se há alguma coisa de que gosto, é viver.
Ver o meu corpo nas ruas,
falar contigo como um camarada,
olhar os escaparates
e, sobretudo, sorrir de longe
às árvores…

Também gosto dos camiões cinzentos
e muitíssimo mais dos elefantes.
Beijar os teus seios,
deitar-me no teu regaço e despentear-te,
engolir água do mar como cerveja
amarga, escumante.

Tudo o que seja sair
De casa, espirrar de tarde em tarde,
cuspir contra o céu das tundras
e as medalhas dos semelhantes,
sair
deste espaçoso e triste cárcere,
apressar os rios e os sóis,
sair, para o lar livre sair, para o ar.

Tradução
Miguel Filipe Mochila
{ daqui }

11 – E lá se foi a minha hipótese de paz…

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
Cecília Meireles

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Caríssimo…

Quase cinco horas de uma dessas tardes febris… e eu vim me sentar aqui nesse canto de mundo, para escrever-te. É algo que tento fazer há dias, mas as horas de janeiro foram um desespero de ruas-lugares-paisagens-e-pessoas… não era para ser assim porque janeiro costuma ser um mês calmo-pacato-ameno… para dentro! Mas esse ano foi o contrário disso.

A cidade não se esvaziou como nos anos anteriores… embora tenha esbarrado em muitos estrangeiros, a transitar seus idiomas pelas ruas… mas, também tropecei em muitos humanos — aqueles de sempre — em movimentos erráticos pelas esquinas. Os lugares estavam todos cheios… e o sol tocou fortemente o asfalto, que ardeu como nunca antes. Foi tão cansativo existir dentro dos primeiros dias do ano de dois mil e quinze… que quase me arrependi da pausa a qual me obriguei.

Mas era preciso parar… ponderar, sobretudo, desacelerar, mas senti falta da cidade com seus traços comuns, sendo apenas uma pincelada do que costuma ser.

Gosto imenso de São Paulo e seus movimentos desarticulados… amo sua bagunça, confusão e todo o seu exagero! Adoro transitar suas alamedas, tragar seu ar equivocado e beber um pesado gole de café a qualquer momento do dia. Ter para aonde ir na hora em que quiser. Atravessar ruas, tropeçar em figuras inusitadas… mas gosto também quando tudo deixa de ser o que se é. Esse ano, contudo, foi como se janeiro tivesse se esquecido de acontecer… foi atípico, estranho, desagradavelmente pesado.

Choveu pouco esse ano… os relâmpagos e trovões aconteceram, mas foi tudo tão carregado de angústias e desesperos, que se tornou impossível apreciar.

Senti falta de existir dentro da poesia de Mário de Andrade, que me oferece em seus versos essa cidadela, habitada por seus mil e poucos habitantes… um punhado de casas e ruas… a vida parece ser mais palpável em seus versos…

Em outros janeiros meu caro, até mesmo o verão foi mais ameno – suportável. Senti falta do crepúsculo se impondo fortemente sobre a aurora de repente – sem avisar – da manhã a cair, a tarde a morrer e a noite a ser uma coisa gigantesca-imensa-quase-sem-um-fim (possível).

Não li Borges, Eliot, tampouco Emily… também não tomei xícaras de chá vermelho. Café tampouco! Foi tão difícil ler-escrever em janeiro. Foi angustiante e mesmo me propondo a quietude dentro de um isolamento pensado, foi muito difícil ser palavra na folha. Travei inesquecíveis batalhas e tudo se resumiu a pesados desaforos… com os sons agudos a prevalecer na derme-anestesiada!

E agora que janeiro se foi… respiro fundo e me lembro que depois de amanhã será carnaval. Seria tão bom se eu pudesse fechar os meus olhos agora e só acordar quando essas falsas alegrias já tivessem se liquefeito. Mas como não é possível, sigo a existir dentro desse estranho janeiro, que parece ter avançado sobre o fevereiro, numa insistente permanência…

Ao menos escrevo-te dentro dessa tarde esbranquiçada! Ainda há esperança de chuva para essa quase noite…

L.

4. Dentro de uma sexta-feira, a promessa se cumpre…

São Paulo, 31 de janeiro de 2014…

 

Que ruas melancólicas! Quarteirões e quarteirões de escuridão de um e de outro lado, não de casas; aqui e ali um lampião que parece uma vela tremeluzindo sobre um túmulo. A essa hora da noite do último dia da semana, aquele bairro da cidade estava totalmente deserto. Mas afinal me aproximei de uma luz fumarenta procedente de uma construção baixa e larga cuja porta se encontra convidativamente aberta. Seu aspecto era descuidado, como se fosse destinada ao uso do público; assim que entrei, a primeira coisa que fiz foi tropeçar em uma caixa de cinza, colocada no saguão. Ah! pensei enquanto as partículas voadoras quase me sufocavam. Serão essas as cinzas da destruída cidade de Gomorra?

Trecho de Moby Dick

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Caríssima R.

 

A manhã é essa coisa esbranquiçada a gritar movimentos desatentos por todos os lados… o cão, como de costume… dorme ao lado no sofá, indiferente aos movimentos do dia que segue sua sina de sexta-feira.

Eu não  sou uma pessoa de sextas-feiras… é um dia de excessos-enganos-desaforos. Eu vou para o canto do corpo, da casa… para ficar quieta, alheia a essa realidade. Prefiro as segundas-feiras… sol ameno nas manhãs coloridas, nuvens esbranquiçadas pouco depois do meio dia, um livro de poesia sobre a mesa do canto, um latte bem feito, servido no famoso copo branco com a sereia verde de duas caldas.

Sou uma pessoa comum, que gosta de ir mais devagar… acordar aos poucos… percorrer pequenas distancias, sentir as superfícies que o pé tateia… passo a passo. Tomar conta dos espaços. Sentir as texturas das paredes ou apenas me perder nas arquiteturas dos prédios e casas… enquanto o cão faz suas visitas aos postes e árvores.

Eu gosto imenso de um fim de tarde com sabores de chá silvestre… uma canção a se repetir: o som crescente e rouco de um velho blues, pouco antes das seis. A página de um caderno de capa vermelha vazia, a espera das palavras que irão moldar ‘memórias futuras’.

Gosto de ir até a prateleira e voltar com um livro… e, dessa vez, foi Moby Dick que saltou para as minhas mãos. Já li esse livro incontáveis vezes ao longo dessa minha vida, contada em um punhado de anos, devidamente acumulados nos cantos da pele. Gosto imenso das sombras que ele desenha em minha superfície. Não sei se você sabe, mas o nome do café onde trabalha é uma homenagem ao senhor Starbuck, personagem desse romance, escrito por Herman Melville…

“Ainda podemos desistir, mesmo hoje sendo o terceiro dia.
Vê! Moby Dick não te procura. És tu, que loucamente, busca por ele!”

Esse trecho me fez recordar a sua figura… em fuga, indo em direção as calçadas. Lembro-me de ter ficado alguns minutos a espiar seus movimentos de um lado ao outro… indócil e incrédula, a tragar pesado seu cigarro, como se esperasse algo diferente do que teve para si, em nosso breve encontro. Você falou de si… e eu fiz o que gosto de fazer… ouvi as palavras que soltava no ar num quase-sem-voz.

Depois que deixou comigo um abraço, rascunhei qualquer coisa sobre o momento numa folha de papel e guardei dentro de um livro… porque a minha escrita é sempre para depois. E, mesmo sem saber, você me brindou com promessas futuras, a mais preciosa de todas… a sua amizade – minha Moby Dick.

bacio