Beda | Aconteceu agosto e lua de papel

lua de papel lunna guedes

Agosto aconteceu — de novo — no calendário dos homens… e nessa soma insana de dias + meses + ano… chegamos a esse estranho resultado onde um + uns… é igual a oito.

É um bocadito estranho olhar para trás… dar pelo tempo em movimento e fazer essas somas todas. Ainda ontem, pela manhã, era ano novo e já estamos em agosto… o mês do BEDA — blog every day august… um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues, incentivar as postagens criativas e comemorar o Blog Day.

Eu fiz uma pausa na primeira hora para observar o que foi promessa futura e de repente estava a folhear dias-meses-anos. Acabei por tropeçar no ‘dia seguinte’ ao instante em que decidi escrever ‘lua de papel’… isso foi há exatos quatro anos!

Lua de Papel, no entanto, começou a nascer dentro de uma velha casa no Alto da Lapa… na década passada. Eu estava na cozinha… a trabalhar a massa de pão, quando a campainha anunciou a chegada da minha futura personagem — que chegou trazida por outras mãos.

Cai rendida naqueles olhos tristes-pesados-opacos… degustei de sua pele frágil e me alimentei de sua alma a se afogar dentro do corpo. Sua existência acusava falência, mas ela ainda tentava sobreviver a si, seus desejos-e-vontades contrários aos conceitos de vida que lhe foram ensinados.

Fiquei muda, em suspenso… a observá-la dentro da pequena distância, a apreciá-la como se fosse uma tela de Hopper. Ela existia a um passo do abismo e tentava evitar o próximo passo. Pouco ou nada dizia. O cuore trôpego falseava ao pulsar e ela fazia imenso esforço para exibir um mísero sorriso nos lábios mas, o olhar náufrago… não colaborava.

Era a premissa que eu precisava para reconhecer minha dependência. Eu preciso da realidade para escrever. Eu não invento vidas-mundos, eu apenas transcrevo e ao fazê-lo escolho o que descartar-melhorar-ou-piorar.

A realidade das coisas e suas causas é o Norte que desnorteia a minha escrita…

 


Participam:  ClaudiaFernandaHanna Obdulio — Mari


 

beda interative-se

 

Anúncios

BEDA | não lembrar…

Deixo-te com tua vida | teu trabalho | tua gente | com teus pôres do sol
e teus amanheceres | semeando a confiança | deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis

Mario Benedetti

Caríssima M.,

 

A noite está quente e não há ventos como eu tanto gosto. As folhas não se mechem. A natureza parece ter feito uma pausa… como se tivesse deixado de existir por alguns segundos. Uma pequena eternidade… a dissolver-se em algum momento

Talvez o mundo tenha se acabado e eu não tenha me dado conta.
Talvez nada mais reste lá fora e eu esteja aqui dentro, a viver contrários.
Um mundo a parte do mundo… onde esse personagem novo se deixa aconchegar.

Conversamos pela manhã… e ela me falou do quanto lhe faz falta as lembranças perdidas. Eu não sei como é não lembrar. Já me esqueci de onde tinha deixado as chaves, o celular, um livro. Estava distraída com as coisas da vida literária. Pouco atenta aos meus movimentos. Mas, bastou rever os passos, refazer o traço — e pronto.

Às vezes, fico presa as histórias, atrelada aos personagens… a imaginar o que o autor não narrou: o dia seguinte. Não sou de pensar o futuro. Não sou dada a antecipar o amanhã. Leituras de mãos-cartas-búzios-estrelas. Não preciso saber. Não sinto vontade. Mas, ao finalizar uma trama bem escrita, antevejo esse futuro impossível e a ele me agarro durante horas inteiras.

O passado é esse lugar seguro… meu porto. Onde lanço âncora e finco a ponta da lapiseira. É o ponto de partida da minha escrita. Não lembrar seria perturbador, com certeza. Olhar no espelho e não entender meus traços. Atravessar a matéria. Não compreender o que vai na pele — por dentro e por fora —, se o que sinto é: frio-calor-fome-cansaço-medo-tristeza-alegria. Não saber-me enquanto pessoa-bicho. Como no livro ‘para sempre Alice’, de Lisa Genova. Ainda ouço a frase da personagem, vítima de Alzheimer — “não suporto a ideia de um dia olhar para você, para esse rosto que eu amo, e não saber quem você é”.

Ao mesmo tempo, sinto que seria interessante trabalhar um personagem sem passado… sem rosto — e descobri-la através das relações da vida apagada, conforme a história avançar capítulo a capítulo.

Escrever sem Norte será um desafio, uma novidade. Sempre recorri ao backstory como guia. Talvez seja o mesmo que sair as ruas sem mapas.

O que somos para o outro? — foi a primeira anotação que fiz quando o dia surgiu lá fora. Estava anestesiada. Agora, de posso de uma xícara e chá, penso que será instigante trabalhar a partir da resposta… com a qual convivo desde o meu ingresso na faculdade de psicologia.

O olhar não é nosso melhor sentido… mas é o que mais usamos. Eu prefiro o tato. Certa vez me disseram que para aprender a enxergar, é preciso fechar os olhos. É a melhor maneira de liberar os outros sentidos. Uma vez no escuro, sempre vamos em busca de tato.

— parece que vou passar um bom punhado de horas-dias, com esses argumentos todos. Deseje-me sorte…

Au revoir

 


 

beda

Do verbo: observar…

Chovia forte… e algumas pessoas se comportavam feito cães… ao passarem pela porta. Menos ela… que fechou seu guarda-chuva dourado com uma calma impressionante. Removeu o lenço laranja do pescoço e o acomodou na bolsa, entre as alças. Caminhou pelo espaço, deslizando suave… pelo piso molhado de pegadas alheias.

Reparei em seu tom de voz — havia urgência de vida e uma necessidade de desacelerar. Um propósito antigo: ir mais devagar. Mas sempre que precisava lidar com os nãos que a vida lhe impunha, acelerava o passo, o gesto, as palavras e se via agonizar em seus epitetos.

Chovia forte… e do olhar transbordava insatisfação. Engoliu o café em dois goles, sem sentir sabor-calor. Apenas bebeu… enquanto os dedos repetiam no balcão o som dos ponteiros. Um incansável tic tac… um seguir sem rumo. Girar, como faz a terra, o sol e todos os planetas do sistema.

Percebi qualquer coisa de vazio a pulsar em sua pele por tudo aquilo que não aconteceu, mesmo depois de traçar cuidadosamente os planos de vida. O futuro chegou e passou… mas, nada aconteceu. Estava sozinha, com uma história de vida que não se escreve-conta. Estava sozinha!

Chovia forte… e a cada trovão, deitava no ar um suspiro, que lhe custava vidas.  Cansada… repensava os anos vividos, sem somá-los. O medo não a deixava ter fé. Pediu outro café, na esperança de sentir qualquer coisa, ainda que fosse o amargor do líquido que ela aprendeu a engolir nas infância, com um pedaço seco de pão.

Fechei o livro de poesias que lia… acendi um cigarro imaginário e traguei pesado no ar, enquanto ouvia ‘la vie en rose‘…

Chovia forte… e fazia dias que não riscava linhas… ah, a realidade! Eu nunca sei quando será mapa e em qual direção irá apontar.

colegas de faculdade,

as“Algo em nós sempre ri,
sonha e fracassa”.

— Jacques Marie Émile Lacan —


Eu tinha quase vinte… ela vinte e seis. Eu era recém-chegada… e ela parecia estar lá desde sempre, a ocupar a mesma cadeira. Ela tinha olhos cor de caramelo… e os meus eram cor de café expresso. Sentava-se na primeira fileira de cadeiras… e eu mais ao fundo.

Não nos falamos nas primeiras vezes… apenas nos olhamos rapidamente — e confesso: foi como tropeçar…

Ela tinha marcas na pele: um dragão e uma meia lua em estado Minguante… eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina: joelho rasgado, sangue a escorrer, raiva a gritar junto aos punhos fechados… e pessoas a me segurar. Eu nunca fui alguém fácil de ser contida…

Eu ouvia Led Zepelim… ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto… e eu de vermelho. Eu era febril… ela delirava! Não me lembro qual das duas falou primeiro. Me lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das inúmeras tardes alaranjadas.

Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade… e eu era justamente o contrário. Talvez por isso, tenha sido muito assustador, mas completamente saboroso…

Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan… e eu ainda estava a descobrí-lo. E foi alucinante partilhar de sua paixão.

Ela cursou apenas o primeiro ano de psicologia… surtou e acabou internada. Não me deixaram vê-la.

As drogas que a fizeram dormir… roubaram toda a sua sanidade e capacidade de fazer de mim uma possível lembrança. Passei a ser apenas uma estranha e nada mais… alguém a quem agredir com gestos e palavras. Alguém a quem ignorar, acusar… alguém que vai embora e não deixa saudades. Alguém…

…a estranha que ficou com um caderno de notas onde ela escreveu a mesma palavra dúzia de vezes: “desire“… sinal de loucura? Para mim era prova irrefutável de in-sanidade. Eu quis ser ela. Provar da coragem que seus músculos vestiam… mas eu era apenas a menina que vestia um sorriso bobo-apagado-e-completamente-sem-graça nos lábios — sem muita disposição para pessoas… algo que sempre a fez sorrir.

Eu queria ser sozinha… viver no canto oposto às multidões. Ser silêncio… sem rastro. Uma sombra no chão que se apaga quando a noite acaba. Ela queria ser infinita, andar no meio da turba, fazer barulho — gritar cada vez mais alto até arrebentar os tímpanos alheios.

…e, mesmo assim ela veio ficar em mim, com seu sorriso imenso, seus gestos sempre indóceis, olhares imensos-gulosos… e ao dizer seu nome foi como ouvir um eco: Catarina…