BEDA | A cidade é um chão de palavras pisadas

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S., que veio para ficar uma semana
, fez as malas repentinamente e foi embora. Mas não levou tudo de si… deixou um punhado de rastros, que eu sigo feito um cão farejador…

Foi o que permitiu a re-escrita de um capítulo inteiro durante a madrugada a partir de um novo título: ‘a cidade é um chão de palavras pisadas’…

Tudo fluiu como se eu tivesse calçado os sapatos de Alexandra e vestido as ruas com seus passos… que me levaram ao meu lugar comum: o café entre esquinas — convertido nessa manhã na pequena Teodoro.

Fui a pé… e a cada passo me afastava um pouco mais da Paulicéia… misturando os cenários — embaralhando-os como cartas de naipes iguais — para uma rodada de nada.

Senti as variações dos caminhos em mim… fui à escola, com uma mochila presa as costas e livros agasalhados junto ao peito. Avistei olhares inquietantes. Flores nos jardins alheios. Vassouras a arrastar folhas soltas pelas calçadas. A vida pequena. A palavra pouca.

De aceno em aceno… cheguei a represa. Nasci ali mesmo nesse ápice de vida inteira. Eu não tocava em nada e nada me tocava… nada se tocava entre si. Mas eu sentia o ar úmido e o cheiro de mato a crescer em desordem por todos os lados. Ouvia o canto de um pássaro em seu vôo rente a água. Sentia a ferrugem do velho portão quebrado na ponta dos dedos.

Tudo tão longe, perto, dentro… e eu apenas escrevia a partir desse caótico existir. Outra realidade… e o meu corpo preso a mesa do canto, sentado, com o costumeiro copo branco a me oferecer pesados goles de latte… enquanto o ecrã do computador brilha como um relâmpago a atingir os meus olhos, a acusar o assombro.

Não posso dizer-afirmar que o texto está pronto… apenas que se adequou ao papel.

 


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BEDA | O metro quadrado de um olhar…

lua de papel lunna guedes

Depois de visitar algumas cidades do interior Paulista… voltei para casa com a bagagem cheia e a alma vazia. Percebi ser impossível usar a realidade disponível para a minha personagem, porque os lugares que visitei e provei não lhe vestem — pelo contrário, a deixam nua…

Recordei, enquanto somava minhas incertezas em pares, os cenários antigos que trago em mim… resultado das muitas andanças feitas ao longo da vida… e não encontrei porto que sirva de ancoradouro.

Preparei uma xícara de chá e vim me sentar nesses degraus em pares, com o cão de um lado e a velha jabuticabeira do outro. Em mãos o livro ‘o jogo do anjo’ de Zafon, que me acena com qualquer coisa de serenidade tumultuosa.

Lendo-o na ‘falsa calmaria’ desse dia… fui visitar uma vez mais a sua Barcelona e acabei por perceber que eu não tinha que sair por aí a procurar por uma cidade. Tinha apenas que senti-la em mim.

E lá se foi uma das minhas hipóteses de paz... fiquei como Dostoiévski, encostada a um muro à espera do fuzilamento. Fechei os olhos e aguardei, acovardada, até o focinho gelado do cão me resgatar desse estado deprimente.

Serviu para eu compreender que Zafon fala de uma Barcelona particular em seu livro. Ele não foi fiel aos contornos urbanos. Apenas usou seu cenário ideal… o que seu olhar tragou  e deixou dentro de si.

Isso me fez navegar pela literatura, que trago em mim. Em ‘cem anos de solidão’ Gabriel Garcia Márquez inventou uma cidade: Macondo. Borges também fez o mesmo em ‘o Aleph’. Mário desenhou sua Paulicéia e Baudelaire… a sua Paris. Todas essas cidades são inexistentes, porque compreendem o metro quadrado de um olhar…

Passei um punhado de horas após essa conclusão a imaginar uma maquete-lugar-cenário. Liguei para alguns amigos. Queria o caminho das pedras. Como se inventa um cenário a partir de um texto de teatro. Como se edifica um lugar. E a melhor resposta veio quando a mesa já estava repleta de anotações: ‘cidades não existem, o que existem são pessoas’. Vou como remover uma cortina da frente dos olhos.

 


 

selo para o BEDA

É hora de navegar outros horizontes…

a cidade que habito

Hoje nenhum sol brilha e é provável que chova até o final desse dia… o cão me faz companhia nessa vitrine urbana, onde a paisagem da cidade deixa seus traços de casas, ruas, árvores em fila, um emaranhado de prédios e um sem-fim de pessoas em seus passeios de minutos… na companhia de seus bichinhos de estimação e monstrinhos de criação…

E com o olhar detido nessa tela particular de Hopper… percebi, que São Paulo não serve como cenário para a minha escrita atual… e isso é como uma morte lenta-e-incomoda. Não me agrada, em absoluto, abandonar a premissa de escrever a partir dessa cidade, afinal, todo escritor é uma ilha e essa cidade é sem dúvida parte de minha anatomia — a minha ilha particular. Aqui  nascem e morrem todos os meus argumentos.

Gosto de percorrer suas calçadas na contramão do fluxo, com o passo mais lento e o olhar detido nas fisionomias, que não se repetem de uma esquina a outra — e se misturam e se confundem e se fazem ser uma nova figura, que se oferece ao espanto-gozo. São sempre outros e outros e mais outros…

Os prédios são sempre inéditos… uma casa antiga vai o chão hoje e amanhã sobe outra edificação monstruosa-nova-moderna-modorrenta. O passado tomba — exausto e a memória aos poucos se desfaz do que é ‘o mesmo velho’. Se acostumar não é um verbo em voga. Não há tempo para conjugá-lo.

São Paulo se reinventa em cada um de nós de tal maneira que fica impossível saber que raios de cidade é essa. Com seus milhões de habitantes espalhados por cada um de seus insanos pontos cardeais…  é necessário dizer que existe uma Sampa para cada um de nós e não existe Sampa alguma.

Contudo, não devo e não posso negar a realidade-condição de minha personagem, que não cabe nesses contornos imensos… ad infinitum. Ela é figura pequena-mínima-encolhida. E com certeza não conseguiria crescer-existir aqui. Seria engolida-devorada antes e acabaria morta por asfixia… antes dos quinze. E por ser assim é que terei que encontrar um território que seja para ela… uma espécie de segunda pele!

É hora de navegar outros horizontes em busca de possíveis geografias…

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | A ROTINA DO MEU DIA…

Eu costumava dizer que não suporto rotinas… mas, ao admirar meus movimentos de vida, percebi que minha realidade é como minha música favorita — ligada no repeat. Atualmente, vivo na companhia de Carly Simon…

Saio para as ruas, percorro calçadas, escrevo notas mentais-textos futuros. Bebo café-chá-vinho e aprecio os cenários, as pessoas e espero pelo toque de midas, que irá transformar tudo em argumento para as coisas que faço-vivo-sinto…

No mais amanheço, entardeço, anoiteço entre encontros e desencontros… cada dia tem o seu sopor que eu aprecio e admiro.


WhatsApp Image 2017-05-06 at 14.49.50Perceber o dia, a manhã… em seus diferentes estágios de vida-realidade!

WhatsApp Image 2017-05-06 at 15.03.39Alinhavar combinações possíveis-impossíveis… e tentar extrair dela o melhor. Ser como as abelhas — na poesia de Dickinson: ‘uma ambição em pleno vôo de vida’…

WhatsApp Image 2017-05-06 at 15.04.39Rever narrativas antigas-e-novas — novas-e-antigas… rascunhar realidades alheias!

whatsapp-image-2017-05-06-at-14-51-29.jpegPerceber novos personagens… possíveis ensaios futuros! Porque é na realidade que eu alimento o meu imaginário!

whatsapp-image-2017-05-06-at-15-09-52.jpegAbraçar o outro, através das linhas que escrevo… quando a noite se aconchega em meu íntimo com seus matizes insanos…

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Fazer pausas no meio do passo para compreender o ritmo da realidade, que nem sempre é o mesmo do mio cuore! Mas em algum momento acertamos os nossos ponteiros…


Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários

Lua de Papel | “A cidade é um chão de palavras pisadas”  

Primeiro capítulo…

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Na primeira página ela anotou o ANO em letras grandes, como tinha se acostumado a fazer ao longo dos últimos anos. Era o seu oitavo caderno… sempre de capa preta, com folhas brancas e linhas retas…

Ela ainda se lembrava do primeiro: um velho caderno de anotações, com algumas folhas arrancadas, outras dobradas… a maioria, no entanto, estava preenchida com as medidas de cada mulher da cidade de Teodoro.

Alexandra gostava de pensar que tinha sido um presente de sua mãe, mas era apenas um refugo. Meia dúzia de páginas vazias, que poderiam ser facilmente descartadas, pois não fariam falta alguma à Maria costureira.

A menina Alexandra não se coube em si depois disso… a mãe não tinha por hábito lhe dar presentes. O dinheiro era sempre pouco, sendo necessário, às vezes, fazer certos malabarismos, como deixar de pagar uma conta, para poder comprar a mistura.

Com o velho caderno em mãos, a menina do interior — a bordo de seus nove anos — começou o que seria o ritual de uma vida inteira: sentou-se em sua cama, com as costas contra a parede, os pés enfiados em um par de meias brancas e os dedos em movimentos ali dentro…

Respirou fundo, como se fosse possível escolher a melhor porção de ar e, por alguns segundos, permaneceu imóvel, com os olhos bem fechados.

Sentiu o silêncio imperfeito tomar posse de seu velho quarto escuro e a pele inundar-se de uma sentimentalidade arredia-afoita-insana…

E, no lugar das lágrimas, aconteceram as primeiras palavras… escritas como se fossem um diálogo solitário. Uma confissão, na primeira pessoa do singular…

Com o passar do tempo… ela aprendeu a revisitar seus cenários mais comuns dentro do silêncio — antes de iniciar sua escrita —, tornando-os apenas seus, numa espécie de apropriação indevida. Era tão fácil para ela velar a cidade com um suspiro próprio… conhecia tão bem aquele lugar, que mesmo com os olhos e a janela fechados, seguia revisitando-os, como se os pés pisassem suas ruas em pares.

Ela tinha suas desordens pessoais… uma espécie de mapa particular, que começava sempre na estrada de terra entre plantações que levava à represa. Já tinha percorrido aquele pedaço de chão, com suas imensas árvores se encontrando no alto — como num abraço —centenas de vezes!

…era sua rota de fuga daquele lugar!
Seus planos todos passavam por ali…

Depois… invadia o prédio da escola… porque sua vida aconteceu entre os corredores-salas-cadeiras-e-lousas daquele lugar, que se tornava silencioso quando  o sinal gritava mais alto que os alunos que, em fila dupla,  marchavam para as seis salas de aulas do prédio de dois andares…

Seu lugar favorito era a biblioteca, com suas mesas redondas sempre vazias e o cheiro de que tanto gostava, de madeira-papel-e-tinta devidamente misturados.

Era seu segundo refúgio na cidade… gostava de se sentar entre as prateleiras e devorar seus livros favoritos, sem ser incomodada por ninguém… “orgulho e preconceito”, de Jane Austen, “noite e dia”, de Virginia Woolf e “malditos paulistas”, de Marcos Rey…

E, por fim, a memória lhe acenava como os contornos da represa — uma espécie de casa-refúgio — onde passava suas horas inteiras… as mais felizes.

Alexandra sabia os cenários mínimos de Teodoro de cor: o banco da praça em frente à Igreja, o coreto… e a velha avenida — uma espécie de linha reta — com suas casas em pares, devidamente enfileiradas, um velho armazém de grãos, uma beneficiaria e a padaria. Era aquele traço mal feito que sempre a conduzia de volta para casa.

Perder-se em Teodoro era totalmente impossível e esse era seu maior lamento… todas as direções perseguidas ao longo de uma vida inteira lhe devolviam… sempre ao mesmo lugar.