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10. Não sei se irá chover ou não…

Carissima T.

 

Passa das três horas de uma tarde nublada… bebo uma xícara de chá de camomila, enquanto tropeço nas aflições cotidianas e esparramo as coisas por cima do lençol amarrotado.

Há um mar de sensações em minha pele… coisas antigas, que reverberam feito os sinos da Catedral de Praga… para onde o pensamento voltou depois de esbarrar nos postais que trouxe de lá.

É engraçado que é um dos poucos lugares no mundo para onde sempre disse que voltaria — mas não aconteceu. Estive lá no verão de 98… visitei o famoso relógio astronômico medieval — Orlof — de onde, depois de mais de uma hora na fila, pude ver a cidade toda iluminada. Foi um momento a parte. Sabe quando o cuore simplesmente para e você precisa respirar fundo para fazê-lo voltar a pulsar?

Ainda guardo na memória a imagem da Ponte Charles sutilmente alaranjada e a sensação de pequenez diante da Catedral. Não queria mais sair de lá… fiquei impressionada com cada pequeno detalhe do templo. Admirei a passagem das horas e o efeito da luz do sol na anatomia do prédio, que parecia se deixar moldar pela dourada luz. E quando a noite caiu… vi as sombras agirem como um vírus e contaminar suas paredes, que se iluminaram artificialmente, como se fosse uma vacina a protegê-la da escuridão, que a igreja diz ser a morada do mal.

Nunca entendi essa maldita mania da religião de nos afastar de nós mesmos… esses discursos de fé sempre me fizeram bocejar… apaixonada que sou pelas trevas, é na noite que encontro conforto para os meus dramas humanos. A quietude das falas. A solidão dos corpos. É tudo tão mais intenso e nítido. É preciso se acostumar ao breu, aguçar os sentidos… a visão se limita e faz todas as coisas ter origem numa mesma fôrma.

A noite me leva para dentro das páginas do livro de Campos, como quem vai à frente de um espelho decorar o próprio rosto — “acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se | seja de que maneira for, é preciso continuar a viver | arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente | estou no caminho de todos e esbarram comigo”.

Ainda é tarde… ‘tarde tardonha-tristonha’ — de Mário… mas a noite não tarda, logo esparramará seu breu em ‘meu quintal’ sem primavera e eu continuarei a navegar por esse passado-presente, que pelo que tudo indica nunca será futuro.

A bientot

 

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