BEDA | leia quem eu leio para saber-me…

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,

Álvaro de Campos

2017-05-09 11.13.52

Fui até a prateleira e voltei de lá com um velho livro verde em mãos… e enquanto avançava pelas páginas, recordei meu primeiro contato com Walt Whitman, que não era um poeta comum lá por casa.

Eu cheguei à sua poesia-pessoa-poeta — na segunda década de vida, também conhecida como juventude-adolescência. Tinha me apaixonado por Álvaro de Campos e sua poesia metafísica que me devastava — como se eu fosse o próprio poema de Eliot… the wast land — e de repente, esbarro em ‘saudação a Walt Whitman‘… um estranho.

…de um poeta ao outro! Comprei o livro velho-gasto-e-mau-cuidado em um desses cenários empoeirados, que o mundo se ocupou de me apresentar. Um lugar depois de escadas velhas, porta com sino irrequieto e prateleiras prestes a sucumbir ao peso dos livros amontoados em desordem — cumprindo uma espécie de ritual.

Foi um desses encontros que o destino parece ter previsto e tramado nos bastidores da minha vida-realidade para acontecer.

Li “flores de relva”… a caminho de casa, dentro do trem — numa espécie de gole único, que entorpece-atordoa-nocauteia… primeiro o corpo e depois a alma!

Encontrei nas linhas do homem ‘que conversava’ com Campos… um dos ‘poemas da minha vida’ e, obviamente, o entendimento não aconteceu imediatamente. Nem seria possível acontecer dentro de uma única e mísera tarde. Foi preciso outros contatos — outras tardes tantas… outras vidas e muitas realidades-impraticáveis. Riscos-rasgos-retalhos… notas esparsas e silêncios definitivos…

Já li inúmeras versões do mesmo livro. A mais recente, adquiri na Livraria Cultura do Conjunto Nacional — numa dessas aventuras entre prateleiras que costumo promover em dias cheios. O olhar reconheceu o objeto em meio a outros tantos e a mão tomou posse do que… ‘sempre lhe pertenceu’.

O livro certo… a cumprir sua sina de ‘barco em busca de cais’… a navegar pelos cantos da casa-cidade-memória… e da minh´alma.

Hoje, preparei uma xícara de chá… me esparramei na mesa da cozinha e abri aleatoriamente o livro… página 159 {os adormecidos} alcançaram meus olhos. Anoiteceu mais cedo do lado de dentro… e fim!

 


beda interative-se

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Beda | — ‘poemas canhotos’…

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…ao degustar as páginas de ‘poemas canhotos‘ — o último livro escrito por Helder —, no meio dessa tarde de domingo-cinza… me vi em busca de um Norte para o qual apontar a minha bússola interna: “esses poemas que chegam / do meio da escuridão / de que ficamos incertos / se têem autor ou não / poemas às vezes perto / da nossa própria razão / que podem nos fazer ver / o dentro da nossa morte“.

Herberto não era um homem-poeta de multidões, era o homem com o olhar cheio e sorriso guardado. Figura de passo estreito, a percorrer suas calçadas de cimento. Não visitava e pouco era visitado. Mas a sua poesia sempre serviu de mapa para os olhos, que se atreviam por suas linhas.

Eu leio Helder com o entusiasmo de quem bebe uma xícara de café, em pequenos goles. Faço pausas… dou pequenos passos pelos cômodos e fico em silêncio enquanto vasculho o que sou…

Faz algum tempo que tenho seus livros por perto, para uma nova leitura — emergencial… quando a mente pede uma pausa das coisas do dia-vida-realidade.  No entanto, não sei dizer como foi que esse poeta português e sua poesia atracaram em meu olhar-corpo-matéria.

…’poemas canhotos‘ — foi presente da amiga-portuguesa Manuela, que escolheu um dos que faltavam em minhas prateleiras. Em suas poucas páginas adormecem treze poemas — número denso-forte-definitivo… quase um testamento. Em edição única — como determinou seu autor. Se a vida se esgota… é poético propor o mesmo fim aos livros!

Mas dói  um bocadito pensar que tudo que resta do homem é um espólio de linhas que agora pertence a alguém que não ele. E tudo será publicado nesse pós… poesia-vida-poeta-homem. Respiro fundo! — e me contento em degustar o que foi sua vida, enquanto lido com a estranha sensação de ser pouco, quando na verdade, é tudo-muito… o mundo de Helberto Herder!

 

“em boa verdade houve tempo em que tive uma/ ou duas artes poéticas / agora não tenho nada: / sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas”

 

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Beda | …os livros a…gosto da leitora que sou!

leituras a...gosto

Gosto de começar as coisas pelo fim… o último dia, a última hora, a última página-cena. O último livro na pilha… é o único caminhar seguro que me permito! Hábito antigo, que preservo, enquanto avanço em direção ao dia seguinte. Mas eu gosto mesmo é de viver aos solavancos, em queda… a tropeçar nos epítetos. Ser um abismo onde mergulhar… um verso inacabado-solto no ar — porque eu tenho fases… e preciso compreendê-las, percebê-las.

Por isso, enquanto espero pelo apito agudo da chaleira e a infusão do chá… vou até a prateleira em busca de um livro. Degusto — chá e páginas — em pequenos goles. Aprecio-reverencio mundos — quase sempre na companhia de um poeta porque a poesia é essa bússola a me guiar-conduzir pelos hemisférios, desde a infância.

Me acostumei nesses — ‘quase quarenta‘ — a mudar as coisas de lugar… e, às vezes, me desloco de um canto para o outro, pelo simples prazer de me sentir em movimento… porque o meu caminhar, às vezes, precisa acontecer por lugares sem rastros! — por entre prateleiras… onde descubro um novo autor-poeta.

…como aquele poema com suas quebras impossíveis no final de cada linha, que eu li entre pausas-soluços-sustos-começos-meios-fins-recomeços-flutuações-vida-morte-e-outras-coisas-mais — “e nascia dessa fala / uma língua que contava / o primeiro dos pecados / que é o pecado dos poemas / espalhados pelo mundo / e entroncavam todos eles / no dito tronco maldito / que das entranhas da terra / sobe e sangra e refloresce / e brilha a fruta compacta / que o pensamento desata et coetera et coetera / venha a mim o mal da terra”…

Acho que deu para notar que meu agosto terá aroma de versos…


1 — poesias, jorge luis borge
2 — [poemas], Auden
3 — ariel, sylvia plath
4 — poemas canhotos, herberto helder
5 — crianças em ruínas, josé luis peixoto


* trecho do primeiro poema de Herberto Helder no livro ‘poemas canhotos‘ — para ler a…gosto!

Ano 06 | Ensaio…

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Ana Luísa Amaral

Outras vozes

Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado.
Pensar «podia ter outra cor de pele, outra pelagem»
E o tempo virar-se do avesso, e entrar-se ali,
em vórtice, pelo tempo dentro.
Escolher.

Trazer cota de malha e de salitre,
ter chorado quando o porto ao longe se afastara,
milhares de milhas antes,
meses em sobressalto para trás.

As febres e tremuras durante a travessia,
a água amarga, as noites
carregadas de estrelas,
junto ao balanço do navio, um astrolábio.

Numa manhã de sol, do porto de vigia,
ver muito ao fundo, em doce oval,
a linha, quase tão longínqua como constelação.
Gritar «terra», gritar aos companheiros
ao fundo do navio, do fundo dos pulmões gritar,
e o bote depois, os remos largos,
a cama de areia e o arvoredo.

Ou trazer na cabeça penas coloridas,
conhecer só a fundo a areia branca
e o mar sem fundo, peixes pescados ao sabor dos dias,
uma língua a servir de subir a palmeiras,
a servir de caçar e contar histórias.

Moldar um arpão, começar por um osso
ou pedra e madeira,
entrelaçar o corpo da madeira, e o afiado da extremidade.
Contemplar devagar o resultado do trabalho
e da espera.
Ou a beleza. Escolher.

Trazer o fogo na mão, escondido pela pólvora,
fazer o fogo na orla da floresta.
Os risos das crianças, tocar a areia branca, tocar
a outra pele. Cruel,
o medo, vacilar entre a fome e o medo.
Ou não escolher.

As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira alta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.

 


Ana Luísa do Amaral, poeta lusitana.

18 | sobre os dias de maio…

Depois de escrever trinta textos, um a um, durante o mês de abril… desacelerei, como quem precisa de ar após percorrer uma maratona. E maio, esse mês vazio de trovoadas até aqui… seco, sem chuvas-nuvens-trovões  — vai vivendo dias de silêncio nos céus-terras-folhas. Até houve premissas-promessas… uma ou duas linhas, que não avançaram. Amassei o papel e seu branco existir apenas para ouvir qualquer coisa de som.

Há tempos que o som do papel a deformar-se entre os vãos de meus dedos é trilha sonora dos meus dias.

Os textos ficaram pelo caminho… como as previsões da moça do tempo que dizia chuvas fortes nas tardes passadas.

Não chove.
Não escrevo.
E maio avança no calendário com seus dias azuis.

Há outras coisas a fazer… com as quais me ocupar. Hoje eu li Rupi Kaur e sua poesia-pele. O livro novo ‘o que o sol faz com as flores‘ posou em minhas mãos e povoou os meus cinco sentidos. Gosto dessa ingenuidade na escrita. O escrever por escrever somente, sem compromisso com escolas-críticos, apenas diálogo que começa dentro… para si e vai alcançando o outro…

Tomei café a cada verso que deixava em meus olhos uma vida inteira-outra, tão longe e próxima… de mim. Fechei o livro e fui andar pelas ruas do bairro… esbarrei em idas e vindas  — esse movimento repetido a exaustão todos os dias. Guardei a figura de uma mulher no ponto do ônibus, com lágrimas nos olhos… encolhida. Tentava desaparecer. Não ser. Ela só queria não conjugar verbos.

Eu passei por ela como tenho passado por Maio… guardando um pouco de tudo e nada para depois, mais tarde  — nunca mais. Daqui a pouco acaba. Daqui a pouco se desfaz ainda que sem trovões. Daqui a pouco será junho… metade do ano, da laranja. Fim de estação. Novas-antigas-velhas-mesmas previsões.

Haja café!