06 | se eu tenho medo de pássaros?

sabia laranjeira mariana gouveia
Fotografia. Mariana Gouveia

Assim que aterrissei na pergunta feita com todas vogais-consoantes-e-a-interrogação —uma flecha em pleno vôo, com alvo certo —  ‘por acaso, você tem medo de pássaros?” — voei para longe e alcancei os meus céus de ontem. Acabei por pousar na minha infância, esse lugar particular, que guardo para dias de sol quente porque a minha infância foi um verão intenso, com dias longos, pautados a partir da Aurora.
Uma vez por lá, recordei as tardes em que ancorava o corpo na janela e deixava o olhar avançar por cima dos telhados vermelhos, até alcançar o mar. Investigava atentamente as quatro direções, me certificando de que todas as coisas estavam no seu devido lugar. À leste… estavam os trilhos da ferrovia. A oeste… os eucaliptos do bosque, onde havia um casebre-assombrando… destino das minhas fugas-inocentes. A sul… o azul mar e o cais, de onde os navios partiam e chegavam. Creio não ser necessário dizer que eu me considerava o Norte de todas as direções…
E era por cima daquele mar-imenso — todo blue — que eu encontrava as gaivotas em seus vôos na imensidão do ar. Pequenos pontos em movimentos circulares. Uma ou outra escapava, mas logo era alcançada. Gostava de apreciar suas quedas… mergulhos conscientes em busca de alimento. Eu fechava os olhos para ouví-las arrulhar alto. Tinha a sensação de que zombavam de nossa condição humana: pés-presos-ao-chão.
Mas essa não era a minha condição… eu equilibrava o corpo, abria os braços, sentia o vento, as nuvens… e voava com elas. Ainda hoje, as ouço cantar em minhas lembranças. É uma mistura de mar e céu azul, grandes maços de nuvens e o canto marítimo que me leva de volta para essa casa-corpo-lugar que sou…
Aqui em São Paulo… me mudei para uma alameda com nome de pássaros e, para a minha surpresa, me deparei com o sábia paulistano — uma ave de peito alaranjado que canta na madrugada e anuncia com suas notas altas… a primavera. Ouço a cantoria apenas quando estou na cozinha a ler um livro, a esperar pelo apito da chaleira. Costumavam ser pontuais… cantavam por volta das três, a partir da segunda metade de agosto. Esse ano, no entanto, atrasaram. E com tanta coisa acontecendo nos nossos ares, cada vez mais tóxicos, pensei que não fosse ouví-los. Chegou setembro e nada. As noites silenciosas me incomodaram. Abri janelas e o ar pesado-quente-seco entrou… nada de pássaro-canto-sinal-de-primavera. Engoli seco os meus desconfortos e, eis que, na véspera da primavera, cantaram… e eu tive minha paz de volta.
Há pessoas que reclamam da cantoria, na noite. Eu apenas me divirto quando os ouço… imagino-os em seus galhos a gargalhar dos barulhos humanos. São tantos sons precários-vários… e eles apenas cantam para atrair ‘suas garotas’ para uma dança noturna, demarcar território e ensinam para as suas crias, o seu canto.
Li alguns artigos — escrito por cientistas-pesquisadores — que eles trocaram o dia pela noite… devido ao excesso de barulho da cidade-capital-terra-da-garoa-sampa-metrópole-pauliceia-desvairada. Mas, não me convenceu. Alguns afirmaram que a ave sofre de insônia e vive estressado… achei tudo demasiadamente humano. Não combina com pássaros…
Na Europa, os Rouxinóis, assim como o sábia laranjeira também migraram o seu canto para a madrugada e eu prefiro acreditar que os pássaros — muito mais sábios — encontram um meio de ter voz, ao contrário dos humanos, cada vez, mais mudos e pouco interessados em ouvir. Não à toa, estão a reclamar do cantos na madrugada. De certo é apenas barulho nos ouvidos desacostumados a ouvir.

 

| fotografia. mariana gouveia |

 

Abril, o mais cruel dos meses!

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Eu nunca tive para com Abril uma relação próxima… sempre foi uma espécie de caminho do meio… para se chegar a maio — um dos meus favoritos no calendário, desde a infância. Justamente por suas sonoridades peculiares — o mês das trovoadas.
Sempre tentei relacionar os meses do ano a qualquer coisa minha — para facilitar a convivência, mas nem sempre funciona. Um ou outro mês acabava em suspenso, a deriva — o suficiente para eu me perder dos dias e suas estações inquietas.
Abril, por exemplo, passou a pertencer a Eliot… depois da leitura de seu poema The wast land — e só.
Como nasci invertida… Abril era o mês da primavera-flores-cores-aromas. A época favorita de C., que gostava de sentir o cheiro da flor de laranjeira no quintal de casa. Enquanto eu me aborrecia com o prolongar gradativo dos dias e as noites cada vez mais curtas. Desse lado do atlântico, no entanto, é outono… e, por mais que eu goste dessa estação — ela não pertence a Abril… não combina. Simplesmente não acontece em minha matéria.
E mesmo assim, os dias estão mais curtos… ainda quentes. O outono — estranhamente — foi pontual… chegou na data e horário marcados, expulsando sem cerimônia o verão mais chuvoso dos últimos anos. As noites estão mais frias-escuras e o entardecer acelerado… perfeito para ler poemas em páginas.
Eu fui à prateleira e voltei com Al Berto… que me arrancou o fôlego com um de seus poemas — não nos conhecemos nunca — e tamanho foi o desassossego que precisei escrever ao poeta…

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