05 | * Os sutis movimentos do cuore que nos salvam…

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Lady S.,

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Está demasiado quente na Paulicéia contemporânea, minha cara… é verão por aqui e o céu absurdamente azul doura as tramas desse dia. A moça do tempo não se cansa de anunciar em sua enfadonha previsão que vivenciamos o verão mais quente dos últimos anos — como se tomasse emprestado de vossa ironia para pontuar a realidade… enquanto eu olho lá para fora a procura de nuvens.

Passo os olhos por cima das linhas de seu romance primeiro como quem percorre a cidade a pé — antes de o sol aquecer o asfalto — sentindo os músculos e nervos, as irregularidades do caminho e as geografias de ontem, convertidas em paisagem de hoje.

Me aborreço com Marianne e sua maldita ingenuidade… tento decifrar o que pretendia dessa sua menina, mas os rompantes — próprios da pouca idade —, me incomodam. Ralho com suas ações precipitadas-equivocadas. Não a considero a altura do Coronel — um  homem adulto-sensato —, ao contrário de Lizziê que fez Darcy melhor… ela nada acrescenta ao homem que é Brandon e o julga do alto de sua romântica e tola existência, que se encaixa perfeitamente a de Willoughby — não à toa, apaixonam-se…

Não sinto qualquer simpatia por esse rapaz ou por Wickham — são igualmente detestáveis… tal qual um dia de verão agudo. Não os considero vilões… são figuras de caráter duvidoso e você foi brilhante ao desenhá-los. Não nos deixou outra opção que não a de detestá-los — por representar uma espécie de homem que não se extingue — infelizmente.

De todas as suas histórias — sense and sensibility — é a única que me aborrece em seu desfecho. A ironia que escolheu para pontuar a trama me agrada imenso… ao contrário dos remendos feitos — uma espécie de improviso-remendo — que tornam possíveis os enlaces nas últimas páginas. É quase um final clássico  e foram felizes para sempre — que não combina em absoluto com a ousadia vitoriana de sua escrita.

Mas não é possível degustar do outono — a melhor das estações — sem antes vivenciar o verão e seus dias turvos de sol… reconheço, conscientemente que é necessário enfrentá-los para apreciar o cair as folhas.


Participam

Maria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega

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02 | * um tempo para anoitecer à luz das lâmpadas

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…escrevo-te, nesse outubro-outro-depois-do-seu. Aqui, começou essa estranha moda de dar cor aos meses. Imagine, que agora, além de me perder dos dias-semanas e todas as suas horas, me perco também das cores… enquanto imagino seu riso-solto explodir pelos ares.

Hoje, minha cara… é véspera de mais um amanhã impossível. O Ano continua a ser uma encruzilhada de números e de lembranças — tudo e nada florescem nesse cenário urbano-metafísico, quase nuclear. Ainda estou em Sampa, mas o bairro é outro.

Deixamos o Alto da Lapa e suas ruas vazias, quase desertas… onde ainda (sobre) vive em busca de respostas as perguntas que não ousa fazer. Ah, esse não gostar que nos acompanhar desde a infância. Para que indagar, se podemos divagar? — como vês, certas coisas permanecem intactas em nossa amalgama. Não importa o tempo-espaço-lugar.

Recordei há pouco de nossa ida ao cinema para assistir: ‘de volta para o futuro‘. Não pretendia sair de casa, naquele dia. A condição de ziguezague do filme me incomodava. Ir para o passado, voltar para o futuro-presente… me aborrecia, afinal, nunca me agradou pensar-mapear-imaginar-traçar, por um segundo que fosse, datas futuras — premissas impróprias-impossíveis… uma afronta ao nosso imaginário. Talvez por isso tenhamos desistido das ficções distópicas — que nos acostumamos a chamar de “distorções temporais”. Eu ainda me lembro de certas expressões diante do meu-seu soluçar. Como é bom incomodar o outro em suas decisões de vida…

Quando, em um momento de distração, avanço rumo ao dia seguinte… sou tragada de volta pelo som do papel a deformar em minhas mãos e fico a observar a alquimia da qual sou feita. Gosto de saber que o passado está lá em seu devido lugar, se movimentando até chegar a esse hoje, que somos (?) e o amanhã é essa espécie de poeira astral que se dissolve no ar.

Nesse outubro, em que vives, pelas ruas do Alto da Lapa, mapeada pelos passos do nosso menino Patrick, você ainda lida com as premissas de um romance que não se escreve. Tudo que tens, são palavras escritas na parede do corpo. Absolutamente nada. E você sente falta de um porto onde ancorar. Falta corpo-pele…

É um dos meus instantes de vida-favorito…  as dúvidas começavam pela manhã, imediatamente na primeira hora. E, no decorrer do dia — a cada passo em linha reta, rumo as muitas praças nas quais tropeçava —, esmaeciam… e, mesmo furiosa, voltava a escrever — inconscientemente.

Você ainda não tinha se dado conta da personagem que vivia em si… e ao perceber, dias depois, teve uma crise de riso por não ter percebido o que estava a fervilhar em seu íntimo. Estava lá o tempo todo e você buscando em todos os lugares-paisagens-cenários… tome uma taça de vinho branco por nós duas, quando acontecer! — porque tudo tem o seu tempo, minha cara: nem antes, tampouco depois — crescemos com essa frase sendo repetida de tempos em tempos, que ainda ecoa em minhas superfícies nesses dias de ontem-hoje. A mesma voz se faz ouvir, como um eco dos dias de ontem… como disse Eliot — nosso velho amigo-poeta-favorito: “a medida que envelhecemos, o mundo se torna mais estranho“, por isso precisamos preservar nossas vivências.

Continue a navegar por essas águas, minha cara… e seguiremos à deriva.

Até daqui a pouco!

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| * verso do poema east coker, de T.S.Eliot |
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01 | Hoje eu queria apenas escrever-te…

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Á você,

 

Hoje eu só queria escrever-te… para falar qualquer coisa minha, como nos acostumamos a fazer, no tempo de ontem. Te dizer que o correr dos dias vai organizando as cores da primavera e setembro está no fim. Os ipês floresceram na última semana… e está bonito espiar o tapete de flores, pelo chão.
Tenho escrito tanto e tanto… aos outros. Mas, eu queria mesmo, era escrever à você… para te contar do novo livro, que não pretendia existir mas, que se escreve aos poucos. Para dizer que estou bem e me acostumei ao silêncio que ficou depois que se foi.
Como não existe um remetente para onde enviar um punhado de linhas rascunhadas enquanto percorro calçadas, sem ter seus passos encaixados aos meus… observo envelopes-papéis e suspiro como quem morre.
Eu já pensei, um sem-fim de vezes, em reinventá-lo, meu caro… mas não seria justo com você, com a sua vida.
Ontem, no fim da tarde… recordei nosso último momento. Seu aniversário… você escolheu ler ‘passagem das horas’ em voz alta, na mesa da cozinha. Eu reparei em seus olhos marítimos — parecia saber que os dias seguintes seriam outra coisa.
“o que me conforta, é saber que depois de tudo que nos aconteceu, nós dois somos felizes. Conseguimos” — eu senti algo se romper em meu íntimo, naquele exato segundo! Não disse palavra. Guardei para mim aquele nó, em minha garganta.
Resolvi não considerar! Pareceu impossível — depois de tudo — algo novo nos acontecer. Nós dois já tínhamos sobrevivido a tantas coisas. Era o momento de aproveitar as coisas boas… o teu sorriso-alegria. A casa-vida nova. O amor, que sempre quis, com o qual sempre sonhou… e durante um tempo, pensou ser impossível. Temia que não fosse para você.
Ainda me lembro da sua voz emocionada a dizer-me: ‘eu conheci alguém’. Fiquei em silêncio, do outro lado da linha, enquanto pensava em entrar num avião e conhece-lo.
Em nosso último instante… você achou engraçado pensar em seus trinta e dois anos como sendo algo inteiro… e depois de comer uma fatia de bolo e revisitar a sua vida, disparou: “parece tão pouco. Nem parece certo dizer inteiro”.
Mas foi tudo… sua porção inteira de vida e, eu concordo com você: não parece certo.

 

Até sempre,

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
 Adriana AneliMaria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega

 


 

21. do verbo ir…

Missiva do verbo ir

Cara mia,

 

…escrevo-te nessa hora quase cheia. Passa das nove… ainda não são dez, mas estamos a caminho. Chegaremos lá antes que essa missiva chegue a sua última linha. O chá esfria na xícara enquanto ouço minha playlist que dá ritmo a esse dia recém desperto… que trouxe para a minha boca o verbo: ir… perfeito para resumir os meus últimos dias.

…que são muitos e se amontoam como livros, um por cima dos outros. Ao contrário dos livros — que ficam quietos, em compasso de espera… os dias, às vezes, se atropelam, se desorientam. Não sei onde estou e não reconheço a realidade de suas sonoridades. Sinto falta — admito — do tempo em que cada dia tinha um lugar em meu mapa particular de vivências.

Eram ruas percorridas com passos aos pares.
Hoje… são coisas soltas, peças de um quebra cabeça impossível de se montar.

Mas eu preciso não pensar nisso… conjugar o verbo em todos os tempos.
Deixar ir porque cada dia tem sua cor-som-magia.

Eu os vivo ainda que não dê por eles… sei dos movimentos das coisas-vida-tempo-espaço. Passo pelos lugares. Colho abraços. Degusto substâncias. Aprendo com as coisas que faço. Com as falas que guardo para depois. Com os livros que leio-devoro. As músicas que ouço-trago. As ruas que atravesso e as pausas que insiro em cada instante.

Tudo é sempre novo, certo?
A alegria que o sorriso deita fora. A tristeza que os músculos represam dentro. A inspiração que surge no meio do passo e eu colho com qualquer coisa de surpresa-satisfação.

Uma fagulha de sol ilumina uma paisagem antiga-nova. Um estranho acena e eu retribuo. Alguém fala palavras conhecidas e tudo se transforma em outra coisa-colorida. Uma bebida bem feita é entregue em minhas mãos e a mesa do canto espera-vaga para começar as atividades programadas ou deixar tudo de lado para folhear aquele livro que já estava a me olhar torto. O diário recebe palavras e essa missiva ganha tons de diálogo. O livro de poesias se abre na página certa para esse dia que não se orienta por calendários.

É apenas mais um dia… onde o verbo ir se conjuga, inclusive nessas linhas que deixo aqui para você.

Au revoir

14 | não lembrar…

Deixo-te com tua vida | teu trabalho | tua gente | com teus pôres do sol
e teus amanheceres | semeando a confiança | deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis

Mario Benedetti

Caríssima M.,

 

A noite está quente e não há ventos como eu tanto gosto. As folhas não se mechem. A natureza parece ter feito uma pausa… como se tivesse deixado de existir por alguns segundos. Uma pequena eternidade… a dissolver-se em algum momento

Talvez o mundo tenha se acabado e eu não tenha me dado conta.
Talvez nada mais reste lá fora e eu esteja aqui dentro, a viver contrários.
Um mundo a parte do mundo… onde esse personagem novo se deixa aconchegar.

Conversamos pela manhã… e ela me falou do quanto lhe faz falta as lembranças perdidas. Eu não sei como é não lembrar. Já me esqueci de onde tinha deixado as chaves, o celular, um livro. Estava distraída com as coisas da vida literária. Pouco atenta aos meus movimentos. Mas, bastou rever os passos, refazer o traço — e pronto.

Às vezes, fico presa as histórias, atrelada aos personagens… a imaginar o que o autor não narrou: o dia seguinte. Não sou de pensar o futuro. Não sou dada a antecipar o amanhã. Leituras de mãos-cartas-búzios-estrelas. Não preciso saber. Não sinto vontade. Mas, ao finalizar uma trama bem escrita, antevejo esse futuro impossível e a ele me agarro durante horas inteiras.

O passado é esse lugar seguro… meu porto. Onde lanço âncora e finco a ponta da lapiseira. É o ponto de partida da minha escrita. Não lembrar seria perturbador, com certeza. Olhar no espelho e não entender meus traços. Atravessar a matéria. Não compreender o que vai na pele — por dentro e por fora —, se o que sinto é: frio-calor-fome-cansaço-medo-tristeza-alegria. Não saber-me enquanto pessoa-bicho. Como no livro ‘para sempre Alice’, de Lisa Genova. Ainda ouço a frase da personagem, vítima de Alzheimer — “não suporto a ideia de um dia olhar para você, para esse rosto que eu amo, e não saber quem você é”.

Ao mesmo tempo, sinto que seria interessante trabalhar um personagem sem passado… sem rosto — e descobri-la através das relações da vida apagada, conforme a história avançar capítulo a capítulo.

Escrever sem Norte será um desafio, uma novidade. Sempre recorri ao backstory como guia. Talvez seja o mesmo que sair as ruas sem mapas.

O que somos para o outro? — foi a primeira anotação que fiz quando o dia surgiu lá fora. Estava anestesiada. Agora, de posso de uma xícara e chá, penso que será instigante trabalhar a partir da resposta… com a qual convivo desde o meu ingresso na faculdade de psicologia.

O olhar não é nosso melhor sentido… mas é o que mais usamos. Eu prefiro o tato. Certa vez me disseram que para aprender a enxergar, é preciso fechar os olhos. É a melhor maneira de liberar os outros sentidos. Uma vez no escuro, sempre vamos em busca de tato.

— parece que vou passar um bom punhado de horas-dias, com esses argumentos todos. Deseje-me sorte…

Au revoir

 


 

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