17 | e a epidemia de solidão…

‘É preciso compreender a solidão’

Charles Baudelaire

 


 

6 ON 6 minhas manhãs 2

Soube hoje, que a premiê britânica, Theresa May nomeou a ministra do Esporte e da Sociedade Civil, Tracey Crouch para o que foi chamado de ‘ministério da solidão’… problema que afeta muitos ingleses, estadunidenses e boa parte da humanidade contemporânea.

Mas quando foi que a Solidão se tornou um problema? Me lembro de ler uma crônica de Rubem Alves sobre o tema e me divertir com sua afirmação de que a Solidão não é o problema… somos nós! — nos sentimos sozinhos quando nos deparamos com a não-solidão. Duas pessoas juntas a caminhar de mãos dadas nos faz perceber as nossas mãos vazias…

Eu me acostumei a ser expulsa dos lugares… nunca fui de muito falar e conseguia, com alguma facilidade, permanecer em silêncio durante horas inteiras, dias-noites — e com o passar dos dias, passei a sonhar-desejar ser esquecida nos cantos da casa, dos lugares. Inventei muitos esconderijos improváveis… acalentando o desejo de não ser encontrada e sempre suspirava profundo — decepcionada —, quando ouvia o famoso ‘a.c.h.e.i v.o.c.ê’. Abraçava o fracasso do momento… desejava a mim mesma: ‘melhor sorte da próxima vez’ e deixava meu canto de mundo para ir me juntar — desgostosa —, aos humanos da casa.

Sentia uma inveja gigantesca do cão largado no tapete, com os olhos fechados e as orelhas atentas aos menores ruídos. Quando uma criança se aproximava dele, eu reparava em suas reações — juro que se pareciam com as minhas.

Eu sempre soube ouvir… mas não demorou muito para perceber que não sabia ouvir calada certas coisas.

Era a única a levantar a mão em sala de aula quando tinha dúvidas… percebia o olhar pesaroso e o sorriso amarelo da professora em minha direção.

Certos temas me levavam naturalmente ao questionamento… não usava o ‘porque’ comum nas outras crianças. Tinha necessidade de mais informações e não de respostas prontas. Eu queria compreender o tema, esgota-lo, atravessa-lo ou alcançar novos horizontes. Mas os adultos — em sua maioria — só sabiam oferecer o lugar conhecido e se aborreciam com minha insistência.

Fui expulsa da Capela do colégio, da sala de aula e vários outros lugares mas, curiosamente, nunca fui expulsa de uma Biblioteca.

Os padres do colégio me olhavam ensimemados… as freiras me evitavam e se benziam ao se deparar comigo pelo caminho… a Conselheira tinha horror a minha presença e as outras crianças tinham medo de mim… era a melhor das sensações, me sentia o próprio Ebenezer Scrooge.

A maioria dizia — com alguma satisfação —, que eu não tinha lugar entre os seus. A Bibliotecária — uma senhora que parecia um personagem saída de um filme de Allen —, no entanto, sempre apreciou a minha presença e me oferecia livros vários… a maioria — segundo o Coordenador Pedagógico —, não deveriam ser lidos por alguém da minha idade. Ela nada dizia, apenas concordava silenciosa-respeitosamente… e aguardava pela saída do prospecto humano para me devolver o livro…

Eu adorava aquele cenário de mesas-cadeiras-prateleiras-livros-janelas — sempre vazias — e o velho relógio bem em cima da porta a pulsar seu tic… tac… — dava para ouvir também o som do carimbo, que a Bibliotecária usava para marcar as páginas dos livros. Às vezes, eu a observava… via quando molhava o carimbo na almofada de tinta… e o suspendia no ar para o golpe fatal. Antes, ela me olhava — consciente dos meus olhos atentos —, e sorria cúmplice.

A solidão sempre foi a melhor das companhias… é silenciosa e nos oferece o melhor dos goles. Um quarto as escuras num dia de chuva é o melhor dos cenários. A mesa com duas cadeiras a oferecer o generoso sabor da ausência me aguça os sentidos… e a rua erma, com calçadas para andar nos dois lados e as casas com suas luzes acesas a anunciar as presenças apenas dentro, sempre me comoveu.

Agora, enquanto escrevo… estou cá, em meu canto de mundo, com uma gentil xícara de café… e nenhuma presença me alcança. Sou obrigada a concordar com Rubem Alves, a solidão não é o problema!

 

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