BEDA |Uma sexta em ruínas…

WhatsApp Image 2017-08-18 at 23.59.34

Caríssima T.,

Ainda é sexta, minha cara… passa das onze, mas o dia passou por mim numa velocidade de perdidas sentimentalidades. Não gosto quando não dou pelo dia e suas horas impossíveis de contar.

Tentei me entender com a realidade ao longo do dia… firmar compromisso com os ponteiros. Pousar os pés… mas a alma viveu instantes de Gaivota. Mergulhou no azul e arrulhou alto. Zombou de minha condição equivocada.

Tive um único instante de paz… pouco depois do despertar quando me ocupei de um punhado de linhas minhas. O dia estava perfeito: deliciosamente nublado. As ruas molhadas pela chuva de agosto. O vento fez tremer as vidraças. Acendi um incenso. Coloquei ordem no caos em que se transforma a minha mesa ao longo da semana, com seus dias de segunda a quinta. Pratiquei a espera… água no fogo, xícara na mesa e a poesia de José Luis Peixoto para os olhos, a pele e a alma.o barco avança sem destino | as noites, os dias, o barco avança sem destino. o oceano é infinito

Respirei fundo, engoli o chá em três ou quatro goles. Espiei os cômodos, os móveis e as sombras de um dia sem sol… esparramadas pelo chão. As paredes do lugar estão em obras… vez ou outra tudo estremece. Mas eu não sei se é de fato o lugar ou se sou eu.

O dia acabou e eu também… deixei recado na geladeira para o sábado: só saio da cama se o dia for como na infância: envelopes, folhas, leite caramelado e afagos. Caso contrário, agarro o travesseiro, me enrolo na coberta e só abandono o ninho na segunda-feira.

Au revoir. 

 


 

selo para o BEDA

BEDA — Daqui a pouco eu saio da sua vida…

“não há nada que o silêncio não mate”

Dulce Maria Cardoso

WhatsApp Image 2017-08-11 at 23.55.40

Caríssima A.,

…fiz uma pausa no meio da tarde para tomar uma xícara de chá e, como de costume, enquanto aguardava pela fervura da água… fui até a estante e voltei com um livro em mãos. Existe qualquer coisa de magia no tempo de espera por trás de uma xícara de chá.

Sentei-me à mesa da cozinha… com ‘os meus sentimentos‘ e a xícara — e enquanto esperava… foi como ler você ‘ainda crua’, quando chega às minhas mãos, em folhas soltas-avulsas e eu preciso uní-las. Gosto imenso de sua chegada… porque há nesse teu gesto qualquer coisa de sorriso-entrega-e-confiança. E eu fico a te esperar desde o momento em que lhe peço um texto. Você é a minha xícara de chá…

Não sei se conhece a autora desse livro — dulce maria cardoso. Ela foi publicada pela ‘tinta da china’… uma das poucas editoras no mundo que eu gostaria de trabalhar se a Scenarium não fosse meu canto-lugar. Eles têm o meu ritmo-cor-sabor… pensam o livro, o autor e dão valor as páginas… que unidas, são como envelopes a caminho dos correspondentes — missivas que narram vida-realidade-fantasia.

Depois de um bom punhado de páginas devoradas — eu nunca presto atenção naqueles números tolos que servem apenas para que eu possa ir socorrer o grito agudo da chaleira e voltar imediatamente ao ponto de pausa — descobri a frase que me levou para junto de ti…daqui a pouco eu saio da sua vida‘. Um sorriso coloriu meus lábios, fiquei em suspenso por alguns segundos, tempo suficiente para secar a saliva e pensar… ‘será que minha autora anda por aí em outras peles?‘ — mas na página seguinte estava a pergunta-resposta… ‘sabia que a pele é o maior órgão do corpo?’e eu bufei a imaginá-la dentro de suas paredes, a espiar sua realidade, a experimentar o que lhe chega e a se perder do que se vai. 

Ah, minha cara… esse livro é como o seudiário das coisas que não aconteceram— é para se encher de post its e ler dúzias de vezes no outono, mas estamos no inverno e não quero ‘rabiscar’ paredes com frases inteiras — suas, é claro. 

 

“por ser a última vez  que abro este portão de ferro, o gesto, vulgar, torna-se importante”

 

bacio

selo para o BEDA

BEDA | Eu me lembrei de você… em mim!

Imaginar não é lembrar-se. Certamente uma lembrança,

à medida que se atualiza, tende a viver numa imagem:

mas a reciproca não é verdadeira, e a imagem pura e simples

não me reportará ao passado a menos que seja

efetivamente no passado que eu vá buscá-la,

seguindo assim o pregresso contínuo que

a trouxe da obscuridade à luz

Henri Bergson

 

 

08 DE AGOSTO

 

Caríssima C.,

Fui para a cozinha preparar um pão na chapa… e enquanto cortava o pão ao meio e passava a manteiga, para em seguida debruçá-lo na frigideira quente dourando-o dos dois lados, como me ensinou a fazer… me lembrei de nossas conversas no meio da tarde, do seu silêncio e seu olhar agudo-guloso-sempre-atento.

Gosto quando você chega sem avisar, com seus rituais de vida — que repito no automático — e se mistura a minha realidade… feito tempestade — a me ocupar-povoar… sem escolher dia-hora-lugar. Apenas me pega pelo braço e me leva pelos seus caminhos primaveris… caminhar a sua cidade, espiar suas pessoas, tragar do ar úmido e perfumado por suas flores de laranjeira. Te ouço falar em mar, céu azul enquanto planeja o fim de semana e aprecia os movimentos humanos-urbanos.

Recordo nós duas… sentadas à mesa daquela padaria na rua de seu trabalho… e, você a pedir dois pães na chapa. Foi preciso desprender tempo e palavras para explicar como deveria ser feito. O rapaz em seu primeiro dia de trabalho se atrapalhou todo… e você, com sua paciência rotineira ensinou a nós dois a ser sempre gentil com as pessoas: “não importa o quanto elas te desafiem, sempre ofereça o seu melhor sorriso. Do lado de dentro você esbraveja e, pronto”.

Nunca consegui imaginar o seu interior em estado de fúria. Raiva nunca foi uma palavra sua. Seu corpo sempre transbordava paz… e seus movimentos uma calma invejável. Enquanto eu era tempestade, você sempre foi calmaria. Até o meu silêncio fazia imenso barulho perto de ti, que sorria… como se reconhecesse todos os meus tumultos herdados de ‘seu menino’. Você me dizia com a voz, os gestos e o corpo inteiro: ‘menos’ e eu latejava fúria — bufava.

Sempre que estou prestes a perder a calma e transbordar… me lembro de sua lucidez e acabo por me perder em incontidos sorrisos. Me reorganizo em míseros segundos. Acho que você acharia graça de meus movimentos dentro do dia e por saber-me: ‘menina das palavras’, como disse que eu seria, e eu retrucava — insistia no contrário. Você tinha razão… mas, não me arrependo por ter tentado outros caminhos — porque aprendi com você que o importante é caminhar… e foi exatamente o que eu fiz. Aprendi lugares. Desaprendi pessoas… fui barco a deriva, em busca de cais. E sempre que atraco em algum porto, me lembro de ti…

 

À tout à l’heure!

 

selo para o BEDA

Limito o meu silêncio ao seu silêncio…

2017-02-18 18.59.10

Caríssima M.,

Cai a noite e com ela o cansaço de um dia inteiro, que começou cedo, pouco depois das oito. Despertei das sombras-páginas do livro a caderneta vermelha  que eu lia enquanto as horas avançavam firmes por essa segunda-feira — a última de maio.

Algo curioso aconteceu esse ano, não vi uma única flor de maio. A que tinha a casa antigamente florescia — estranhamente — em junho ou julho… jamais em maio, tanto que dizia pelos cantos da casa que algum equivoco existia. Mas, sempre as encontrava por aí, em algum lugar da cidade. Esse ano, no entanto, passou em branco.

Mas eu tive de volta a rotina dos trovões… e recordei — ao ler as suas linhas — as sonoridades da infância, que tanto prazer causava em minha pele e tanto pavor nos corpos mínimos das crianças do colégio.

Não sei se já lhe contei de uma manhã de Maio em que o céu desceu a terra com suas pesadas e negras nuvens. Escureceu cedo e de repente um estampido causou gritaria na sala de aula. Ainda era a primeira aula. Dez horas. Fazia pouco que tínhamos ocupado nosso lugar as mesas. Uma das crianças desandou a chorar — inconsolável. E para evitar maiores desconfortos…  reuniram todos os alunos numa mesma Sala.

…fiquei para trás — propositalmente — com os olhos grudados na janela… a contar os espaços entre o clarão e o trovão. Vi quando as grossas gotas foram se aconchegando na vidraça… e a velha e conhecida sensação de tristeza — naqueles dias eu não sabia ser melancolia o que sentia — reviveu… empalidecendo todos os ‘sempres’ dos meus olhos.

…fui impiedosamente arrancada de lá — num susto que quase desalojou a minha alma — e levada para junto da turba. Nada de poesias-trovões-chuva-tristeza… apenas o grito estridente daquelas humanas criaturas miúdas — a cada trovão… a me aborrecer e entorpecer cada um dos meus sentidos.

Agachei-me num canto e tapei as orelhas… apavorada. Lembro-me de ouvir a voz enferrujada da professora dizer — ‘já vai passar, já vai passar’ — no intuito de devolver a paz — perdida. Foi meu primeiro assassinato, minha cara. Fuzilei a infeliz da mulher em seu avental de educadora… com um raio fatal e sorri satisfeita.

Hoje não troveja no céu, minha cara. Apenas cá dentro da pele, onde as lembranças são pesadas nuvens. O mês está prestes a findar… maio foi inquieto e desembestou sonoro em minha pele, sem flores, mas com muitos movimentos de xícaras. E nas últimas horas lhe escrevo e vou ao teu encontro — entre um trovejar e outro… tu  me recebes?

Au revoir