É hora de virar a página e escrever o quarto capítulo dessa história…

“Abril é o mais cruel dos meses, concebendo
Lilases da terra entorpecida, confundindo
Memória com desejo, despertando
Lerdas raízes com as primeiras chuvas”.

T.S.Eliot

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Senti há pouco os ventos de abril em meu imaginário inquieto! Fechei os olhos por alguns segundos para levar tudo para dentro — aromas e cores e sensações. Lá fora o dia seguia sua marcha comum… de leste a oeste sem se incomodar com essas insanidades temporais que inventamos para nos guiar-comandar-incomodar.

Amassei mais uma folha do calendário humano e seus dias em fila… não sei para onde foram todos os dias de março, mas foi dentro dele que senti mudar mais uma estação do ano-vida. O outono chegou bem antes do prazo e gostei de percebê-lo na derme — numa espécie de carícia que passa e fica — ao caminhar nos primeiros minutos de uma noite já não mais tão aquecida.

Vim me sentar aqui para espiar o cenário-memória… acendi uma vela verde no canto da mesa — um dos rituais que preservo… e fiquei por um breve instante com os olhos fechados, como quem faz uma prece — repetindo os sagrados versos do poeta Eliot — e se esquece de todas as coisas do mundo.

E enquanto espiava o tremular da chama em meu imaginário… recordei Rubem Alves e sua escrita certeira — ‘Bachelard, no seu delicadíssimo livro “a chama de uma vela”, que nunca será um best-seller, nos lembra que uma vela que queima é uma metáfora da existência humana. Há alguma coisa de trágico na vela que queima: para iluminar ela tem que morrer um pouco. Por isso a vela chora. Prova disso são as lágrimas que escorrem pelo seu corpo em forma de estrias de cera. Uma vela que se apaga é uma vela que morre‘.

Quase corri até a prateleira para pegar — desfiz 75 anos — e ler o restante do texto… mas, voltei a realidade num piscar de olhos e esbarrei na pilha com sete livros… devidamente capitaneada por Susan Sontag — ‘ao mesmo tempo‘ — e seus dezesseis ricos textos… rascunhados pela autora em seus últimos dias de vida.

Folheei as primeiras páginas — saltando o prefácio escrito por seu filho, com quem ainda não me relacionei — e bebi de suas impressões sempre agudas sobre temas, que atualmente os autores recusam, para evitar polêmicas…

Vivemos no estado contemporâneo das coisas, onde é preciso concordar, baixar o olhar e se manter em fila indiana. De um lado está a esquerda e do outro a direita. E o bando e seus cabrestos de ocasião nos apontam e dizem: escolha um lado e as armas… eu os espio do alto de minha preguiça e penso em uma xícara de café. Já escolhi um lado faz tempo… o de dentro!

‘a dimensão do tempo é essencial para a prosa da ficção,
mas não para a poesia’…

Susan Sontag

 

Diário de minhas insanidades, 11

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Caminhei pela avenida em linha reta, sem pressa… a contar os passos e medir as distâncias. Fui pontual… passei pela nova moça, de quem nada sei — as dezenove horas — e fui direto ocupar o meu lugar de sempre.

W., atravessou a porta pouco depois… enxugava as mãos em uma toalha de papel e finalizava um gole de qualquer coisa — um chá, provavelmente. Disse ‘boa noite’ num tom monocórdio… e tomou seu lugar, a minha frente.

‘como está a sua semana? Voltou a escrever?’… respirei fundo, pausado e demorado. Nem era preciso dizer que não. Meu corpo era todo silêncio. Minha matéria estava anestesiada e a alma embrulhada para viagem.

Faz alguns dias que o cansaço — essa entidade bizarra — se apoderou de minha anatomia… se espalhando por meus músculos e nervos, como um vírus.

Queria ficar em silêncio… com o olhar detido num ponto qualquer — atravessar a matéria humana de W., saborear a quietude de meus gestos, a ausência de sons… e foi o que fiz. Fiquei em transe absoluto… sem dizer palavra, emitir som ou ouvir a própria voz, tampouco a dela.

Foi como fechar os olhos e adormecer… mergulhar no oceano, cessando os sons da vida como a conhecemos. Afundar na própria memória… e ouvir um único som, que para mim é sempre estranho e novo, agradável e manso — uma espécie de trilha sonora: os passos por cima de folhas secas, em pleno outono, ao lado do nono, pelo bosque de minha antiga cidade… o meu porto seguro, o cuore do meu mundo — o lugar onde mio cuore pulsa mais forte, fazendo vibrar a pele, palpitar as têmporas. Minha própria morte e vida e falência e ausência e fim…

Foi como desaparecer por um punhado de segundos… um piscar de olhos — o tempo de um sorriso.

Pela janela aberta…

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…abri a janela na primeira hora dessa manhã, para espiar a cidade e suas sombras. Ainda é verão lá fora… e os raios dourados de sol resvalam pesado sobre o asfalto, que arde a realidade e todas as suas coisas demasiadamente humanas.

Revirei um punhado de lembranças — antigas e recém-chegadas — movida que fui para dentro desse baú — ‘que já não se pode fechar de tão cheio’ — e fui espalhando por cima da cama as minhas memórias todas…

O cansaço se apoderou de minha superfície… busquei um saco grande de lixo e fui jogando tudo dentro: as verdades e as mentiras…

Fiz uma festa na garagem… vendi toda a mobília por um punhado de notas, que juntas, não conseguirão pagar o café que eu tomo ali entre esquinas.

A casa ficou vazia… o caderno é novo… e dizem por aí que o ano também. O corpo, no entanto, ainda insiste em transbordar esse velho ontem, que esvaziei…

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

mia couto

Esta é a hora das minhas confidências,

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A você, meu menino…

 

…amanheceu junho por aqui, com todo o cuidado possível. Dia cinza, suavemente esbranquiçado, com vento agradavelmente frio a percorrer os hemisférios de nós dois.

Por entre as nuvens — lá no alto, distante — o sol insiste em aparecer, mas o dia não parece se interessar pelos raios do astro rei… que não demonstra força  nesse momento, para se fazer prevalecer. Coisas do outono/inverno… essa estação da minha alma!

Reparou que nós dois nascemos no outono? Cada qual ao seu tempo e lugar… você em junho e eu em novembro! Você cá… e eu lá! Com um oceano inteiro entre nós dois…

Quando cheguei a São Paulo na primeira vez e provou do hálito insuportavelmente quente da cidade, acusei o desespero e passei, a escrever a frase: “hoje eu só queria fechar os meus olhos e despertar dentro das manhãs de junho” em todos os cadernos e também na pele e na alma, feito tatuagem que não se apaga. 

Era uma espécie de desejo que eu acalentava dentro, como se fosse um presságio… a vida me avisando que você era o meu destino… o meu norte! Um eco, se pronunciando a partir de minhas entranhas… 

Eu  me lembro da nossa primeira vez… você desceu a ladeira, vindo em minha direção… e, enquanto caminhava, vindo ao meu encontro, com as mãos imediatamente dentro dos bolsos da calça jeans, os passos lentos, o olhar cabisbaixo e nos lábios um sorriso miúdo, quase inexistente… eu viajava — estranhamente — em minhas próprias lembranças, em busca de sua figura.

Eu o sabia muito antes daquele encontro, mas não havia memória bastante para sustentar a certeza, que eu acalentava em minha epiderme. Procurei por você… em ruas intrépidas, calçadas irregulares, esquinas várias… revisitei em poucos segundos, todos os lugares onde estive! Eu o sabia… muito antes de vê-lo mergulhar no fundo de minha pele, com seu abraço imenso… mas você não estava em lugar algum de minha matéria.

Eu insisti… revirei todas as minhas coisas. Fiz do avesso o verso… e nada! Confessei à você… em voz alta — eu te conheço de algum lugar”… foi exatamente quando vi o seu sorriso dobrar de tamanho. Seu olhar vigiar cada traço do meu rosto e ir fundo no castanho dos meus olhos. — “de onde seria?” — você quis saber, porque existíamos dentro da mesma certeza.

Ficamos em suspenso… a calcular nossos passos, movimentos, lugares, paisagens!
Eu recordei, as muitas vezes, em que estando sozinha, sentia uma sombra passar por mim, com seu perfume suave de vento e seu movimento de nuvem. A pele rasgava-se em arrepios contínuos. O coração acelerava e o ar percorria caminhos outros… eu sentia saudades, mas nunca soube de quem!

Eu  confesso: nunca acreditei em destino… mas depois de tropeçar em tua imagem — estranha e conhecida — guardar todos os teus traços em minha alma para sabê-lo mais tarde. Pensar em você durante dias inteiros, no silêncio de minhas frases, na solitudine de meus passos, no barulho das multidões, nos cantos onde eu me escondia e nos degraus onde me sentava… reconheci que existe esse lugar, onde tudo é fim e começo ao mesmo tempo… esse lugar que nos espera, como se tivéssemos partido dali, para correr o mundo, cientes que um dia retornaríamos…

Talvez o mito grego faça sentido… somos duas partes de um mesmo ser, fatiados por um Deus e (re)unidos por outro…

Hoje, a sua matéria alcança os setenta anos e eu só consigo pensar que cheguei faz pouco tempo… não me ocupo dessas somas, nem mesmo gosto de matemática. Gosto apenas de olhar para você e reconhecê-lo enquanto mar onde eu navego. O abraço no qual me deixo ficar, um pouco mais a cada novo dia. Eu não me lembro  quando o amei pela primeira vez… talvez tenha sido quando nos sentamos para festejar seu aniversário na padaria da Bela Vista, com uma fatia de bolo e uma vela que terminou por queimar os seus dedos. Ou não! Talvez tenha sido quando caminhamos de braços dados pela Liberdade, a caminho do Sesc Carmo para um almoço não planejado… sendo eu a menina a tagarelar premissas e você a recusar promessas. Você tinha um olhar triste naqueles dias e o mesmo se passava comigo. Mas quando nos encontrávamos, o mundo não se atrevia a conjugar distrações. Estávamos aprendendo, só não sabíamos ainda, a ser apenas nós dois…

Não sei como aconteceu para você, mas eu… quando dei por mim, já o amava, mas não esse amor de corpo, pele… de estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas… que aproxima e distancia, que se satisfaz com o pouco que, também é muito — tudo.

Gosto imenso quando seu olhar encontra o meu e quando seus dedos reinventam meus traços… gosto quando você abre os braços para eu me encaixar e adoro quando seu sorriso reflete em mim, pouco antes de sentir seus lábios junto aos meus. Fecho meus olhos, como a primeira vez e sei quem sou, mas nunca onde estou…

Amanheceu junho, amore mio… e nós dois amanhecemos juntos!
E cá estou eu, amando-te com o sabor imutável da primeira vez.

 

Bacio en tuo (mio) cuore