Você está bem?

…sou uma pessoa endogenamente melancólica desde miúda. Olhos baixos, pesados suspiros, tragos pesados de ar e o olhar a visitar paisagens distantes. Não sou assim na maior parte do tempo… porque nem sempre posso ficar quieta, do lado que tanto gosto e aprecio: o de dentro — onde vivo perdida em ilusões, qualquer coisa de sonho, a virar páginas conhecidas, onde histórias se repetem. As minhas e a de outros autores que se misturam a mim.
As pessoas se incomodam, algumas dizem sentir medo, outras (corajosas que são) se aproximam para perguntar: você está bem? E não importa a resposta que eu ofereça… nunca ficam satisfeitas. Consideram que estou brava, sozinha, triste, a sofrer dissabores — não passa por suas mentes que estou a existir no melhor dos mundos.
Eu perdi algumas pessoas ao longo dessas quase quatro décadas de vida, mas antes disso eu já vivia dentro… fechada. Preferia os dias de chuva, nublados-cinza. Gostava imenso de fechar os olhos e escutar o som dos trovões.
Certa vez uma alma que atravessou o meu caminho, tomou minha mão e tal qual uma cigana, desandou a ler as linhas de vida-coração… falou em desilusões-agruras-frustrações. Listou tudo como se fosse ao mercado providenciar ingredientes para uma dessas receitas que a gente encontra num livro de culinária.
Ouvi pacientemente enquanto um sorriso percorria o meu íntimo. Tomei minha mão de volta e disse “não há nada de errado comigo. Não vivi nada que não pudesse suportar e não estou triste-doente ou em fase de sofrimento. Apenas estou quieta, como sempre fui, a apreciar a realidade das coisas e suas causas do melhor ângulo que existe“.
A pessoa não se convenceu e me recomendou sua igreja… dei de ombros. Saquei um livro de poesias da mochila, traguei de minha generosa porção de ar. Pedi um latte e degustei o momento, como tanto gosto e aprecio… sem pressa e em silêncio, sem me importar com os sons humanos do lado de fora. Gosto assim…