BEDA | inspira-me…

Eu busco inspiração nas pessoas… em seus movimentos de vida e diálogos de momento. Gosto de provar de seus contornos len-ta.men.te. Ouví-las durante suas distrações… e avançar por dentro, até me misturar de tal maneira que não sei mais quem sou.

Não são todos as pessoas que encontro pelos caminhos que me inspiram. Apenas as que despertam em mim… aquele precioso minuto de silêncio. Gosto de me calar… perceber-ouvir-sentir.

É como acender um cigarro e tragar pesado… lançando no ar pesadas baforadas de nada. Eu não fumo! Mas gosto imenso dessa cena que me remete a tantas autoras-minhas.

Eu costumo sair para caminhar nas primeiras horas da manhã, antes que o sono atormente os meus olhos e me obrigue ao travesseiro. Gosto da perspectiva das calçadas… de onde posso apreciar as cores a sofrer mutações. As janelas abertas para a manhã. As pessoas com seus passos apressados-equivocados a tropeçar na realidade…

Às vezes, paro alguns instantes na Banca de jornal.
Leio rapidamente algumas capas.
…são sempre as mesmas noticias às segundas-feiras.

Atravesso a rua… cumprimento um desconhecido apressado que passa por mim. Vejo amigos se abraçando num reencontro não programado. Atendo um telefonema. Quem ainda se lembra de usar o telefone para essa estranha finalidade em dias tão contemporâneos? A moça-com-sua-voz-de-sexta-feira — carregada de sotaque — fala tão rápido que eu não consigo saber o que está a me oferecer alguma coisa.

Entro no café entre esquinas… peço meu latte e me sento no balcão — depois de alguns alôs-e-olás. Descubro que minha caixa de entrada está lotada. Respiro fundo e vasculho a realidade… esbarro em um casal se dissolvendo em palavras agudas. Uma mãe a sacudir o filho. A criança escapa… corre-atravessa-a-rua.

Rotina alterada. Gritos. Freadas bruscas… a criança nem sabe o que fez. A mãe — com o cuore fora do peito — a alcança. Dispara falas-gestos-corretivos-sem-efeito. A criança — a bordo de sua inocência — parece achar tudo muito exagerado.

A vida volta a normalidade… uma estranha se senta ao meu lado. Lamenta a quase morte-da-menina. Saia da farmácia com dúzias de remédios para a voz-garganta-nariz-olhos-sofrimentos-eternos-da-mente-e-do-cuore. Morreu no lugar da menina. A moça espirra-tosse-reclama do outono… e dispara falas sobre o assunto de todos os dias: algum político foi preso. Aquele velho-conhecido discurso sobre corrupção do qual me afasto len-ta-men-te…

Um estranho se senta do outro lado… coloca sobre o balcão o copo brando de latte, um livro-conhecido — 1984 de George Orwell — com marcações coloridas… e um pequeno caderno com Hopper na capa. Me interesso… seria ele o personagem que procuro para me habitar-ocupar. Me apresso por sua figura. Tomo emprestado seus moldes.

Ele percebe meu interesse. Sorri… corre o olhar por minha figura. Desbrava-me… e se apressa em falas bobas-agudas. Tudo e nada. Sobe o dia-lugar-café-livro-mundo. E eu lamento sua fala.

Bebo o que resta de café no copo. Me despeço… ainda tenho um punhado de coisas por fazer. Calçadas para andar. Pão para comprar. Meio fio onde me equilibrar. Um personagem para encontrar. Um punhado de páginas para ler. Uma folha que se desprenderá do alto de alguma árvore para colher. E uma crônica sobre as manhãs de abril… para escrever.

 

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BEDA | Pessoas são personagens…

Na noite de ontem, durante uma diálogo entre esquinas-e-cafés… um autor me disse — quase como quem se confessa —, ‘não quero encontrar personagens em todas as pessoas‘. Eu ri — como sempre faço nessas horas —, enquanto observava em paralelo a ele e a mim.

É só o que vejo… pessoas são personagens — figuras únicas-turvas-abstratos. Um punhado de linhas que se puxadas forma alguma coisa… um novelo, talvez.

Não me lembro se ele disse alguma coisa depois disso, mas eu guardei sua frase num dos bolsos da calça, para acariciar enquanto caminhava pelas ruas da cidade. E lá estava eu, sentada em minha mesa ao canto, a degustar o meu tradicional latte quando a mesa foi ocupada por esse casal — estranho-imaturo —, com suas filosofias de botequim. Discutiam o que não existia: a relação. Dois estranhos a dizer silogismos nada categóricos.

Ela insistia… ‘você não me ouve’. Ele, com sua cara de homem-de-meia-idade… cansado-das-coisas-que-não-vê-não-ouve-não-sabe, retrucou… muito mais por estar acostumado a fazê-lo… ‘claro que ouço’. E ela continuou seu diálogo solitário-pardo. Um pássaro sem azul. Beberam o café… e foram embora exatamente como chegaram. Ele estava muito mais preocupado com o jogo do Barcelona que com a parceira. Ela… talvez arrumasse um amante mais jovem, homem bonito e sorridente, sem dinheiro e que precisasse dela para ser Homem algum dia.

Pouco depois, um casal de senhoras ocupou a mesa para falar dos netos que nada fazem-sabem. Tem idade pouca. Vontade nenhuma. Passam os dias com os olhos grudados nas telas de seus smartphones e comem no automático de seus gestos, cada vez menores. São figuras sem vida, que nomeiam as coisas sem, no entanto, identificá-las. Não olham… não ouvem… não sabem… um dia serão velhos — pensei. Ops! Essa era a outra cena.

Enquanto isso, no sofá da área externa, duas meninas se descobriam entre provocações singulares. Tudo era toque. Pressa. Uma queria mais. A outra queria menos. Beijaram-se depois de um divertido duelo. Ninguém se ocupou das duas figuras. Não houve reclamação-queixa-palavra. As duas estavam livres… confortáveis no meio de uma tarde que não sabia se sol-chuva-nuvens. Sabia apenas que era preciso passar.

…e passou!


beda

Do verbo: observar…

Chovia forte… e algumas pessoas se comportavam feito cães… ao passarem pela porta. Menos ela… que fechou seu guarda-chuva dourado com uma calma impressionante. Removeu o lenço laranja do pescoço e o acomodou na bolsa, entre as alças. Caminhou pelo espaço, deslizando suave… pelo piso molhado de pegadas alheias.

Reparei em seu tom de voz — havia urgência de vida e uma necessidade de desacelerar. Um propósito antigo: ir mais devagar. Mas sempre que precisava lidar com os nãos que a vida lhe impunha, acelerava o passo, o gesto, as palavras e se via agonizar em seus epitetos.

Chovia forte… e do olhar transbordava insatisfação. Engoliu o café em dois goles, sem sentir sabor-calor. Apenas bebeu… enquanto os dedos repetiam no balcão o som dos ponteiros. Um incansável tic tac… um seguir sem rumo. Girar, como faz a terra, o sol e todos os planetas do sistema.

Percebi qualquer coisa de vazio a pulsar em sua pele por tudo aquilo que não aconteceu, mesmo depois de traçar cuidadosamente os planos de vida. O futuro chegou e passou… mas, nada aconteceu. Estava sozinha, com uma história de vida que não se escreve-conta. Estava sozinha!

Chovia forte… e a cada trovão, deitava no ar um suspiro, que lhe custava vidas.  Cansada… repensava os anos vividos, sem somá-los. O medo não a deixava ter fé. Pediu outro café, na esperança de sentir qualquer coisa, ainda que fosse o amargor do líquido que ela aprendeu a engolir nas infância, com um pedaço seco de pão.

Fechei o livro de poesias que lia… acendi um cigarro imaginário e traguei pesado no ar, enquanto ouvia ‘la vie en rose‘…

Chovia forte… e fazia dias que não riscava linhas… ah, a realidade! Eu nunca sei quando será mapa e em qual direção irá apontar.

03 | Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre…

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Caríssima R.,

A manhã é essa coisa esbranquiçada a gritar movimentos desatentos por todos os lados. O cão, como de costume: dorme, indiferente aos movimentos do dia, que segue sua sina de sexta-feira.

Eu não  sou uma pessoa de sextas-feiras… é um dia de excessos-enganos-desaforos. Eu vou para o canto do corpo-casa… para ficar quieta, alheia. Prefiro as segundas-feiras… sol ameno nas manhãs coloridas, nuvens esbranquiçadas pouco depois do meio dia, um livro de poesia sobre a mesa, um latte…

Sou uma pessoa comum, que gosta de ir mais devagar. Acordar aos poucos e percorrer pequenas distancias. Sentir as superfícies… passo a passo. Tomar conta dos espaços. Sentir as texturas das paredes ou apenas me perder nas arquiteturas dos prédios e casas… enquanto o cão faz suas visitas aos postes e árvores.

Eu gosto imenso de um fim de tarde com sabores de chá silvestre… uma canção a se repetir: o som crescente e rouco de um velho blues, pouco antes das seis. A página de um caderno de capa vermelha vazia, a espera das palavras que irão moldar ‘memórias futuras’.

Gosto de ir até a prateleira e voltar com um livro! Dessa vez… voltei com Moby Dick, lido incontáveis vezes. Gosto imenso das sombras que se desenha em minha superfície.

“Ainda podemos desistir, mesmo hoje sendo o terceiro dia.
Vê! Moby Dick não te procura. És tu, que loucamente, busca por ele!”

Estou presa a sua figura, desde que se atreveu a ocupar a cadeira vaga a minha frente. Eu já tinha reparado em você. Eu costumo chegar antes às pessoas. Percebê-las… tragando tudo que são e não são para o meu imaginário. Você pareceu saber disso. Não se aproximou imediatamente…

Sua fuga ainda se repete em minhas lembranças… a sua figura, indo em direção as calçadas. Passos indócis de um lado para o outro, enquanto deitava no ar pesadas baforadas. E eu guardei essa curiosa cena para o futuro-improvável. Está lá, escrita, num dos capítulos da história que você ajudou a existir.

Você falou de si — por míseros segundos — e eu fiz o que sei fazer: ouvi as palavras que soltava no ar num quase-sem-voz. Não sei o que pretendia, mas fiquei com a sensação de que esperava algo diferente do que teve para si.

Quando você disse: ‘eu volto’… não levei a sério, confesso. As pessoas, dificilmente voltam. Isso me incomodou em algum momento, mas com o tempo, me acostumei as despedidas. Você, no entanto, voltou… e me brindou com promessas futuras, a mais preciosa de todas: a sua amizade — minha Moby Dick.

 

Au revoir