16 | meus livros… e eu!

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…sempre gostei de livros espalhados pelos cantos da casa-corpo… no meio do caminho, para tropeçar neles, sem compromisso. Iniciar uma leitura no tempo dos livros-páginas-histórias-versos. A leitura sempre foi pausa, um existir entre tempos. É sempre fim de tarde. Dia de chuva. Outono. Lua sempre cheia…

Gosto imenso de tê-los ao alcance das mãos-olhos… empilhados em cima da mesa, ao lado da cama. Esquecidos em gavetas-caixas… na mesa da cozinha, ao lado de uma xícara. Dentro da mochila…

Tenho uma prateleira feita de caixas de feira… e há um tempo certo para arrumá-las, limpar a alma e me preparar para o que ainda está por vir.

Gosto imenso do último dia do mês… mas, não é um compromisso-obrigação. É apenas um gesto antigo, que se repete. São rituais que preservo conscientemente. Desço os livros… removo a poeira e os empilho, sem ordem pelos espaços: mesa-cama-chão. Gosto imenso dessa forma de caos.

E tudo é muito lento… porque acabo por me atrancar as páginas conhecidas e navego nesse mar conhecido, como se fosse um roteiro novo, traçado há pouco. O que, naturalmente, levaria alguns minutos, dura um dia inteiro que é também o tempo de uma vida.

Devolvo-os aos seus espaços, separando os romances das poesias. Os mais lidos, dos menos lidos. Os que estão em estado de espera se ajuntam e o que nunca mais voltaram aos meus olhos, ficam nas prateleiras mais baixas, quase fora de alcance, até que encontro um destino outro-corpo-pessoa, que não eu.

 

 


Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi
Mari de Castro | Maria VitóriaMariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega


 

maratone-se

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19 | mário. de andrade

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um nome. homem-mulher. um nome. autor. mas, como se escolhe apenas um, quando a soma aponta tantos? Eu poderia citar Emily Dickinson e a sua poesia fatal. Sei bem o que me causou na primeira década de vida. Foi um cair de panos. Antes e depois dela.

Poderia citar Álvaro de Campos e sua metafisica. Sei bem dos tumultos que me causou na segunda década de vida. Tomou de assalto o meu corpo, expulsou a minha alma e fiquei à deriva. Se não me engano foi a causa de minhas mortes. Virou antes e depois dele.

Poderia citar Jane Austen e seus romances-eternos, que ainda ecoam em meus olhos, desde a primeira leitura até a última. Não me canso de voltar aos seus livros-personagens-vivências.

um nome. apenas um nome. nessa soma de décadas quase inteiras. caminho firme para os quarenta. Foram muitos os nomes que passaram por minhas mãos-olhos-boca-pensamento.

Poderia citar Mia Couto. um dos últimos a chegar. Gosto imenso do diálogo que ele me propõe através de suas vivências reais ou imaginárias. É tudo tão calmo-intenso… que me vejo obrigada a longas pausas para levar uma generosa porção de ar para dentro.

Susan Sontag… impossível não citar essa mulher que me pôs para pensar. Marcou de maneira incisiva uma das minhas vidas. Não sei dizer qual. Talvez todas… antes-e-depois dela.

um nome. maldição. apenas um nome. nessa soma de livros que se acumulam. olho para a prateleira e outros nomes se precipitam. se jogam. se atiram… Paul Auster… Zafon!

mario

Respiro fundo e escolho Mário. de Andrade. Que foi trezentos. Mais. Trezentos e sessenta. Nasceu-e-morreu na sua Paulicéia Desvairada. moderno-errado-equivocado. era Mário. apenas um nome.

Na rua Autora eu nasci
Na Aurora de minha vida
E numa autora eu cresci

Hoje o querem mais. Branco. Preto. Índio. Cafuso. Inteiro. Pela metade. Homem. Poeta, não!  Justamente ele que era mais. Muito mais.

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Ergueram um templo em sua homenagem na Consolação, esquina com a São Luis, uma das mais simpáticas ruas da cidade. Um pouco mais acima estão os restos do homem que não queria ficar detido a um assombroso epitáfio.

Meus pés enterrem na rua Aurora
No Paissandu deixem meu sexo
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

Avanço por seus escritos. Descubro prédios. Entendo as simetrias! Aconchego o corpo e a alma no Viaduto do Chá. Descubro que há horizontes por trás dos tumultos humanos.

É noite. E tudo é noite.
E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres
pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes
o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras
na terra dos homens,
Onde me queres levar?…

O poeta percorre os cantos… cabisbaixo-sério-acabrunhado… aprecia os movimentos incontidos. O crescimento sem limite. As formas inversas. Se lembra que foi mau aluno. Aprendeu a gostar de estudar depois que concluiu o ginásio. Era tarde. Colecionou dissabores. Figura quieta-miúda. Ele sempre quis ser o outro. Menos culto. Mais andarilho. Menos perfeito… outro.outro.outro. Só conseguiu ser Mário. de Andrade.

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Batalhou pela arte paulistana… reverenciou a cultura de seu país e a geografia de sua gente. Escreveu seu primeiro poema num estalo, com palavras inventadas. E viu sua vida ser atormentada pela morte do irmão. A perda o feriu gravemente. Passou a colecionar dores-dissabores-fracassos. Tudo lhe doía… do corpo à alma. Tantas crises o acometeram. Sua desgraça-maldição. Tudo em sua vida era uma constância. O amor não foi menos, desde o primeiro até o último…

Tive quatro amores eternos…
O primeiro era uma donzela,
O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu… e eu afinal
me repousei dos meus cuidados.

O homem acabou traído pelo seu coração no ano de 1945. Difícil dizer tudo que aguentou dentro do peito até estar tão farto-fatigado… que sucumbiu. Era tarde-noite-ou-a aurora… da vida. Era o fim…

Mário nasceu para ser diferente, misterioso! Gostava de dizer “há um lado hediondo no meu caráter”. Mas ninguém ouvia, tampouco via esse seu lado. Oswald era o devasso-piadista-bêbado-boêmio. Mário era erudito, sem vícios ou abusos… correto. Imagem que sempre desprezou. mas foi a que ficou.

 

“me vejo convertido a erudito respeitável e,
o que é pior, respeitado. Isso me queima de vergonha”.

 


blogagem coletiva

Participaram
Ana Claudia | Claudia | Fernanda  |Renata

Beda | Não vamos fazer de São Paulo um estado de leitores!

vamos fazer de são paulo um estado de leitores
leitura em movimento

 

Eu me lembro que pouco depois de minha chegada à São Paulo… tomei conhecimento da campanha: “vamos fazer de São Paulo um estado de leitores“… que tinha por objetivo espalhar livros pela cidade e incentivar a leitura.

A campanha — que ganhou espaço nos principais jornais-rádios-televisão — simplesmente desapareceu. Mas a idéia ficou no ar… quem usa o transporte coletivo, certamente já esbarrou em leitores, que usam o tempo gasto para ir de um lugar à outro para, literalmente, viajar.

Não é nada fácil se locomover por essa São Paulo logarítmica… formada por centenas de bairros-vilas-avenidas-alamedas-ruas… norteadas pelos pontos cardeais-e-colaterais. Não é um exagero dizer que a Sampa de Caetano deu novo sentido a palavra ‘distância’.

Portanto, nada melhor que sacar um livro da mochila — durante a viagem —, mergulhar em suas páginas e dar asas à imaginação.

Descobri, no entanto, que mais um projeto de incentivo a leitura vai seguir pelo mesmo caminho, infelizmente. Inventado pelo secretário de cultura Mário de Andrade, em 1936 para levar livros as periferias da cidade… o projeto conseguiu sobreviver a duras penas por oito décadas… até ser suspenso pela Prefeitura nesse ano.

O ônibus-biblioteca não circula mais pela cidade e as desculpas são muitas-conhecidas… como de costume. E, as antigas distâncias, deixaram de ser encurtadas — o caminho do leitor até o livro… agora ficou muito maior.


beda interative-se

Beda | …os livros a…gosto da leitora que sou!

leituras a...gosto

Gosto de começar as coisas pelo fim… o último dia, a última hora, a última página-cena. O último livro na pilha… é o único caminhar seguro que me permito! Hábito antigo, que preservo, enquanto avanço em direção ao dia seguinte. Mas eu gosto mesmo é de viver aos solavancos, em queda… a tropeçar nos epítetos. Ser um abismo onde mergulhar… um verso inacabado-solto no ar — porque eu tenho fases… e preciso compreendê-las, percebê-las.

Por isso, enquanto espero pelo apito agudo da chaleira e a infusão do chá… vou até a prateleira em busca de um livro. Degusto — chá e páginas — em pequenos goles. Aprecio-reverencio mundos — quase sempre na companhia de um poeta porque a poesia é essa bússola a me guiar-conduzir pelos hemisférios, desde a infância.

Me acostumei nesses — ‘quase quarenta‘ — a mudar as coisas de lugar… e, às vezes, me desloco de um canto para o outro, pelo simples prazer de me sentir em movimento… porque o meu caminhar, às vezes, precisa acontecer por lugares sem rastros! — por entre prateleiras… onde descubro um novo autor-poeta.

…como aquele poema com suas quebras impossíveis no final de cada linha, que eu li entre pausas-soluços-sustos-começos-meios-fins-recomeços-flutuações-vida-morte-e-outras-coisas-mais — “e nascia dessa fala / uma língua que contava / o primeiro dos pecados / que é o pecado dos poemas / espalhados pelo mundo / e entroncavam todos eles / no dito tronco maldito / que das entranhas da terra / sobe e sangra e refloresce / e brilha a fruta compacta / que o pensamento desata et coetera et coetera / venha a mim o mal da terra”…

Acho que deu para notar que meu agosto terá aroma de versos…


1 — poesias, jorge luis borge
2 — [poemas], Auden
3 — ariel, sylvia plath
4 — poemas canhotos, herberto helder
5 — crianças em ruínas, josé luis peixoto


* trecho do primeiro poema de Herberto Helder no livro ‘poemas canhotos‘ — para ler a…gosto!

BEDA | das listas que não faço…

Poderia fazer uma dessas listas — aborrecidas — de livros lidos, que circulam por aí… e de livros não lidos — que ninguém menciona para não atestar fracassos. Mas acho essas listas — todas —, enfadonhas. Me lembra porta de geladeira com recados bobos mantidos ali por imãs estúpidos.

Eu tenho uma relação pouco comum com livros. Desde que aprendi a decifrar palavras que os devoro. Faz pouco tempo, no entanto, que aceitei que não preciso e não devo ler tudo que chega aos meus olhos.

Tenho as minhas preferências e posso-devo respeitá-las… não nego que isso facilitou um bocado a minha existência literária. Me permitindo — entre outras coisas — abrir mão de alguns exemplares, como Ulisses — um dos meus desafetos. Nunca consegui avançar em suas páginas, por mais que tentasse. Me livrei dele recentemente…

Os que ficaram comigo são como dizem por aí: meus livros de cabeceira. Volto a eles sempre que posso. Virginia Woolf se tornou minha leitura de verão. Jane Austen de outono e Dostoievski de inverno. Na primavera leio Mia Couto e Paul Auster… porque assim me parece propício!

De tempos em tempos, vou até a prateleira e volto de lá com esses livros todos… envelhecidos e gastos, com folhas onde se sobrepõem anotações e que ajudam a contar a minha própria compreensão de tempo e espaço. Uma nova nota surge, uma nova marca… e assim, amanheço outra.

E, vez ou outra… sou surpreendida com um livro novo, que chega com acenos festivos. Foi assim como ‘a elegância do ouriço‘, ‘olhos de menina‘, ‘os olhos amarelo do crocodilo‘, ‘silêncio‘ ‘diário de inverno‘ e ‘o caderno de maya‘ — encontrados nas prateleiras da livraria Cultura do conjunto nacional em uma de minhas andanças — descompromissadas — por entre prateleiras

 


beda