18 | dos livros que eu coleciono…

Minha paixão por livros começou na infância! — mas nunca fui uma colecionadora de livros. Embora tivesse a casa duas bibliotecas distintas que pertenciam as adultos e não a mim.
Eu tinha uma dúzia de livros — favoritos — lidos e re-lidos um sem-fim de vezes. Estavam sempre ao alcance de minhas mãos. As poesias de Emily Dickinson, Goliarda Sapienza, e Amélia Rosseli tinham seus lugares de destaque em meu criado-mudo. Eu preferia as pequenas pilhas de livros em cima da minha mesa de estudo a vê-los enfileirados em uma estante.
Prateleiras repletas de livros era coisa para a Biblioteca pública — um dos meus lugares favoritos na cidade —, que eu visitava semanalmente e de lá saía com dois livros, com prazo de devolução. E a escolar, para onde eu fugia diariamente — o meu esconderijo quase secreto, onde eu tinha uma cúmplice, que me apresentou a Fiodor Dostoiévski, Charles Baudelaire, Agatha Christie e tantos outros, que eu lia em segredo…

Pilha de livros
minhas próximas leituras

Ao me mudar para São Paulo, trouxe dois ou três livros comigo — escolhidos com o cuidado de quem tem consciência do vôo… e não do pouso. Na semana seguinte à minha chegada, ao andar pelas ruas do centro velho, esbarrei numa livraria… entrei e ao vasculhar o cenário-lugar, esbarrei no exemplar de Álvaro de Campos — companhia das letras — e o levei comigo. Estamos juntos e felizes desde então.
Nesse mesmo dia, conheci a Biblioteca Mário de Andrade, fiz meu cadastro e passei a ser figura constante no sagrado templo literário paulistano — preservando o ritual de não comprar livros, preferindo tê-los comigo pelo tempo do empréstimo.
Mas, no ano seguinte ao meu pouso… descobri a Livraria Cultura — conjunto nacional — e me deixei seduzir pela proposta indecente: pegar um livro na prateleira e ir me sentar em algum lugar… como se fosse a sala de casa, para ler sem compromisso de compra. Embora, às vezes, saísse de lá com as mãos cheias e os bolsos vazios. Toda a minha coleção de Borges veio de lá…

Coleção de poesias da companhia das letras
Meus livros de poesias… coleção companhia das letras

E, como a quantidade de livros aumentou significativamente… meu menino providenciou uma prateleira de livros, feita com madeira de demolição. Ficou linda… uma dúzia e meia de livros meus-nossos, lidos e re-lidos, enfileirados e organizados em ordem alfabética…
Mas, a mania de espalhar livros pelos cantos da casa  não se perdeu… e vez ou outra, eu precisava sair recolhendo-os para devolvê-los — consciente de que não ficariam lá por muito tempo.

Meus livros favoritos na caixa
Livros lidos e re-lidos incontáveis vezes

Quando nos mudamos para Moema (zona sul de São Paulo) adquirimos caixas de feira envernizadas. Colocamos uma sobre a outra, ao lado de minha mesa de trabalho… apenas para facilitar o acesso porque ao escrever, sempre recorro a algum livro. Ao ler, faço o mesmo. Vou para a cozinha-sala-banheiro e levo um ou outro livro comigo.
Não existe melhor maneira que cumprir um ritual de espera… uma xícara de chá e um livro em mãos faz com que toda e qualquer espera seja apenas um hiato entre um momento e outro…

artesanais na prateleira
minha coleção de livros artesanais, todos editados e costurados (um a um) por mim… #orgulho

Com as caixas de feira, no entanto, adquiri outro hábito… o de descer todos os livros, limpá-los e re-organizá-los… separando os lidos dos não lidos, criando pilhas que serão levadas aos sebos — lugares incríveis que a cidade inventa e reinventa — para venda-troca. Já tenho bem mais que duas dúzias de livros e o número de favoritos aumentou consideravelmente desde a minha chegada. Os de poesias seguem em maior número e, creio, que tal condição é imutável. Mas, o ritual de ir à Biblioteca e tomar emprestado dois livros que serão lidos no tempo do empréstimo — ainda que precise ser renovado — permanece. Certos hábitos — saudáveis — merecem ser preservados.
E eu gosto imenso de pensar nas mãos-olhos-nervos-e-músculos que passaram pelo exemplar que hoje me pertence — por um punhado de dias…

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coletiva

10 | Como se lê poesia?

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Dizem que o tempo ameniza / Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece / Como os músculos, com a idade
Emily Dikcinson

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Fui à prateleira e voltei de lá com um livro de poesias — o outro, o mesmo de Jorge Luis Borges. Coisa bastante comum por aqui porque como eu escrevi ontem: a poesia me ensinou a ler entre goles de café-chá — praticamente são um mesmo aroma em minha pele anestesiada por versos.
Mas, sempre que abordo esse assunto, uma mesma pergunta se repete em meu cotidiano, como aconteceu ontem: como se lê poesia?
E, dessa vez, eu gastei um punhado de tempo a pensar uma resposta. Repeti a pergunta em meu avesso, algumas vezes e quase que instantaneamente comecei a cantarolar: “chega de saudade a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que, não sai de mim, não sai de mim, não sai” — poesia de Vinícius e música do maestro Tom Jobim…
Recordei o primeiro livro — pequeno — e seus versos em idioma outro, a esfarelar-me. Não perguntei a ninguém como ler… apenas o li e senti cada um dos versos, nos olhos, na pele-alma e ainda os tenho na memória.
Eu não tinha um manual de instruções sobre como proceder, tampouco a orientação de uma pessoa. Segui meus instintos para ler, entender e sentir os versos, que despejaram em mim uma melancolia úmida-única… que me calou.
Com aqueles versos, eu entendi que a morte era traiçoeira e agia na calada de meu fôlego. Era possível morrer no arrepiar da derme, anestesiada pela intensidade dos versos e voltar à vida ao fechar das páginas — foi uma descoberta incrível para a menina que eu era.
Depois desse primeiro momento… encontrei outros tantos livros-poetas por aí — uns não ecoaram em mim… outros, apenas rasparam suavemente minha derme, como um esbarrar apressado pelas ruas da cidade, sempre em movimento. Enquanto outros me deixaram exposta a sentimentalidades estrangeiras.
Entendi que poemas têm sonoridade… e são como músicas — a gente só precisa entender qual ritmo a pele aprecia. Eu me apaixonei por Bach aos nove anos… que replicou em mim aquela sensação primeira e é justamente o que eu busco ao ler e ao escrever.
A maioria de nós, no entanto, não tem tal consciência… desconhece a sensação, porque somos desatentos por natureza. Mas, está tudo lá, no fundo de nós, em estado de espera e, em algum momento tudo dispara-acontece e o estado de espanto se precipita. São notas a ressoar no vazio que somos — “dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços apertado assim, colado assim, calado assim” — e acontece esse emergir em vida-morte-fim-começo-desfecho. É a resposta a perguntas ainda não feitas. O silêncio que precisamos quando todos os sons nos angustiam porque ler poesia é ler-se… e, em algum momento a pele goza do arrepio sagrado da primeira vez.

Amém.

9 | A poesia me ensinou a ler…

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“a palavra escrita me encarnou em um corpo onde eu podia viver. O corpo-letra. Ao fazer marcar no papel, com a ponta dura da caneta, entrei no território das possibilidades. As manchas da minha pele primeiro rarearam, em seguida desapareceram. A literalidade que assinala meu estar no mundo, fazendo de mim uma geografia em que os sentimentos escavavam quase mortes, encontrou uma mediação. Pela escrita eu tornava-me capaz de transcender o concreto, transformar impotência em potência. Fui salva pela palavra escrita quando comecei a ler — e (talvez) em definitivo quando escrevi. E — importante — quando fui lida”.
— Eliane Brum —

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Não me lembro dos detalhes, aliás, de nada me lembro… o que tenho é coisa alheia. Eu acordei cedo. Era sábado. Uma manhã colorida. Primavera… e o cheiro de laranja vem em ondas do passado… que é meu, mas não vive em mim.
Fecho os olhos, respiro fundo e sinto o aroma, vejo as cores, as formas e o cenário da cozinha… mesa quadrada ao meio e os armários escuros por toda parte. No alto estão as panelas penduradas e eu gosto de ouvir o som do aço — como sinos — quando o vento passa pela janela.
Estou preguiçosa… ainda é cedo. Me sento na cadeira com almofada — deixada ali para que eu possa alcançar a mesa. Era figura miúda-pequenina. Pernas e braços curtos. Diziam que eu iria crescer… e isso de fato aconteceu — anos mais tarde, com certo atraso.
Olho para a figura dourada nebulosa da mulher mais incrível do mundo, vejo seu sorriso branco e a ouço dizer — ‘buongiorno bambina‘ — num sem-voz cuidadoso. Ela sempre soube que abrir os olhos e acordar eram coisas diferentes em mim.
Eu ainda durmo… ela me entrega uma xícara de leite quente-caramelado e volta aos seus afazeres… tecer uma missiva para um de seus velhos amigos de envelope. Eu gostava de espiar os movimentos da caneta no papel, que eram como trilhos… e eu sempre imitava o som da locomotiva em seu ritual de chegadas-e-partidas. Ela achava graça… e repetia comigo aquele som bobo cin cin pon pon, cin cin pon pon ritmado, como se tivéssemos embarcado em uma viagem-particular.
Me distraio com alguma coisa… nessa idade, meu imaginário estava insaciável. Pouso o olhar em um livro de poesias em cima da mesa, por cima de outras tantas coisas e faço como os cães, viro a cabeça para espiar o título. Reconheço as letras e num esforço particular… consigo pronunciá-las enquanto palavras — repetindo-a em voz alta. Título e Autor.
C., sempre prestava atenção a todos os meus gestos… e ao contar essa história, revela que fez enorme esforço para não transbordar. Calou-se e apreciou a primeira leitura, sem me incomodar. Foi, segundo ela, o ponto de início… não parei mais. Lia tudo que encontrava… nas paredes-muros-pedaços-de-papel.
Do que eu realmente me lembro? — de um poema numa manhã de sábado, mesmo cenário. Aos cinco anos… escrito num pedaço de papel. Chamava-se ‘felicità‘ — felicidade — e o autor falava naquelas linhas, de suas emoções mais sinceras.
Depois de ler aquela espécie de lista de coisas particulares… fiquei a deriva, com a sensação de que o poeta tinha tentado arrancar beleza onde parecia não haver nenhuma. Eram coisas simples, que eu fazia todos os dias… que todos fazem, de maneira quase mecânica-natural — “escovar os dentes, molhar o rosto com água fria, enxugar na toalha felpuda, por água no fogo e preparar o café, cortar o pão, passar manteiga, abrir a janela e espiar a cidade feia“.
Fiquei um punhado de minutos a pensar naqueles versos… a sentí-los em mim. Peguei um pedaço de papel, caneta… e rabisquei minhas emoções. Me lembrei das palavras de C., — a poesia é uma pausa na realidade. O poeta respira fundo enquanto fecha os olhos e sente. Cada vírgula é uma generosa porção de ar que leva para dentro. Cada verso é algo que ele escolhe guardar, como se fosse um baú de madeira.
A poesia me ensinou a ler e a escrever… a prestar atenção nas coisas feias-bonitas-alegres-tristes. Me ensinou a respirar e a fechar os olhos. A ficar quieta… fazer silêncio e compreender que símbolos podem ser atribuídos por outros e são, mas os significados.. são apenas nossos.

3 | O que ando a ler

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— “As palavras escorrem como líquidos” —

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Sempre que preciso fazer uma pausa na minha vida real das coisas e suas causas… ou quando tudo se complica nesse mundo feito por homens para homens — recorro a poesia… que é sem dúvida o meu melhor argumento. Embora não saiba brincar de fazer versos. Não tenho apreço por rimas e tenho preferência pelo verso livre que dialoga com minha anatomia — assunto que já abordei em outro post
Eu tive uma semana cheia-insana… o que me obrigou a regressar a casa-corpo para me reorganizar. Pus a chaleira no fogo, fui até a prateleira e voltei com essa Mulher, que me inspira desde o nosso primeiro encontro.
Ana Cristina Cesar é uma figura múltipla. Sua poesia é sua biografia… o seu diário-verso — é a sua carta “ao mundo”. É também seu olhar… roupa suja. A sua máscara… confissão. Um segredo revelado antes do próximo passo… um salto.  É seu mistério. Toda a sua intimidade. Uma espécie de grito que nem sempre é ouvido…
Eu gosto imenso de dialogar com seus versos,  porque ouvi-la me acalma e dá paz — “vai-se o inútil salmo, o inútil amor  / Em cada começo o fio e a agulha / Em cada som um nome só: fim”.
Mas me incomoda o rótulo imposto à sua escrita, como se fosse uma espécie de verdade única e imutável. Dizem-na poeta marginal… e só! E há o que questione a sua escrita… dizendo-a: pouca-limitada.
Ana Cristina Cesar viveu intensamente seus trinta e poucos anos… transitou livremente pela famosa década de oitenta… visitou e foi visitada por seus pares. Escreveu cartas, textos curtos, poemas. E eu considero que a sua escrita ultrapassou os limites de tempo e espaço alcançando o direito a uma bela e generosa fatia de eternidade… comum aos que colecionam palavras com entusiasmo, sem se importar com as regras tóxicas da “boa escrita”.

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Onze horas
Hoje comprei um bloco novo,
Pensei: a você o bloco, a você meu oco.
Ao lápis a mão e os pensamentos em coro
Me sugeriam rimas e sons mortos..
Pára, coisa. Se oculta, rosto.
Cessa estes ecos porcos,
Está imundície coxa, este braço torto
Reabre o tapume verde do poço,
Salta dentro, ao negrume tosco
E se nada resta afoga-se no lodo
Para que sobre o resto do nada, o sono.
(Sussurro:) Eu você.

Ana Cristina Cesar — maio/68
Inéditos & Dispersos (1998)
Editora Ática

O que ando a ler

Fui até a prateleira no final do mês passado e ao vasculhar os meus livros de poesias — em maior número por ali — puxei o exemplar de capa azul: uma coletânea de poesias de Gilka Machado que eu levei para a mesa da cozinha… onde gosto de ler, na companhia de uma xícara de chá.
Leio poesia sem obedecer a sequência oferecida pelas páginas impressas. Abro o livro numa e leio o que se oferece como Norte — uma espécie de ponto marcado por um alfinete vermelho.
Mas, para construir um projeto de livro a partir dos versos de Gilka — idéia que surgiu enquanto o olhar percorria os livros em fila —, se fez necessário uma leitura em linha reta — obedecendo o que foi escrito e publicado pela poeta-mulher-gilka — em vida…
Percorri uma a uma as páginas de cristais partidos / estados da alma / mulher nua / meu glorioso pecado / sublimação / e velha poesia — entrecortando-as por pesados goles de chá-café, fatias de bolo, a voz de Elis Regina — uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta — a presença de Jane (dog) que sabe como atrair a atenção de seus humanos quando quer. Alguns diálogos com o meu menino… e as famosas leituras sonoras para melhor ouvir certos versos carregados por uma sensualidade ímpar — não é noite nem dia, observo, com surpresa, / uma triste alegria / em toda a natureza / medita bem que paradoxo no ar, que dolorosa orgia / em que a alma peca com vontade de chorar!
Ler Gilka é recordar o tempo em que as mulheres não tinham voz e suas palavras se limitavam aos diários-gavetas. Era uma escrita silenciosa-secreta… em tom confessional, que não merecia ser publicada por ser inferior e sem qualidade. Os homens escreviam poemas — lidos por mulheres que apenas rabiscavam versos com rimas precárias em cadernos… apenas para desafogar seus tolos sentimentos. Foi nessa mesma época em que forjaram o termo poetisa para justificar os poucos versinhos femininos publicados.
Cecília Meireles foi às paginas… mas a sua poesia não incomodava os leitores — era calma-mansa — não sou alegre, nem sou triste, sou poeta — e sua ousadia era bem dosada, mesmo quando recusava gentilmente o rótulo oferecido pelos homens das letras, sisudos e preconceituosos.
Gilka gritou ao escrever… falou das vontades que inflamavam a sua pele de mulher, os desejos que ruborizavam sua bela face e rasgou os verbos mais ousados nos versos de sua contestada poesia… para reclamar do machismo e criticar a opressão à mulher  — do teu amor à esplendida conquista, / minha carne e minha alma são rivais: / far-me-hei a sempre inédita, a imprevista, / para que cada vez me queiras mais. E foi severamente atacada pelos modernistas, inclusive por Mário de Andrade, que enalteceu sua falta de modos e seu comportamento impróprio — mas soube reconhecer o valor de sua poesia anos mais tarde, após sofrer na própria pele dos preconceitos que os colocou em igualdade de condição.
A poesia forte-intensa-feminina de Gilka acabou esquecida nas gavetas da história literária brasileira… e só voltou às prateleiras recentemente — através da coletânea organizada por Jamyle Rkain e publicada pelo selo Demônio Negro, em 2017.
Gilka foi a autora do primeiro livro de poesias eróticas publicado no Brasil… e ainda hoje, em pleno século XXI há mulheres que demonstram horror ao se deparar com a liberdade versada por ela. O mundo caducou nos últimos anos… andou para trás e a sociedade contemporânea conseguiu ser ainda mais conservadora e mesquinha.
Uma poesia atual, escrita no século passado que nos pontua enquanto figuras femininas em pleno 2019. Uma leitura necessária, cheia de substancia e imprópria para muitos…