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Missiva | do verbo ir…

Missiva do verbo ir

Cara mia,

 

…escrevo-te nessa hora quase cheia. Passa das nove… ainda não são dez, mas estamos a caminho. Chegaremos lá antes que essa missiva chegue a sua última linha. O chá esfria na xícara enquanto ouço minha playlist que dá ritmo a esse dia recém desperto… que trouxe para a minha boca o verbo: ir… perfeito para resumir os meus últimos dias.

…que são muitos e se amontoam como livros, um por cima dos outros. Ao contrário dos livros — que ficam quietos, em compasso de espera… os dias, às vezes, se atropelam, se desorientam. Não sei onde estou e não reconheço a realidade de suas sonoridades. Sinto falta — admito — do tempo em que cada dia tinha um lugar em meu mapa particular de vivências.

Eram ruas percorridas com passos aos pares.
Hoje… são coisas soltas, peças de um quebra cabeça impossível de se montar.

Mas eu preciso não pensar nisso… conjugar o verbo em todos os tempos.
Deixar ir porque cada dia tem sua cor-som-magia.

Eu os vivo ainda que não dê por eles… sei dos movimentos das coisas-vida-tempo-espaço. Passo pelos lugares. Colho abraços. Degusto substâncias. Aprendo com as coisas que faço. Com as falas que guardo para depois. Com os livros que leio-devoro. As músicas que ouço-trago. As ruas que atravesso e as pausas que insiro em cada instante.

Tudo é sempre novo, certo?
A alegria que o sorriso deita fora. A tristeza que os músculos represam dentro. A inspiração que surge no meio do passo e eu colho com qualquer coisa de surpresa-satisfação.

Uma fagulha de sol ilumina uma paisagem antiga-nova. Um estranho acena e eu retribuo. Alguém fala palavras conhecidas e tudo se transforma em outra coisa-colorida. Uma bebida bem feita é entregue em minhas mãos e a mesa do canto espera-vaga para começar as atividades programadas ou deixar tudo de lado para folhear aquele livro que já estava a me olhar torto. O diário recebe palavras e essa missiva ganha tons de diálogo. O livro de poesias se abre na página certa para esse dia que não se orienta por calendários.

É apenas mais um dia… onde o verbo ir se conjuga, inclusive nessas linhas que deixo aqui para você.

Au revoir

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4. Dentro de uma sexta-feira, a promessa se cumpre…

Que ruas melancólicas! Quarteirões e quarteirões de escuridão de um e de outro lado, não de casas; aqui e ali um lampião que parece uma vela tremeluzindo sobre um túmulo. A essa hora da noite do último dia da semana, aquele bairro da cidade estava totalmente deserto. Mas afinal me aproximei de uma luz fumarenta procedente de uma construção baixa e larga cuja porta se encontra convidativamente aberta. Seu aspecto era descuidado, como se fosse destinada ao uso do público; assim que entrei, a primeira coisa que fiz foi tropeçar em uma caixa de cinza, colocada no saguão. Ah! pensei enquanto as partículas voadoras quase me sufocavam. Serão essas as cinzas da destruída cidade de Gomorra?
Trecho de Moby Dic

 

Caríssima R.

A manhã é essa coisa esbranquiçada a gritar movimentos desatentos por todos os lados… o cão, como de costume… dorme ao lado no sofá, indiferente aos movimentos do dia que segue sua sina de sexta-feira.

Eu não  sou uma pessoa de sextas-feiras… é um dia de excessos-enganos-desaforos. Eu vou para o canto do corpo, da casa… para ficar quieta, alheia a essa realidade. Prefiro as segundas-feiras… sol ameno nas manhãs coloridas, nuvens esbranquiçadas pouco depois do meio dia, um livro de poesia sobre a mesa do canto, um latte bem feito, servido no famoso copo branco com a sereia verde de duas caldas.

Sou uma pessoa comum, que gosta de ir mais devagar… acordar aos poucos… percorrer pequenas distancias, sentir as superfícies que o pé tateia… passo a passo. Tomar conta dos espaços. Sentir as texturas das paredes ou apenas me perder nas arquiteturas dos prédios e casas… enquanto o cão faz suas visitas aos postes e árvores.

Eu gosto imenso de um fim de tarde com sabores de chá silvestre… uma canção a se repetir: o som crescente e rouco de um velho blues, pouco antes das seis. A página de um caderno de capa vermelha vazia, a espera das palavras que irão moldar ‘memórias futuras’.

Gosto de ir até a prateleira e voltar com um livro… e, dessa vez, foi Moby Dick que saltou para as minhas mãos. Já li esse livro incontáveis vezes ao longo dessa minha vida, contada em um punhado de anos, devidamente acumulados nos cantos da pele. Gosto imenso das sombras que ele desenha em minha superfície. Não sei se você sabe, mas o nome do café onde trabalha é uma homenagem ao senhor Starbuck, personagem desse romance, escrito por Herman Melville…

“Ainda podemos desistir, mesmo hoje sendo o terceiro dia.
Vê! Moby Dick não te procura. És tu, que loucamente, busca por ele!”

Esse trecho me fez recordar a sua figura… em fuga, indo em direção as calçadas. Lembro-me de ter ficado alguns minutos a espiar seus movimentos de um lado ao outro… indócil e incrédula, a tragar pesado seu cigarro, como se esperasse algo diferente do que teve para si, em nosso breve encontro. Você falou de si… e eu fiz o que gosto de fazer… ouvi as palavras que soltava no ar num quase-sem-voz.

Depois que deixou comigo um abraço, rascunhei qualquer coisa sobre o momento numa folha de papel e guardei dentro de um livro… porque a minha escrita é sempre para depois. E, mesmo sem saber, você me brindou com promessas futuras, a mais preciosa de todas… a sua amizade — minha Moby Dick.

bacio

 


 

São Paulo, 31 de janeiro de 2014…