Os livros

Os livros me deram a oportunidade de habitar outras paisagens, viver em outros corpos, provar de outras vidas. Ser outra e ninguém. Tudo e nada. Eu sempre fui uma pessoa encolhida, para dentro. Nunca fui tímida… apenas não apreciava presenças, não gostava de se fazer presente. Fui forjada em ausências e nostalgias. Uma criança que prefere espiar a realidade, a participar dela e diagnosticada muito cedo como portadora de algum transtorno… por gostar dos cantos, o quarto escuro, as portas fechadas.
Os livros eram um lugar seguro… onde me refugiar. Onde tudo e nada sempre era possível. Eu passava horas inteiras a bordo das ficções que começavam nas páginas e me contagiavam como um vírus que se espalha pela superfície do corpo.
Sou o tipo de leitora que se apodera do objeto livro… primeiro pelo tato. Sinto-o na ponta dos dedos. Provo da textura. E aos poucos o vou invadindo… sentindo o cheiro do papel, o calor das cores… então o agarro. Grudo no peito, fecho os olhos e imagino esse envolver-se prolongado. Eu me misturo de tal maneira a ele… que dou palpites na trama, ralho com personagens. Anoto nas margens, marco o melhor e também o pior. Vou e volto inúmeras vezes.
Tenho algumas dúzias de livros… por ler, re-ler. Uns são mais antigos e contam histórias além das que deixaram em suas páginas. Outros são recém-chegados e ainda não sabem direito o seu lugar… suicidas, se oferecem ao toque, sem saber se serão para sempre ou nunca mais.
E, depois de tanto ler os livros dos outros… resolvi escrever os meus — e sei, com absoluta certeza, que misturei muito do que provei nesses anos todos.

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O que ando a ler

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Um dos primeiros espaços urbanos que visitei ao chegar a São Paulo, em meados de dois mil e dois foi um Sebo… gosto de navegar entre prateleiras cheias, pilhas e mais pilhas de livros. Esses espaços possuem estruturas curiosas que desafiam a gravidade.
E foi em um Sebo que garimpei o livro que estou a ler contra a interpretação, de Susan Sontag… impresso por aqui no outono de 1987 — com tradução de Ana Maria Capovilla e publicado pela L&PM.
A leitura me deixou inquieta… me obrigou a pensar no perigo que reside na interpretação. É fato que ao ler, trago do conteúdo oferecido pelo Autor, tornando-o meu… trazendo para dentro de minha realidade aquele conjunto de informações e a maneira como dissolvo tudo isso… resulta em compreensão ou incompreensão.
Mas, tudo isso depende da minha carga emocional, dos meus níveis de consciência e de como reajo à realidade, ao mundo… e suas pluralidades.
Estamos cada vez mais dispostos a dizer o que é Arte — a partir de nossos conceitos pessoais, como certo e errado determinasse quais cores-elementos-conjunto-de-símbolos usar para agradar o olhar ou o sentimento de determinada pessoa.
A mostra Queermuseu, em Porto Alegre foi fechada um mês antes do previsto porque não agradou a um determino grupo de pessoas, que não entenderam como sendo Arte o que ali se exibia. Muitos não viram e replicaram frases prontas — como Monteiro Lobato, que escreveu o famoso artigo “paranóia ou mistificação” contra a exposição de Anita Malfatti, criticando seu estilo, cor e modernismo, considerado pelo conservadores da época, uma ofensa ao critério estabelecido de Arte — um hábito cada vez mais comum nesse tempo de: não vi e não gostei.
A Arte de nosso tempo tem fugido da interpretação… impondo legendas, de maneira a conduzir o individuo a entender o que vê-pensa-sente — marionetes controladas por fios invisíveis.
E eu nem posso criticar os nossos artistas contemporâneos… seus abstratos fantásticos, ou atribuir a pecha de não-arte. É preciso respirar fundo, sair da zona de conforto e compreender o tempo em que vivemos, os níveis de consciência — cada vez menores — o abandono da poesia, do lirismo e a imposição de uma regra normativa: a Arte enquanto fôrma a criar uma única forma, que agrada pequenos grupos — específicos — que não querem ser questionados-criticados-incomodados… e estão satisfeito com o mesmo velho ontem e suas rotinas pré-estabelecidas.
Ler  Susan Sontag é sempre um desafio… ainda mais quando seus escritos de ontem atingem — como se fosse uma flecha certeira, em pleno voo — o tempo de hoje, do qual já não faz parte… a ensaísta, no entanto, parece ter antevisto esse cenário espalhafatoso, a partir de seu vanguardismo, digo de admiração.

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Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.
Mais do que isso. É a vingança do intelecto sobre o mundo. Interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo — para erguer, edificar um mundo fantasmagórico de “significados”. É transformar o mundo nesse mundo. (Esse mundo! Corno, se houvesse algum outro.) O mundo, nosso mundo, já está suficientemente exaurido, empobrecido. Chega de imitações, até que voltemos a experimentar de maneira mais imediata aquele que temos.
(…)
O que importa agora é recuperamos nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais.
Nossa tarefa não é descobrir o maior conteúdo possível numa obra de arte, muito menos extrair de uma obra de arte um conteúdo maior do que já possui. Nossa tarefa é reduzir o conteúdo para que possamos vera coisa em si. (…) A função da crítica deveria ser mostrar como é que é, até mesmo que é que é, e não mostrar o que significa.”

 

O que é um clássico?

Confesso que nunca me ocupei com rótulos — ainda mais na esfera literária -—, então não é surpresa dizer que não tenho uma lista de livros que posso colocar na categoria de: clássicos da literatura. Obviamente eu tenho os meus favoritos lidos e re-lidos um sem-fim de vezes e aqueles que sempre indico por considerar que a leitura seja necessária.
Um livro deve ser bom para o seu leitor… e só.
Mas há quem acredite que você não possa viver a sua vida-realidade sem ler os famosos clássicos. A literatura brasileira tem a sua conhecida lista, que passa por Machado de Assis, José de Alencar e outros outros. A Inglesa vai de Shakespeare a Gilbert Keith Chesterton. E a Russa… de Nabokov a Dostoiévski.
Em compensação, deixam de citar vários nomes — pelas mais diversas razões — e, em alguns casos, acredite, apenas por serem considerados: autores populares. Como se o popular fosse sinônimo de horror.
No Brasil, Paulo Coelho é alvo de narizes torcidos e caretas dos que se dizem leitores da verdadeira literatura. Esse tipo de leitor costuma reclamar de todo livro que cai no gosto popular e seus autores viram motivo de ódio. Maldita seja J.K. Rowling e seu bruxinho querido.
Sempre me diverti com o nível de exigência de certos leitores e me questionei secretamente se, de fato, teriam lido, por exemplo, o famoso — clássico — Ulisses... o livro mais enfadonho que já passou por minhas mãos. Assim como desconfio de quem diz ter lido e adorado Dom Casmurro…  e saca de imediato a famosa pergunta — formulada, certamente, por algum preguiçoso: Capitu traiu ou não Bentinho? Ao ler a trama machadiana, me encantei com os tormentos do personagem e pouco reparei na tal cigana de olhos oblíquos e dissimulados, que tanta impressão causa nos leitores.
Um clássico — diz Eliot em um de seus deliciosos ensaios — é qualquer obra que implica o maior elogio ou o mais desdenhoso insulto, conforme o partido ao qual pertence. Implica certos méritos ou defeitos específicos: ou a perfeição da forma ou o zero absoluto da frieza
A questão, no entanto, é que não são os leitores a determinar tal coisa. O leitor leva cinquenta tons de cinza para casa e se diverte com uma literatura comum, pobre… quase uma não-literatura. E não quer saber se amanhã esse livro não servirá nem para os Sebos, como é o caso da saga crepúsculo — recusada até como moeda de troca ou doação.
É preciso lembrar que Livro é entretenimento… se clássico ou popular, o leitor quer apenas o prazer de se libertar da realidade, afastar-se de seu mundo e mergulhar em qualquer coisa de sonho-ficção.
A literatura pode ser mais pobre ou mais rica… pode nos brincar com orgulho e preconceito escrito no período vitoriano e pertencer a outro tempo, sem, contudo, deixar de pertencer ao momento em que foi concebido. Talvez mereça a alcunha de clássico… ou não! Depende de quem lê e aprecia as linhas que ali estão…
Agatha Christie foi a escritora inglesa que ficou conhecida como a Rainha do Mistério… senhora de um estilo peculiar, espirituoso e refinado.

Se você pudesse pedir um crime, assim como alguém faz o pedido de um jantar” — pergunta o detetive Hercule Poirot, em Os Crimes ABC —, “o que você escolheria?”.

A autora de 55 romances policiais e de mistério não se encontra na famosa lista de clássicos da literatura a serem lidos. Seus livros foram traduzidos para um sem-fim de idiomas. Seus exemplares esgotavam-se rapidamente e atualmente suas histórias estão sendo adaptadas para a televisão pela BBC que escalou John Malkovich para dar vida ao mais conhecido detetive da literatura, Hercule Poirot.  E mesmo assim não há lugar para ela e seus livros dentre a seleta lista organizada por Acadêmicos de plantão, que exigem maturidade na escrita, um estilo preso a forma e a sua época.
Voltando ao ensaio escrito por Eliot — cada literatura tem a sua grandeza não em isolamento, mas em pertencimento a um mundo específico: o do leitor… que é exatamente onde tudo começa e termina e a história se orienta, se explica ou se finda.
Assim sendo… ao leitor o livro e sua história, clássica ou não!