BEDA | MAL DITO SEJA…

Tarde de sábado… dia de sol… pouco depois das quatro horas e o lugar reservado (para o crime) entre esquinas-alamedas, também conhecido por Starbucks… começou a ser ocupado por curiosas figuras — movidas a Café, impulsionadas por abraços e completamente apaixonadas por livros…

 

 

 

 

 

 

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BEDA | Livro de Artista

A idéia de ‘livro de artista‘ começou  a me seduzir ainda no tempo do colégio, quando eu me divertia na companhia de I., forjando publicações clandestinas… a maioria em formato de Zine, com a ajuda de uma velha máquina de escrever e a cumplicidade de uma copiadora.

Foi paixão a primeira vista pelo ‘modelo artesanal’… que além de ser charmoso e elegante… permitia praticar a essência do verbo: ousar.

Eu nunca gostei de me sentir refém de modelos pré-existentes… era como estar trancada em uma caixa quadrada, com seus lados perfeitamente iguais, de onde não parecia ser possível escapar.

Sempre me pareceu mais interessante os formatos alternativos de publicação…que pareciam dar de ombros à proposta de livro existente no mercado. Mas, os formatos alternativos, denominados underground no quais esbarrei também não agradavam aos meus sentidos de tato. Eu precisava sentir aquela sensação conhecida de café pronto no bule… sabe como é? Você respira fundo e sente aquele aroma conhecido a te invadir e mesmo que não goste de café, o cheiro te pega pela mão e te e leva para algum lugar seguro-seu, fora do tempo e lugar.

Até alcançar um modelo de ‘livro de artista’ que combinasse comigo… foram meses de exercícios, um sem-fim de erros, tropeços e poucos acertos.

Que uma idéia não nasce pronta… eu já sabia. Mas, confesso que em determinado momento tive receio de não alcançar um Porto onde atracar. Um escritor aprende essa lição de vida, desde a primeira frase escrita numa folha de papel. Toda e qualquer idéia requer dedicação-disciplina-e-entrega e pode acontecer de nunca estar pronta.

Eu passeei por vários estilos de encadernação… fui de curso em curso, oficina em oficina. Aprendi a história do papel e do próprio livro. Um sem-fim de descobertas incríveis… até que, numa dessas ironias do destino, me deparei com a costura oriental, em meados de 2012. E, muito embora todo o processo se mostrasse, inicialmente, simples: dobrar folhas, encaixá-las uma dentro da outra, de maneira a compor pequenos blocos, furar e, finalmente, costurar… deu algum trabalho porque mudou toda a idéia de livro que eu trazia em mim. E se tem uma coisa que é bastante complicada é descontruir uma idéia enraizada no fundo de si.

Eu nunca fui uma pessoa prendada… assistia as mulheres de minha família tecer meias, luvas de lã, xales. Transformar roupas velhas em coisas novas… enquanto eu não era capaz de pregar um mísero botão da camisa. Mesmo assim, repeti incansavelmente o entrelaçar de fitas… até aprender e dominar a ‘arte oriental de costurar livros’.

Confeccionar o próprio livro… é reinventar o próprio espaço-lugar-cenário. E dado o primeiro passo… com o livro pronto em mãos… é entregar ao “amigo-leitor” a novidade e esperar (como se espera por uma xícara de chá) para colher as mais diversas reações. Há quem se espante, demonstre surpresa e medo… de manusear, como se fosse algo frágil que pudesse se quebrar. Mas, passado o primeiro momento, um mesmo sentimento os unem: o desejo de compreender o processo, como se fosse um quebra cabeça, com as peças soltas sobre a mesa.

 


BEDA | Olhos de menina…

‘Talvez eu tenha sentido. Talvez alguma parte secreta de mi soubesse o que estava para acontecer. Será que isso é possível? Será que a morte pode ser sentida, como uma mudança no clima? Tenho me perguntado. Nos meus momentos mais tranquilos, quando estou meio bêbada, doente ou cansada, já capitulei a idéia de que poderia ter impedido, de algum modo, aquelas mortes — todas as duas’. 

— parte um — pág 13

 

olhos e menina

Li — pela terceira vez nesta vida  na última madrugada: ‘olhos de menina‘… da inglesa Susan Fletcher. Tudo que sei sobre essa jovem escritora é o que está na orelha do livro  pouco ou nada. Lá temos a informação de que ela nasceu ali, viveu acolá… e esse é seu romance de estréia no mundo das letras.

O romance, escrito na primeira pessoa do singular, me fez enxergar o universo de Eve através de seus olhos — daí o título do livro. A narrativa começa com ela nos falando de três coisas importantes que lhe aconteceram aos sete anos… e uma ponte se ergueu unindo nossas realidades. Pousei na mesma idade.

Me lembrei do jardim de margaridas brancas no quintal e da dor que senti ao pisar num olheiro de formigas vermelhas. Pés-pernas-braços-barriga… elas escalaram o meu corpo em segundos e eu me debati enquanto pude. Entrei em choque e fui socorrida pelo babo. Acordei horas depois, com uma luz branca a passear pelos meus olhos e a voz rouca do velho médico que me conhecia desde o nascimento  ‘você nos deu um enorme susto‘. Eu me lembro de sorrir e de não mais sentir dor. Fiquei dois dias no hospital… medicada e com o corpo cheio de pomada. Desse dia em diante, desenvolvi pavor de formigas vermelhas.

Eve aprendeu a soletrar o próprio nome nessa idade… eu fiz isso antes, aos quatro anos. Aprendi com C. a sonoridade, os símbolos no papel e como combinar as letras entre si. Passou a ser uma brincadeira minha somá-las: o meu nome era o resultado lógico de duas vogais e três consoantes.

Durante a leitura, fiz várias pausas para aterrissar em meu passado… fui e voltei diversas vezes. Nós duas {a personagem e eu} crescemos em cidades por onde o vento marítimo passeava ofegante no outono. Varria ruas, calçadas, telhados e a nós mesmos, se não tomássemos cuidado. Eu adorava fechar os olhos e sentir aquela força natural na minha pele. Amava quando o balanço no quintal se movia para frente e para trás… e ‘ronronava’ como os gatos.

Assim como Eve, vivi desconfortos em tempos escolares… o ano era mil novecentos e oitenta e nove. A turma ainda era a mesma, mas havia uma menina nova… de cabelos cacheados, apagada, de poucas falas. Não me lembro do nome dela e acho que ninguém deve se lembrar  a não ser o pai da menina, que sofreu o que hoje chamamos de bullying. Naquela época silenciosa, não se nomeavam os mal-estares colegiais. Sofria-se calado… e pronto. Eu nunca fui vítima, porque essa palavra jamais me serviu. Mas, a menina da terceira fileira bebeu do refrigerante ‘envenenado’ e foi vítima de SF — uma dessas garotas bonitas, de sorrisos fáceis. A beleza que disfarça o horror do invólucro.

As fotos dela acabaram expostas no painel da escola… seguiram-se silêncios agudos, olhares furiosos, risos, cochichos, gestos e desaforos. De tanto chorar, a menina soluçava.

Dias depois, eu vi o pai dela… com os braços vazios, os olhos vermelhos, cabisbaixo  em ruínas. Me lembrei do desespero de mio babo a correr comigo nos braços para me socorrer. Desejava arrancar a dor que eu sentia com as mãos. Uma mesma dor… mas a daquele homem não teria fim. Ela tinha se trancado no banheiro e sido forte o bastante para usar com precisão o canivete dele. Esvaziou-se da dor, da vida. E encheu o pai de culpa e desespero.

SF a chamou de fraca, ironizou sua morte-dor… ela tomou suspensão de quinze dias e parecia não ter consciência do que seu gesto estúpido tinha causado. Aquela menina não foi sua primeira vítima, também não foi a última. Eu escapei dela. Quando me ofereceu o refrigerante, agitei e joguei em sua cara. Ela ficou furiosa e eu dei um passo à frente, a encarei e esperei. Ela se limitou a dizer que eu iria pagar caro… espero a conta até hoje.

Me incomoda lembrar o nome de alguém tão horrível e esquecer o da menina-nova que, assim como a personagem da história de Fletcher: desapareceu.

A trama, em linha reta, seduz… Não sei se você, ao ler, vai fazer a associação e, assim como eu, traçar um paralelo entre os dois mundos. Na primeira leitura, eu parei na frase: ‘do que você se lembra?’. Quase engasguei… e fiz uma lista de coisas em meu diário. Fiquei surpresa com tudo o que lembrava.

Fiquei igualmente surpresa com a reação da personagem que, em dado momento, decide deixar de lado as coisas tristes de sua história… para pensar nas coisas boas, focar nos nascimentos e realizações. É a história de uma vida, de um lugar pequeno, das pessoas que ali viveram e tudo o que aconteceu com elas.

A única conclusão possível — para mim — ao chegar à última página… é que, gostando ou não, somos o resultado de todas essas coisas.

 


Será que às vezes pensa em mim? Concluo que sim — mas de uma forma vaga, casual. Para ele, poderia ser uma menina ou menino; ele não ficou para poder descobrir. E assim, é no fantasma sem rosto de um filho que ele pensa — numa sombra que, oscila em sua cabeça, na época de natal, cada vez que passa por um playground ou vê uma bandeira do País de Gales. Talvez olhe para seus outros filhos e se pergunte se eu me pareço de algum jeito, com eles; talvez tenha pensado a esse respeito, acrescentou nove meses e, por isso, bebe mais do que deve, no ano novo’.

— cabelos vermelhos — pág 328/329


 

selo para o BEDA

Resenha | Solombra…

É que morremos — e num lúcido segredo —
sabendo, ouvindo — atravessados de evidências —
que somos de ar, de adeuses de ar… E tão de adeuses
que já nem temos mais despedidas.

Cecília Meireles


Ceclia-e-caf.jpg

Estava a passear entre as prateleiras da Livraria da Vila… quando tropecei no exemplar “Solombra”… de Cecília Meireles. Impulsionada pela surpresa, folheei o exemplar as páginas do livro ali mesmo, enquanto me equilibrava nos encantos, que a pronúncia da palavra causou em meu corpo-alma.

A palavra sombra é uma ‘evolução natural’ de “solombra”… mas, é menos densa, comum. E, de tão frágil e fácil… escorrega pela língua, sem deixar qualquer coisa de sabor. Solombra, no entanto: fica mais tempo… marca, impressiona. É como café encorpado-ristreto – que faz salivar.

Solombra nos obriga ao breu, que tanto tormento causa aos ‘navegantes’. É palavra inteira-completa… nítida. Uma tela impressionista. Um céu tão negro que não nos oferece outra coisa além de sua escuridão.

Sombra é uma palavra sem peso-vazia… simplificada… bem menos aguda… encolhida. Não é capaz  de denominar essa região escura, que se forma devido à ausência parcial de luz..

Cecília Meireles parece ter se antecipado a morte da palavra, que tanto fascínio exerceu sobre sua figura de mulher… preservando-a de seu derradeiro fim. Ao escrever a série de poemas, que compõe ‘Solombra’… evitou o seu completo desaparecimento.

Mas, Solombra não é um livro, como propôs — estranhamente — o Editor… ainda que o título esteja lá a flutuar na capa. É uma espécie de “navegar” sem bussola, mapa ou constelações — restando apenas ao corpo, o desconforto de ir.

A poeta-mulher Cecília escreveu um combinado de poesias que representam a ideia de noite, do mistério e da aceitação da morte. Exibem a simbologia da ausência, do abstrato e do indefinível… como se desenhasse no papel o sentido da palavra, que estabeleceu como Norte para a sua escrita.

Cecília parece desejar transpor a vida, indo de encontro ao finito… mas esbarra na Morte, essa espécie de ponto final, que a silencia e cala… impondo a sua matéria sentimentos conhecidos: melancolia e solidão. Doravante, é como se a poeta engolisse seco e detivesse as lágrimas, se fechando em concha, voltando a condição natura da vida: fetal…


 

Levantei os olhos para ver quem falara.
Mas apenas ouvi as vozes combaterem.
E vi que era no Céu e na Terra.
E disseram-me: ‘solombra’.