Missiva de primavera | Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

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Caríssima,

A tarde me trouxe novamente às tuas linhas… e enquanto bebericava alguns goles do meu ‘latte‘… ouvia alguém dizer que já é primavera nesse setembro quente-e-seco. Resvalei o olhar na capa do meu novo livro ‘em teu ventre’... e comecei a pensar nos muitos caminhos que os livros percorrem antes de saltarem do abismo que somos para o mundo, em voos (?) de vida e morte… para se aconchegarem no formato de páginas-capas e se jogarem no olhar dos leitores.

Percorri — em segundos — a estrada de vida que trilhei até aqui. Gosto imenso de pensar que é feita de terra. Chão batido com pesadas marcas deixadas por todos que por ali passaram — uma manada sem norte. Cercada por frondosas árvores, dá para ouvir o som das águas de um rio qualquer em paralelo aos meus passos. Minhas mãos — sempre em busca do que tocar — resvalam no cercado de arame farpado — a margear o meu destino… reconhecendo os famosos ‘nos’ de espinhos, que não me ferem… apenas alertam que nada é fácil nessa tal realidade.

Por entre as folhas, chega um pouco de sol-nuvem-chuva — a ilusão que somos. Sinto no rosto o vento frio, fecho os olhos, respiro fundo e alimento o meu imaginário — sempre tão faminto.

Tantos personagens se precipitaram em mim nessa caminhada. Certa vez, estava sentada em um Café em Paris… a esperar pelo meu fiel escudeiro de aventuras, quando se sentou ao meu lado uma Mulher-febril. Me encantei com os seus gestos-contornos e a bebi — sem modos — em pesados goles… receosa de que ela se fosse antes que eu a consumisse por inteiro.

Ainda hoje sinto o seu gosto em meus flancos. Gosto imenso de pousar meu olhar sobre seu desenho humano — o que tomei para mim. Folhear a história que nasceu ali, naquele instante de espera. Está inacabada, mas vez ou outra, na solidão de minha escuridão, busco pelas páginas no fundo de uma gaveta e retoco pequenos detalhes. É aquele último e precioso gole que fica no fundo da xícara.

Que bom que sentou a mesa comigo para esses sabores-saberes-futuros de páginas por mim alinhavadas.

 

Catarina.

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BEDA | Chá de hortelã…

Dizem que o tempo ameniza Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece Como os músculos, com a idade

Emily Dikcinson

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O chá de hortelã veio à mesa, enquanto eu misturava folhas num trabalho Plural. O exato instante — precioso — em que absolutamente tudo me pertence… já deixei de ser a leitora voraz, que garimpa seu ouro a partir dos instintos que trago em mim, prontos para uso — e aos quais recorro, consciente ou inconsciente.

Talvez seja por isso que uma das perguntas que mais ouço em meu cotidiano é: como se lê poesia? Sempre que essa questão me alcança… eu respiro fundo, pinto nos lábios um sorriso e engulo um pesado gole de café, enquanto observo o espaço a minha volta.

Como ler poesia? Repito a pergunta em meu avesso, em busca da resposta… que está trancafiada em algum canto de minha memória. E, para isso, é preciso instigá-la e trazê-la à tona.

…recordo o primeiro livro — pequeno — e seus versos em idioma outro, a esfarelar-me… Não perguntei a ninguém como ler. Mas precisei de um dicionário, porque ainda não tinha vocabulário suficiente.

Eu não tinha um manual de instruções sobre como proceder, tampouco a orientação de uma pessoa. Segui meus instintos para ler, entender e sentir os versos, que despejaram em mim uma melancolia úmida-única… que me fez calar.

Entendi que a morte era traiçoeira e agia na calada de nosso fôlego. Morri… no arrepiar da derme, anestesiada pela intensidade dos versos que me liam.

Depois desse primeiro momento, encontrei outros tantos livros-poetas por aí… uns não ecoaram em mim… outros, apenas rasparam suavemente minha derme, como um esbarrar apressado pelas ruas da cidade, sempre em movimento.

Entendi que poemas têm sonoridade e são como músicas. Me apaixonei por Bach aos nove anos… que replicou em mim aquela sensação primeira. Foi nesse instante que compreendi o valor da primeira sensação. É o que buscamos ao ler. Queremos e precisamos sentir aquele conforto-desconfortável… desejamos alcançar a melancolia-úmida-única.

Mas, a maioria de nós não tem tal consciência… desconhece a sensação, porque somos desatentos por natureza. No entanto, está tudo lá, no fundo de nós. Notas a ressoar no vazio… e, quando alguém nos alcança e toca, é aquele instante mágico… a melhor das sensações. Um emergir em vida-morte-fim-começo-desfecho…

Porque ler poesia é ler-se… em algum momento a pele goza do arrepio sagrado da primeira vez. Amém.

 


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BEDA | A caderneta vermelha

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Depois de concluir a leitura de ‘a caderneta vermelha’ na mesa de um café entre esquinas… com copos brancos abandonados pelas mesas, precisei respirar. E enquanto vivenciava a história do começo a fim, revendo os encontros e desencontros de vida… recordei meus moleskines e pensei nas palavras que deitei neles ao longo dos dias em movimento. Sempre tomo notas das minhas insanidades. É um costume antigo… contar o que penso, sinto, experimento… comecei a fazer terapia aos doze.

C., considerava ideal para alguém, como eu, que temia enlouquecer — não suportava pessoas, amava cães, o silêncio e um quarto escuro. Foi uma boa idéia, reconheço. Existia em mim uma necessidade de encontrar alguém que não fosse uma folha de papel… para dialogar. A estranha que me ouviu pela primeira vez, fazia anotações também e eu achei mágico trocar palavras com alguém que repetia meus gestos. Não confessei a ela as minhas verdades, mas não a brindei com as minhas mentiras. Adoro contar histórias… e no meu caso: mentir sempre foi aconselhável — evitava constrangimentos. Principalmente que meus pais fossem chamados ao colégio por motivos bobos… algo que sempre me aborreceu.

Me acostumei a fingir diários… mais de uma vez os abandonei em lugares cuidadosamente escolhidos para que fossem lidos por determinada figura. Foi uma fase… estava a aprender os ‘personagens’ e a encontrar um meio de ‘inventá-los’ em minhas próprias fôrmas a partir do que a realidade — esse celeiro — me oferecia.

Mas nunca tive  — como a personagem do livro — um diário roubado. E não consigo me desvencilhar dessa possibilidade. O que sentiria no lugar dela?

“A questão que se apresentava agora era quase de ordem moral: levá-la consigo ou deixá-la ali mesmo? Em algum lugar da cidade, com certeza uma mulher tinha sido roubada e, muito provavelmente, perdera a esperança de rever seus pertences.”

No livro, é assim que se desenrola a trama escrita por Antoine Laurain. A bolsa contendo todos os pertences de Laure é levada por um desconhecido  — após um assalto  — que a descarta… sendo encontrada por outro desconhecido  — um livreiro.

E a cada virar de página se torna impossível não torcer que a procura de Laurent resulte num encontro. E para que Laure se encante pelo homem de quarenta e poucos anos, que fez o que poucos homens seriam capazes de fazer: procurar incansavelmente pela dona da bolsa, apenas para lhe devolver os pertences roubados.

 “Bebeu mais um gole de vinho, com a nítida sensação de que ia cometer um ato proibido. Uma transgressão. Um homem não remexe a bolsa de uma mulher – até os povos mais atrasados deviam obedecer a essa regra ancestral.”

E depois de ultrapassadas cento e poucas páginas, por um instante, você acredita que  o único final feliz da trama é a volta da bolsa as mãos de Laure. No mais… ambos seguirão com suas vidas. Irão conhecer outras pessoas… e em algum momento sentirão falta do que não viveram, porque o destino urde suas teias ao seu bel prazer.

Quantos amores não aconteceram porque você virou uma esquina antes?  — ou se atrasou o suficiente para perder o ônibus? Chegou tarde demais e ficou de fora? A vida é assim… você pode chegar cedo… ou tarde demais.

“Como se podia desaparecer tão facilmente da vida de alguém? Talvez com a mesma facilidade, em suma, que se entrava.”

Mas, para nossa sorte, em alguns casos, o universo conspira a nosso favor  — e alguns autores também.


Companhia das Letras
Gênero: Ficção francesa
Páginas: 135

 

 

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BEDA | clube de leitura 141

“Escrever é um bonito ato.
Cria algo que dará prazer aos outros mais tarde”.

Diários de Susan Sontag, pág. 298
Ed. Companhia das Letras

 

Em casa era uma festa… livros espalhados por todos os cantos: empilhados sobre a mesa, esquecidos no canto, ao lado da luminária, a espera de um reencontro, nos degraus… ao lado das latas de mantimentos. Num banquinho ao lado da pia do banheiro. Eram poucos os que se acumulavam em prateleiras e estantes… os que lá estavam, era porque seriam doados em breve.

C. gostava dos contos indianos. Mio babo tinha uma preferência natural pelos livros jurídicos, mas, às vezes, lia os famosos clássicos da literatura… apenas aqueles com os quais se identificava — um ou outro apenas. E eu me apaixonei ainda na infância pela literatura inglesa e a francesa. Na juventude chegaram os russo e os latinos… na fase adulta misturou-se tudo.

À noite, depois do jantar, nos sentávamos confortavelmente no sofá da sala, próximos a lareira (acesa no inverno) e escolhíamos um livro para a nossa “leitura noturna”. Nas primeiras vezes, éramos apenas os três. Mas não demorou muito tempo para esse cenário mudar e outras pessoas se inserirem em nosso ritual noturno, formando-se assim o: “clube de leitura 141”.

A primeira a chegar foi a senhora do 121… que veio nos visitar certa noite. Trouxe  o novo morador de sua casa para fazer as apresentações: um lindo filhote de labrador negro, muito gentil e educado. Um encanto de cachorro. Acontece que o filho queria levá-la para morar em sua residência. Considerava a idade avançada da mãe um problema. Ela, senhora de si que era, discordou… e pediu um cão: “melhor companhia não há” — nos disse em meio a um sorriso contagiante.

Seu olhar atento… descobriu o livro no canto do sofá. Soube naquele momento que se tratava de uma casa de leitores e que, sua presença havia interrompido um ritual. Depois de nos oferecer mil desculpas, aceitou o nosso convite para participar da leitura de ‘orlando’. Ela voltou na noite seguinte e em outras as outras noites… até finalizarmos a leitura. Sempre trazia o fiel amigo de quatro patas — cujo crescimento acompanhei — e um prato de doces apetitoso.

No livro seguinte — sugestão dela: ‘chocolate‘ — trouxe o vizinho do 172 consigo. Um jovem acanhado e quase mudo, que se esforçava bastante para exibir um sorriso em seus lábios pequenos enquanto ajeitava os óculos com a ponta dos dedos no rosto — movimento que aprendi e passei a repetir.

Lembro-me que estávamos a ler Dostoiévski (irmãos Karamazov) quando me distanciei da leitura e comecei a prestar atenção em todas as pessoas presentes… contando-os um a um. Um total de nove pessoas esparramadas pela sala: sentadas no sofá, no chão, almofadas. Cada um lia um trecho/capitulo do livro… com sua voz, emoção, entusiasmo e curiosidade.

Eu gostava imenso de observar as reações. Havia quem esfregasse as mãos umas nas outras. Quem cruzasse os braços e também as pernas. Respirasse fundo anunciando a tensão que certas cenas causavam. Arregalasse os olhos como se houvesse dentro uma janela de curiosidades particulares…

Eu apenas permanecia em estado de atenção… no canto, encolhida. Era uma menina em fase de moldes. E aquelas noites em ‘família’… eram o melhor momento.

Na última leitura que trago na memória… éramos doze pessoas. A mesa de centro estava tomada por biscoitos e bolos.  Líamos “Orgulho e Preconceito, de Jane Austen” nos últimos dias de primavera…  e fizemos promessas de novas leituras para a próxima estação — que não foram cumpridas, porque os moradores da casa 141 se foram e, às vezes, me pergunto: será que o nosso clube de leitura não se mudou para outra casa, na mesma rua?

Às vezes, quando me sento no canto do sofá — meu lugar favorito… ainda ouço ressoar em meu íntimo as diferentes vozes a narrar a história do livro que tenho em mão. Fecho os meus olhos e me deixo conduzir pelo som que ecoa da minha memória. Sei que adormeço, despertando — surpreendentemente — dentro daquelas noites. E me surpreendo observando cada membro do nosso clube de leitura. Nessa noite que se passou, lemos ‘a caderneta vermelha’ e adoramos.

 


BEDA | OS LIVROS DE AGOSTO…

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Eu gosto de arrumar prateleiras… de tempos em tempos desço todos os livros e organizo a bagunça que faço ao longo dos dias. Sou uma pessoa pautada pela leitura… o outono me remete a certos autores, o verão a outros. E não tenho o menor pudor em ler e re-ler certos títulos, que me são caros.

…ontem precisei recorrer a Rubem Alves ao escrever um ensaio sobre o futuro livro ‘tarja preta’ — de Daniel Velloso, no qual trabalho. É um movimento bastante comum à minha realidade… ir e voltar das prateleiras, com um-dois-três livros em mãos. Ocupo mesas, o chão, criado-mudo… com pequenas pilhas sem ordem — as avessas — apenas vontade-tato. Preciso sentir os elementos todos… xícara de chá, fatia de pão, biscoitos de leite.

Mas, chega um momento em que preciso devolver as coisas aos seus devidos lugares — organizar o caos que eu estabeleço de maneira natural. E lá vou eu passar horas inteiras a descer os livros — limpá-los e organizá-los. Sempre acabo por revirar antigas páginas — de maneira despretensiosa. E, obviamente tudo se demora mais que o previsto. Me esqueço entre um poema ou outro… um ou dois capítulos.

Dessa vez fui atraída por ‘olhos de menina’ — livro que descobri em um blogue que publicava trechos de livros em tempos idos. Uma bela provocação.

Aproveitei o momento para escolher os livros que irei ler em agosto — alguns novos, outros antigos. Afinal, é agosto… o melhor a fazer {conclusão que cheguei após ler um texto enviado por uma correspondente} é saborear…


 

—  Livros de Agosto —

01 – As flores do mal — Charles Baudelaire
02 – Quarenta dias — Maria Valéria Rezende
03 – A Caderneta Vermelha — Antoine Lauran
04 – Olhos de Menina — Susan Fletcher
05 – Variações em Vermelho — Rodolpho Walsh
06 – Diários II — Susan Sontag


 

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