17. Meu monólogo monocórdio…

“E quando hei de despertar desse sonho imaginado
que insiste aqui dentro de mim”

Torre Gia


meu monólogo de dezembro
Passos por calçadas urbanas de ontem

Meu caro…

 

…aconteceu dezembro, ainda há pouco… de repente — sem que eu desse por ele. Soube quando já era outro dia — segunda — e os ponteiros se apressavam para dentro da primeira hora, nesse desencontro temporal, onde nada se explica, tampouco se orienta…

Eu soube — dezembro — e senti o ar mais leve… porque novembro foi pesado-denso-difícil… foi um mês inteiro. Uma espécie de agosto. Foi massa sem fermento sovada na base da marra. Assada sem a leveza de ingredientes misturados com o prazer de ver dobrar o tamanho e, no forno dourar para depois ser sabor agradável. Primeiro para os olhos e depois ao paladar nessa espécie de discurso silencioso, que se esmera em traduções possíveis e impossíveis. Semente que o imaginário faz crescer em segundos.

Não! Novembro dessa vez não foi trovão, tampouco nevoeiro. Foi uma soma ingrata de dias, com seus combinados irregulares de horas insustentáveis.

Eu envelheci uma vida inteira!
Foi excesso de presenças…  e, agora a memória quer apenas que seja esquecimento!

Por isso… respiro fundo e digo em voz alta para seu espanto: aconteceu dezembro! Aqui dentro, no entanto, tudo ainda é qualquer coisa aborrecida.

Os acontecimentos do último mês ainda são recentes e ardem como resto de lenha na lareira. Os abraços ainda pesam em meu corpo. Os acenos em meus olhos… e as sensações ainda não foram para o passado. Insistem em presente-presença.

Sinto minhas mãos a enrolar as linhas soltas-emaranhadas do novelo… que foi novembro! E eu só quero estranhamente minha porção generosa de dezembro.

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Não houve motivos para festa à-Gatsby

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Li em algum lugar que novembro é a sexta-feira do ano… e como sou aquela “estranha passageira” que não se dá nada bem com calendário e suas marcações humanas, fiquei um punhado de tempo a encarar a parede, na tentativa de me acertar com essa idéia.

Nenhum resultado — obviamente… até por gostar imenso de novembro e não ter tanto apreço por sextas-feiras. Afinal, novembro é meu ano-novo, minha estréia para o mundo. O levantar de cortinas da realidade — não combina em absoluto com sexta-feira.

O fato é que estou em fase de avaliar o meu mundo… mais uma mudança não prevista no meio do caminho. Precisei realinhar meus hemisférios e acertar meus fusos e concluir que não estou muito satisfeita com o saldo geral desse 2015.

Gosto de me sentar em algum lugar da cidade e espiar os acontecimentos, ver onde falhei e acertei. Ponderar meus movimentos, como se a vida fosse um tabuleiro de xadrez e eu estivesse a uma peça do xeque-mate.

E no meio de tudo isso, lancei o livro dois de ‘lua de papel’ — mas quem me conhece sabe que não estou satisfeita com o resultado do livro. Xícara meio cheia também é meio vazia, certo? Pois é essa a sensação que acalento no fundo de minha alma porque publicar um livro, não é tudo… sometimes, é melhor deixar guardado no fundo da gaveta, debaixo de um bom punhado de papéis. Mas lá se foi ‘lua de papel’ para o mundo dos papiros. O que me interessa realmente é a estrada percorrida por meus pés. Escrevi a história para mim… porque é isso que sou: uma contadora de histórias, tão amadora quanto é possível ser…

O que mais me trouxe satisfação foram as edições da Plural… mais quatro. Solombra. Rubem. Red. Crepúsculo… especialmente produzida ao longo das quatro estações desse ano para caber dentro de um sábado, como se eu voltasse no tempo e fosse habitar com segurança aqueles meus dias de menina com a vida inteira pela frente, sem pensar-pesar qualquer coisa de futuro e sem nada saber dos grandes nomes da literatura que iria descobrir-amar e ser grata por ampliar sua visão tão estreita de mundo.

Aconteceu Novembro…

…aconteceu novembro — houve um tempo em que novembro era o tempo dos novelos de lã… usados para confeccionar as luvas para o inverno. Como éramos crianças em fase de crescimento… as do ano anterior, dificilmente nos servia, no ano seguinte.

As signoras de minha famiglia se divertiam confeccionando luvas coloridas e os novelos de lã se amontavam por cima da mesa da sala. Nos sentávamos no sofá, perto da lareira e enquanto as signoras brincavam com agulhas e linhas… nos entretinham com as histórias de suas infâncias e voltavam a ser crianças, como nós.

…o sono tem um estranho efeito sobre a infância. Não damos conta de sua chegada. Aterrissa nos olhos e pontua o dia-vida, sem direito a reticências. E ao acordar, nem sempre é dia seguinte, a mesma vida-realidade. Às vezes, é outra coisa.

11. As pessoas tristes não sabem soluçar…

“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo.
Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,
de remos, de montanhas, de balas, de naves, de ilhas, de peixes,
de habitações, de astros, de cavalos e de pessoas.
Pouco antes de morrer, descobre que paciente labirinto de linhas
traça a imagem do seu rosto”

Jorge Luís Borges

 

lunna auguri

 

Caríssima L.,

 

…a noite finalmente desliza por cima do meu olhar. Um avião cruza o céu enquanto eu me perco em direções contrárias. Acompanho seu vôo até onde o meu olhar alcança-acompanha… é como a minha vida-realidade — alcanço tudo e nada.

E, daqui a pouco… começo tudo de novo! Mas, por enquanto, apenas antevejo esse ensaio de vida e morte — morte e vida.

Gostaria de amanhecer dentro do dia seguinte — pular a data… escapar das comemorações de nascimento, que são sempre para os outros. Nunca é para nós, sobre nós porque ninguém se lembra do momento. Não nos pertence. É apenas uma data — no calendário dos homens. Eu não gosto de festa… bolos e velas, pessoas em pares, palavras conhecidas-bonitas. Prefiro pensar como Rubem Alves, que escreveu seu livro ‘desfiz 75 anos’. Tão lindo isso… combina comigo, com ele.

Eu gosto é de sair para caminhar antes da vida despertar nas casas-ruas… e sentir o chão que eu piso. Ser abraçada pelo vazio-silencio. Ultrapassar caminhos e compreender as edificações. Teve um ano que picharam uma frase linda num muro da cidade, e eu sorri, como se fosse um presente para mim.

Gosto de ao voltar… tomar um banho. Vestir roupas limpas… e cumprir meu ritual de espera. Fechar os olhos, como se adormecesse… e só voltar desse lugar, para onde fui, quando o som da chaleira reverbera alto pelos cantos da cozinha. Gosto imenso de aquele apito-sonoro-agudo.

Depois é só avançar seguro pelas horas… acenar aos estranhos e ancorar nos olhos de meu menino. No fim do dia — na última hora — respiro fundo… e ouço a minha própria: “feliz ano novo”.

É quando sei que estou pronta para começar mais um ano-ciclo… nesse meu mapa de vivências. Acendo uma vela-incenso, mordo a maçã para ouvir o delicioso clec que resulta daquela explosão gostosa de fruto-proibido-mordido. E acompanho calmamente… a chama até o fim. E enquanto oscila-inflama-vibra… revisito os anos anteriores — consciente de que vive tudo-e-nada.

Ah! Você não sabe: eu não apago velas, minha cara… considero um estranho ato. A vida quando se apaga: acaba. Deixar arder essa chama, enquanto houver pavio.

 

Au revoir

01 | Sarà Novembre

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O tempo é a qualidade dos tempos porque nos foi dito:
“Fazei isto em memória de mim”.

Maria Gabriela Llansol


 

Faz algum tempo que não dependo de calendário, tampouco de relógio. Não me importa o que dizem os dias-horas. Se segunda-terça — setembro-outubro. Eu nem sempre sei o que dizem os dias e seus ponteiros. Às vezes me perco… me afasto. Mas, na maior parte do tempo estou indiferente à realidade das coisas e suas muitas causas.

Sou movida pelo som oco que emana de dentro da caixa-peito… e determina os meus rituais de existir…

Consequentemente… não sei se passo tempo demais dentro dos livros que leio ou a bordo de lembranças que se orientam nesse meu passado… que durante algum tempo ficaram à deriva.

Decidi nesse novembro que é novo e acontece em minha epiderme aos poucos, de gole em gole de chá de hortelã  — voltar à terapia, ler mais poesias e voltar a escrever diários, mas não vou seguir o curso natural das coisas. Vou no meu ritmo de linhas… aos sábados, pela manhã, entre goles-incensos-velas.

…porque é novembro e o ano é dois mil e catorze e eu faço minhas regras!