BEDA | O metro quadrado de um olhar…

lua de papel lunna guedes

Depois de visitar algumas cidades do interior Paulista… voltei para casa com a bagagem cheia e a alma vazia. Percebi ser impossível usar a realidade disponível para a minha personagem, porque os lugares que visitei e provei não lhe vestem — pelo contrário, a deixam nua…

Recordei, enquanto somava minhas incertezas em pares, os cenários antigos que trago em mim… resultado das muitas andanças feitas ao longo da vida… e não encontrei porto que sirva de ancoradouro.

Preparei uma xícara de chá e vim me sentar nesses degraus em pares, com o cão de um lado e a velha jabuticabeira do outro. Em mãos o livro ‘o jogo do anjo’ de Zafon, que me acena com qualquer coisa de serenidade tumultuosa.

Lendo-o na ‘falsa calmaria’ desse dia… fui visitar uma vez mais a sua Barcelona e acabei por perceber que eu não tinha que sair por aí a procurar por uma cidade. Tinha apenas que senti-la em mim.

E lá se foi uma das minhas hipóteses de paz... fiquei como Dostoiévski, encostada a um muro à espera do fuzilamento. Fechei os olhos e aguardei, acovardada, até o focinho gelado do cão me resgatar desse estado deprimente.

Serviu para eu compreender que Zafon fala de uma Barcelona particular em seu livro. Ele não foi fiel aos contornos urbanos. Apenas usou seu cenário ideal… o que seu olhar tragou  e deixou dentro de si.

Isso me fez navegar pela literatura, que trago em mim. Em ‘cem anos de solidão’ Gabriel Garcia Márquez inventou uma cidade: Macondo. Borges também fez o mesmo em ‘o Aleph’. Mário desenhou sua Paulicéia e Baudelaire… a sua Paris. Todas essas cidades são inexistentes, porque compreendem o metro quadrado de um olhar…

Passei um punhado de horas após essa conclusão a imaginar uma maquete-lugar-cenário. Liguei para alguns amigos. Queria o caminho das pedras. Como se inventa um cenário a partir de um texto de teatro. Como se edifica um lugar. E a melhor resposta veio quando a mesa já estava repleta de anotações: ‘cidades não existem, o que existem são pessoas’. Vou como remover uma cortina da frente dos olhos.

 


 

selo para o BEDA

Caindo de si mesmo, em si mesmo…

‘pois estou só e quero que o olvido
devolva aos dias tua leve sombra
para esta já cansada ostentação
de umas palavras em que a tarde esteja’.

jorge lui borges

Jorge Luis Borges en Palermo, foto Ferdinando Scianna (1984)02

Caríssima A.,

…aconteceu novembro em mim, no meio dessa tarde, enquanto observava a janela e a cidade em seu estado de pausa. Às vezes, parece que o tempo para e a vida não se atreve a sair do lugar… permanece imóvel, como se aguardasse algo a acontecer… um estalo, um estouro.

Hoje aconteceu um punhado de pesadas nuvens… vindas do mar — lentamente. Cobriu toda a cidade em minutos. Um vento insano rasgou a paisagem, invadiu a casa e cobriu minha pele de arrepios. Fechei os olhos e me esqueci dentro da pele. Choveu pesado dentro, fora e por todos os cantos da pele, da casa, da cidade…

Choveu como não chovia havia tempos… exatos doze meses. Me lembrei de ler em tua missiva — ‘já é quase novembro’ — e com ela ‘em mãos’ eu apenas ri… eram apenas palavras suas numa folha de papel… uma espécie de caminhar que não te leva para casa, sabe?

Eu e o calendário não temos qualquer entendimento… não sei como se organiza essa sequência de números insana, rotulados com seus nomes equivocados. Eu tenho meus próprios ritmos de vida e não-vida… minhas somas, meus rituais de ir e vir. No final do mês será meu ano novo. No final do ano, será apenas troca de calendário. Não vou estourar champanhe, soltar fogos, fazer festa, promessas, pular sete ondas. Vou assistir de novo o mesmo filme, ler o mesmo livro e agarrar-me a pele daquele que já se acostumou aos meus desfeitos…

E Novembro — esse novelo de lã — aconteceu apenas hoje… justamente quando chovia fortemente por cima da cidade. Eu me encolhi em mim mesma… e de meu canto de mundo, revisitei cada um dos meses desse meu ano. Fui revendo meus lugares-paisagens… passando a limpo os fatos que a memória escolheu guardar…

São trezentos e tantos dias… você sabe… não há como guardar tudo. Algo sempre se perde, mas eu não faço idéia de como se orienta essa escolha. Você sabe? Deveria ser como os livros de poesias que trago comigo. Pela manhã, eu abri o livro de Borges — o outro, o mesmo — e a poesia da página ficou em mim.

Au revoir

L.

Quando eu ainda não sabia…

“o nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade”.

Jorge Luis Borges

hands

Infelizmente, eu não me lembro quando o amei pela primeira vez… não posso dizer que foi quando o percebi dentro dos meus olhos, reconhecendo-me como um transeunte de minha história particular, escrita em atos equivocados.

Quando olho para trás… percebo nossos passos pequenos pelas ruas de um antigo bairro de São Paulo, com os braços enroscados, sem pressa… sorrisos espaçados, olhares desatentos e completamente detidos um no outro. Estávamos atentos apenas aos nossos passos, que pareciam medir os espaços, sem dar pelo que era humano a nossa volta.

Lembro-me também do cuidado que ele tinha comigo… se mantendo sempre do lado de fora da calçada. Abrindo portas. Puxando cadeiras… buscando se antecipar ao outro que vinha em minha direção! Eram pequenos gestos, que eu havia visto milhares de vezes, em outra pessoa…

Havia algum tempo que eu escrevia missivas de outono para ele — sem entregá-las — porque ele era um segredo para o mundo e também para mim mesma. Era o menino de sorriso faceiro e olhos entristecidos. De músculos cansados e gestos indóceis. Era substância. Um personagem que passou a transitar livremente em minha realidade porque, desde sempre que, a minha volta não acontecem pessoas e sim personagens dessa trama que se orienta em minha pele, onde escrevo…

Ele era essa figura por conhecer-se e apropriar-se dentro das tardes de junho… onde aconteciam taças de vinho, xícaras de chá, caldo quente, lenha a crepitar, manta para os pés.

Ele era saudade quando estava longe… vontade quando estava perto. Era sentimento aconchegante para os gestos e desconforto necessário para a derme. Era metáforas ainda por usar e enredo que pede cuidados. Uma história para o dia seguinte…

Eu não me lembro em que momento de nós dois… a história passou a se escrever por conta própria. Sei que sempre acontece comigo: o personagem se rebela, a trama se desorienta e tudo acontece como se o meu corpo se deixasse possuir por uma substancia qualquer. Pessoa decerto chamaria de ópio… eu nunca soube como classificar.

Sempre me apaixono por pessoas-lugares-coisas… mas, dessa vez, quando dei por mim eu já o amava, mas não o amor do corpo, da pele… do estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas. Que aproxima e distância. Que se satisfaz com o pouco que é muito… tudo.

Sei, contudo, que me apaixonei primeiro pelo personagem — o meu menino — e só depois pelo homem que revelou-se meu principal leitor!

Diário das minhas insanidades, 05

“Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja,
vale apenas por um único momento: aquele em que o homem compreende de uma vez por todas quem é”.

jorge luis borges


Enquanto esperava por W., …pensava em meus passos até aqui. Como se fizesse uma análise particular de minhas decisões. Revi os lugares, as pessoas e a mim mesma. Pesei minhas escolhas. Ponderei os tropeços: erros e acertos. Tudo que trouxe comigo e o que deixei para trás. Revi um punhado de coisas antigas, algumas perdidas, outras ausentes… a lista é longa e gastou parte dos meus minutos de espera…

Eu não acredito em destino… foi o que concluí ao finalizar meu exercício silencioso. Porque eu não acho que minha vida seja uma espécie de fio condutor pré-determinado imediatamente — ou pouco antes — de meu nascimento.

Contudo, gosto do som da palavra “destino“… mas é porque faço uma leitura própria-particular de seu significado. Enquanto as pessoas preferem pensar em linhas alquebradas de um mapa… a nos orientar e  guiar por caminhos desconhecidos, eu a leio como: [dez possibilidades].

Já conheci pessoas que comparavam o destino a um quebra-cabeça, com suas muitas peças soltas… adquiridas através dos dias-meses-e-anos da existência, que aos poucos se encaixa e completa. O resultado final seria a vida que temos para nós: essa coisa confusa-enigmática…

Quebra-cabeça era um brinquedo divertido na infância… ganhei vários, como forma de incentivar a mente. Nas férias de verão do ano de 1989… eu e mais seis pessoas [os meus humanos favoritos na época] passamos dois dias inteiros diante de uma mesa… a combinar peças, que resultou numa paisagem bucólica do interior da Inglaterra.

Todo o processo foi bastante divertido… usamos lupas, pinças [foi quase cirúrgico] mas ao final, quando a paisagem estava pronta para o nosso degustar… se revelou qualquer coisa aborrecida.

Alguém sugeriu por molduras e pendurar em alguma parede… eu sugeri o  lixo! Cinco mil peças de papelão deitadas fora. Mas ninguém concordou comigo… e aquela coisa foi parar no meio da parede da velha casa do nono. O velho carrilhão a espiava e cantava suas  mesmas horas cheias todos os dias, parecia reclamar o vazio da parede onde seu som ressoava e maneira mecânica… uma, duas, três, quatro… como forma de nos lembrar dos desaforos que a vida e seus humanos nos impõe.

Serviu para me fazer descobrir que eu não gosto de mapas, guias… prefiro me perder e uma vez perdida, saber que existe a possibilidade de eu nunca mais me encontrar.

6. Um elogio a sombra…

As ruas de Buenos Aires | já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas | incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis

 Jorge Luiz Borges

Caríssimo,


Tenho para mim, que todas as cidades são iguais… com suas ruas estreitas ou longas, uma esquina depois da outra. Suas vitrines iluminadas… e seus muitos cafés “presos” às esquinas.

Uma cidade tem casas, prédios… e nesse cenário milhares de janelas se perfazem. Os diálogos se proliferam à sombra, que emerge nas calçadas, bem debaixo de suas árvores. As luzes foscas se acendem quando a noite esparrama seu abstrato surreal — quando tudo são sombras a escorrer aos nossos olhos. Os humanos deixam de ser tão assustadores… porque dentro da noite há esse aconchego inusitado…

Todas as cidades são iguais — guardam estranhezas em cada rua, que os pés descobrem. E vez ou outra exibem simpatias em acenos inesperados, que nos alcança-toca e se esfumaça no passo seguinte.

E o que mais me toca nas cidades… são os anciãos, que não acalentam a pressa tão comum aos primeiros anos de vida. Aprendo com eles a não atropelar os passos, a guardar as mãos nos bolsos da calça e sorrir a quem passa.

Eles gostam de contar as suas vivências… e folhear com raro prazer, as páginas de suas histórias. Ontem, pela manhã, ao visitar uma praça no Palermo, um signore me contou como era a cidade, em seu tempo de ragazzo. Com a voz embargada por uma melancolia gostosa que o fez inserir algumas pausas em sua fala… narrou as mudanças, acompanhadas por ele, sem alegria… mas ressaltou — com um nó na garganta — o que ainda estava preservado… demonstrando visivelmente o medo que sente em ver o que lhe resta de cidade: desaparecer.

E ao me despedir — depois de um bom par de horas de conversa — ele se mostrou satisfeito com a prosa… ‘seria tão bom se os jovens tivessem mais tempo para ouvir’. Seria bom concordo. Mas temos pressa porque a maioria de nós os vê como destino de si mesmos e querem fazer tudo que não fizeram e acabamos a deriva e reclamamos da falta de tempo.

Ah meu caro, as cidades são todas iguais — mudam os nomes das ruas, bairros e o próprio nome que as orientam nos mapas humanos. Mas no fundo… são apenas um combinado de símbolos, que alinhavados — faz de nós meros personagens em movimentos insensatos.

Buenos Aires é apenas mais um capítulo nessa trama real dos meus dias, com prefácio assinado por Jorge Luiz Borges — um item a  mais para a ‘minha caixa de sapato’…

 

Au revoir