22 – A alegria é um aroma de tangerina nos dedos…

2017-10-04 18.45.40

Caríssima R.

…passeio pelas minhas lembranças nessa manhã, como se folheasse um livro que fui buscar na estante — com suas páginas preenchidas com as cores dessa existência, na qual você esbarra sempre que se atreve a mim. Não sou boa em medir o tempo. Não guardo datas… mas coleciono momentos!

E de tempos em tempos, gosto de percorrer o caminho de volta… me sento em lugares conhecidos e revisito pessoas-falas-gestos — o primeiro contato e todas as coisas a partir disso.

Algumas pessoas quando chegam… demoram a se aproximar — e é justamente esse momento, confesso, que considero o mais precioso dentre todos… o melhor dos presentes porque posso fazer o meu próprio traço — imaginário — a partir das coisas que vejo… e percebo… e sinto… e aprecio… e guardo.

O jeito de andar.
O sorriso que não é para mim.
O olhar de soslaio…
A posição das mãos, dos pés…

Saber o outro sem que uma única palavra seja dita — com o passo indo ao longe, de passagem por mim…

Conhecer uma pessoa é uma arte… leva tempo! É preciso cuidado… geralmente nos entregamos ao outro, em pequenos goles, como se fôssemos uma bebida cuja receita, esbarra em segredos nem sempre revelados. A parte isso, ainda é preciso se lembrar que não é nada fácil agradar a todos os paladares.

…e para dificultar um pouco mais, nunca sabemos como o outro nos vê.

Eu me lembro bem quando você veio até mim… já falamos sobre isso tantas vezes. Vi um sorriso pousar em teus lábios enquanto falava-narrava a cadeira vazia, as pessoas que lá se sentavam para um diálogo e a curiosidade crescente por saber quem sou. Eu gosto de repassar essa nossa página, mas até você falar sobre isso, era apenas coisa minha — uma nota mental guardada em minha memória para os dias seguintes, estes em que vivo hoje.

Eu já tinha percebido suas andanças.
Nos limitávamos a breves olhares!

Mas, de repente, você veio até mim… ocupou a cadeira vaga e falou de si num quase sem-voz. Não ouvi metade das coisas que disse, mas me intrigou a pergunta feita ‘como faço para não ser assim?’ — e antes que eu pudesse dizer palavra… como quem se dá conta de um passo em falso… se levantou e foi embora.

Não disse se voltava, mas voltou.
E nós fomos — com o passar dos dias — nos acostumando uma à outra, em discursos singulares… que se seguem até hoje!

 

L.

Anúncios

Ninguém sabe dos mundos que cada um habita…

Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração.

Helder

2017-03-05 14.12.58-1

 

Estava sentada na mesa do café entre esquinas quando ouvi a tradicional frase ‘quantos anos você tem?’. Levantei a sobrancelha e sorri… já me acostumei ao estado e espanto que vejo no meu interlocutor quando anuncio a soma dos anos que trago em mim.

A maioria das pessoas me julga pelo diálogo — sem gírias e alcunhas, bem pontuado e parafraseado por memórias que trago em mim. Um conjunto de significados que eu acalento com prazer.

Eu não me preocupo com essa coisa de idade… tenho outros silogismos para me ocupar e definitivamente: idade, peso, tipo de roupa, a cor de meus cabelos e outros itens supérfluos não fazem parte da minha lista de coisas a considerar…

Gosto das somas que faço em silencio… que servem para contabilizar o que realmente importa. Quantos lugares visitei? Estive em inúmeras cidades. Algumas foram para sempre, outras para nunca mais. Quantas pessoas coleciono? Quase nenhuma, pouquíssimos são humanos que considero interessante. Quantos livros eu já li? Bem menos do que gostaria. Quantos eu já re-li? Uma dúzia e meia… talvez.

Mas, se alguém se atrevesse a me perguntar: quantas canecas/xícaras eu já tive? Seria necessário percorrer cidades-momentos-pessoas-livros… para tecer uma resposta sonora e agradável. Iria me sentar num canto da mesa — como fazia a casa, no meio de uma tarde qualquer… vagar cenários e traçar um diálogo sobre certas vivências.

Na minha infância eu tinha uma daquelas canequinhas de ágata… e sempre que chegava à cozinha pela manhã, lá estava ela sobre a mesa, com meu leite caramelizado — delicioso. Sentava-me na cadeira com ajuda de C., e sentia meus pés balançarem no ar. Adorava a sensação de liberdade que esse movimento me proporcionava por ainda não alcançar o chão. Entre as mãos: a caneca que aquecia meus vãos. Naqueles dias… eu podia adicionar canela ao leite e adorava lamber os bigodinhos brancos que o leite ‘pintava’ pouco acima dos lábios.

Desde pequena que me demoro a despertar pelas manhãs, mas é que eu sempre achei — não pergunte a razão — que as manhãs pertenciam aos pássaros… e não a mim. Muitas vezes eu acordei à mesa, com um gole mais quente a queimar a língua… marca que me acompanhava o resto do dia.

Alguns anos depois… ganhei uma caneca de louça, toda colorida. Minhas mãos estavam mais firmes e não causariam algum possível acidente. Precauções maternais… e a prova definitiva de que eu tinha crescido, embora continuasse a ser a ‘bambina’ da casa.

Anos mais tarde, eu e mio babo saímos para caminhar no final de uma tarde de sol ameno… pelas ruas cheias de subidas e poucas descidas — da nossa cidade. Era um hábito comum… engatar as mãos para passeios sem compromissos — em silêncio para melhor apreciar a paisagem.

Nessa tarde que vive em minha memória… encontramos e entramos numa lojinha cheia de “badulaques”, com sininho na porta. Compramos ali três canecas. Foi a primeira vez que escolhi minha própria xícara, que trazia um verso de Eliot. O babo achou graça da minha empolgação e em sorrisos disse assim que voltamos a caminhar pelas calçadas — “certas coisas fazem a gente perceber que os filhos crescem mais rápido do que nós somos capazes de acompanhar”…

O formato das xícaras é um das coisas que sempre chama a minha atenção nos cafés que visito… recentemente, ao ir ao Mirante 9 de Julho… esbarrei numa xícara de ágata — adquirida com uma bebida, um latte muito bem preparado, por $25 — e o lugar — um belíssimo cartão postal da cidade… me ganhou com isso.

Já tive muitas xícaras… umas se quebraram, outras eu perdi, algumas eu me desfiz porque o tempo delas em minhas mãos passaram. Não sou uma colecionadora. Não gosto de objetos amontoados, a juntar pó. Gosto de sentir uma xícara em mãos… sabê-la em uso… a trocar energia comigo.

Azuis, pretas… com desenhos, riscos… diferentes tamanhos — umas são apenas para tomar o cappuccino… outras para o chá. Mas nunca mais consegui tomar leite caramelizado com canela. O sabor e a sensação do calor entre as mãos permanecem em minhas vilas… mas é algo que pertence a esse templo sagrado que foi a minha infância e lá permanece: intocável.

 

O velho casarão da ‘du Passe-Mussete’…

Comecei a escrever assim que ocupei o último banco do ônibus 805-L — com suas curvas a direita e a esquerda… até chegar à Avenida Paulista — meu destino de hoje. Vou saltar no ponto em frente ao antigo prédio da Gazeta, com suas escadarias sempre ocupadas por insólitas figuras… não importa a hora do dia.

O ônibus subia pela Topázio (as ruas da Aclimação têm nomes de pedras preciosas) quando eu esbarrei nesse sobrado, com uma placa de madeira presa ao portão de ferro, a determinar a sua condição em demolição: a DEMOLIÇÃO foi autorizada pela Prefeitura.

Não consigo me acostumar com os hábitos paulistanos. Prédios morrem todos os dias… estacionamentos edifícios, e shoppings nascem de qualquer jeito, no meio do caminho, num piscar de olhos. Um instante de distração e você se perde da paisagem de ontem.

O ônibus parou no semáforo e o meu olhar aterrissou na janela balcão de madeira no segundo andar. Foi meu guia… me levou de volta no tempo e fui esbarrar em um velho casarão em Paris, que pertencia a sobreviventes da guerra. O casal trocou de sobrenome, escondeu a origem e sepultou os antepassados. Uma história bastante comum a milhares de famílias.

Descobri esse casarão ao ir para as famosas feirinhas de fim de semana, perto do boulevard, no final da Rue du Passe-Mussete. Estava fechado havia anos e era motivo de discussão dos vizinhos, que gostariam de vê-lo ocupado.

Havia perto dali um café-livraria… e da janela era possível observar a ilustre figura do casarão com seu estilo de casa europeia, com muitas janelas espalhadas ao longo da fachada. Todas fechadas, o que não permitia saber o interior e se tem algo que gosto de experimentar, são os interiores dos lugares.

Soube através do dono do Café que o casarão estava fechado desde a morte do casal, que não tinha filhos… herdeiros tampouco. Foi ele quem me entregou um pequeno flyer, anunciando uma interferência, promovida por um grupo de artista que tinha ocupado o lugar.

A casa virou um grande palco… durante ‘quarenta e cinco minutos’ percorremos os espaços mantidos intactos. O piso estava gasto, os móveis empoeirados. Mas, nos armários da cozinha, as louças permaneciam empilhadas com o cuidado de quem prepara as refeições do dia… e no quarto, as roupas apodreciam nos cabides. A cama estava feita e sobre o tapete, estavam a esperar por pés as chinelas.

A sensação ao percorrer cada um dos cômodos do velho sobrado… era de que as pessoas que ali viviam, tinham feito a mala e saído às pressas. Como se tivessem atendido a um chamado… da morte.

O casal foi encontrado na cama — lado a lado, de mãos dadas. Ela com sua camisola branca e ele com seu pijama marrom. Se despediram um do outro, tomaram seus remédios — em doses exageradas — e se adormeceram.

Ela estava frágil e o resultado dos últimos exames anunciou o inevitável: o sofrimento do corpo e da alma. Ele não estava disposto a vê-la sofrer, tampouco a viver o que lhe restava de vida sem sua ‘menina’. Foi essa a história que os autores contaram — a verdade que nos permitimos e imprimimos às paredes do lugar, que fechou suas portas imediatamente a nossa saída.

Sempre que vejo casas abandonadas, em ruínas — imagino vidas-histórias. Imagino o que não sei e invento o que posso.

 

 

19 – Queimávamos madrugadas de fio a pavio…

wazemmes lille

Caríssima AA.,

A tarde começa a cair lá fora, por cima da cidade com suas ruas em “movimentos” de sexta-feira. Passa das cinco e eu ainda não aconteci para o mundo. Sempre que chove fico dentro da pele — em suspenso. Minha alma se equilibra em desacordo com os ritmos da realidade… faço chá, reviro caixas, abro antigos cadernos-diários, arranco folhas para rascunhar o momento e me perder — como se estivesse a arrancar de mim alguma coisa indevida.

Faz dias que não chove por aqui… uma vida inteira-imensa e me incomoda essa falta de previsão de trovões e nuvens. O ar pesado me causa cansaço e há tanto por fazer e viver.

Ainda há pouco… antes de me sentar aqui para escrever-te — abri meu velho diário e um envelope antigo saltou lá de dentro… foi ao chão. O detive em minhas mãos por alguns segundos — enquanto espiava o passado contido em seu avesso. Recordei tudo que foi e não foi…

Senti a textura na ponta dos dedos… o resto de perfume que o papel guardou. Provei de sua cor opaca — já reparou como envelhecem os papéis? É tão poético acompanhar o efeito do tempo.

Mergulhei pouco depois… nas duas folhas de papel, onde adormecia a conhecida caligrafia descuidada-irregular-indócil… difícil de ser lida. E uma fotografia, que traz a data e o lugar onde foi tirada: Wazemmes — 2003.

Fiquei em suspenso por alguns segundos… provei da falta de coisas não vividas — como propõe um poema escrito por Simone Teodoro, em seu livro ‘astronautas’.

Viajei para dentro do cenário… conduzida pelas linhas de Pr., que falava da vida, de seus medos e vontades, incertezas, sonhos, ilusões. E confessava escrever do segundo andar de um prédio velho e escuro — em Wazemmes.

Nas primeiras linhas… reclamava de um jovem músico, que se repetia em notas — todos os dias, no mesmo horário. Dizia rezar — mesmo sendo ateu — para que ele aprendesse a dominar o instrumento e as notas… já que estava a gostar do lugar, que levou semanas-meses — uma vida inteira — para ser encontrado.

Ele era o tipo de pessoa, que precisava vestir os cômodos… uma espécie de barco encalhado a convocar ventos e marés. Não era qualquer lugar que lhe servia e se dizia amaldiçoado por ser assim, mas não fazia o menor esforço para ser diferente-mudar.

E era uma pessoa exigente… o quarto precisava receber sol pela manhã — a melhor hora do dia para se aquecer os lençóis… segundo ele.  A sala tinha que ficar no meio — caminho de algum outro cômodo. Fazia questão de uma varanda para as ruas e janelas grandes onde pendurar cortinas brancas.

Não cheguei a conhecer a morada… não houve tempo — apenas vontade-desejo. O imaginário, no entanto, foi e voltou de lá inúmeras vezes — a cada missiva que chegava, com novidades. Acompanhei a escolha dos móveis. As inúmeras visitas a lojas. A primeira compra de ingredientes num desses empórios antigos. O ajudei a preencher os armários. A escolher a louça… pratos azuis, canecas amarelas e talheres pesados. Eu lhe enviei um mensageiro dos ventos, que levou meses para atravessar o oceano e ser pendurado na janela do quarto para as noites-manhãs-tardes de ventos. Ouvimos juntos a primeira ventania enquanto tomávamos uma xícara de chá de anis com folhas de laranja — o nosso favorito.

E hoje — passado tanto tempo — visitei novamente o espaço… como se para lá tivesse me mudado no último minuto. Habitei por alguns segundos a fotografia. Converti a minha figura em personagem-transeunte… e vivi dentro de um fim de tarde, quase noite… a suturar levemente o cuore. Sentei-me no sofá, ao lado dele. Encostei a minha cabeça em seu ombro e lhe contei as novidades — sobre meu novo romance — enquanto esperávamos o apito sonoro de sua chaleira prata…

Ocupei todo o espaço… colei novos cartazes de filmes nas paredes. Grudei uma bandeira inglesa atrás da porta do quarto de hóspede. Espalhei os nossos livros russos pelo chão da sala, sobre o tapete de linhas. Pendurei algumas peças de roupa no armário. E o lugar pequeno-escuro, com poucos móveis, calmo e lúcido aos poucos se moldou a minha anatomia.

E no quase fim de tarde… vi o sol lamber a pequena janela da frente… a resvalar no vidro, deixando aquele rastro de poeira solar no ar… e ir embora len-ta-men-te pouco depois. Todo o cenário se converteu em sombras… a escorrer na parede de meus olhos fechados.

Voltei para cá… amparada pelo breu e o silêncio de quem lê uma missiva, observa uma fotografia e conversa com alguém, que talvez compreenda o silencio do meu corpo em suspenso nessa primeira-última hora.

À tout à l’heure!

 

 

selo para o BEDA

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Lembranças…

…se tem uma coisa antiga da qual sinto falta são dos velhos ‘álbuns de fotografias’. Havia algo mágico em esperar pela revelação dos rolos de filmes ‘kodak asa 100’, que vinham acondicionados em caixinhas amarelas pequenas, e podiam ter 12, 24 ou 36 exposições.

As fotografias — depois de reveladas — eram entregues em um envelope, onde tinha nome e endereço do feliz proprietário de momentos, que poderia ou não ficar satisfeito com o resultado. Fotos veladas, tremidas, olhos vermelhos, pouca ou muita luz eram efeitos possíveis dos fotógrafos — nada profissionais — de momentos.

C., guardava os álbuns em caixas de camisa ou sapatos… no alto do armário. Vez ou outra, todas as caixas apareciam em cima da mesa da cozinha numa espécie de viagem ao passado porque a gente gosta de lembrar o que viveu-sentiu… talvez apenas para ter certeza de que se viveu e não se esqueceu de que a vida é para ser vivida até o último segundo.

0621 — passeio pelo bairro na companhia dos meus meninos. Adoro passos, pegadas e caminhos… desde a infância. C., dizia que eu tinha mania de olhar para trás para ver se tinha marcado o chão. Adivinha só: ainda faço isso… rs

IMG_20140124_142815.jpg

2 — Adoro alpendres… com mesa, cadeira, plantas e pratos bem feitos, de preferência com uma pasta ligeira, feita por mim. Molho vermelho desde sempre é o meu preferido… mas não sou dada a horários de almoço ou jantar. Gosto de servir pratos na hora em que a vontade se impõe… vou para a cozinha, separo os ingredientes e meu menino aparece para perguntar:  ‘o que está a aprontar’. Mas a resposta ele só tem quando o prato vai a mesa. rá

2012-11-01-02.02.01.jpg3 — Adoro fazer pão… aprendi com a nona a misturar o trigo, ovos, óleo, açúcar, fermento e leite. A amassar com as mãos, a sovar na mesa… nos dias de junho é ainda mais especial. Fina de estação, de história…

desenhando-sombras.jpg4 — Gosto imenso de cadernos… o meu primeiro diário ganhei de C., que repetiu os gestos de sua mãe. Demorei algum tempo para me dedicar a eles, mas depois não parei mais. A maioria, contudo, não existe mais. Não sobreviveu a minha rebeldia. Hoje tenho outro caderno vermelho e gosto de ali esquecer coisas minhas em frases bem pontuadas.

photo_2016-10-21_17-26-21.jpg5 — minha fase favorita dos escritos, quando são apenas rascunhos que pertencem apenas a mim. São promessas futuras que podem ou não sair dessa condição. Foi assim com Lua de Papel e no atual momento é a condição (ainda definitiva) de ‘vermelho por dentro‘… meu novo-velho romance.

DSC_0035.JPG6 — No próximo dia 11… fará — segundo a nossa lenda — catorze anos que estamos juntos… somos rastros e pegadas nos caminhos que es oferecem aos nossos pés. E só para constar: a única soma que faço é dos abraços e sorrisos.

 

Participam desse desafio
Frasco de MemóriaO lado de dentro