BEDA | Uma crônica urbana…

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Duas mulheres caminham pela manhã da cidade paulistana… e seu centro equivocado de traços inexatos, por onde também ia o meu olhar e de arrasto o meu passo.

De mãos dadas… elas avançavam pelo meio da multidão, que se abriu para dar passagem, muito a contragosto. Os olhares cresceram — incomodados — por sobre elas. Duas mulheres  — mãe-filha-irmas-amigas-vizinhas-amantes… futuras-inimigas?

Por que não? Eram Duas mulheres a mercê dos olhares intrigados… a vigiar atentamente cada movimento, na tentativa de decifrá-lo. À passagem delas cochichavam desaforos numa indústria de preceitos-e-conceitos equivocados.

Um homem chamou a atenção do outro com uma cotovelada —- leve — na altura das costelas. Mostrou a cena… que para sua surpresa e desagravo — não despertou interesse. Era dia de jogo de campeonato. Ainda há quem use rádios portáteis para saber as coisas do mundo — aquele lugar sempre igual, com as mesmas coisas de sempre.

Como em um palco… a platéia acompanhava cada passo das duas Damas… que seguiam — indiferentes ao que é mundo-vida-alheia —, com seus passos ritmados-encaixados um ao outro. Não havia pressa, apenas cuidado com o lugar do passo. É de conhecimento de qualquer paulistano a quantidade de buracos existentes nas calçadas e vias da cidade e são sempre os tornozelos as maiores vítimas.

O que acontecia bem diante de nossos olhos era uma espécie de dança em meio aos sons urbanos… essa caixa de abelhas. Quase ouvi Carlos Gardel a girar na vitrola do nonno…

De repente, sem nenhum aviso… as duas explodiram em uma gargalhada ritmada. Deixando no ar um rastro de felicidade não autorizada. O corpo todo participou do gesto, motivado por um diálogo íntimo que ninguém — nem mesmo eu — alcançou. Se esticaram músculos e nervos. Alguns corpos dobraram de tamanho. Outros entraram em colapso. Imaginou-se tudo-e-nada…

Olhei ao redor — como quem observa uma vitrine em liquidação — e num movimento pequeno… lancei um olhar de soslaio a tempo de compartilhar de um sorriso livre-gostoso-descompromissado-lindo… que se dilui no ar.

Duas mulheres de mãos dadas, vidas atadas e sorrisos compartilhados com uma multidão acostumada ao que é alheio… nunca seu.

 


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BEDA | criação de personagem…

…em todo o processo de escrita, a fase em que estou a conhecer meus personagens é a preferida. É como sair para andar ruas, dobrar esquinas, esbarrar multidões durante a travessia da faixa de pedestre. Alguém lhe sorri. Um estranho, com suas feições estranhas. Seu desenho de corpo em movimento. Seu olhar de horizonte distante-impossível e tudo que não sei.

Cada pessoa é um personagem com a melhor das histórias arquivadas em suas memórias, prontas para serem escritas. Gosto imenso de observar os moldes e me debruçar-deitar sobre eles, adequando primeiro o meu corpo, depois a minha alma-memória.

Conhecer um alguém não é a mais fácil das tarefas… já convivi com algumas pessoas durante anos para, em algum momento, perceber que eu nada sabia sobre aqueles humanos-estranhos com quem pensava partilhar vivências.

No entanto, conhecer personagens requer muito mais de si que do outro, sobretudo é preciso cuidado para não transpor certos limites. Gosto quando descubro alguém que conquista a minha atenção no café entre esquinas, fazendo com que eu me sinta à vontade para espiar suas fôrmas e formas. Absorvo gestos… repito-os. Dou aos meus lábios o movimento de palavras. Moldo o meu corpo. Me esqueço-abandono. É como recomeçar a vida, reaprender a fala, os passos. Descobrir a vida-realidade.

Não que seja tudo realmente novo, algo de mim permanece intacto-preservado. Eu primeiro vou atrás da pessoa-personagem. Passado algum tempo, caminho lado-a-lado com essas figuras para, só então, tê-las em mim. E novamente Pessoa “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Chega um momento em que o olhar no espelho me atravessa e pousa imediatamente na figura-outra. Tomo banho. Uso outras roupas. Bebo café. Transcrevo notas-falas-cenas. Vivo outra vida. Me levanto, saio às ruas, converso com conhecidos (que são estranhos a esse ser que habita a minha pele) e me deito com uma-duas-três figuras novas-inéditas.

Tudo é sempre (quase) novo e eu sou (quase) sempre outra.


 

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BEDA | Pessoas são personagens…

Na noite de ontem, durante uma diálogo entre esquinas-e-cafés… um autor me disse — quase como quem se confessa —, ‘não quero encontrar personagens em todas as pessoas‘. Eu ri — como sempre faço nessas horas —, enquanto observava em paralelo a ele e a mim.

É só o que vejo… pessoas são personagens — figuras únicas-turvas-abstratos. Um punhado de linhas que se puxadas forma alguma coisa… um novelo, talvez.

Não me lembro se ele disse alguma coisa depois disso, mas eu guardei sua frase num dos bolsos da calça, para acariciar enquanto caminhava pelas ruas da cidade. E lá estava eu, sentada em minha mesa ao canto, a degustar o meu tradicional latte quando a mesa foi ocupada por esse casal — estranho-imaturo —, com suas filosofias de botequim. Discutiam o que não existia: a relação. Dois estranhos a dizer silogismos nada categóricos.

Ela insistia… ‘você não me ouve’. Ele, com sua cara de homem-de-meia-idade… cansado-das-coisas-que-não-vê-não-ouve-não-sabe, retrucou… muito mais por estar acostumado a fazê-lo… ‘claro que ouço’. E ela continuou seu diálogo solitário-pardo. Um pássaro sem azul. Beberam o café… e foram embora exatamente como chegaram. Ele estava muito mais preocupado com o jogo do Barcelona que com a parceira. Ela… talvez arrumasse um amante mais jovem, homem bonito e sorridente, sem dinheiro e que precisasse dela para ser Homem algum dia.

Pouco depois, um casal de senhoras ocupou a mesa para falar dos netos que nada fazem-sabem. Tem idade pouca. Vontade nenhuma. Passam os dias com os olhos grudados nas telas de seus smartphones e comem no automático de seus gestos, cada vez menores. São figuras sem vida, que nomeiam as coisas sem, no entanto, identificá-las. Não olham… não ouvem… não sabem… um dia serão velhos — pensei. Ops! Essa era a outra cena.

Enquanto isso, no sofá da área externa, duas meninas se descobriam entre provocações singulares. Tudo era toque. Pressa. Uma queria mais. A outra queria menos. Beijaram-se depois de um divertido duelo. Ninguém se ocupou das duas figuras. Não houve reclamação-queixa-palavra. As duas estavam livres… confortáveis no meio de uma tarde que não sabia se sol-chuva-nuvens. Sabia apenas que era preciso passar.

…e passou!


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Brinca-se com o passado… alguém quer jogar?

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

— Fernando Pessoa —

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Já devo ter dito aqui o quanto gosto de andar de Coletivo pela cidade… principalmente a bordo de um Trólebus — conhecidos por suas pausas no meio das ruas paulistanas — e foi ao voltar para casa, pouco antes da tempestade de verão dessa tarde que ao ocupar meu lugar e me distrair com a paisagem do bairro de Higienópolis, em movimento… percebi que tenho passado um bom punhado de tempo com o olhar detido à janela —  seja de um Coletivo, seja do quarto ou de algum outro lugar.  Há muitas vidas lá fora e não nego meu interesse por aqueles humanos fantasiados de pessoas.

A minha paixão por janelas começou na infância… quando ao sair de casa, me deparava com figura folclórica de dona M., que a bordo de seus setenta anos e tantos anos — tempo demais para uma menina de quase seis compreender — , se dedicava a sua tarefa favorita: tomar conta da vida dos vizinhos a partir de sua janela. Ela sabia das chegadas-partidas. Ouvia conversas inteiras, pela metade e inventava possibilidades que, às vezes, determinava o caos em nossa rua.

Eu era a única a me divertir com aquela “figura mística”… que sabia se fazer ouvir. Sua voz alcançava as duas esquinas de nossa rua e invadia qualquer cômodo da nossa casa. Sempre acreditei que ela adorava quando um ou outro vizinho ralhava com ela. Tinha para mim que ela era solitária. Os dois filhos viviam em outro país e nunca a visitavam. O marido tinha morrido havia alguns anos — o coração simplesmente parou. E ela ocupava a mesma casa-grande desde os anos quarenta… pela manhã limpava os enormes cômodos e fazia bolinhos para ninguém. Sua casa era a única da rua a não receber visitas durante o ano. Era sempre quieta-e-silenciosa. Sem sons de criança no quintal… apenas um velho gato-branco-folgada passeava por cima do muro, mas não era dela, embora o alimentasse com bolinhas de carne, que ela mesma preparava.

Nas vezes em que me sentava no portão de casa para esperar pelo babo… tinha vontade de ir até ela e dizer ‘olá’… mas C., não a suportava por causa das fofocas que fazia. Tinha horror a língua felina dela, embora nunca tivesse sido alvo de suas fofocas. Nunca atravessei a rua… apenas lhe sorria e sentia qualquer coisa de empatia em seus gestos menores… qualquer coisa de sorriso em seus lábios, qualquer coisa de lágrimas em seus olhos.

Ela — rapidamente —, fechava as cortinas com as duas mãos num gesto rude…  e desaparecia. Eu ficava a observar o formato da janela, as cortinas em movimento de vento e o sol a resvalar sorrateiro na parede da casa com os três números bordados na fachada.

Ela foi a minha ‘primeira tela de Hopper’… e, às vezes, como hoje… lamento não ter lhe dito ‘olá’… de não oferecer a ela um instante de companhia. Foi estranho me deparar com a janela de sua casa: fechada… o lugar abandonado e uma placa de ‘vende-se’ amarrada no portão… mas, com ela aprendi a espiar realidades, imaginando-as a partir dos personagens que vez ou outra se precipitam ao olhar.

No caminho de casa, esbarrei nas janelas da Santa Casa, no alto… e graças ao sinal fechado pude observar atentamente a fisionomia do velho prédio e avistar um grupo de pessoas em abraços de ‘nunca mais’…