14 – Possuo a doença dos espaços incomensuráveis…

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Meu caro E.

O dia vai longe… já é quase hora do almoço do lado de fora dessa janela aberta que sou, mas aqui dentro da pele ainda estou a amanhecer. Eu sempre me demoro mais nas horas do dia… enquanto, à noite, me precipito… em movimentos insanos — vou de um canto ao outro em míseros segundos.

A bordo das manhãs banhadas de sol… respiro fundo, atravesso a Rua, desejando deter meu passo e deixar essa gente apressada — uma manada humana — me ultrapassar porque não tenho pressa… sou nesse momento, como uma xícara de chá.

Não sei se você sabe,  mas para se fazer um chá… é preciso introduzir em seu dia uma pequena pausa. É como abrir uma brecha na vida {realidade das coisas e suas causas} e no tempo e no espaço. Coloca-se no fogo a chaleira e aguarda… a minha apita assim que a água borbulha. Enquanto isso, escolho a xícara — gosto de uma preta com desenho de elefante, esse gentil animal. Mas, às vezes, escolho a vermelha. Separo as ervas… e em seguida é preciso macerá-las lentamente entre as mãos… para sentir o aroma, impulsionando-o para dentro de si. Deito a água fervente na xícara e deixo ocorrer a infusão… pronto: novamente é preciso esperar.

Nesse momento… escrevo pequenas notas mentais-futuras… ou leio poemas, contos, pequenos trechos de histórias antigas… ou apenas recordo certos momentos meus…

Quanta espera realizamos durante um dia inteiro? Já pensou nisso? — são tantas pausas necessárias, porque temos essa mania — estranha — de acelerar tudo e mesmo assim, nos falta tempo…

Será que é o contemporâneo que nos demanda coisas demais ou somos nós mesmos?
Quando criança — eu me lembro — tudo era tão lento… as horas em sala de aula eram intermináveis e eu vivia querendo agilidade. Mas as voltas dos ponteiros não se deixavam seduzir por minhas vontades. Ocupavam-se — lentamente — de cada um de seus ‘malditos’ segundos…

Hoje, no entanto, tudo se dissolve… faz pouco que acordei e os ponteiros já cospem suas doze horas… ou quase! Os minutos se atropelam… tudo é para ontem… o hoje é essa sinuca sem tacos ou bolas nas caçapas! Para onde será que vamos? Me parece tão impossível traçar um destino nessa velocidade…

O ano começou antes de ontem… e já se viveu tanto. O carnaval acabou e outro está por começar. Novamente é ‘ano novo’ e as metas são traçadas e nada se cumpre porque não há tempo…

Acho que preciso de uma xícara de chá e da pausa que ela me oferece…

Me acompanha?

3 – Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

“Quando a ausência de mim fizer presença em meu ser…
visitarei a mim mesmo para não me afastar de você”

Rubem Alves

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Caríssima A.,

…esperei por você na semana que passou, mas você não veio! O que me levou de encontro aos rituais, que coleciono dentro e aos quais voltei… um a um. O prédio tem uma dessas caixas de correspondências coletivas. E eu a visitei, consciente de que não encontraria ali… naquele cenário frio… um envelope seu. Toquei a superfície metálica daquela estranha caixa de correspondência, que são pequenas janelas desse lugar… onde atualmente vivo.

Não é um espaço para correspondências… apenas contas e pequenos panfletos publicitários tem lugar ali. E talvez por isso tenha sido possuída por uma vontade-remota: escrever uma missiva para cada uma daquelas “janelas”.

A criança que habita o interior de minha pele sorriu… e eu voltei a dar aos pés o colorido dos passos… pelos caminhos de sempre. Obviamente inúmeros desenhos foram feitos nessa folha de papel imaginária, que sou… e voltei a pensar em você, nas linhas que não foram escritas…

Não sei porque você não veio! Talvez por ser dezembro… esse mês insano, que nos priva de nós mesmos e obriga a tolerar excessos.

Eu tenho alguns dezembros talhados na memória… a maioria deles pertencem a minha juventude. Eram todos brancos e povoados por uma ansiedade ímpar… malas-bilhetes-de-viagem… a plataforma da estação, o sonoro apito da locomotiva ao se aproximar da estação e a voz grave do Guarda a dizer: ‘todos a bordo’. O som dos trilhos… as vozes dos diálogos e as paisagens em movimento junto as janelas. As muitas chegadas e partidas… eu gostava imenso desse ritual de dezembro que agora revejo e revivo, nesse nosso diálogo de linhas.

O mio nono não ligava para datas, caríssima… difícilmente sabia o mês do ano, o dia da semana. Ele nem mesmo era cristão. Por isso não me causou espanto sua confissão, feita a mesa, pouco depois de um brinde — ele não sabia a história do “tal menino Jesus”.

Eu precisei engolir o riso… diante da indignação dos demais habitantes da mesa – em plena véspera de Natal…

O nono se importava mesmo… era com a casa e a mesa cheia. Ele espiava — satisfeito — os olhares… provava um a um dos sorrisos  e ouvia — atentamente — os diálogos, em pares. Em sua generosa porção de mundo-vida — do outro lado da mesa — eu assistia e compreendia a sua felicidade — era como se sua vida inteira fizesse sentido.

Certa vez — durante uma caminhada — ele me confessou, que esperava por dezembro — desde a infância — com a mesma intensidade. E, enquanto caminhava ao seu lado… não consegui saber se o que o encantava de fato… era o momento ou o instante que o antecedia…

Saber esperar é uma arte, que nos permite inúmeros aromas! — não fosse a espera, talvez essas linhas ficassem aqui dentro para todo o sempre…

Au revoir

14 – E lá se foi a minha hipótese de paz…

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles

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Caríssimo…

Quase cinco horas de uma dessas tardes febris… e eu vim me sentar aqui nesse canto de mundo, para escrever-te. É algo que tento fazer há dias, mas as horas de janeiro foram um desespero de ruas-lugares-paisagens-e-pessoas… não era para ser assim porque janeiro costuma ser um mês calmo-pacato-ameno… para dentro! Mas esse ano foi o contrário disso.

A cidade não se esvaziou como nos anos anteriores… embora tenha esbarrado em muitos estrangeiros, a transitar seus idiomas pelas ruas… mas, também tropecei em muitos humanos — aqueles de sempre — em movimentos erráticos pelas esquinas. Os lugares estavam todos cheios… e o sol tocou fortemente o asfalto, que ardeu como nunca antes. Foi tão cansativo existir dentro dos primeiros dias do ano de dois mil e quinze… que quase me arrependi da pausa a qual me obriguei.

Mas era preciso parar… ponderar, sobretudo, desacelerar, mas senti falta da cidade com seus traços comuns, sendo apenas uma pincelada do que costuma ser.

Gosto imenso de São Paulo e seus movimentos desarticulados… amo sua bagunça, confusão e todo o seu exagero! Adoro transitar suas alamedas, tragar seu ar equivocado e beber um pesado gole de café a qualquer momento do dia. Ter para aonde ir na hora em que quiser. Atravessar ruas, tropeçar em figuras inusitadas… mas gosto também quando tudo deixa de ser o que se é. Esse ano, contudo, foi como se janeiro tivesse se esquecido de acontecer… foi atípico, estranho, desagradavelmente pesado.

Choveu pouco esse ano… os relâmpagos e trovões aconteceram, mas foi tudo tão carregado de angústias e desesperos, que se tornou impossível apreciar.

Senti falta de existir dentro da poesia de Mário de Andrade, que me oferece em seus versos essa cidadela, habitada por seus mil e poucos habitantes… um punhado de casas e ruas… a vida parece ser mais palpável em seus versos…

Em outros janeiros meu caro, até mesmo o verão foi mais ameno – suportável. Senti falta do crepúsculo se impondo fortemente sobre a aurora de repente – sem avisar – da manhã a cair, a tarde a morrer e a noite a ser uma coisa gigantesca-imensa-quase-sem-um-fim (possível).

Não li Borges, Eliot, tampouco Emily… também não tomei xícaras de chá vermelho. Café tampouco! Foi tão difícil ler-escrever em janeiro. Foi angustiante e mesmo me propondo a quietude dentro de um isolamento pensado, foi muito difícil ser palavra na folha. Travei inesquecíveis batalhas e tudo se resumiu a pesados desaforos… com os sons agudos a prevalecer na derme-anestesiada!

E agora que janeiro se foi… respiro fundo e me lembro que depois de amanhã será carnaval. Seria tão bom se eu pudesse fechar os meus olhos agora e só acordar quando essas falsas alegrias já tivessem se liquefeito. Mas como não é possível, sigo a existir dentro desse estranho janeiro, que parece ter avançado sobre o fevereiro, numa insistente permanência…

Ao menos escrevo-te dentro dessa tarde esbranquiçada! Ainda há esperança de chuva para essa quase noite…

L.

12. Um belo frasco de memórias…

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Caríssima A.,

…por vezes atravesso o oceano apenas para me sentar numa dessas mesas bem merecidas, de frente para as paisagens de teu sítio. Vejo pouco e ouço muito… sou uma dessas figuras em que vigora a saudade, embora essa palavra, para mim, tenha um sabor estranho. Soa como café frio- amanhecido… ou pior, café americano-carioca. {urgh}

Aprendi — em meu idioma — a dizer “mi machi”…  que quer dizer “sinto sua falta”…  ou “gostaria de sua presença”.

A palavra saudade, no entanto, parece ir na contramão disso… no Brasil, a maioria dos cemitérios se chamam “saudade”. Nada tenho eu contra esses espaços urbanos reservados para os mortos… mas é como se o sentimento por trás dessa combinação de consoantes e vogais se reservasse apenas aos mortos e, não para os vivos.

…sinto falta de muitas coisas, a cada minuto do dia sou invadida por essa sensação gostosa que apenas a ausência é capaz de provocar. E quando leio seus escritos… mergulho no fundo de minha anatomia: esse baú de perdidas chaves… e reviro tudo! Espalho todas as minhas coisas por sobre a cama… tocando o passado como se fosse uma caixa de sapato guardada em baixo da cama.

Eu tive uma infância agridoce… povoada por alegrias e tristezas. Creio que seja assim para a maioria de nós. Não me lembro de todos os momentos e creio que nem poderia, afinal, há coisas que pertence aos outros… mas há um punhado de coisas, que a minha memória, mantém intacta: o primeiro dia de aula está lá — em total segurança… e acena com o desconforto de quem estava acostumada a existir entre meia dúzia de pessoas: todas iguais e conhecidas. Fiquei emburrada por ter que deixar o ambiente confortável do quarto para frequentar — diariamente — uma sala de aula… onde vinte e duas crianças tentavam aprender o alfabeto e depois a combinar as consoantes e vogais. Foi qualquer coisa aborrecida para uma criança que já sabia escrever um belo punhado de palavras.

Os passeios pelas carrugi nas manhãs de domingo também tem seu espaço assegurado… eu tinha lindas botas vermelhas para os dias de chuva e como adorava usá-las. Pedia por chuvas a semana inteira.

Com ela nos pés… eu podia pisar poças e fazer minha própria algazarra — imitando os pássaros em meu quintal. C., achava graça dos olhares assustados das outras mães, que pedia as filhas, para se comportarem feitos meninas — ao contrário de mim. Ela nunca me repreendeu! Nem mesmo quando as botas ficavam cobertas por lama…

Também me recordo o dia em que ganhei meu primeiro livro de poesias. Um belo exemplar comprado em um sebo, com capa verde musgo e páginas amareladas. Emily Dickinson… em inglês — idioma que eu ainda não dominava, e passei a aprender nas noites de terça e quinta…

…mas existem muitas coisas perdidas cá dentro de mim. Vez ou outra uma foge e se precipita, como as famosas chuvas de maio a gritar seus trovões — como se a minha matéria quisesse valer a afirmação, que fiz ainda na infância: “eu sou toda tempestade” com a qual C. sempre assentia com seu sorriso primaveril.

abraço-te… ritorno a casa e, vou a cozinha combinar ingredientes, venha mais tarde provar um pão de ervas.

L

Tag: {não perdi o hábito de escrever missivass}

Lamentavelmente eu não me lembro da primeira missiva que escrevi… gostaria de ter em minha memória o desenho do lugar, das palavras, dos sentimentos que motivaram o movimento de linhas, a textura das folhas… mas não alcanço o instante… que me escapa.

Já busquei em minha memória qualquer fragmento de realidade, que possa me servir de Norte. Mas, acabo sempre diante do vazio… esse Sul que se esvai. Nem mesmo o meu imaginário me socorre.

Insatisfeita, resolvi inventar uma lembrança… moldei o cenário conhecido: a mesa da cozinha, a manhã de sábado, a xícara de leite caramelado, os livros espalhados e os envelopes em estado de espera. Vislumbrei o olhar da Dama da minha infância e me vi, sentada a sua frente, a repetir os gestos que tantas vezes presenciei… enquanto bebericava meu leite quente-caramelado.

Curioso que me lembro muito bem do exato instante que deixei de escrever missivas. Era uma tarde quente de sol. Não havia promessas de chuva e eu voltei para casa com o cansaço de uma semana inteira. Na caixa de correspondência havia uma dúzia de envelopes… que eu arremessei se titubear no lixo da cozinha.

Naqueles dias… eu não tinha vontade-ânimo para diálogos. Não queria saber o que me diziam as pessoas que, durante anos, foram meu contato com a realidade do mundo.

Mas, a bordo dessa manhã de sábado… resolvi retomar o movimento-diálogo… afinal, eu voltei a escrever! Que se apresentem os pretendentes, vamos casar nossos diálogos!