13 | Pessoas são personagens

livros artesanais, autora e editora, scenarium

Sai para andar a cidade e me equilibrar entre passos… rotina que se repete desde que a escrita passou a ser movimento dentro dos meus dias, em pares. Acabei no mesmo lugar de sempre — entre esquinas — a degustar do meu tradicional latte.
Estava no segundo gole, quando os personagens do dia chegaram — três escritores que buscam no café um incentivo para o salto no abismo, que somos. O interessante de se mover para uma mesa no canto é que somos alto do elemento certo. As peças desse jogo se encontram, como se estivessem identificadas.
Munidos de prensa-xícaras-goles, inaugurou-se um diálogo — preguiçoso — a respeito desse mundo-insano que frequentamos nas horas ímpares. Um dos autores — a bordo de toda a experiência que seis-sete-oito livros publicados lhe confere — disse em voz alta — como quem se confessa e aguarda por penitências —, ‘eu não quero encontrar personagens em todas as pessoas que encontro’.
Arregalei os olhos e engoli o riso — que suicida — quase saltou dos lábios.
Levei outro gole de latte à boca enquanto o olhar fugia pelo espaço… acabei tragada por uma cena que acontecia na mesa ao lado — como sempre faço nessas horas —, atraída que fui por um casal — estranho-imaturo —, com suas filosofias de botequim. Discutiam o que não existia: a relação. Dois estranhos a dizer silogismos nada categóricos.
Ela insistia… ‘você não me ouve’… E ele, com sua cara de homem-de-meia-idade… cansado-das-coisas-que-não-vê-não-ouve-não-sabe, retrucou. Muito mais por estar acostumado a fazê-lo: ‘claro que ouço’. E ela continuou seu diálogo solitário-pardo. Um pássaro sem azul.
Beberam o café… e foram embora exatamente como chegaram. Ele estava muito mais preocupado com o jogo do Barcelona que com a parceira, que talvez arrumasse um amante mais jovem, homem bonito e sorridente, sem dinheiro e que precisasse dela para ser Homem algum dia. Dentro do que observei, conclui que iria estragar outro espécime, imagino o título para uma narrativa curta.
Estava prestes a voltar para o diálogo… quando esbarrei e fiquei nessas duas senhoras-brancas, em pé… a esperar pela bebida servida em copo de papelão. Falavam de seus netos que nada fazem-sabem. Idade pouca. Vontade nenhuma. Passam os dias com os olhos grudados nas telas de seus smartphones e comem no automático de seus gestos, cada vez menores. São figuras sem vida, que nomeiam as coisas sem, no entanto, identificá-las. Não olham… não ouvem… não sabem. E serão velhos antes que a idade tenha tempo para ser rugas — e eu já estava quase a nomear o meu futuro-artigo, quando uma cena inédita surgiu além do vidro, onde éramos manequins em uma vitrine. Duas meninas se descobriam entre provocações singulares. Tudo era toque dos olhos, das mãos, dos lábios. Pressa. Uma queria mais. A outra queria muito mais. Beijaram-se depois de um divertido duelo  — e eu reescrevi um punhado de cenas-guardadas na gaveta da memória.
O escritor engoliu o último gole de seu café  — quase frio  — com a pressa de quem nada vai escrever… sem sentir o aroma ou provar do sabor das palavras que proferia, enquanto continuava a justificar sua fala inicial.
Eu guardei sua frase num dos bolsos da calça para mais tarde. Ao voltar a caminhar calçadas pretendia acariciá-la e pensar no que dizer a respeito…personagens é o que vejo-sinto o tempo todo. É o que somos — figuras únicas-turvas-abstratas. Um punhado de linhas que se puxadas forma alguma coisa… um novelo, talvez.

07 | A pessoa que não somos

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“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”
— Herberto Helder —


 

Sai para andar calçadas, sem destino com lugares-espaços ou compromisso com a cidade. Era apenas eu, os meus passos e as coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco… e o desejo de ter em mãos um copo branco — venti — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.
Entrei no metrô — com o som a dizer suas notas em meus ouvidos — e me distrai com os movimentos de estações e túneis até que uma figura branca, enfiada em combinações de calça-blusa-botas-meias-sacolas e balangandãs conquistou minha atenção.
Olhei ao redor para me cerificar da figura-personagem — às vezes, o meu imaginário me trai com suas figuras inexistentes que saltam de meu íntimo. Engoli seco sem certezas. A figura lia uma revista de moda e destoava belissimamente do cenário-cidade-vagão. Combinava, no entanto, com os acordes da canção que eu ouvia.
Descemos na mesma estação… em Moema — linha lilás — e reparei, ao subir as escadas em seu andar despreocupado-elegante, a equilibrar-se naturalmente entre as peças urbanas — parecia estar em um tabuleiro, a mover-se em busca do Rei.
Avançamos pelos mesmos caminhos — calçadas-esquinas… e eu fui aprendendo seu jeito seguro-atento. Reparei que deixava um pouco de si — o perfume, talvez — por onde passava. Dois rapazes se inquietaram e trocaram palavras silenciosas um com o outro. Ela não reparou…
Considerei que estivesse a desenhar a sua próxima coleção ou a escrever um artigo sobre as não-novidades de seu mundo. Sem preocupação alguma, atravessou a rua — apertando o passo, como quem salta poças para não molhar os pés.
Reparei que vez ou outra observava as vestimentas femininas e parecia saber o que combinava do que destoava nos corpos em movimentos contrários aos seus. Ela parecia um daqueles malabaristas que esperam fechar o sinal para se apresentar a uma pláteia de desinteressados. Um ou outro arremessa uma moeda que não paga nem o café… e o artista circense das ruas retorna para a sarjeta.
Foi curioso perceber que tínhamos o mesmo destino — o café entre esquinas. Ela pediu um chá e foi se sentar no sofá, ao fundo. Minha mesa estava à minha espera e depois dos cumprimentos e diálogos soltos, me sentei e fiquei a espiá-la… a maneira como se e espalhou, fazendo do canto… o seu escritório.
Comecei a rascunhá-la em meu bloco de notas imaginário. Ela me fez perceber que o não saber… é o melhor dos ingredientes. A distância mantêm a salvo as minhas ilusões, tão necessárias quando me sento aqui, diante da tela. Posso dar a ela a forma que for, sem comprometimento algum com a sua verdade. Enquanto figura-transeunte-personagem-de-amanhã, é apenas uma estranha a embalar um par de horas confusas, como se fosse um daqueles bombons embrulhados em papel fino-coloridos — aroma do café, que seduz antes mesmo do primeiro gole! No entanto, se deixasse sua condição e invadisse a minha realidade, com suas confusões, palavras equivocadas e a realidade de todas as coisas: cruel e desumana — seria apenas uma xícara de café amanhecido, esquecida no canto da mesa…
Por isso a prefiro em seu canto de mundo-vida — ausente da minha realidade — sendo apenas criador e criatura, sem saber qual condição ocupamos no mundo da outra.

 

| escrito ao som de  you an I |

05 | Um torvelinho por dentro

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As minhas ideias acontecem quando eu me coloco em movimento de cômodos-calçadas-ruas-esquinas. Só depois é que me sento para escrever. Meu pensamento necessita do passo… como o grafite que precisa caminhar pelo papel. Tudo se organiza naturalmente e eu sinto dentro, o lado de fora e o contrário também.
Quando leio um texto-livro-original-a-mim-encaminhado… o mesmo acontece. Me coloco em movimento… ultrapassando um a um os cômodos da casa, o espaços da cidade — quarto-sala-cozinha-banheiro-corredores-calçadas-ruas, numa espécie de reinvenção dos mapas de minhas emoções-vivências-e-experiências…
Me lembro do quanto gostava — na infância —, de observar da janela, aqueles giros rápidos de vento em espiral, feitos de ar quente. Os torvelinhos surgiam no nada nos dias quentes e carregavam tudo o que fosse proporcional ao seu tamanho-força. E desapareciam sem deixar rastro, como se não tivessem existido. Rápido e ágil — o tempo exato de um sopro-morno que existe enquanto há fôlego.
Uma das minhas brincadeiras favoritas, na infância, era imitar os torvelinhos… abria bem os braços e rodopiava — girando e girando cada vez mais rápido. Não era ágil o bastante… nem o meu corpo era propício ao movimento de giro. Sentia tontura e, naqueles dias, não fazia idéia de que era uma ilusão. Sentia tudo em movimento, menos o meu corpo. O meu mundo e a cabeça giravam ao contrário… e, na tentativa de recuperar o equilíbrio perdido, fechava os olhos e esperava… sentindo dentro, o efeito que tinha buscado do lado de fora.

16 | velhos hábitos

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setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. imaginar o desenho de palavras, a sensação de frases. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encapar os cadernos, com folhas de jornal e plástico transparente. etiquetá-los com o meu nome, do professor e a referida disciplina.
livro novo de poesias. era o nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton…
sentava-me na cama à noite e a leitura acontecia. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. domingo. noite. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário, por escrever somente, sem compromisso ou projeto de publicação, como fiz com reticências e septum.  escrever como quem dialoga com a pessoa de dentro. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas. como antes. escolhi um lugar. a mesa da cozinha. pensei o tempo. memórias. silêncios. barulhos. estranhezas. tudo fervilhando como a água na chaleira. xícara de chá. pequenos goles. e a velha sensação na pele. liquefazer-se. escrevi por escrever somente. vogais e consoantes engatadas umas as outras. frases inteiras. um comboio a percorrer trilhos.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. a aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo…
escrever um diário será uma aventura paralela à (re)escrita de Alice. que também  tem um diário de bordo. um caderno. vermelho. que estava guardado no fundo do baú a viver seu estado de espera.

Detalhes de uma escrita ficcional

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“Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…”

— John Keats —


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Vez ou outra… alguém me pergunta: como surgem os meus textos! Confesso que, nas primeiras vezes, eu pensava na teoria da geração espontânea — que caiu por terra há anos — achava graça e respondia com o um dar de ombros característico dizer…
Acabei por perceber se tratar de uma pergunta bastante comum… motivada pelo aparente mistério que envolve o universo da escrita. Todos querem saber de ondem saem os temas, personagens, motivação…
Há muitas teorias e lendas a esse respeito… oriundas de investigações feitas por pesquisadores literários a fim de desvendar tais mistérios — ainda que isso não faça a menor diferença na realidade de cada um.
Recentemente eu li outro artigo num importante jornal inglês…  sobre a possível origem de Mr. Darcy — personagem de ‘orgulho preconceito’. Um verdadeiro jogo de xadrez, sem cheque-mate. Eu me divirto igualmente quando me deparo com artigos que explicam como a vida na prisão influenciou e motivou a escrita de Dostoiévski.
Eu resolvi realizar  minha própria investigação para alcançar uma possível resposta para essa pergunta… e evitar o famoso dar de ombros quando questionada.
Sentei-me aqui… e enquanto esperava pelo meu copo branco de latte… enfrentei o branco da tela, em paralelo aos muitos movimentos que acontecem entre esquinas. Percebi que ao me sentar e abrir o notebook… acontece um efervescer dentro. Uma necessidade de dizer-se sem voz. Um silêncio tão fundo-profundo que me cala, desorganiza.
Na infância… ainda sem consciência de corpo-mente — ainda inocente com as sentimentalidades, pensava ser tristeza. Lembro-me de dizer, com o olhar cheio, a pele devastada, como no poema ‘the wast land’ de Eliot  — ‘eu sou uma pessoa triste‘.
Descobriria mais tarde — através da poesia de Emily Dickinson — se tratar de melancolia. Um afundar-se dentro porque certas coisas me encantavam e emudeciam e eu queria guardar aquele sentimento novo-inédito-incrível para todo o sempre… em algum lugar do meu corpo-matéria.
Ainda me lembro da sensação de olhar cheio e espanto ao dar pelo cair da tarde. O fechar-se das cortinas me deixou boquiaberta. Os diferentes tons no céu e aquele breu a esparramar-se em todas as direções. Fiquei anestesiada por alguns minutos, completamente imóvel diante da janela. A luz do quarto se acendeu e eu vi o reflexo do meu rosto no vidro da janela… vi o caminho das lágrimas e o molde do sorriso nos lábios.

Pouco depois… risquei uma missiva à Emily, a poeta-amiga-mulher narrando as minhas emoções. Era exatamente o que eu precisava: escrever… porque sou minha própria caixa cênica…