30 | * um tempo para anoitecer à luz das lâmpadas

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…escrevo-te, nesse outubro-outro-depois-do-seu. Aqui, começou essa estranha moda de dar cor aos meses. Imagine, que agora, além de me perder dos dias-semanas e todas as suas horas, me perco também das cores… enquanto imagino seu riso-solto explodir pelos ares.

Hoje, minha cara… é véspera de mais um amanhã impossível. O Ano continua a ser uma encruzilhada de números e de lembranças — tudo e nada florescem nesse cenário urbano-metafísico, quase nuclear. Ainda estou em Sampa, mas o bairro é outro.

Deixamos o Alto da Lapa e suas ruas vazias, quase desertas… onde ainda (sobre) vive em busca de respostas as perguntas que não ousa fazer. Ah, esse não gostar que nos acompanhar desde a infância. Para que indagar, se podemos divagar? — como vês, certas coisas permanecem intactas em nossa amalgama. Não importa o tempo-espaço-lugar.

Recordei há pouco de nossa ida ao cinema para assistir: ‘de volta para o futuro‘. Não pretendia sair de casa, naquele dia. A condição de ziguezague do filme me incomodava. Ir para o passado, voltar para o futuro-presente… me aborrecia, afinal, nunca me agradou pensar-mapear-imaginar-traçar, por um segundo que fosse, datas futuras — premissas impróprias-impossíveis… uma afronta ao nosso imaginário. Talvez por isso tenhamos desistido das ficções distópicas — que nos acostumamos a chamar de “distorções temporais”. Eu ainda me lembro de certas expressões diante do meu-seu soluçar. Como é bom incomodar o outro em suas decisões de vida…

Quando, em um momento de distração, avanço rumo ao dia seguinte… sou tragada de volta pelo som do papel a deformar em minhas mãos e fico a observar a alquimia da qual sou feita. Gosto de saber que o passado está lá em seu devido lugar, se movimentando até chegar a esse hoje, que somos (?) e o amanhã é essa espécie de poeira astral que se dissolve no ar.

Nesse outubro, em que vives, pelas ruas do Alto da Lapa, mapeada pelos passos do nosso menino Patrick, você ainda lida com as premissas de um romance que não se escreve. Tudo que tens, são palavras escritas na parede do corpo. Absolutamente nada. E você sente falta de um porto onde ancorar. Falta corpo-pele…

É um dos meus instantes de vida-favorito…  as dúvidas começavam pela manhã, imediatamente na primeira hora. E, no decorrer do dia — a cada passo em linha reta, rumo as muitas praças nas quais tropeçava —, esmaeciam… e, mesmo furiosa, voltava a escrever — inconscientemente.

Você ainda não tinha se dado conta da personagem que vivia em si… e ao perceber, dias depois, teve uma crise de riso por não ter percebido o que estava a fervilhar em seu íntimo. Estava lá o tempo todo e você buscando em todos os lugares-paisagens-cenários… tome uma taça de vinho branco por nós duas, quando acontecer! — porque tudo tem o seu tempo, minha cara: nem antes, tampouco depois — crescemos com essa frase sendo repetida de tempos em tempos, que ainda ecoa em minhas superfícies nesses dias de ontem-hoje. A mesma voz se faz ouvir, como um eco dos dias de ontem… como disse Eliot — nosso velho amigo-poeta-favorito: “a medida que envelhecemos, o mundo se torna mais estranho“, por isso precisamos preservar nossas vivências.

Continue a navegar por essas águas, minha cara… e seguiremos à deriva.

Até daqui a pouco!

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| * verso do poema east coker, de T.S.Eliot |
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21 | ao inverno, em mãos…

 

Meu caro inverno, por onde andou? Suas visitas foram tão breves. Desde junho que você diz que vem… e fica pelo caminho. Não sei em que paragens. Mandou o amigo vento nos primeiros dias, algumas nuvens, pintou algumas segundas de cinza. Mas, a maioria de seus dias foram azuis. Quase não choveu. O senhor me deve trovoadas. Assim mesmo, no plural. E não adianta dizer que pedirá a Primavera. Não se atreva. E me deve igualmente, algumas tempestades porque Maio foi tão silencioso que eu nem o ouvi chegar. Só soube da presença dele, pelo calendário. E o senhor, meu amigo, sabe muito bem o quanto me incomoda ter que consultar esses papéis com marcações diárias-humanas. Fico perdida. Fora do ar. Desabrigada. Meu corpo-alma-casa não se entende com essas resoluções manuais.
Ah, meu caro… senti falta de seus sopros gelados, dos pés enfiados em meias, dos braços protegidos por blusas de lã, pratos de sopa, taças de vinho, xícaras de latte… e o corpo abrigado embaixo de grossas cobertas. Quem foi que lhe roubou de mim? Mal entrava pela porta… sem malas e fugia pela janela. Parecia um menino a praticar travessuras. E justo comigo que lhe tenho tanto apreço, meu amigo. Sua presença faz a refeição mais saborosa. A realidade mais tolerável. É tão fácil existir-Ser na sua companhia. As cores ficam mais agradáveis e as palavras correm para o papel com tamanha facilidade.
Ah, e eu gosto imenso de apreciar a fumaça que salta dos alimentos e aquece o corpo em pequenas colheradas… uma depois da outra. De enroscar-me no outro. Segurar xícaras aquecidas entre as mãos e sentir aquele velho-conhecido aconchego infantil que faz feliz a adulta que sou.Saibas que fez falta por aqui… o procurei a cada amanhecer, ao abrir a janela e dar pelo sol e sua estranha insistência em dourar a paisagem. Ao anoitecer, quando ao fechar a mesma janela não encontrava sua presença-rastro. Os dias não estavam tão quentes, mas também não estiveram frios.
Espero que no próximo ano, você venha… e fique mais tempo comigo. Esperarei por ti, como todo ano. Em junho, certo?

 


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26. Possuo a doença dos espaços incomensuráveis

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Caríssima A.a,

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O dia vai longe… já é quase hora do almoço do lado de fora dessa janela aberta que sou. Mas, do lado de dentro da pele, ainda estou a amanhecer. Acordei há pouco e fiquei a flutuar diante do livro esquecido aberto, na noite de ontem.

Eu sempre me demoro um pouco mais nas primeiras horas do dia… enquanto, à noite, me precipito… em movimentos muitos. É tão fácil ser-existir quando o breu se estabelece ao meu redor .

A bordo das manhãs banhadas de sol… respiro fundo, atravesso ruas, dobro esquinas — quase sem consciência alguma dos passos que dou. Vou no automático dos movimentos humanos, esbarro em multidões — uma manada humana — que me ultrapassa porque tem pressa, enquanto eu sou como uma xícara de chá.

Aprendi com uma amiga — na minha segunda década de vida — a preparar o famoso ritual do chá. Ela era uma figura solar… tinha imenso apreço pelas manhãs douradas de sol — para cuidar de seu jardim sempre verde — e por fins de tarde aquecidos.

Me ensinou a introduzir uma pequena pausa nos movimentos de vida… abrir uma brecha no tempo-espaço para escolher as ervas e macerá-las entre as mãos, com algum cuidado-calma. Sentir o aroma e impulsionando-o para dentro de si.

— ‘o tempo de espera é essencial’ — disse ao me pedir para apreciar o mundo, o lugar, a realidade e a mim… enquanto ouvia o som oco da água quente-borbulhante cair dentro da xícara — como se fosse o meu próprio íntimo.

Um ritual que repito desde então… curiosamente, às vezes, é como se ouvisse o tic tac do relógio em paralelo ao pulsar do mio cuore. Fecho-me dentro, como se deixasse de existir e de repente, me sinto emergir do fundo — em busca de ar — voltando a vida em pequenos goles.

Impossível não pensar: de quantas esperas é feita uma vida? São tantas pausas necessárias-obrigatórias… porque temos essa maldita mania de acelerar tudo? E o mais engraçado é que sempre nos falta tempo. Sempre deixamos coisas por fazer, acumulamos coisas e mais coisas…

Será que é mesmo o contemporâneo que nos demanda coisas demais ou somos nós mesmos?

Quando criança — eu me lembro — tudo era tão lento-calmo. Eu sabia o lugar dos dias-semanas-meses e o ano tinha seus trezentos e tantos dias. As horas em sala de aula eram intermináveis e eu vivia querendo agilidade. As voltas dos ponteiros, no entanto, não se deixavam seduzir por minhas vontades. Ocupavam-se — lentamente — de cada um dos impiedosos segundos-minutos. Tudo era inteiro-cheio, enquanto hoje tudo é metade…
se dissolve e acaba antes mesmo de começar. E eu já não sei dizer quantos dias tem o ano.

…faz pouco que acordei e os ponteiros já cospem suas onze horas. Tudo é para ontem. O hoje é essa sinuca sem tacos ou bolas nas caçapas! Para onde será que vamos? Me parece tão impossível traçar um mapa para uso próprio, nessa velocidade…

O dia mal começa… e termina. Ao menos há tempo o bastante para essas linhas e uma xícara de chá.

Au revoir

25. Reencontrada em lugares inesperados…

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Caríssima A.a,

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Optei por degustar o latte de sempre — entre alamedas — enquanto me ocupava de “passar a limpo” a missiva de ontem… escrita a bordo de um Coletivo, em meio aos traços da cidade:  prédios, casas, lojas, ruas, esquinas, o sinal ora verde, ora vermelho.

Gosto imenso de apreciar a cidade através das janelas do Coletivo. Degustar com calma dos mesmos cenários, que são outros e são os mesmos — enquanto alinhavo consoantes e vogais combinando-as em frases que são narrativas urbanas.

Quando me sento para escrever… está tudo ‘pronto’… escrito que foi na própria pele — esse logaritmo que me permite escrever em silêncio-movimento. Uma espécie de tatuagem invertida.

Gosto dessa premissa, riscar a pele-avesso-dentro. Rabiscar-me como se fosse o próprio papel ou as paredes, onde C., sempre esperou encontrar traços meus — uma espécie de mapa particular para seus olhos.

Enquanto tatuava o papel… revisitei o trajeto, as pessoas e a mim. Observei a realidade das coisas e suas pausas — tão necessárias para a vida-arte. E ao passar a limpo as minhas notas, obviamente, encontrei outras coisas novas. Ao percorrer o itinerário, alcanço outro ângulo e me divirto com tudo que vejo-sinto-percebo.

Entro por janelas entreabertas… invado espaços-cômodos — quarto-sala-cozinha-banheiro. Ocupo o lugar vago no sofá de uma sala com cortinas ao vento e folheio jornais e revistas. Assisto ao resto do noticiário na TV com suas notícias de sempre… e tropeço em móveis — alguns são bem antigos, outros recém-comprados, nem foram montados ainda.

Observo um cão a fugir de seu humano e quase ser atropelado. Um casal a se beijar no portão de um prédio — despedidas matinais, um até breve que as mãos desenham no ar. Duas meninas atadas num nó quase impossível de desatar — amigas de infância-juventude-vida. Um casal tenta se equilibrar em seus passos, a idade avançada dificulta tudo.

A vida passa tão depressa, minha cara, são pequenas viagens diárias de um Coletivo, com paradas muitas, cenários vários e um mesmo itinerário, por isso, às vezes, salto um ponto antes ou depois, apenas para não me acostumar com as coisas de sempre nos mesmos lugares.

Au revoir.

24. * labirinto, antítese, emblemas

Pois já conheci a todos, a todos conheci
— Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo as vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

T.S.Eliot

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Caríssima A.a

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Sua missiva chegou no final da manhã… e, enquanto lia as suas linhas fui desenhando uma reposta — uma dessas que se escrevem em meio ao silêncio da primeira leitura — quando o tato desenha o contato com o outro. Meu pensamento é inquieto-ágil-ardiloso… um abismo onde salto e vivo em constante queda. A escrita se inicia — como se fosse um jogo de perguntas e repostas — e um punhado de coisas acontece dentro. Fico a navegar por esse oceano que sou… e, às vezes, transbordo em ondas, que chegam a praia…

Quis escrever-te ainda ontem, dentro da noite, mas estava tentando domar as linhas de um capítulo indócil que se recusava a acontecer. O deixei de lado assim que a manhã se debruçou em minha janela. Percebi que não conseguiria evolução alguma e o abandonei.

Tomei um banho… vesti uma roupa leve, preparei uma xícara de chá de hortelã e cascas de maçã e, vim me sentar aqui, para travar esse diálogo, onde lhe falo um bocadito de coisas minhas…

Fiquei algum tempo a imaginar o seu espaço, as suas histórias — esse seu mundo — as transformações. É sempre assim… vamos interagindo e encontrando no outro, alguma coisa nossa. Talvez por isso o interesse seja maior em ler o outro quando “o temos para nós”.

Sempre escrevo aos autores que gosto… foi assim com M.C,. que respondeu e desde então nos aventuramos em longos diálogos. Aprendo a realidade dele e ele a minha. É uma troca e eu tiro muito proveito disso.

Outro dia, ele disse que estava em dúvida entre escrever ou não um romance. Ele tem preferência por contos. Não teme escrever uma história longa, mas se preocupa em não se perder…

Algo tão fácil de nos acontecer…  talvez por isso, por um instante, aquelas linhas foram minhas, como se eu as tivesse escrito à ele e não o contrário. Uma espécie de confissão que ficou à espera da penitência, que não veio…

Mas há outros à quem escrevo… Borges. Eliot. Emily. Jane. Baudelaire e Mário. E acontece algo curioso: quando leio os seus livros — encontro uma espécie de resposta nas entrelinhas, como se a barreira do tempo e espaço se diluísse completamente. Mera geografia das coisas e suas causas.

Soube na semana que passou, ao ler cartas escritas por Ana C., que ela fez exatamente o mesmo que eu — e senti como se partilhasse com ela da mesma insanidade. Ela escreveu para Emily Dickinson em resposta a um de seus poemas e não mais parou. Não sei dizer, contudo, se alcançou resposta. Mas, gosto de pensar que sim ou porque continuaria a lhe escrever?

O que me fez lembrar de ter lido em algum lugar que poemas são missivas deixadas pelos poetas… para nós. Cada poema tem seu próprio remetente, talvez por isso, sejam tão assustadores. O que me leva a inevitável conclusão: Emily escreveu à ela e também escreveu para mim. Minha loucura encontra qualquer coisa de conforto nisso: acredite…

Abraços úmidos e grata pelo diálogo.

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Ps. Talvez agora eu retome o capítulo tão rebelde quanto eu!

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| * verso do poema baltazar graciàn, de Borges  |