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6. Um elogio a sombra…

As ruas de Buenos Aires | já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas | incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis
 Jorge Luiz Borges

Caríssimo M.,


Tenho para mim, que todas as cidades são iguais… com suas ruas estreitas ou longas, uma esquina depois da outra. Suas vitrines iluminadas… e seus muitos cafés “presos” às esquinas.

Uma cidade tem casas, prédios… e nesse cenário milhares de janelas se perfazem. Os diálogos se proliferam à sombra, que emerge nas calçadas, bem debaixo de suas árvores. As luzes foscas se acendem quando a noite esparrama seu abstrato surreal — quando tudo são sombras a escorrer aos nossos olhos. Os humanos deixam de ser tão assustadores… porque dentro da noite há esse aconchego inusitado…

Todas as cidades são iguais — guardam estranhezas em cada rua, que os pés descobrem. E vez ou outra exibem simpatias em acenos inesperados, que nos alcança-toca e se esfumaça no passo seguinte.

E o que mais me toca nas cidades… são os anciãos, que não acalentam a pressa tão comum aos primeiros anos de vida. Aprendo com eles a não atropelar os passos, a guardar as mãos nos bolsos da calça e sorrir a quem passa.

Eles gostam de contar as suas vivências… e folhear com raro prazer, as páginas de suas histórias. Ontem, pela manhã, ao visitar uma praça no Palermo, um signore me contou como era a cidade, em seu tempo de ragazzo. Com a voz embargada por uma melancolia gostosa que o fez inserir algumas pausas em sua fala… narrou as mudanças, acompanhadas por ele, sem alegria… mas ressaltou — com um nó na garganta — o que ainda estava preservado… demonstrando visivelmente o medo que sente em ver o que lhe resta de cidade: desaparecer.

E ao me despedir — depois de um bom par de horas de conversa — ele se mostrou satisfeito com a prosa… ‘seria tão bom se os jovens tivessem mais tempo para ouvir’. Seria bom concordo. Mas temos pressa porque a maioria de nós os vê como destino de si mesmos e querem fazer tudo que não fizeram e acabamos a deriva e reclamamos da falta de tempo.

Ah meu caro, as cidades são todas iguais — mudam os nomes das ruas, bairros e o próprio nome que as orientam nos mapas humanos. Mas no fundo… são apenas um combinado de símbolos, que alinhavados — faz de nós meros personagens em movimentos insensatos.

Buenos Aires é apenas mais um capítulo nessa trama real dos meus dias, com prefácio assinado por Jorge Luiz Borges — um item a  mais para a ‘minha caixa de sapato’…

 

Au revoir

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2. As pessoas tristes não sabem soluçar

“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo.
Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,
de remos, de montanhas, de balas, de naves, de ilhas, de peixes,
de habitações, de astros, de cavalos e de pessoas.
Pouco antes de morrer, descobre que paciente labirinto de linhas
traça a imagem do seu rosto”

 Jorge Luís Borges

Caríssima T.

…a noite finalmente desliza por cima do meu olhar. Um avião cruza o céu enquanto eu me perco em direções intimas. Acompanho seu vôo até onde o meu olhar alcança e, recordo que amanhã começo tudo de novo… hoje, no entanto, apenas antevejo esse ensaio de vida e morte – morte e vida.

Queria amanhecer dentro do dia seguinte para não ouvir os sons que irão aterrissar em minha derme logo pela manhã. Não gosto de festa… de bolos e velas, de pessoas em pares — acho tudo cansativo demais. Prefiro envelopes, folhas em branco, calçadas, cantos da casa, da alma, da pele…

Para amanhã escolhi um filme recente… não quero visitas, nem palavras ou afagos. Quero a mim mesma, no fundo do espelho, no porta-retrato, na página da agenda, do livro. Quero a porta fechada… o silêncio dos meus pensamentos e um ensaio de ingredientes na cozinha.

No fim do dia — na última hora — quero apenas a minha voz — esse eco a dizer: “feliz ano novo” e pronto: começarei tudo de novo…

Acenderei uma vela e acompanharei a chama até o fim e enquanto oscila-inflama-vibra… escreverei um punhado de linhas e farei meu pedido. Não é segredo, é o mesmo de sempre…

Ah! Você não sabe: eu não apago velas, minha cara… considero um estranho ato. A vida quando se apaga: acaba. Certo? Por que haveria eu de apagar a minha própria chama se tenho imenso apreço por ela?

Bacio