6 on 6 | Preto & Branco

Fui até a prateleira buscar por um livro-poeta-versos que me servisse de barco-mar… queria navegar por esse punhado de dias-semanas-meses de dois mil e dezoito. Gosto de ao chegar em dezembro pensar que o ano é como uma bobina — daquelas antigas — em que se pode retroceder e avançar a fim de visitar o que foi e não foi.

Voltei com Eliot — esse homem-senhor-poeta com sua inabalável fé na magia do que é invisível. Amém


das coisas que incomodaram

1 — Sigamos então, tu e eu / enquanto o poente no céu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a mesa; / Sigamos por certas ruas quase ermas, / Através dos sussurrantes refúgios / de noites indormidas em hotéis baratos…

com luciana nepomuceno

2 — Ruas que se alongam como um tedioso argumento / Cujo insidioso intento / É atrair-te a uma angustiante questão… / Mas não perguntes: “qual?” /  Sigamos a cumprir nossa visita…

com as meninas na pavão

3 — E na verdade tempo haverá / Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça, / Roçando suas espáduas na vidraça: / Tempo haverá, tempo haverá / para moldar um rosto com quem enfrentar / Os rostos que encontrares…

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4 — Tempo para matar e criar, / E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos / Sobre o teu peito erguem, mas depois deixem cair uma questão…

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5 — Tempo par ti e tempo para mim / E tempo ainda para uma centena de indecisões, / E uma centena de visões e revisões, / Antes do chá com torradas…

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6 — E na verdade tempo haverá / Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei?” e “Ousarei?” / Tempo para voltar e descer os degraus, / Com uma calva entreaberta em meus cabelos / (Dirão eles: “como andam ralos os teus cabelos”) / — Ousarei  /  Perturbar o universo? / Em um minuto apenas  há tempo / Para decisões  de revisões que um minuto revoga…

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…daqui a pouco será outro ano, outra vida e eu também serei outra, mas levarei cada tecitura na memória e nas ranhuras do corpo. Grata a todos que foram fios dessa preciosa teia.


* trechos do poema “a canção de amor de J. Alfred Prufrock — tradução de Ivan Junqueira.

 

 

Cilene Mansini | Fernada AkemiIsabelle Brum  
Maria VitóriaMariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega

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Crônica urbana…

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Duas mulheres caminham pela manhã da cidade paulistana… e seu centro equivocado de traços inexatos, por onde também ia o meu olhar e de arrasto o meu passo.

De mãos dadas… elas avançavam pelo meio da multidão, que se abriu para dar passagem, muito a contragosto. Os olhares cresceram — incomodados — por sobre elas. Duas mulheres  — mãe-filha-irmas-amigas-vizinhas-amantes… futuras-inimigas?

Por que não? Eram Duas mulheres a mercê dos olhares intrigados… a vigiar atentamente cada movimento, na tentativa de decifrá-lo. À passagem delas cochichavam desaforos numa indústria de preceitos-e-conceitos equivocados.

Um homem chamou a atenção do outro com uma cotovelada —- leve — na altura das costelas. Mostrou a cena… que para sua surpresa e desagravo — não despertou interesse. Era dia de jogo de campeonato. Ainda há quem use rádios portáteis para saber as coisas do mundo — aquele lugar sempre igual, com as mesmas coisas de sempre.

Como em um palco… a platéia acompanhava cada passo das duas Damas… que seguiam — indiferentes ao que é mundo-vida-alheia —, com seus passos ritmados-encaixados um ao outro. Não havia pressa, apenas cuidado com o lugar do passo. É de conhecimento de qualquer paulistano a quantidade de buracos existentes nas calçadas e vias da cidade e são sempre os tornozelos as maiores vítimas.

O que acontecia bem diante de nossos olhos era uma espécie de dança em meio aos sons urbanos… essa caixa de abelhas. Quase ouvi Carlos Gardel a girar na vitrola do nonno…

De repente, sem nenhum aviso… as duas explodiram em uma gargalhada ritmada. Deixando no ar um rastro de felicidade não autorizada. O corpo todo participou do gesto, motivado por um diálogo íntimo que ninguém — nem mesmo eu — alcançou. Se esticaram músculos e nervos. Alguns corpos dobraram de tamanho. Outros entraram em colapso. Imaginou-se tudo-e-nada…

Olhei ao redor — como quem observa uma vitrine em liquidação — e num movimento pequeno… lancei um olhar de soslaio a tempo de compartilhar de um sorriso livre-gostoso-descompromissado-lindo… que se dilui no ar.

Duas mulheres de mãos dadas, vidas atadas e sorrisos compartilhados com uma multidão acostumada ao que é alheio… nunca seu.

 


beda interative-se

Criação de personagem…

…em todo o processo de escrita, a fase em que estou a conhecer meus personagens é a preferida. É como sair para andar ruas, dobrar esquinas, esbarrar multidões durante a travessia da faixa de pedestre. Alguém lhe sorri. Um estranho, com suas feições estranhas. Seu desenho de corpo em movimento. Seu olhar de horizonte distante-impossível e tudo que não sei.

Cada pessoa é um personagem com a melhor das histórias arquivadas em suas memórias, prontas para serem escritas. Gosto imenso de observar os moldes e me debruçar-deitar sobre eles, adequando primeiro o meu corpo, depois a minha alma-memória.

Conhecer um alguém não é a mais fácil das tarefas… já convivi com algumas pessoas durante anos para, em algum momento, perceber que eu nada sabia sobre aqueles humanos-estranhos com quem pensava partilhar vivências.

No entanto, conhecer personagens requer muito mais de si que do outro, sobretudo é preciso cuidado para não transpor certos limites. Gosto quando descubro alguém que conquista a minha atenção no café entre esquinas, fazendo com que eu me sinta à vontade para espiar suas fôrmas e formas. Absorvo gestos… repito-os. Dou aos meus lábios o movimento de palavras. Moldo o meu corpo. Me esqueço-abandono. É como recomeçar a vida, reaprender a fala, os passos. Descobrir a vida-realidade.

Não que seja tudo realmente novo, algo de mim permanece intacto-preservado. Eu primeiro vou atrás da pessoa-personagem. Passado algum tempo, caminho lado-a-lado com essas figuras para, só então, tê-las em mim. E novamente Pessoa “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Chega um momento em que o olhar no espelho me atravessa e pousa imediatamente na figura-outra. Tomo banho. Uso outras roupas. Bebo café. Transcrevo notas-falas-cenas. Vivo outra vida. Me levanto, saio às ruas, converso com conhecidos (que são estranhos a esse ser que habita a minha pele) e me deito com uma-duas-três figuras novas-inéditas.

Tudo é sempre (quase) novo e eu sou (quase) sempre outra.


 

beda

Pessoas são personagens…

Na noite de ontem, durante uma diálogo entre esquinas-e-cafés… um autor me disse — quase como quem se confessa —, ‘não quero encontrar personagens em todas as pessoas‘. Eu ri — como sempre faço nessas horas —, enquanto observava em paralelo a ele e a mim.

É só o que vejo… pessoas são personagens — figuras únicas-turvas-abstratos. Um punhado de linhas que se puxadas forma alguma coisa… um novelo, talvez.

Não me lembro se ele disse alguma coisa depois disso, mas eu guardei sua frase num dos bolsos da calça, para acariciar enquanto caminhava pelas ruas da cidade. E lá estava eu, sentada em minha mesa ao canto, a degustar o meu tradicional latte quando a mesa foi ocupada por esse casal — estranho-imaturo —, com suas filosofias de botequim. Discutiam o que não existia: a relação. Dois estranhos a dizer silogismos nada categóricos.

Ela insistia… ‘você não me ouve’. Ele, com sua cara de homem-de-meia-idade… cansado-das-coisas-que-não-vê-não-ouve-não-sabe, retrucou… muito mais por estar acostumado a fazê-lo… ‘claro que ouço’. E ela continuou seu diálogo solitário-pardo. Um pássaro sem azul. Beberam o café… e foram embora exatamente como chegaram. Ele estava muito mais preocupado com o jogo do Barcelona que com a parceira. Ela… talvez arrumasse um amante mais jovem, homem bonito e sorridente, sem dinheiro e que precisasse dela para ser Homem algum dia.

Pouco depois, um casal de senhoras ocupou a mesa para falar dos netos que nada fazem-sabem. Tem idade pouca. Vontade nenhuma. Passam os dias com os olhos grudados nas telas de seus smartphones e comem no automático de seus gestos, cada vez menores. São figuras sem vida, que nomeiam as coisas sem, no entanto, identificá-las. Não olham… não ouvem… não sabem… um dia serão velhos — pensei. Ops! Essa era a outra cena.

Enquanto isso, no sofá da área externa, duas meninas se descobriam entre provocações singulares. Tudo era toque. Pressa. Uma queria mais. A outra queria menos. Beijaram-se depois de um divertido duelo. Ninguém se ocupou das duas figuras. Não houve reclamação-queixa-palavra. As duas estavam livres… confortáveis no meio de uma tarde que não sabia se sol-chuva-nuvens. Sabia apenas que era preciso passar.

…e passou!


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