17 | Um poderoso gole de tudo e nada…

clone tag: 2648716086846190209

Eu nunca me preocupei com os rótulos, só me importei com eles, ao aprender um punhado de coisas sobre vinho… tipo-ano-origem. E levei algum tempo para me acostumar com essa idéia. Nunca fui boa com esse tema:

Acho que os livros que leio, combinam com pesados goles de tudo e nada… café-chá-vinho-água. Gosto de degustar len.ta.men.te. Sentir os aromas entre os sulcos da boca, pelos cantos do corpo. Acusar sentimentalidades conhecidas. Deixar fazer efeito.

Com livros é a mesma coisa. Não escolho capa-título-autor… nada disso. Primeiro eu vou pelo tato. Sinto o papel na ponta dos dedos. Respiro fundo. Guardo o instante. Leio o título, levando-o para dentro. Abro sem preocupação de página e trago de seus aromas. Embriago-me. Respiro fundo. Avanço páginas até encontrar o início. Gosto de sentir aquele solavanco o meio do peito: o cuore, que conforme a leitura avança, vai bombeando sangue pelas veias, oxigenando o corpo para que a mente possa se desprender da matéria e decolar para seu vôo.

Leio o que me toca… romances e poesias e diários e cartas e contos e crônicas. Eu leio… dois ou três ou quatro livros. Vou e volto dessas leituras. Nunca a mesma. Sempre outra.

 


Ana Claudia Ale Helga | Cilene Mansini Fernanda Akemi
Mari de Castro | Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega


 

maratone-se

Anúncios

Beda | Não vamos fazer de São Paulo um estado de leitores!

vamos fazer de são paulo um estado de leitores
leitura em movimento

 

Eu me lembro que pouco depois de minha chegada à São Paulo… tomei conhecimento da campanha: “vamos fazer de São Paulo um estado de leitores“… que tinha por objetivo espalhar livros pela cidade e incentivar a leitura.

A campanha — que ganhou espaço nos principais jornais-rádios-televisão — simplesmente desapareceu. Mas a idéia ficou no ar… quem usa o transporte coletivo, certamente já esbarrou em leitores, que usam o tempo gasto para ir de um lugar à outro para, literalmente, viajar.

Não é nada fácil se locomover por essa São Paulo logarítmica… formada por centenas de bairros-vilas-avenidas-alamedas-ruas… norteadas pelos pontos cardeais-e-colaterais. Não é um exagero dizer que a Sampa de Caetano deu novo sentido a palavra ‘distância’.

Portanto, nada melhor que sacar um livro da mochila — durante a viagem —, mergulhar em suas páginas e dar asas à imaginação.

Descobri, no entanto, que mais um projeto de incentivo a leitura vai seguir pelo mesmo caminho, infelizmente. Inventado pelo secretário de cultura Mário de Andrade, em 1936 para levar livros as periferias da cidade… o projeto conseguiu sobreviver a duras penas por oito décadas… até ser suspenso pela Prefeitura nesse ano.

O ônibus-biblioteca não circula mais pela cidade e as desculpas são muitas-conhecidas… como de costume. E, as antigas distâncias, deixaram de ser encurtadas — o caminho do leitor até o livro… agora ficou muito maior.


beda interative-se

6 ON 6 | Outono…

A moça do tempo avisou sobre a chegada do ou.to.no em meados de março… a mesma data anotada no calendário. Mas, na paisagem o que se fazia sentir era o ve.rão… que deixou para fazer tudo arder em seus últimos instantes. Tomou fôlego e caprichou nas ‘águas de março’ e nas altas temperaturas…

Abril chegou e as brisas do ou.to.no se fizeram sentir… os raios do sol perderam intensidade e agora chegam à janela de maneira sutil. É um dourado gostoso que lembra a infância e a calda de caramelo que cobria o pudim de leite.

Eu sou toda ou.to.no… essa com certeza é a estação da minha amalgama…

As cores do outono

as cores — gosto desse tom desbotado que vem nos lembrar que tudo tem começo.meio. e fim. Isso é sagrado. Envelhecer é uma palavra linda, tanto quanto fenecer. O ou.to.no me faz prestar atenção nas cores e nessa pausa demorada, aprendo a lidar comigo.

DSC_0130

os aromas — eu tomo café-chá o ano todo (independe da estação) mas quando acontece o ou.to.no na minha pele… gosto de ouvir o apito na chaleira no meio da tarde, quando os tons se reinventam… apreciar o chiado gostoso da água quente caindo na xícara. O tempo de espera (meu momento precioso) é outro. Fico ali a apreciar a paisagem que sou, a recordar meus dias-realidade-tempo-vida-outro-lugar-outras-pessoas e tudo se mistura num gole demorado de chá…

DSC_0135

a volta das meias — se existe um estação gostosa para ser dois é o ou.to.no, que favorece o encaixe-enlace. O abraço demora um bocadito mais. Os sorrisos, as mãos dadas… é tão mais fácil partilhar da realidade. O caminhar desliza pelo chão e vai do passado ao futuro em poucos segundos.

Pausa para o café...

as  pausas no meio da tarde — o vento sopra, as nuvens aparecem e o sol foge do céu. Dou uma escapada dos meus afazeres… e vou à cozinha. Água para esquentar. Manteiga na frigideira. Prensa francesa. Pó de café. Polenta cortada em fatias. Atraído pelos sons e cheiros, meu  menino vem para a cozinha e o relógio cancela o tic tac…

DSC_0142

o retorno das mantas — época gostosa para ficar cobrir os pés-pernas e ler um livro. É tão gostoso adormecer aquecida pelo correr das páginas, entre histórias. Ontem a noite me fez companhia ‘silêncio na era do ruído’ de Erling Kagge… e nessa noite serão os poemas de Ana Cristina César…

DSC_0140

anoitece mais cedo — mais tempo para ficar dentro. Cortinas fechadas. Casa aquecida. Meias. Passos pequenos. Manta. Mangas compridas. Xícara entre mãos. Ingredientes na pia. Fogo aceso. Mesa posta. Filme. Livros. Nós dois…


…eu passei a chamar essa estação de fall ao estudar inglês. Me encantei com a frese  “fall of the leaf” (queda da folha).


 

Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

beda

BEDA | Chá de hortelã…

Dizem que o tempo ameniza Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece Como os músculos, com a idade

Emily Dikcinson

O chá de hortelã veio à mesa, enquanto eu misturava folhas num trabalho Plural. O exato instante — precioso — em que absolutamente tudo me pertence… já deixei de ser a leitora voraz, que garimpa seu ouro a partir dos instintos que trago em mim, prontos para uso — e aos quais recorro, consciente ou inconsciente.

Talvez seja por isso que uma das perguntas que mais ouço em meu cotidiano é: como se lê poesia? Sempre que essa questão me alcança… eu respiro fundo, pinto nos lábios um sorriso e engulo um pesado gole de café, enquanto observo o espaço a minha volta.

Como ler poesia? Repito a pergunta em meu avesso, em busca da resposta… que está trancafiada em algum canto de minha memória. E, para isso, é preciso instigá-la e trazê-la à tona.

…recordo o primeiro livro — pequeno — e seus versos em idioma outro, a esfarelar-me… Não perguntei a ninguém como ler. Mas precisei de um dicionário, porque ainda não tinha vocabulário suficiente.

Eu não tinha um manual de instruções sobre como proceder, tampouco a orientação de uma pessoa. Segui meus instintos para ler, entender e sentir os versos, que despejaram em mim uma melancolia úmida-única… que me fez calar.

Entendi que a morte era traiçoeira e agia na calada de nosso fôlego. Morri… no arrepiar da derme, anestesiada pela intensidade dos versos que me liam.

Depois desse primeiro momento, encontrei outros tantos livros-poetas por aí… uns não ecoaram em mim… outros, apenas rasparam suavemente minha derme, como um esbarrar apressado pelas ruas da cidade, sempre em movimento.

Entendi que poemas têm sonoridade e são como músicas. Me apaixonei por Bach aos nove anos… que replicou em mim aquela sensação primeira. Foi nesse instante que compreendi o valor da primeira sensação. É o que buscamos ao ler. Queremos e precisamos sentir aquele conforto-desconfortável… desejamos alcançar a melancolia-úmida-única.

Mas, a maioria de nós não tem tal consciência… desconhece a sensação, porque somos desatentos por natureza. No entanto, está tudo lá, no fundo de nós. Notas a ressoar no vazio… e, quando alguém nos alcança e toca, é aquele instante mágico… a melhor das sensações. Um emergir em vida-morte-fim-começo-desfecho…

Porque ler poesia é ler-se… em algum momento a pele goza do arrepio sagrado da primeira vez. Amém.

 


BEDA | A caderneta vermelha


Depois de concluir a leitura de ‘a caderneta vermelha’ na mesa de um café entre esquinas… com copos brancos abandonados pelas mesas, precisei respirar. E enquanto vivenciava a história do começo a fim, revendo os encontros e desencontros de vida… recordei meus moleskines e pensei nas palavras que deitei neles ao longo dos dias em movimento. Sempre tomo notas das minhas insanidades. É um costume antigo… contar o que penso, sinto, experimento… comecei a fazer terapia aos doze.

C., considerava ideal para alguém, como eu, que temia enlouquecer — não suportava pessoas, amava cães, o silêncio e um quarto escuro. Foi uma boa idéia, reconheço. Existia em mim uma necessidade de encontrar alguém que não fosse uma folha de papel… para dialogar. A estranha que me ouviu pela primeira vez, fazia anotações também e eu achei mágico trocar palavras com alguém que repetia meus gestos. Não confessei a ela as minhas verdades, mas não a brindei com as minhas mentiras. Adoro contar histórias… e no meu caso: mentir sempre foi aconselhável — evitava constrangimentos. Principalmente que meus pais fossem chamados ao colégio por motivos bobos… algo que sempre me aborreceu.

Me acostumei a fingir diários… mais de uma vez os abandonei em lugares cuidadosamente escolhidos para que fossem lidos por determinada figura. Foi uma fase… estava a aprender os ‘personagens’ e a encontrar um meio de ‘inventá-los’ em minhas próprias fôrmas a partir do que a realidade — esse celeiro — me oferecia.

Mas nunca tive  — como a personagem do livro — um diário roubado. E não consigo me desvencilhar dessa possibilidade. O que sentiria no lugar dela?

“A questão que se apresentava agora era quase de ordem moral: levá-la consigo ou deixá-la ali mesmo? Em algum lugar da cidade, com certeza uma mulher tinha sido roubada e, muito provavelmente, perdera a esperança de rever seus pertences.”

No livro, é assim que se desenrola a trama escrita por Antoine Laurain. A bolsa contendo todos os pertences de Laure é levada por um desconhecido  — após um assalto  — que a descarta… sendo encontrada por outro desconhecido  — um livreiro.

E a cada virar de página se torna impossível não torcer que a procura de Laurent resulte num encontro. E para que Laure se encante pelo homem de quarenta e poucos anos, que fez o que poucos homens seriam capazes de fazer: procurar incansavelmente pela dona da bolsa, apenas para lhe devolver os pertences roubados.

 “Bebeu mais um gole de vinho, com a nítida sensação de que ia cometer um ato proibido. Uma transgressão. Um homem não remexe a bolsa de uma mulher – até os povos mais atrasados deviam obedecer a essa regra ancestral.”

E depois de ultrapassadas cento e poucas páginas, por um instante, você acredita que  o único final feliz da trama é a volta da bolsa as mãos de Laure. No mais… ambos seguirão com suas vidas. Irão conhecer outras pessoas… e em algum momento sentirão falta do que não viveram, porque o destino urde suas teias ao seu bel prazer.

Quantos amores não aconteceram porque você virou uma esquina antes?  — ou se atrasou o suficiente para perder o ônibus? Chegou tarde demais e ficou de fora? A vida é assim… você pode chegar cedo… ou tarde demais.

“Como se podia desaparecer tão facilmente da vida de alguém? Talvez com a mesma facilidade, em suma, que se entrava.”

Mas, para nossa sorte, em alguns casos, o universo conspira a nosso favor  — e alguns autores também.


Companhia das Letras
Gênero: Ficção francesa
Páginas: 135