21 | ao inverno, em mãos…

 

Meu caro inverno, por onde andou? Suas visitas foram tão breves. Desde junho que você diz que vem… e fica pelo caminho. Não sei em que paragens. Mandou o amigo vento nos primeiros dias, algumas nuvens, pintou algumas segundas de cinza. Mas, a maioria de seus dias foram azuis. Quase não choveu. O senhor me deve trovoadas. Assim mesmo, no plural. E não adianta dizer que pedirá a Primavera. Não se atreva. E me deve igualmente, algumas tempestades porque Maio foi tão silencioso que eu nem o ouvi chegar. Só soube da presença dele, pelo calendário. E o senhor, meu amigo, sabe muito bem o quanto me incomoda ter que consultar esses papéis com marcações diárias-humanas. Fico perdida. Fora do ar. Desabrigada. Meu corpo-alma-casa não se entende com essas resoluções manuais.
Ah, meu caro… senti falta de seus sopros gelados, dos pés enfiados em meias, dos braços protegidos por blusas de lã, pratos de sopa, taças de vinho, xícaras de latte… e o corpo abrigado embaixo de grossas cobertas. Quem foi que lhe roubou de mim? Mal entrava pela porta… sem malas e fugia pela janela. Parecia um menino a praticar travessuras. E justo comigo que lhe tenho tanto apreço, meu amigo. Sua presença faz a refeição mais saborosa. A realidade mais tolerável. É tão fácil existir-Ser na sua companhia. As cores ficam mais agradáveis e as palavras correm para o papel com tamanha facilidade.
Ah, e eu gosto imenso de apreciar a fumaça que salta dos alimentos e aquece o corpo em pequenas colheradas… uma depois da outra. De enroscar-me no outro. Segurar xícaras aquecidas entre as mãos e sentir aquele velho-conhecido aconchego infantil que faz feliz a adulta que sou.Saibas que fez falta por aqui… o procurei a cada amanhecer, ao abrir a janela e dar pelo sol e sua estranha insistência em dourar a paisagem. Ao anoitecer, quando ao fechar a mesma janela não encontrava sua presença-rastro. Os dias não estavam tão quentes, mas também não estiveram frios.
Espero que no próximo ano, você venha… e fique mais tempo comigo. Esperarei por ti, como todo ano. Em junho, certo?

 


maratone-se grupo interative-se

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Beda | o agosto seguinte… ao seu!

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Eu escrevo nesse agosto… o seguinte ao seu. Dois mil e dezoito, escrito por extenso. Exatamente como preferimos. Ainda não aprendi a gostar de números na forma-matemática de equações e cálculos insuportáveis.

…por extenso parece que perdem a forma-idéia-formato, e faz parecer impossível a soma.

E nesse agosto seguinte ao seu… você resolveu ler apenas poemas. Separou os livros e os empilhou em cima da mesa, do seu lado esquerdo, como de costume. Começou a ler Helder… devorando-o sem obediência de páginas. Leu por ler somente. Como gostas e preferes. Pequenos goles de café.

Ah, mas não conseguiu sossegar e ficar apenas nos versos sagrados de Borges, José Luis Peixoto, Plath e Auden.

Seu menino voltou da Biblioteca — após renovar o nosso cadastro — com ‘mar de dentro‘ de Lya Luft… e foi impossível ignorar aquelas sagradas páginas. A menina que fomos, minha cara — estranhamente — parece viver a bordo desse livro.

Ah, antes que eu me esqueça… não somos mais as mesmas. Já sou outra, desde a manhã seguinte ao seu ontem. Eu sei que não está surpresa. Consigo ouvir seu riso daqui…

Sabe a promessa que fez, em voz alta, entre um gole e outro latte… enquanto lidava com os capítulos de ‘vermelho por dentro’? Eu não a cumpri. Estou a escrever um novo livro… de crônicas. E eu já tenho o título…

…uma pausa para você respirar e colocar a água no fogo para uma xícara de chá!

…’meus naufrágios‘ vai narrar nossos fracassos — essa soma de fatos que não deram certos ao longo de nossos ‘quase quarenta anos‘ de existência. Mas, ainda não sei por onde começar. Comecei a tracejar no ar… uma espécie de mapa de escritas futuras. Pretendo tomar notas no caderno que ganhamos de J.

Escolhi a trilha sonora numa tarde que passou, durante a chuva que finalmente voltou a cair. Não houve trovões, apenas o som do asfalto molhado…

Ah, preciso te avisar: outra pessoa se foi de nossa vida… sem avisar. E, você não se importou, de novo. Preparou um jantar para o seu menino e tentou explicar. Você não leva jeito para isso. Ele sabe e não se importa. Ah, e ele também não ficou surpreso. Brindamos ao dia seguinte. Amém.

Bem, o domingo está a chegar ao fim… daqui a pouco será segunda. Dia seguinte ao seu e ao meu também. Quero ir à cozinha. Reunir ingredientes enquanto ainda é hoje.

 

Até qualquer dia seguinte, cara mia.

 


beda interative-se

Missiva | do verbo ir…

Missiva do verbo ir

Cara mia,

 

…escrevo-te nessa hora quase cheia. Passa das nove… ainda não são dez, mas estamos a caminho. Chegaremos lá antes que essa missiva chegue a sua última linha. O chá esfria na xícara enquanto ouço minha playlist que dá ritmo a esse dia recém desperto… que trouxe para a minha boca o verbo: ir… perfeito para resumir os meus últimos dias.

…que são muitos e se amontoam como livros, um por cima dos outros. Ao contrário dos livros — que ficam quietos, em compasso de espera… os dias, às vezes, se atropelam, se desorientam. Não sei onde estou e não reconheço a realidade de suas sonoridades. Sinto falta — admito — do tempo em que cada dia tinha um lugar em meu mapa particular de vivências.

Eram ruas percorridas com passos aos pares.
Hoje… são coisas soltas, peças de um quebra cabeça impossível de se montar.

Mas eu preciso não pensar nisso… conjugar o verbo em todos os tempos.
Deixar ir porque cada dia tem sua cor-som-magia.

Eu os vivo ainda que não dê por eles… sei dos movimentos das coisas-vida-tempo-espaço. Passo pelos lugares. Colho abraços. Degusto substâncias. Aprendo com as coisas que faço. Com as falas que guardo para depois. Com os livros que leio-devoro. As músicas que ouço-trago. As ruas que atravesso e as pausas que insiro em cada instante.

Tudo é sempre novo, certo?
A alegria que o sorriso deita fora. A tristeza que os músculos represam dentro. A inspiração que surge no meio do passo e eu colho com qualquer coisa de surpresa-satisfação.

Uma fagulha de sol ilumina uma paisagem antiga-nova. Um estranho acena e eu retribuo. Alguém fala palavras conhecidas e tudo se transforma em outra coisa-colorida. Uma bebida bem feita é entregue em minhas mãos e a mesa do canto espera-vaga para começar as atividades programadas ou deixar tudo de lado para folhear aquele livro que já estava a me olhar torto. O diário recebe palavras e essa missiva ganha tons de diálogo. O livro de poesias se abre na página certa para esse dia que não se orienta por calendários.

É apenas mais um dia… onde o verbo ir se conjuga, inclusive nessas linhas que deixo aqui para você.

Au revoir

BEDA | * a quem vê o rosto teu…

Cara Senhora,

…encerrei nessa semana o mês de abril. Ainda faltam alguns dias no calendário, mas já não mais me ocupo de sua realidade. Fechou-se em minha pele. Devolvi o livro de Eliot — que me acompanhou nesses dias — à prateleira. Preparei uma xícara de chá de morango, comi alguns biscoitos de chocolate e preparei os envelopes para as missivas escritas nesses dias secos.

Sentei-me aqui na mesa da cozinha pouco depois da meia-noite de sábado, o último. E, enquanto apreciava os formatos conhecidos do lugar, me lembrei das despedidas vividas nos últimos dias-semanas-meses.

A minha vida-realidade —  desde a infância —  é feita de chegadas e partidas. Sempre me lembro — como se tivesse acontecido há pouco —  da cena na estação de Nervi. Era tão menina. Sabia tão pouco. Conhecia menos ainda. Vivia tão sem consciência das coisas e causas. Com os olhos atentos a tudo… tentava guardar o máximo de coisas possíveis.

Eu suspirava saudade inexistentes… tramava futuros impossíveis e quando ouvia o apito sonoro da locomotiva — que crescia na curva e se agigantava por toda a extensão da Estação —  meu cuore disparava dentro do peito. Eu tinha pressa. Queria ocupar meu lugar e apreciar as pessoas na Plataforma.

Naquela manhã um signore estava sozinho no meio da plataforma, com o olhar vazio, cabisbaixo. Esperava por alguém que não veio. Provei de sua solidão. Dividimos por um instante — tempo de um aceno, que ele recebeu-e-devolveu —, a mesma emoção. Fui sua chegada e ele a minha partida. Doeu vê-lo sem força-vontade-ânimo no passo. Grudei minha anatomia inteira no vidro do vagão. Ele era apenas um estranho, uma pessoa, um homem. Hoje eu sei que era muito mais… o primeiro personagem — a se oferecer a mim.

Quando algumas pessoas vão embora… eu aceno à ele — no tempo de ontem — e aguardo que olhe para mim com seu sorriso empalhado-fraco, olhar vago-opaco e partilho da mesma emoção-conhecida-antiga. Tenho plena consciência de que nada dura para sempre.

Receba o meu aceno!

Au revoir…

 



* verso de Emily Dickinson, 1882


 

beda

BEDA | sempre a lápis…

“Se há uma coisa boa de ler, é uma carta” — escreveu Otto Lara Resende em uma de suas crônicas. E se você já teve o prazer de receber um envelope com o seu nome impresso no verso, sabe que é impossível não concordar com o autor.

Mas, eu iria além e diria — ‘se há uma coisa boa de se escrever nesse mundo, definitivamente é uma missiva-carta‘.

Existe todo um ritual… o tipo de papel, o envelope, o momento. Eu tecia a maioria de minhas missivas à lápis. Uma ou outra foram escritas na velha máquina de escrever… que ganhei de mio nono. Gostava imenso de alimentar aquela velha máquina rabugenta com duas folhas de papel sulfite e o carbono. Sempre fiz cópias das missivas escritas-e-enviadas. As colecionei por algum tempo…

Sentava-me em um canto, abria o envelope… e lia — pau.sa.da.men.te a missiva recebida. Imaginava o lugar de origem. Os movimentos da caneta no papel. Respirava fundo! E me inaugurava em diálogo.

Falava de mim… da pessoa que acreditava ser e na qual estava len.ta.men.te me transformando. Do lugar que ocupava… o quarto-cidade-escola. Narrava o que chegava ao meu olhar e as ilusões que brotavam em minha mente.

Sem dúvida era uma troca justa. Mas, o que meus correspondentes não sabiam é que ao escrever à eles, eu aprendia o ritmo da minha escrita. Ainda hoje, quando me sento diante do ecrã… para escrever meus posts — nesse espaço-contemporâneo-moderno — penso em folhas de papel de amarelecidos tons, envelopes vermelhos… e dou ritmo ao diálogo.

Meus posts não deixam de ser uma missiva com destinatário diverso. Sometimes inesperado. Gosto de pensar nessa janela como um selo para o meu envelope vermelho.

Tecer uma missiva é um aprendizado, por isso, sempre que me perguntam: ‘qual curso de escrita eu indico’ (?) — respondo sem titubear: cartas… escreva cartas. Encontre correspondentes. Sinta o lápis-caneta avançar em segurança pela folha de papel. Converse com o seu correspondente. Fale de si… sem amarras. Deixe fluir…

E leia as muitas missivas de outros escritores. Há várias publicações que nos mostram esse exercício que, durante anos, foi bastante comum entre aqueles que escreviam. Percebam o tempo, o momento, a pessoa por trás das linhas e também a frente delas.


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