12 | meus naufrágios…

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Passei as horas dessa manhã-dia, ocupada com: ‘os meus naufrágios‘ — esse novo projeto-diálogo-livro… que me permitiu praticar  — uma vez mais —,  os meus três verbos favoritos… até a exaustão da mente.

Escrevi. Escrevi. Escrevi… sobre a noite, em paralelo, a minha infância e acabei com uma xícara de café, em mãos — a lidar com um punhado de dúvidas… coisa típica de quem nunca teve certeza de nada.

E enquanto percorria calçadas, em movimentos de passos-lembranças-frases — a  mesma velha dança de sempre —, tentava pontuar as minhas emoções. Eu sempre vivi a deriva, em um barco frágil, com tempestades a gritar seus trovões e raios cortantes. Com os olhos fechados a sentir tudo dentro… a pele molhada de chuva e os arrepios de frio a correr de norte a sul. O movimento de ondas a me levar de um lado para o outro… e o corpo a se render a essa artimanha, que algumas pessoas gostam de chamar de: destino. Eu sempre dispenso os rótulos e fico com os versos de ‘meus poetas’.

Comigo é tudo sempre intenso… na voltagem máxima. Não sei ser diferente! Não me ensinaram a me preocupar com margem ou cais, onde atracar. Eu aprendi a navegar e com isso veio o desejo de ser marinheiro. Verso de Pessoa-Campos. Disseram-me, no entanto — o que me fez rir —, que era coisa da idade. Com o passar do tempo, eu ficaria mais calma…

E o tempo passou… e ainda estou a bordo daquele pequeno barco-frágil, construído ali na infância — a navegar nesse oceano cada vez mais blues… e ao lado, sopram ventos e a água pula dentro. É preciso aguentar firme, adequar-me. Pelo alto chegam os raios de sol a queimar forte a pele e as tempestades, com os seus muitos riscos prateados.

 


 

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BEDA | MAL DITO SEJA…

Tarde de sábado… dia de sol… pouco depois das quatro horas e o lugar reservado (para o crime) entre esquinas-alamedas, também conhecido por Starbucks… começou a ser ocupado por curiosas figuras — movidas a Café, impulsionadas por abraços e completamente apaixonadas por livros…

 

 

 

 

 

 

BEDA | Livro de Artista

A idéia de ‘livro de artista‘ começou  a me seduzir ainda no tempo do colégio, quando eu me divertia na companhia de I., forjando publicações clandestinas… a maioria em formato de Zine, com a ajuda de uma velha máquina de escrever e a cumplicidade de uma copiadora.

Foi paixão a primeira vista pelo ‘modelo artesanal’… que além de ser charmoso e elegante… permitia praticar a essência do verbo: ousar.

Eu nunca gostei de me sentir refém de modelos pré-existentes… era como estar trancada em uma caixa quadrada, com seus lados perfeitamente iguais, de onde não parecia ser possível escapar.

Sempre me pareceu mais interessante os formatos alternativos de publicação…que pareciam dar de ombros à proposta de livro existente no mercado. Mas, os formatos alternativos, denominados underground no quais esbarrei também não agradavam aos meus sentidos de tato. Eu precisava sentir aquela sensação conhecida de café pronto no bule… sabe como é? Você respira fundo e sente aquele aroma conhecido a te invadir e mesmo que não goste de café, o cheiro te pega pela mão e te e leva para algum lugar seguro-seu, fora do tempo e lugar.

Até alcançar um modelo de ‘livro de artista’ que combinasse comigo… foram meses de exercícios, um sem-fim de erros, tropeços e poucos acertos.

Que uma idéia não nasce pronta… eu já sabia. Mas, confesso que em determinado momento tive receio de não alcançar um Porto onde atracar. Um escritor aprende essa lição de vida, desde a primeira frase escrita numa folha de papel. Toda e qualquer idéia requer dedicação-disciplina-e-entrega e pode acontecer de nunca estar pronta.

Eu passeei por vários estilos de encadernação… fui de curso em curso, oficina em oficina. Aprendi a história do papel e do próprio livro. Um sem-fim de descobertas incríveis… até que, numa dessas ironias do destino, me deparei com a costura oriental, em meados de 2012. E, muito embora todo o processo se mostrasse, inicialmente, simples: dobrar folhas, encaixá-las uma dentro da outra, de maneira a compor pequenos blocos, furar e, finalmente, costurar… deu algum trabalho porque mudou toda a idéia de livro que eu trazia em mim. E se tem uma coisa que é bastante complicada é descontruir uma idéia enraizada no fundo de si.

Eu nunca fui uma pessoa prendada… assistia as mulheres de minha família tecer meias, luvas de lã, xales. Transformar roupas velhas em coisas novas… enquanto eu não era capaz de pregar um mísero botão da camisa. Mesmo assim, repeti incansavelmente o entrelaçar de fitas… até aprender e dominar a ‘arte oriental de costurar livros’.

Confeccionar o próprio livro… é reinventar o próprio espaço-lugar-cenário. E dado o primeiro passo… com o livro pronto em mãos… é entregar ao “amigo-leitor” a novidade e esperar (como se espera por uma xícara de chá) para colher as mais diversas reações. Há quem se espante, demonstre surpresa e medo… de manusear, como se fosse algo frágil que pudesse se quebrar. Mas, passado o primeiro momento, um mesmo sentimento os unem: o desejo de compreender o processo, como se fosse um quebra cabeça, com as peças soltas sobre a mesa.

 


O que o café lhe faz lembrar?

“AMANTE DA LITERATURA acreditou que bastavam: caneta, moleskine e uma xícara de café durante horas sobre a mesa do bar. Ela, ambiciosa, exigiu-lhe a vida inteira em troca de um bom livro. Foram felizes para sempre”.

— pág. 13 – amor expresso, Adriana Aneli

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O AROMA E O GOSTO DO CAFÉ DESPERTAM A MEMÓRIA
E PROJETAM NA IMAGINAÇÃO ANTIGAS SENSAÇÕES…


Ainda que o relógio não despertasse… ele acordava mesmo assim. A tarefa que o despertava toda manhã, o mio nono dominava como poucos: preparar o café. Era sua Arte favorita!
Antes de o sol apontar o dia, a chaleira cantava na cozinha e o cheiro ia levantando um por um da família. Alguns afobados, a correr contra o tempo. Para estes, ele deixava o café com leite pronto em cima da mesa. Enquanto havia os desprovidos de pressa, a meditar as primeiras horas sonâmbulas da manhã, numa calma invejável que apenas a infância permite… para esses, o café ficava um pouquinho de tempo a mais no bule.
A gente se servia à vontade da bebida fresquinha e ficávamos ali, se bobeasse o dia todo, de gole em gole, a papear a vida e suas coisas demasiadamente humanas…
De tudo fica um pouco, disse Drummond em sua poesia… e do café fica muito mais… porque assim como minha lembrança tem cheiro de café e me transporta para dentro de um tempo que segue a acontecer cá dentro, o mesmo acontece para muitos de nós.
Pergunte a qualquer um: o que o café lhe faz lembrar? E a resposta virá lentamente… tanto no paladar quanto na memória.
E ao ler o livro de Adriana Aneli — amor expresso — que tive o prazer de editar e costurar… comecei a folhear sensações conhecidas, mas não da pessoa e sim da autora, que descobriu nos Cafés entre esquinas das cidades, um lugar para o corpo, a alma, a memória e também as palavras. Quando dei por mim estava a fazer uma singular lista dos Cafés que ficaram em mim:

Em primeiro… Café de Flore, em Paris, na companhia dos meus pais… minha primeira viagem para a cidade de Baudelaire. Descobri que o que eles serviam em xícaras não era exatamente café… e era horrível. Eu tinha apenas nove anos. Fiz careta e cuspi fora!
E mesmo assim eu voltei algumas vezes ao Café de Flore para conversar-rascunhar e conhecer personagens… menos para beber a “chicorée”, uma bebida à base de raízes de chicória, que tem gosto similar ao do café, introduzida no país no período de grande desabastecimento provocado pelas duas guerras mundiais.

Starbucks Broad street
Em segundo… Starbucks Broad street, com Pr durante as férias de verão de noventa e sete… ele me apresentou a famosa ‘sereia de duas caldas’… “você que adora a baleia branca de Dick Herman, vai amar esse lugar”…
Para variar, ele estava certo: me apaixonei pelo que veio a se tornar o meu lugar favorito em muitas cidades. O meu eterno “café entre esquinas”. Amor no primeiro latte…

Café Búho, BarcelonaEm terceiro… certo dia C., me disse “hoje você não vai à escola, temos coisa melhor para fazer” e fomos a Barcelona — onde compramos um tapete para a porta e depois nos sentamos à mesa do “café búho”…e degustamos o café era servido na companhia de biscoitos de gengibre e gotas de chocolate.

Em quarto… São Paulo, uma padaria antiga no velho bairro do Bixiga… imediatamente ao dia seguinte a minha chegada a Paulicéia do Mário…
Eu e “meu menino” saímos para um café, caminhamos pelas ruas do velho bairro, esbarrando num punhado de curiosas anatomias… e enquanto tentava saber de onde o conhecia (totalmente clichê, mas e daí?) caminhamos até esse lugar que tinha as paredes revestidas por velhas fotografias da Metrópole antiga.
O café não era dos melhores, mas a companhia…

Café Cartola, CoimbraEm quinto… Café Cartola, em Coimbra… na companhia da minha eterna Mestra das letras, que me disse certa vez “a psicanalise entrará em ti, mas você não viverá para ela”… gostávamos de caminhar lado a lado até o velho na Praça da República com nossos livros, em silêncio… com os olhos a dizer o que os lábios não eram mais capazes. Sorriamos a cada gole e, depois fazíamos o caminho de volta… a passear por entre uma multidão inconsciente de nós duas. Ela fazia como o nono, provava o primeiro gole de café como se fosse sopa, para sorver melhor os aromas…

Café de France,MarrakeshEm sexto… estávamos todos à casa e quase que ao mesmo tempo, decidimos em conjunto, como se fosse combinado… ir a Marrocos. E lá fui eu na companhia dos meus. Foi a última vez que estivemos todos juntos…

[ para respirar fundo ]

Brindamos o pôr-do-sol — o mais lindo que eu já vi em toda a minha vida — com uma caneca de café requentado (horrível) e prometemos nunca nos perder. Nos esquecemos, contudo, que promessas são feitas para não serem cumpridas.
Entre sorrisos espaçados-entrelaçados… silenciamos um a um, e guardamos para todo o sempre o momento. Foi a nossa promessa mais sincera. E queríamos que fosse uma conquista, mas não foi…
Não acredito que haja arrependimento, afinal, o momento sobreviveu. E nós também. Mas eu não mais voltei ao Café de France — o mais famoso da cidade, cosmopolita de Marrakesh.

starbucks pavão
Em sétimo, [estou em dúvida] — mas fico com São Paulo (novamente) — era uma tarde de terça e eu me preparava para deixar o lugar, quando uma figura recém-saída de uma tempestade adentrou o recinto do café entre esquinas.
Ela fugia da chuva que caia forte pelas ruas… estava toda molhada e reagiu como um cão ao entrar. Acho que fui a única a não esbravejar dos respingos da chuva. Nos olhamos a distância. Eu sorri suas fisionomias inteiras: provei-devorei-e-a-decorei… ela devolveu o sorriso.
E eu que estava de saída, com a desculpa de esperar a chuva passar: fiquei um pouco mais. Acabei surpreendida com um gesto. A estranha me propôs um brinde — ao erguer seu copo de latte no ar — e eu embarquei no gesto. Brindamos uma a outra… à distância.
Duas estranhas numa tarde-quase-noite… e, ela nunca vai saber o que me deu. Parte dela foi embora… mas uma parte-inteira ficou comigo para todo o sempre — e a chamei de Raissa.