Hoje eu queria apenas escrever-te…

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Á você,

 

Hoje eu só queria escrever-te… para falar qualquer coisa minha, como nos acostumamos a fazer, no tempo de ontem. Te dizer que o correr dos dias vai organizando as cores da primavera e setembro está no fim. Os ipês floresceram na última semana… e está bonito espiar o tapete de flores, pelo chão.
Tenho escrito tanto e tanto… aos outros. Mas, eu queria mesmo, era escrever à você… para te contar do novo livro, que não pretendia existir mas, que se escreve aos poucos. Para dizer que estou bem e me acostumei ao silêncio que ficou depois que se foi.
Como não existe um remetente para onde enviar um punhado de linhas rascunhadas enquanto percorro calçadas, sem ter seus passos encaixados aos meus… observo envelopes-papéis e suspiro como quem morre.
Eu já pensei, um sem-fim de vezes, em reinventá-lo, meu caro… mas não seria justo com você, com a sua vida.
Ontem, no fim da tarde… recordei nosso último momento. Seu aniversário… você escolheu ler ‘passagem das horas’ em voz alta, na mesa da cozinha. Eu reparei em seus olhos marítimos — parecia saber que os dias seguintes seriam outra coisa.
“o que me conforta, é saber que depois de tudo que nos aconteceu, nós dois somos felizes. Conseguimos” — eu senti algo se romper em meu íntimo, naquele exato segundo! Não disse palavra. Guardei para mim aquele nó, em minha garganta.
Resolvi não considerar! Pareceu impossível — depois de tudo — algo novo nos acontecer. Nós dois já tínhamos sobrevivido a tantas coisas. Era o momento de aproveitar as coisas boas… o teu sorriso-alegria. A casa-vida nova. O amor, que sempre quis, com o qual sempre sonhou… e durante um tempo, pensou ser impossível. Temia que não fosse para você.
Ainda me lembro da sua voz emocionada a dizer-me: ‘eu conheci alguém’. Fiquei em silêncio, do outro lado da linha, enquanto pensava em entrar num avião e conhece-lo.
Em nosso último instante… você achou engraçado pensar em seus trinta e dois anos como sendo algo inteiro… e depois de comer uma fatia de bolo e revisitar a sua vida, disparou: “parece tão pouco. Nem parece certo dizer inteiro”.
Mas foi tudo… sua porção inteira de vida e, eu concordo com você: não parece certo.

 

Até sempre,

 


Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
 Adriana AneliMaria Vitória | Mariana Gouveia | Obdulio Nunes Ortega

 


 

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Missiva | do verbo ir…

Missiva do verbo ir

Cara mia,

 

…escrevo-te nessa hora quase cheia. Passa das nove… ainda não são dez, mas estamos a caminho. Chegaremos lá antes que essa missiva chegue a sua última linha. O chá esfria na xícara enquanto ouço minha playlist que dá ritmo a esse dia recém desperto… que trouxe para a minha boca o verbo: ir… perfeito para resumir os meus últimos dias.

…que são muitos e se amontoam como livros, um por cima dos outros. Ao contrário dos livros — que ficam quietos, em compasso de espera… os dias, às vezes, se atropelam, se desorientam. Não sei onde estou e não reconheço a realidade de suas sonoridades. Sinto falta — admito — do tempo em que cada dia tinha um lugar em meu mapa particular de vivências.

Eram ruas percorridas com passos aos pares.
Hoje… são coisas soltas, peças de um quebra cabeça impossível de se montar.

Mas eu preciso não pensar nisso… conjugar o verbo em todos os tempos.
Deixar ir porque cada dia tem sua cor-som-magia.

Eu os vivo ainda que não dê por eles… sei dos movimentos das coisas-vida-tempo-espaço. Passo pelos lugares. Colho abraços. Degusto substâncias. Aprendo com as coisas que faço. Com as falas que guardo para depois. Com os livros que leio-devoro. As músicas que ouço-trago. As ruas que atravesso e as pausas que insiro em cada instante.

Tudo é sempre novo, certo?
A alegria que o sorriso deita fora. A tristeza que os músculos represam dentro. A inspiração que surge no meio do passo e eu colho com qualquer coisa de surpresa-satisfação.

Uma fagulha de sol ilumina uma paisagem antiga-nova. Um estranho acena e eu retribuo. Alguém fala palavras conhecidas e tudo se transforma em outra coisa-colorida. Uma bebida bem feita é entregue em minhas mãos e a mesa do canto espera-vaga para começar as atividades programadas ou deixar tudo de lado para folhear aquele livro que já estava a me olhar torto. O diário recebe palavras e essa missiva ganha tons de diálogo. O livro de poesias se abre na página certa para esse dia que não se orienta por calendários.

É apenas mais um dia… onde o verbo ir se conjuga, inclusive nessas linhas que deixo aqui para você.

Au revoir

BEDA | não lembrar…

Deixo-te com tua vida | teu trabalho | tua gente | com teus pôres do sol
e teus amanheceres | semeando a confiança | deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis

Mario Benedetti

Caríssima M.,

 

A noite está quente e não há ventos como eu tanto gosto. As folhas não se mechem. A natureza parece ter feito uma pausa… como se tivesse deixado de existir por alguns segundos. Uma pequena eternidade… a dissolver-se em algum momento

Talvez o mundo tenha se acabado e eu não tenha me dado conta.
Talvez nada mais reste lá fora e eu esteja aqui dentro, a viver contrários.
Um mundo a parte do mundo… onde esse personagem novo se deixa aconchegar.

Conversamos pela manhã… e ela me falou do quanto lhe faz falta as lembranças perdidas. Eu não sei como é não lembrar. Já me esqueci de onde tinha deixado as chaves, o celular, um livro. Estava distraída com as coisas da vida literária. Pouco atenta aos meus movimentos. Mas, bastou rever os passos, refazer o traço — e pronto.

Às vezes, fico presa as histórias, atrelada aos personagens… a imaginar o que o autor não narrou: o dia seguinte. Não sou de pensar o futuro. Não sou dada a antecipar o amanhã. Leituras de mãos-cartas-búzios-estrelas. Não preciso saber. Não sinto vontade. Mas, ao finalizar uma trama bem escrita, antevejo esse futuro impossível e a ele me agarro durante horas inteiras.

O passado é esse lugar seguro… meu porto. Onde lanço âncora e finco a ponta da lapiseira. É o ponto de partida da minha escrita. Não lembrar seria perturbador, com certeza. Olhar no espelho e não entender meus traços. Atravessar a matéria. Não compreender o que vai na pele — por dentro e por fora —, se o que sinto é: frio-calor-fome-cansaço-medo-tristeza-alegria. Não saber-me enquanto pessoa-bicho. Como no livro ‘para sempre Alice’, de Lisa Genova. Ainda ouço a frase da personagem, vítima de Alzheimer — “não suporto a ideia de um dia olhar para você, para esse rosto que eu amo, e não saber quem você é”.

Ao mesmo tempo, sinto que seria interessante trabalhar um personagem sem passado… sem rosto — e descobri-la através das relações da vida apagada, conforme a história avançar capítulo a capítulo.

Escrever sem Norte será um desafio, uma novidade. Sempre recorri ao backstory como guia. Talvez seja o mesmo que sair as ruas sem mapas.

O que somos para o outro? — foi a primeira anotação que fiz quando o dia surgiu lá fora. Estava anestesiada. Agora, de posso de uma xícara e chá, penso que será instigante trabalhar a partir da resposta… com a qual convivo desde o meu ingresso na faculdade de psicologia.

O olhar não é nosso melhor sentido… mas é o que mais usamos. Eu prefiro o tato. Certa vez me disseram que para aprender a enxergar, é preciso fechar os olhos. É a melhor maneira de liberar os outros sentidos. Uma vez no escuro, sempre vamos em busca de tato.

— parece que vou passar um bom punhado de horas-dias, com esses argumentos todos. Deseje-me sorte…

Au revoir

 


 

beda

21 | um elogio a sombra…

As ruas de Buenos Aires | já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas | incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis

 Jorge Luiz Borges

 


 

Tenho para mim, que todas as cidades são iguais… com suas ruas estreitas ou longas, uma esquina depois da outra. Suas vitrines iluminadas… e seus muitos cafés “presos” às esquinas.

Uma cidade tem casas, prédios… e nesse cenário milhares de janelas se perfazem. Os diálogos se proliferam à sombra, que emerge nas calçadas, bem debaixo de suas árvores. As luzes foscas se acendem quando a noite esparrama seu abstrato surreal e os humanos perdem suas formas e se misturam à paisagem.

E o que mais me toca nas cidades… são os anciãos, que não acalentam a pressa tão comum aos primeiros anos de vida. Aprendo com eles a não atropelar os passos, a guardar as mãos nos bolsos da calça… e sorrir a quem passa.

Eles gostam de contar suas vivências… e folhear com raro prazer, as páginas de suas histórias. Ontem, pela manhã, ao visitar uma praça no Palermo, um signore me contou como era a cidade, em seu tempo de ragazzo. Com a voz embargada por uma melancolia gostosa, que o fez inserir algumas pausas em sua fala… narrou as mudanças, acompanhadas por ele, sem alegria alguma. Ressaltou — com um nó na garganta — o que ainda estava preservado… demonstrando visivelmente o medo de ver o que lhe resta de cidade: desaparecer.

E ao me despedir — depois de uma boa conversa — ele se mostrou satisfeito… ‘seria tão bom se as pessoas tivessem mais tempo para ouvir’. Mas, vivemos no tempo do ontem, a galgar espaços em busca do amanhã, que permanece onde está… fora de alcance. A maioria de nós, no entanto, foge dos mais velhos, por considerá-los um destino que desejam, mas não pode recusar.

As cidades são todas iguais — mudam os nomes das ruas, bairros, seus moradores… e o próprio nome que as orientam nos mapas humanos. Mas no fundo… são apenas um combinado de símbolos, que alinhavados — faz de nós meros personagens em movimentos insensatos.

Buenos Aires é apenas mais um capítulo nessa trama real e andar suas ruas, me apoderar de suas geografias reinventadas… me faz pensar num prefácio assinado por Jorge Luiz Borges — um item a  mais para a ‘minha caixa de sapato’…

 

Au revoir

 


 

 

* paralelo ao livro ‘elogio da sombra‘ de Jorge Luis Borges  |