10 | os livros para esse setembro…

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Eu deveria ter descido os livros das prateleiras, como fez a Renata — nesse fim de semana. Espalha-lho pela cama-chão-mesa… escolher os livros para setembro, que já começou e avança firme em direção a outubro e a cada livro-limpo imprimir um novo olhar pelas páginas… permitindo um novo sentimento em velhas-novas leituras.

Mas depois de observar as prateleiras na manhã fria de sábado… agi por impulso. Peguei o que a mão alcançou… sem me preocupar com autor-cor-forma.  O clássico: escolher por escolher somente.

Escolhi livros que já foram lidos em outros tempos — ignorando a pilha de inéditos ao lado da cama. Exceção feita a ‘todo aquele jazz‘ que não conquistou meu olhar no primeiro contato.

Os ensaios escritos por Mr. Geoff Dyer — que utilizou o Jazz como trilha sonora para narrar a trajetória de alguns monstros do gênero — não me fez avançar nas páginas e seguir viagem com os personagens. Cair na estrada — rumo a um show — é a proposta, mas minha alma não quis sair de casa na ocasião.

Quem sabe na companhia da poesia de Ginsberg… eu caia nessa estrada e vá de encontro a esse horizonte.

 


 

Livros para setembro

1 — Aqui de dentro — Sam Shepard
2 — Todo Aquele Jazz — Geoff Dyer
3 —  Morreste-me — José Luis Peixoto
4 — O papel de parede amarelo — Charlotte Perkins
5 — Uivo — Allen Ginsberg

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Beda | Paterson

 

Paterson é motorista de ônibus na pequena cidade de quem herdou o nome… realiza todos os dias uma sequência precisa de movimentos iguais e ouve muito mais do que fala. Uma espécie de observador de pássaros…

Acorda — pontualmente — no mesmo horário. Toma café sozinho na cozinha… e sai para o trabalho como quem combina os passos com os ponteiros de um velho relógio. Desce a rua, dobra esquinas… passa sempre pelos mesmos prédios e pessoas — percorrendo uma espécie de ‘mapa particular’ de sua pequena cidade. Ele acena as mesmas pessoas e parece não se cansar da vida-mínima que leva — que se resume a uma sequência interminável de dias sempre iguais.

Paterson, no entanto, foge dessa geografia provável ao se deixar tocar por algo sempre novo-inédito. A cada passo dado, reavalia a maneira como a luz resvala na anatomia dos velhos edifícios, colhe fragmentos de tudo-e-nada e reverencia as formas-fatos em silêncio-segredo. É apenas um passageiro, muito embora seja o condutor do Coletivo que atravesse a cidade.

Enquanto espera dar o horário da partida de seu Coletivo… para realizar o conhecido trajeto — ele escreve poesia, à mão… em um velho caderninho, do qual não desgruda — uma espécie de sombra.

Paterson ganha sobrevida em seus instantes de solidão — quando se isola da realidade… mergulha em si, e ali se tranca para tentar encontrar um sentido para si e para todas as coisas a sua volta.

A sua poesia é seu diálogo  que ele mostrou apenas a namorada-musa… uma figura curiosa que permeia sua realidade e parece ser a única coisa a destoar na vida comum-miúda de Paterson. É ela quem insere cor em seu mundo preto e branco… e o incentiva a exibir sua poesia para o mundo — uma idéia que ele refuta-recusa, como se quisesse preservar sua vida-pequena.

Em tempos em que todos querem se exibir… ele prefere se preservar e continuar a acordar todas as manhãs sendo apenas um passageiro-condutor de vidas-realidades em busca de um real sentido: a poesia…


PATERSON
(Estados Unidos/França/Alemanha, 2016)
Direção: Jim Jarmusch
Com Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Sterling Jerins, Masatoshi Nagase
Distribuição: Fenix


beda interative-se

BEDA | leia quem eu leio para saber-me…

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,

Álvaro de Campos

2017-05-09 11.13.52

Fui até a prateleira e voltei de lá com um velho livro verde em mãos… e enquanto avançava pelas páginas, recordei meu primeiro contato com Walt Whitman, que não era um poeta comum lá por casa.

Eu cheguei à sua poesia-pessoa-poeta — na segunda década de vida, também conhecida como juventude-adolescência. Tinha me apaixonado por Álvaro de Campos e sua poesia metafísica que me devastava — como se eu fosse o próprio poema de Eliot… the wast land — e de repente, esbarro em ‘saudação a Walt Whitman‘… um estranho.

…de um poeta ao outro! Comprei o livro velho-gasto-e-mau-cuidado em um desses cenários empoeirados, que o mundo se ocupou de me apresentar. Um lugar depois de escadas velhas, porta com sino irrequieto e prateleiras prestes a sucumbir ao peso dos livros amontoados em desordem — cumprindo uma espécie de ritual.

Foi um desses encontros que o destino parece ter previsto e tramado nos bastidores da minha vida-realidade para acontecer.

Li “flores de relva”… a caminho de casa, dentro do trem — numa espécie de gole único, que entorpece-atordoa-nocauteia… primeiro o corpo e depois a alma!

Encontrei nas linhas do homem ‘que conversava’ com Campos… um dos ‘poemas da minha vida’ e, obviamente, o entendimento não aconteceu imediatamente. Nem seria possível acontecer dentro de uma única e mísera tarde. Foi preciso outros contatos — outras tardes tantas… outras vidas e muitas realidades-impraticáveis. Riscos-rasgos-retalhos… notas esparsas e silêncios definitivos…

Já li inúmeras versões do mesmo livro. A mais recente, adquiri na Livraria Cultura do Conjunto Nacional — numa dessas aventuras entre prateleiras que costumo promover em dias cheios. O olhar reconheceu o objeto em meio a outros tantos e a mão tomou posse do que… ‘sempre lhe pertenceu’.

O livro certo… a cumprir sua sina de ‘barco em busca de cais’… a navegar pelos cantos da casa-cidade-memória… e da minh´alma.

Hoje, preparei uma xícara de chá… me esparramei na mesa da cozinha e abri aleatoriamente o livro… página 159 {os adormecidos} alcançaram meus olhos. Anoiteceu mais cedo do lado de dentro… e fim!

 


beda interative-se

Beda | — ‘poemas canhotos’…

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…ao degustar as páginas de ‘poemas canhotos‘ — o último livro escrito por Helder —, no meio dessa tarde de domingo-cinza… me vi em busca de um Norte para o qual apontar a minha bússola interna: “esses poemas que chegam / do meio da escuridão / de que ficamos incertos / se têem autor ou não / poemas às vezes perto / da nossa própria razão / que podem nos fazer ver / o dentro da nossa morte“.

Herberto não era um homem-poeta de multidões, era o homem com o olhar cheio e sorriso guardado. Figura de passo estreito, a percorrer suas calçadas de cimento. Não visitava e pouco era visitado. Mas a sua poesia sempre serviu de mapa para os olhos, que se atreviam por suas linhas.

Eu leio Helder com o entusiasmo de quem bebe uma xícara de café, em pequenos goles. Faço pausas… dou pequenos passos pelos cômodos e fico em silêncio enquanto vasculho o que sou…

Faz algum tempo que tenho seus livros por perto, para uma nova leitura — emergencial… quando a mente pede uma pausa das coisas do dia-vida-realidade.  No entanto, não sei dizer como foi que esse poeta português e sua poesia atracaram em meu olhar-corpo-matéria.

…’poemas canhotos‘ — foi presente da amiga-portuguesa Manuela, que escolheu um dos que faltavam em minhas prateleiras. Em suas poucas páginas adormecem treze poemas — número denso-forte-definitivo… quase um testamento. Em edição única — como determinou seu autor. Se a vida se esgota… é poético propor o mesmo fim aos livros!

Mas dói  um bocadito pensar que tudo que resta do homem é um espólio de linhas que agora pertence a alguém que não ele. E tudo será publicado nesse pós… poesia-vida-poeta-homem. Respiro fundo! — e me contento em degustar o que foi sua vida, enquanto lido com a estranha sensação de ser pouco, quando na verdade, é tudo-muito… o mundo de Helberto Herder!

 

“em boa verdade houve tempo em que tive uma/ ou duas artes poéticas / agora não tenho nada: / sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas”

 

beda interative-se

Beda | …os livros a…gosto da leitora que sou!

leituras a...gosto

Gosto de começar as coisas pelo fim… o último dia, a última hora, a última página-cena. O último livro na pilha… é o único caminhar seguro que me permito! Hábito antigo, que preservo, enquanto avanço em direção ao dia seguinte. Mas eu gosto mesmo é de viver aos solavancos, em queda… a tropeçar nos epítetos. Ser um abismo onde mergulhar… um verso inacabado-solto no ar — porque eu tenho fases… e preciso compreendê-las, percebê-las.

Por isso, enquanto espero pelo apito agudo da chaleira e a infusão do chá… vou até a prateleira em busca de um livro. Degusto — chá e páginas — em pequenos goles. Aprecio-reverencio mundos — quase sempre na companhia de um poeta porque a poesia é essa bússola a me guiar-conduzir pelos hemisférios, desde a infância.

Me acostumei nesses — ‘quase quarenta‘ — a mudar as coisas de lugar… e, às vezes, me desloco de um canto para o outro, pelo simples prazer de me sentir em movimento… porque o meu caminhar, às vezes, precisa acontecer por lugares sem rastros! — por entre prateleiras… onde descubro um novo autor-poeta.

…como aquele poema com suas quebras impossíveis no final de cada linha, que eu li entre pausas-soluços-sustos-começos-meios-fins-recomeços-flutuações-vida-morte-e-outras-coisas-mais — “e nascia dessa fala / uma língua que contava / o primeiro dos pecados / que é o pecado dos poemas / espalhados pelo mundo / e entroncavam todos eles / no dito tronco maldito / que das entranhas da terra / sobe e sangra e refloresce / e brilha a fruta compacta / que o pensamento desata et coetera et coetera / venha a mim o mal da terra”…

Acho que deu para notar que meu agosto terá aroma de versos…


1 — poesias, jorge luis borge
2 — [poemas], Auden
3 — ariel, sylvia plath
4 — poemas canhotos, herberto helder
5 — crianças em ruínas, josé luis peixoto


* trecho do primeiro poema de Herberto Helder no livro ‘poemas canhotos‘ — para ler a…gosto!