6 ON 6 | Outono…

A moça do tempo avisou sobre a chegada do ou.to.no em meados de março… a mesma data anotada no calendário. Mas, na paisagem o que se fazia sentir era o ve.rão… que deixou para fazer tudo arder em seus últimos instantes. Tomou fôlego e caprichou nas ‘águas de março’ e nas altas temperaturas…

Abril chegou e as brisas do ou.to.no se fizeram sentir… os raios do sol perderam intensidade e agora chegam à janela de maneira sutil. É um dourado gostoso que lembra a infância e a calda de caramelo que cobria o pudim de leite.

Eu sou toda ou.to.no… essa com certeza é a estação da minha amalgama…

As cores do outono

as cores — gosto desse tom desbotado que vem nos lembrar que tudo tem começo.meio. e fim. Isso é sagrado. Envelhecer é uma palavra linda, tanto quanto fenecer. O ou.to.no me faz prestar atenção nas cores e nessa pausa demorada, aprendo a lidar comigo.

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os aromas — eu tomo café-chá o ano todo (independe da estação) mas quando acontece o ou.to.no na minha pele… gosto de ouvir o apito na chaleira no meio da tarde, quando os tons se reinventam… apreciar o chiado gostoso da água quente caindo na xícara. O tempo de espera (meu momento precioso) é outro. Fico ali a apreciar a paisagem que sou, a recordar meus dias-realidade-tempo-vida-outro-lugar-outras-pessoas e tudo se mistura num gole demorado de chá…

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a volta das meias — se existe um estação gostosa para ser dois é o ou.to.no, que favorece o encaixe-enlace. O abraço demora um bocadito mais. Os sorrisos, as mãos dadas… é tão mais fácil partilhar da realidade. O caminhar desliza pelo chão e vai do passado ao futuro em poucos segundos.

Pausa para o café...

as  pausas no meio da tarde — o vento sopra, as nuvens aparecem e o sol foge do céu. Dou uma escapada dos meus afazeres… e vou à cozinha. Água para esquentar. Manteiga na frigideira. Prensa francesa. Pó de café. Polenta cortada em fatias. Atraído pelos sons e cheiros, meu  menino vem para a cozinha e o relógio cancela o tic tac…

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o retorno das mantas — época gostosa para ficar cobrir os pés-pernas e ler um livro. É tão gostoso adormecer aquecida pelo correr das páginas, entre histórias. Ontem a noite me fez companhia ‘silêncio na era do ruído’ de Erling Kagge… e nessa noite serão os poemas de Ana Cristina César…

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anoitece mais cedo — mais tempo para ficar dentro. Cortinas fechadas. Casa aquecida. Meias. Passos pequenos. Manta. Mangas compridas. Xícara entre mãos. Ingredientes na pia. Fogo aceso. Mesa posta. Filme. Livros. Nós dois…


…eu passei a chamar essa estação de fall ao estudar inglês. Me encantei com a frese  “fall of the leaf” (queda da folha).


 

Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

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BEDA | Sebo praia dos livros

Sebo Praia dos Livros 2

Eu gosto imenso do outono… e isso não é uma novidade para quem me conhece pessoalmente ou através de meus escritos. Espero pelo outono com o mesmo prazer que espero por uma deliciosa xícara de chá, de preferência na companhia de um bom livro.

Dias menos quentes… nublados. Tardes frias… regidas por rajadas de ventos. Madrugadas silenciosas. Manhãs menos azuis… lenços coloridos no pescoço e a cidade para tragar a cada passo.

São Paulo é uma cidade para se andar. Subidas insanas. Descidas perturbadoras… a exibir o inesperado-inusitado. Cada bairro é uma pequena cidade. Um cuore a pulsar acelerado no meio do peito.

No verão eu prefiro o conforto dos carros com ar condicionado… que me leva de porta a porta sem me impor aos desmandos dos trinta e tantos graus que faz a anatomia da cidade turva. É difícil respirar-pensar-existir… o que me deixa alheia aos espaços urbanos e tudo que eles tem para me oferecer. De dentro do carro, a cidade se afasta… se ausenta do olhar, que fica reduzido a mínima emoção.

Se fosse hoje um dia quente… esse cenário teria ficado para trás uma vez mais. Não teria percebido suas cores-aromas-fôrmas-formas-sons-sabores… combinações insólitas. Uma pausa para o passo-olhar-sentir. Aquele tempo precioso de espera, que eu tanto aprecio.

A vitrine do sebo praia dos livros te acena com discos de vinil e alguns livros que narra a vida antiga desse país represado em milhares de esquinas. Um convite para quem veio do século passado. Recordei as manhãs de sábado a vasculhar as melhores lojas de discos em busca do melhor do Rock… e o ritual de passar o pano flanelado nos dois lados do long-play, posicioná-lo no aparelho e conduzir a agulha a primeira faixa. Adorava ouvir aquele chiado gostoso e o som que se espalhava por todos os cômodos da casa.

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sebo praia dos livros


Rua Bernadino de Campos, 33
Metrô Paraíso


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31 | em compasso de espera…

DSC_0132O calendário disse há dez dias que o outono começou, mas nada aconteceu. Sigo em compasso de espera…

Quero dias mais curtos e noites mais longas. Virar de páginas e auscultar o som da chaleira com suas promessas de chá.  A brisa no alpendre com seus aromas de ontem. Os pés enfiados em meias. Passos lentos pela casa, indo de cômodo em cômodo. A alma inserida em pausas e silêncios demorados. Os morangos nos cestos e as velas acesas por cima dos móveis. Taças cheias e garrafas vazias. O edredom enrolado no corpo.

Quero uma tarde cinza-fria-quieta. O filme de sempre na tela. O milho a estourar na panela. Os livros de poesias para as leituras entre goles. E as caminhadas por calçadas de pedras. Ingredientes anotados num pedaço de papel. Mesa posta para nós dois. A canção no repeat a dizer-se.

Quero o sorriso pequeno-estreito-no-canto-dos-lábios quando alguém me perguntar: “você está tão quieta hoje, está tudo bem?” sabendo que dentro o outono acena com suas folhas secas e ventos frios a carregar-me de um lado para o outro.

Quero a promessa-premissa contida na fala do poeta Drummond: “o outono é uma estação mais da alma que do coração”… porque é a estação da minha alma, dessa fase da vida. É o estado do corpo-matéria-casa com suas venezianas fechadas. É voltar para casa e encontrar as coisas todas no seu devido lugar.

Por isso a espera… o chá, no entanto, ficou pronto primeiro!

21 | a esperar pelo outono…

Aconteceu o outono lá fora… no meio da tarde de ontem. No entanto, nada mudou aqui dentro. É a mesma fase-estação. Ainda se demora a anoitecer e o dia irrompe a realidade numa pressa insuportável. As calçadas ainda se ressentem do grito do sol que doura tudo que toca… da face dos prédios à fisionomia carrancuda do asfalto.

E a ‘moça do tempo’ repete as mesmas falas diariamente, numa estranha pontualidade, espremida entre notícias de tudo e nada. O mundo anda em conflito. Alguma vez não esteve? Tudo seco-quente-abafado. Nada disse sobre as famosas ‘águas de março fechando o verão‘ que ao que tudo indica ficou na poesia do homem-maestro-poeta-jobim. E ela avisa com sua voz de menina-bem-educada: “é o verão mais quente dos últimos quarenta anos”.

Me distraio com a notícia e enfileiro os anos… que não alcanço. Relembro o que não tenho. Quarenta anos. Me aborreço. Vou avançando pela geografia espacial das coisas a partir do ano que me viu emergir em vida. Me dou conta de que quando desejo alcançar qualquer coisa… tudo se torna longe-distante, impossível. Cartas embaralhadas por outras mãos…

Em dois passos… estou diante da prateleira, com Kafka em mãos. Retorno a Gregor Samsa, que ao acordar vê o próprio corpo em metamorfose… transformado num gigantesco inseto. Deixo tudo cair sobre a mesa da cozinha e entre goles re-leio esse conflito literário…

E eu que nunca observei uma barata, nem mesmo depois de aspergir veneno por cima de seu duro dorso — sei que esperneia suas inúmeras patas, em desespero final, sabendo ser seu derradeiro fim.

Repito a frase da moça do tempo: ‘o verão mais quente dos últimos quarenta anos’ e tento me posicionar nessa estranha geografia das coisas. Livros lidos. Filmes assistidos. Diálogos permitidos. Coisas e causas…

Recordo um caminhar a dois. Um silêncio de quem aproveita o que é caminho. Trilha de terra… troncos-galhos-folhas e um som de água ao lado-perto. Era o dia dele. Outra soma de anos… da qual a minha dependia. Não me lembro quantos. Mais de meio século… é a única certeza que tenho. Nunca fui boa com somas individuais. Sempre me perco a caminho da primeira década. Me distraio com coisas que carrego na memória, onde tudo se mistura. Ingredientes de uma vida.

Lembro do beijo que deixei no rosto dele e do abraço forte-firme-apertado que recebi. Fiquei por ali uma vida inteira. É assim que aprendi a viver… uma vida inteira.

 

| na vitrolinha… ‘de onde vem’|

Era uma vez um outono…

…nos encontramos num abraço rápido… um enlace calmo, um encaixe natural de dois corpos estranhos que não se orientam, apenas se atrevem pelos vãos uns dos outros. Nos investigamos em pequenos impulsos contidos… e, assim nos perdemos em meio a premissas sem promessas — nos vemos depois‘ — e deixamos sorrisos como migalhas pelo chão… que nem sabia direito dos nossos passos. Mas ele não se foi completamente… ficou em minha anatomia, preenchendo-me como ninguém antes ousou fazer.

E enquanto caminhava pelas ruas da cidade — indo de um lugar ao outro, sem destino ou mapas que me orientasse — cada novo ser, que tropeçava em minha geografia… me devolvia a ele.

Era uma vez um encontro… um momento, um sorriso fatiado e dois olhares bem acesos a refletir realidades em estado de colisão. Era uma vez uma premissa-promessa, feita ainda em meus tempos de menina: ‘um dia você vai encontrar alguém e saberá imediatamente que encontrou o seu outono‘…