Diario das minhas insanidades, 03

“Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro as coisas acabadas”.

Manuel António Pina

 


 

 

…durante os anos vividos em Coimbra, conheci D., — homem de quase cinquenta. Dono de um olhar enigmático. Figura obscura-abstrata. Seu desenho não cabia dentro do corpo que habitava. Era um homem de poucas palavras… com talento para ouvir o outro…

Seu ambiente de trabalho era o porão de sua casa, onde os cheiros se multiplicavam. Do café que ele bebia antes de começar a sessão — ao uísque que o ajudava com as notas que deitava em um caderno de couro marrom…

Em suas prateleiras enfileiravam-se livros de grandes pensadores… clássicos da literatura — velhos e gastos. Os mais novos eram de autores desconhecidos do público, que ele recebia para cinquenta minutos de conversa. Cheguei a pensar em ‘moeda de troca’ durante as sessões.

D., foi indicação de um professor, depois de comentar que precisava urgentemente retomar a terapia — estava prestes a perder a sanidade (novamente).

Assim que me sentei na velha poltrona de couro gasto… ele se posicionou em seu lugar, cruzou as pernas e disse “vamos primeiro as respostas porque as perguntas sempre chegam depois, como as aves que voltam para casa no final da tarde”

Reconheci de imediato a fala — um verso de Manoel Pina. Foi o que me fez ficar!
D., tinha um cão — um Labrador negro chamado Jerry — que se sentava ao seu lado e ganhava afagos durante as sessões. Os dois me espiavam com atenção e cuidado, mas confesso que era com o cão que eu traçava o meu diálogo. Era em seu silêncio-canino que eu confiava minhas falas…

Me despedi de D., e de seu cão… no verão de dois mil e dois. Ele me disse com sua voz rouca-pouca: “eu sei o que você procura, mas lhe aviso: não existe cura, tratamento ou remédio… para a loucura. O mais saudável é se deixar enlouquecer. No entanto, é preciso algum cuidado: são poucos os que são de fato capazes de se permitir a loucura. A maioria de nós teme enlouquecer porque não é todo mundo que consegue sonhar no escuro”…

Guardei a frase no bolso e, atravessei o oceano!

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