PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | TEMA JANELAS

Tenho verdadeiro fascínio por janelas… desde a infância. Creio que tudo começou por volta de meus quatro ou cinco anos, quando me deparava — ao sair as ruas — com duas signoras… devidamente posicionadas em suas janelas de existir. As duas irmãs tinham o hábito de tomar conta da vida alheia. C., tinha verdadeiro horror por elas. Eu, no entanto, nutria certo fascínio por aquela cena corriqueira.
Gostava de espiar os interiores sempre bem cuidados-perfumados das casas. Colhia pouco ou nada: um quadro na parede, uma santa numa espécie de altar e o lustre de gotas de cristal. E a partir disso, imaginava um sem-fim de coisas.
Elas acenavam para mim e eu acenava e volta. Elas sorriam e eu também… mas dado o número de confusões que causavam na nossa rua — graças as suas ‘línguas sempre afiadas’ — C., reprimia qualquer possibilidade de amizade com seu olhar inquisidor.
De qualquer maneira… o meu fascínio pelas janelas abertas-fechadas-acesas-ou-apagadas… já tinha se iniciado… através daquele desenho delicado de realidade… com suas venezianas verdes, que hoje não existem mais.
A casa foi ao chão durante o tempo em que estive longe… deu lugar a um sobrado garboso e muito elegante. Suas janelas vivem fechadas: faça chuva ou faça sol. Nunca mais vi uma só pessoa naquelas janelas… e a casa nem mesmo parece habitada. Mas a minha memória preservou certos traços e sou capaz — se fechar os olhos — de ouvir as fofocas das ‘esquifosas signoras’

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No bairro da Bela Vista, em São Paulo, há inúmeros casarões antigos. A maioria está abandonado e em ruínas… mas ao observar o que resta de suas fechadas, dá para imaginar um passado elegante e simpático…

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No Alto da Lapa… algumas casas do começo do século XX — com datas impressas na fachada de seus imensos casarões — resistem bravamente ao tempo, ao abandono e as invasões! As que ainda não foram demolidas, nos últimos anos, passaram a abrigar asilos.
Essa, situada em esquina, teve seu traço alterado… e a velha janela cor de sangue foi substituída por uma de ferro com pesadas grades…

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Localizado no Centro da cidade, na Praça Ramos de Azevedo… o Teatro Municipal foi inaugurado em 1911 para atender o desejo da elite paulista da época. Seu estilo arquitetônico foi inspirado no Ópera Paris.
Passou por uma grande reforma recentemente, mas infelizmente a ‘cultura do pixo‘ já manchou suas paredes novamente com grafias negras e horrendas.
Eu já fiquei um bom par de horas a espiar suas janelas em estilo colonial e suas estátuas — ‘gargulas’ — que segundo as lendas urbanas, ganham vida durante a noite! Será que dançam pelo Viaduto do Chá?

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A região da Bela Vista é excelente para se observar imóveis antigos, dado ao grande número construções do início do século XX que, ainda se fazem presentes por ali, por quanto tempo, contudo, é impossível dizer.
Localizado entre os números 276 e 286 da Rua Major Diogo… esse prédio um dia foi um elegante sobrado… localizado quase diante do prédio do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Sua lateral e fundos atualmente são ocupadas por um estacionamento {mania local, privilegiar os veículos, que entopem as ruas}… mas o seu interior encontra-se abandonado e em ruínas.

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Na mesma Rua… estão as ruínas de um dos mais importantes Teatros de São Paulo. o TBC — ‘teatro brasileiro de comédia‘ — construído na década de 40 no Bixiga. Foi palco para uma geração empenhada em modernizar as artes cênicas do país. Por lá passaram Cacilda Becker, Paulo Autran, Tonia Carreiro, Walmor Chagas, Sergio Brito e tantos outros. Atualmente, vive a promessa de recuperação…

Geografias poeticas

Enquanto alguns casarões tombam pela cidade… outros são mantidos intactos-preservados… como esse, que fica entre as esquinas do Jardim América (jardins)… um pedaço nobre da cidade. O bairro foi projetado pela dupla de urbanistas Barry Parker e Raymond Unwin, contratada pela Companhia City — empresa de investimentos imobiliários criada em 1912 e que teria papel estratégico no desenvolvimento da cidade.
Localizado em uma região considerada inadequada para a habitação, o bairro surgiu após a drenagem de um milhão de metros quadrados de charcos e pântanos.

Espero que tenham apreciado o passeio pelo minha Paulicéia e seus muitos {estranhos} contrastes…

Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários 

Diário de minhas insanidades, 11

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Caminhei pela avenida em linha reta, sem pressa… a contar os passos e medir as distâncias. Fui pontual… passei pela nova moça, de quem nada sei — as dezenove horas — e fui direto ocupar o meu lugar de sempre.

W., atravessou a porta pouco depois… enxugava as mãos em uma toalha de papel e finalizava um gole de qualquer coisa — um chá, provavelmente. Disse ‘boa noite’ num tom monocórdio… e tomou seu lugar, a minha frente.

‘como está a sua semana? Voltou a escrever?’… respirei fundo, pausado e demorado. Nem era preciso dizer que não. Meu corpo era todo silêncio. Minha matéria estava anestesiada e a alma embrulhada para viagem.

Faz alguns dias que o cansaço — essa entidade bizarra — se apoderou de minha anatomia… se espalhando por meus músculos e nervos, como um vírus.

Queria ficar em silêncio… com o olhar detido num ponto qualquer — atravessar a matéria humana de W., saborear a quietude de meus gestos, a ausência de sons… e foi o que fiz. Fiquei em transe absoluto… sem dizer palavra, emitir som ou ouvir a própria voz, tampouco a dela.

Foi como fechar os olhos e adormecer… mergulhar no oceano, cessando os sons da vida como a conhecemos. Afundar na própria memória… e ouvir um único som, que para mim é sempre estranho e novo, agradável e manso — uma espécie de trilha sonora: os passos por cima de folhas secas, em pleno outono, ao lado do nono, pelo bosque de minha antiga cidade… o meu porto seguro, o cuore do meu mundo — o lugar onde mio cuore pulsa mais forte, fazendo vibrar a pele, palpitar as têmporas. Minha própria morte e vida e falência e ausência e fim…

Foi como desaparecer por um punhado de segundos… um piscar de olhos — o tempo de um sorriso.

Amizade a primeira vista…

Aprendi através de uma menina de olhos amendoados que existe: “amizade a primeira vista” e que é mais ou menos como um “amor a primeira vista”: a gente se reconhece, se estremece e, pronto…

Eu ainda me lembro do nosso primeiro encontro… ela com suas agitações e precipitações várias a me dizer um punhado de coisas impossíveis e eu, a oferecer o que eu sempre oferecia as pessoas: indiferença…

Ela foi minha primeira tempestade em muito tempo… seu sorriso se misturava ao meu e, seu olhar as vezes não sabia outra direção, que não os meus olhos. Eu a amei com afinco, mas a odiei um sem fim de vezes…

Certa vez, ao ler “orgulho e preconceito”, ela me disse: somos uma espécie de Lizzie e Darcy… ela me enlouquecia com suas frases tolas –  a parte disso, ela reclamava com frequência da minha seriedade… me tirava do sério com suas atitudes insensatas.

Ela era uma tormenta e, eu… naqueles dias, era apenas calmaria. Eu gostava de dias de chuva e ela de dias de sol. Amava janelas fechadas e, ela as escancarava na primeira oportunidade que tivesse…

Ela dizia com alguma frequência, que eu precisava sorrir mais e, talvez por isso, hoje o sorriso seja uma espécie de marca registrada em meu rosto, sendo uma espécie de eco desses dizeres que ainda reverberam em mim…

Recentemente, fez dez anos que nos vimos pela última vez… ela vestiu meu corpo, naquele meio de tarde, com seu abraço demorado-pesado no qual eu aprendi a me deixar ficar… sem restrições. Depois… deitou em meu rosto um beijo e ao olhar no fundo dos meus olhos disse que me amava.  Eu que tinha dificuldade em acreditar em pessoas, acreditei nela sem restrições… sorrimos juntas pela última vez… e depois disso, foram muitas as vezes, em que desejei, que fosse apenas a primeira!

Ela se foi… desde então, há dias – como hoje – em que eu sinto falta da acidez de seus comentários ruidosos. De seu olhar junto as minhas laterais… de seu passo lado a lado ao meu. De seu silêncio durante minha fala sem entusiasmo… de sua quietude junto a minha anatomia quando a melancolia era minha única pele. E de seu entusiasmo canino ao me encontrar pelos caminhos que partilhávamos… ela estava sempre de braços abertos pra mim!

Éramos duas… mas fomos apenas uma muitas vezes! E sempre que tropeço em figuras pelo caminho, encontro algo dela nas pessoas que observo e, talvez por isso eu me afaste gradativamente.

Eu sei que são figuras estranhas e, jamais serão diferentes disso… eu não as amo e jamais amarei… não por não serem ela, mas por serem apenas elas mesmas… e nada mais!

O silêncio aumentou tanto que o relógio se calou!

 

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Caríssima A,

 

…os ponteiros do mio cuore desaceleraram ao ler tuas linhas — quase pararam. Fechei os olhos e sem me mexer, viajei no tempo… regressei a uma geração distante, mas minha. Agarrei as memórias com as duas mãos e sem as largar, senti a textura da mesa quadrada da cozinha, onde aprendi os meus rituais-rotinas de vida.

No ar o cheiro de pão quente — recém-saído do forno… o aroma de ervas maceradas e e, em mim, um tempo que, embora longe, segue dando corda nesse mio cuore… que, às vezes, para… acelera… volta a parar…

Em suspenso — tive em mãos uma vez mais… o meu primeiro envelope vermelho comprado numa das papelarias da cidade. Repeti na companhia de C., aquele gesto pequeno — uma pequena dobradura. Papel sobre a mesa, pontas unidas, marcas feitas com a ponta dos dedos e vincadas com as unhas… outra dobra ao meio. O aproximo das narinas para provar do aroma da combinação perfeita: papel, grafite, palavras, vazios e carinho. Por fim, nova e última dobra…que segundo C., deveria ser feita com um gesto particular… a representação de um abraço. Trocar correspondência é abraçar alguém através das palavras, é ir de encontro sem deixar o canto do corpo, é chegar-partir-e esperar… o tempo da espera é precioso — dizia ela.

Ela fazia uma pequena dobra em uma das extremidades do papel, com toda delicadeza que trazia em sua matéria-deliciosamente-humana.

C., era uma mulher que apreciava a simplicidade dos gestos. Nunca me cansei de admirá-la e sigo a repetir nossos rituais. Gosto de voltar aquelas manhãs de sábado e partilhar de nossos gestos comuns. Reconhecer movimentos de lápis e papel, pequenos goles, sorrisos e olhares cúmplices a quem sempre agradecerei…

É como abrir a janela para uma manhã cinza, céu imenso, mar gigante, gaivotas a arrulhar em seus vôos longínquos e a chuva em busca de vidraças.

Au revoir

 

 

 

{TAG: MISSIVAS DE PRIMAVERA}

Adriana Aneli | Chris Herrmann | Emerson Braga | Ingrid Morandian
Mariana Gouveia | Manogon | Tatiana Kielberman