05 | Um torvelinho por dentro

cropped-whatsapp-image-2017-05-06-at-15-24-592.jpeg

As minhas ideias acontecem quando eu me coloco em movimento de cômodos-calçadas-ruas-esquinas. Só depois é que me sento para escrever. Meu pensamento necessita do passo… como o grafite que precisa caminhar pelo papel. Tudo se organiza naturalmente e eu sinto dentro, o lado de fora e o contrário também.
Quando leio um texto-livro-original-a-mim-encaminhado… o mesmo acontece. Me coloco em movimento… ultrapassando um a um os cômodos da casa, o espaços da cidade — quarto-sala-cozinha-banheiro-corredores-calçadas-ruas, numa espécie de reinvenção dos mapas de minhas emoções-vivências-e-experiências…
Me lembro do quanto gostava — na infância —, de observar da janela, aqueles giros rápidos de vento em espiral, feitos de ar quente. Os torvelinhos surgiam no nada nos dias quentes e carregavam tudo o que fosse proporcional ao seu tamanho-força. E desapareciam sem deixar rastro, como se não tivessem existido. Rápido e ágil — o tempo exato de um sopro-morno que existe enquanto há fôlego.
Uma das minhas brincadeiras favoritas, na infância, era imitar os torvelinhos… abria bem os braços e rodopiava — girando e girando cada vez mais rápido. Não era ágil o bastante… nem o meu corpo era propício ao movimento de giro. Sentia tontura e, naqueles dias, não fazia idéia de que era uma ilusão. Sentia tudo em movimento, menos o meu corpo. O meu mundo e a cabeça giravam ao contrário… e, na tentativa de recuperar o equilíbrio perdido, fechava os olhos e esperava… sentindo dentro, o efeito que tinha buscado do lado de fora.

Sobre a minha escrita,

Minha professora de literatura, uma das responsáveis pela minha dedicação à escrita, certa vez, durante um diálogo literário, me disse — ‘de repente, eu também aprendo‘. Eu tinha poucos anos. Ainda era primária. Aprendia as primeiras palavras-frases, devorava os meus primeiros livros… e começava a trilhar o caminho da realidade rumo ao imaginário.
Ela era uma espécie de guia por esse mundo-novo…  e todas as suas coisas infinitas. Sua tarefa era provocar-me — oferecendo-me livros-autores. E ela se mostrou bastante hábil. Por algum tempo, eu acreditei que ela conhecia todos os livros do mundo — impossível, eu sei… talvez por isso a frase tenha ficado sem efeito, naquele instante.
Ela me fez experimentar as minhas primeiras emoções literárias… e me ajudou a identificar muitas das sensações que alimento, até hoje. O que gosto e não gosto. O que guardo… descarto. Foi através de nossos diálogos, na Biblioteca que compreendi que, por mais que a escrita seja um ato solitário… é através da partilha que compreendemos o nosso lugar no peculiar universo da Arte escrita e a frase ganhou  sentido.
Não foi nada fácil me articular nesse cenário movediço… de papel-caneta-palavra-silêncio-tormento-delírios e um sem-fim de sentimentos contrários. Foram muitos sustos, desconfortos, algumas vitórias e centenas de fracassos… narrados na Primeira pessoa do singular. Escrevi muita coisa… reescrevi algumas. Amassei centenas de folhas e mais descartei que guardei.
Compreendi, contudo, que a escrita arrasta tudo que sou com ela. Sabe aquela trilha de migalhas que nos leva de volta para casa? Quando escrevo… eu preciso desesperadamente dela, para regressar a casa que-sou. Porque a escrita avança — sempre rumo a um futuro próprio — e me leva com ela… sem mapas ou destino certo! Me faz passageira… nunca condutora. E eu me deixo orientar por essa bússola: percorro calçadas-ruas-avenidas, pessoas, construções urbanas, lugares vários. Absorvo tudo-todos… e quando me posiciono diante do papel-tela-teclado, todas as coisas que tenho-sou se deixam narrar…
Acredito que seja esse o motivo do meu regressar constante à infância. É a minha casa primeira — referência. O meu ponto de partida para a vida. De onde sai para o mundo e para onde retorno em busca de aconchego. A minha página ainda em branco, esperando pelo discurso confessional…