02 | tempo. tempo. tempo

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Eu nasci entre anciãos… e talvez por isso sempre me considerei igual a eles. Nunca soube conviver com pessoas de pouca idade. As crianças e seus porquês sempre me aborreceram. A juventude com suas inquietações me perturbavam. E a tal fase adulta-inaugural nunca se adequou à minha pele.
Gostava mesmo era de me sentar na poltrona da sala e dialogar com o nonno. Ouvir suas vivências antigas. Tantas experiências a compartilhar. Aprendia muito com suas narrativas de olhares e corpo cheios. Quando falava de seus dias de menino, o olhar exibia aquele brilho de quem soube viver e aproveitar a infância. Subir em árvores, mergulhar em rios, colher frutas do quintal-vizinho e correr pelos campos. Da juventude veio a sua primeira paixão. Da vida adulta o amor. Errou nas escolhas… e teve tempo de corrigí-las. Aprendeu com o passar dos dias… com o avançar da idade no corpo.
Gostava igualmente… de me juntar as mulheres na cozinha e observá-las somar os ingredientes necessários para suas receitas de pão-bolo-biscoitos. Era mágico vê-las sovar a massa na mesa. Era gostoso crescer ao som do fouet a misturar as claras — efeito de nuvem-neve. Aprendi com elas a esperar… para tudo tem o seu tempo. Não adiante se apressar… às vezes, tudo que se pode fazer, é esperar.
Nunca me preocupei com as somas que faço… nasci na estranha década de oitenta. Dos excessos, cabelos coloridos e roupas elásticas. Assisti Goonies e desejei viver aventuras iguais em minha vida. Fugi de casa algumas vezes… arrumava a mochila e escapava pelos caminhos da cidade em que cresci para viver aventuras. Acabava sempre no mesmo lugar — um bosque com trilhas bem definidas. O guarda responsável me encontrava e levava para casa, devolvendo-me aos meus. Na década seguinte, fui as outros lugares-cidades-países. Me perdi dos meus primeiros mapas-sonhos-ilusões… conheci pessoas. Aprendi idiomas. Mudei… de voz-corpo-pele. Era o tempo seguindo seus ciclos de décadas inteiras. Ganhei diploma-profissão-cenário e voltei para casa para ocupar o quarto da infância. Revi a paisagem de sempre e percorri o “perigoso” caminho das fugas de menina. Encontrei a velha casa no meio do Bosque e ouvi do mesmo guarda “vamos, vou te levar para casa‘. Sorrimos os dois… caminhamos lado a lado as ruas de ontem… e eu soube que ele já era avô e que se divertia contando das minhas fugas de menina, para as netas. Perguntei se não tinha receio de que fugissem como eu E ele, depois de um sorriso largo, disse: se for para imitar alguém, que seja você. Fiquei muda, a existir dentro daqueles belos olhos. Era o meu herói… e se lembrava de minhas fugas, muito melhor que eu.
Refiz o caminho de casa até a escola e passei pela praça onde os velhos-homens jogavam xadrez, nas mesas da praça. Desejava secretamente romper com os estudos e fazer companhia a eles. E foi o que eu fiz, certa vez… tinha onze anos, idade suficiente para seguir sozinha por aquela trilha conhecida. Deixei a mochila no chão e me ofereci a um signore na condição de sua adversária. Recebi dele… as peças brancas. Jogamos a manhã toda. Ele me falou de sua trajetória de homem. Quase oitenta, bambina. tenho filhos (quatro) netos (oito) e uma bela donna. Eu soube como se conheceram. Do namoro e do medo que sentiu na véspera do pedido de casamento. Da alegria que preencheu seu olhar ao vê-la entrar na Igreja cheia. Da felicidade que sentiu ao saber do primeiro filho e tê-lo em mãos. Soube dos desconfortos que os tempos de horror causaram. Das perdas. Dos amigos mortos e da certeza que foi feliz na maior parte do tempo. Empurrei a peça em direção ao Rei… anunciei cheque e interrompi o jogo. Eu não queria vencê-lo. Apenas jogar. Ele sorriu seu descuido com o jogo e seu apreço pela narrativa. Não é sempre que se pode contar a própria vida…
A cada encontro, uma certeza… só envelhece quem vive. Somos privilegiados por não ter ficado pelo caminho. Sigo com os meus experimentos e consciência. E quando penso na soma que se iniciou lá no distante ano de mil novecentos e oitenta e um… digo depois de respirar fundo: quase quarenta. Falta pouco para completar essa soma cheia, que persigo há tempos. Quatro décadas… ciclo-cheio que irei completar e, ao fazê-lo, talvez outro se inaugure… ou não. Eu confesso, que já começo a enamorar-me do prazer que será dizer… meio século de vida! Mas isso vai depender do meu corpo e de Kairos… se assim me permitirem, vou olhar no espelho, me encarar e cantarolar Caetano: e quanto eu tiver saído para fora do teu círculo. tempo. tempo. tempo. não serei, nem terás sido. tempo. tempo. tempo. ainda assim acredito, ser possível reunirmo-nos. tempo. tempo. tempo. num outro nível de vinculo. tempo. tempo. tempo. portanto peço-te aquilo, e te ofereço elogios. tempo.tempo.tempo. nas rimas do meu estilo.

 

| crônica escrita ao som de oração do tempo, clique para ouvir |

01 | Sarà Novembre

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O tempo é a qualidade dos tempos porque nos foi dito:
“Fazei isto em memória de mim”.

Maria Gabriela Llansol


 

Faz algum tempo que não me oriento através do calendário-relógio. Não me importo com o que dizem os dias-horas. Se segunda-terça — setembro-outubro, tanto faz. Eu nunca sei o lugar certo dos dias ou dos ponteiros. Misturo tudo e pronto. Me perco, me afasto e me divirto quando alguém tenta me posicionar nessa realidade frágil. Sempre tem alguém a anunciar que é hora disso e dia daquilo.
Eu sou movida pelo som oco que emana de dentro da caixa-corpo-peito… é ela quem determina certos rituais de existir. O som da máquina de expresso… a preparar o meu café. Das páginas dos livros em movimento diante dos olhos. O apito sonoro da chaleira a preparar o meu chá-mate. E da monótona melodia oca do velho carrilhão, que ressoa diretamente da minha infância… um susto, dois sustos, três sustos.
Consequentemente… não sei se passo tempo demais dentro dos livros que leio ou a bordo dos escritos que transcrevo a partir das emoções que provoco-invento…
E, ao começar a escrever esse texto — em movimento pelas calçadas da cidade — me lembrei que houve um tempo em algumas coisas tinham o seu lugar no tempo-e-espaço das coisas. Novembro, por exemplo, era o tempo dos novelos de lã… usados para confeccionar as luvas para o inverno e como éramos crianças em fase de crescimento… as do ano anterior, dificilmente nos servia, no ano seguinte.
Acontecia novembro e começava a dança das agulhas e dos fios em laços e voltas, contornos e retornos. A mesa da sala ficava cheia de novelos coloridos e enquanto as signoras confeccionam luvas… nos entretinham com as histórias de suas infâncias — e voltavam a ser crianças.