Beda | Paterson

 

Paterson é motorista de ônibus na pequena cidade de quem herdou o nome… realiza todos os dias uma sequência precisa de movimentos iguais e ouve muito mais do que fala. Uma espécie de observador de pássaros…

Acorda — pontualmente — no mesmo horário. Toma café sozinho na cozinha… e sai para o trabalho como quem combina os passos com os ponteiros de um velho relógio. Desce a rua, dobra esquinas… passa sempre pelos mesmos prédios e pessoas — percorrendo uma espécie de ‘mapa particular’ de sua pequena cidade. Ele acena as mesmas pessoas e parece não se cansar da vida-mínima que leva — que se resume a uma sequência interminável de dias sempre iguais.

Paterson, no entanto, foge dessa geografia provável ao se deixar tocar por algo sempre novo-inédito. A cada passo dado, reavalia a maneira como a luz resvala na anatomia dos velhos edifícios, colhe fragmentos de tudo-e-nada e reverencia as formas-fatos em silêncio-segredo. É apenas um passageiro, muito embora seja o condutor do Coletivo que atravesse a cidade.

Enquanto espera dar o horário da partida de seu Coletivo… para realizar o conhecido trajeto — ele escreve poesia, à mão… em um velho caderninho, do qual não desgruda — uma espécie de sombra.

Paterson ganha sobrevida em seus instantes de solidão — quando se isola da realidade… mergulha em si, e ali se tranca para tentar encontrar um sentido para si e para todas as coisas a sua volta.

A sua poesia é seu diálogo  que ele mostrou apenas a namorada-musa… uma figura curiosa que permeia sua realidade e parece ser a única coisa a destoar na vida comum-miúda de Paterson. É ela quem insere cor em seu mundo preto e branco… e o incentiva a exibir sua poesia para o mundo — uma idéia que ele refuta-recusa, como se quisesse preservar sua vida-pequena.

Em tempos em que todos querem se exibir… ele prefere se preservar e continuar a acordar todas as manhãs sendo apenas um passageiro-condutor de vidas-realidades em busca de um real sentido: a poesia…


PATERSON
(Estados Unidos/França/Alemanha, 2016)
Direção: Jim Jarmusch
Com Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Sterling Jerins, Masatoshi Nagase
Distribuição: Fenix


beda interative-se

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Missiva | do verbo ir…

Missiva do verbo ir

Cara mia,

 

…escrevo-te nessa hora quase cheia. Passa das nove… ainda não são dez, mas estamos a caminho. Chegaremos lá antes que essa missiva chegue a sua última linha. O chá esfria na xícara enquanto ouço minha playlist que dá ritmo a esse dia recém desperto… que trouxe para a minha boca o verbo: ir… perfeito para resumir os meus últimos dias.

…que são muitos e se amontoam como livros, um por cima dos outros. Ao contrário dos livros — que ficam quietos, em compasso de espera… os dias, às vezes, se atropelam, se desorientam. Não sei onde estou e não reconheço a realidade de suas sonoridades. Sinto falta — admito — do tempo em que cada dia tinha um lugar em meu mapa particular de vivências.

Eram ruas percorridas com passos aos pares.
Hoje… são coisas soltas, peças de um quebra cabeça impossível de se montar.

Mas eu preciso não pensar nisso… conjugar o verbo em todos os tempos.
Deixar ir porque cada dia tem sua cor-som-magia.

Eu os vivo ainda que não dê por eles… sei dos movimentos das coisas-vida-tempo-espaço. Passo pelos lugares. Colho abraços. Degusto substâncias. Aprendo com as coisas que faço. Com as falas que guardo para depois. Com os livros que leio-devoro. As músicas que ouço-trago. As ruas que atravesso e as pausas que insiro em cada instante.

Tudo é sempre novo, certo?
A alegria que o sorriso deita fora. A tristeza que os músculos represam dentro. A inspiração que surge no meio do passo e eu colho com qualquer coisa de surpresa-satisfação.

Uma fagulha de sol ilumina uma paisagem antiga-nova. Um estranho acena e eu retribuo. Alguém fala palavras conhecidas e tudo se transforma em outra coisa-colorida. Uma bebida bem feita é entregue em minhas mãos e a mesa do canto espera-vaga para começar as atividades programadas ou deixar tudo de lado para folhear aquele livro que já estava a me olhar torto. O diário recebe palavras e essa missiva ganha tons de diálogo. O livro de poesias se abre na página certa para esse dia que não se orienta por calendários.

É apenas mais um dia… onde o verbo ir se conjuga, inclusive nessas linhas que deixo aqui para você.

Au revoir

BEDA | inspira-me…

Eu busco inspiração nas pessoas… em seus movimentos de vida e diálogos de momento. Gosto de provar de seus contornos len-ta.men.te. Ouví-las durante suas distrações… e avançar por dentro, até me misturar de tal maneira que não sei mais quem sou.

Não são todos as pessoas que encontro pelos caminhos que me inspiram. Apenas as que despertam em mim… aquele precioso minuto de silêncio. Gosto de me calar… perceber-ouvir-sentir.

É como acender um cigarro e tragar pesado… lançando no ar pesadas baforadas de nada. Eu não fumo! Mas gosto imenso dessa cena que me remete a tantas autoras-minhas.

Eu costumo sair para caminhar nas primeiras horas da manhã, antes que o sono atormente os meus olhos e me obrigue ao travesseiro. Gosto da perspectiva das calçadas… de onde posso apreciar as cores a sofrer mutações. As janelas abertas para a manhã. As pessoas com seus passos apressados-equivocados a tropeçar na realidade…

Às vezes, paro alguns instantes na Banca de jornal.
Leio rapidamente algumas capas.
…são sempre as mesmas noticias às segundas-feiras.

Atravesso a rua… cumprimento um desconhecido apressado que passa por mim. Vejo amigos se abraçando num reencontro não programado. Atendo um telefonema. Quem ainda se lembra de usar o telefone para essa estranha finalidade em dias tão contemporâneos? A moça-com-sua-voz-de-sexta-feira — carregada de sotaque — fala tão rápido que eu não consigo saber o que está a me oferecer alguma coisa.

Entro no café entre esquinas… peço meu latte e me sento no balcão — depois de alguns alôs-e-olás. Descubro que minha caixa de entrada está lotada. Respiro fundo e vasculho a realidade… esbarro em um casal se dissolvendo em palavras agudas. Uma mãe a sacudir o filho. A criança escapa… corre-atravessa-a-rua.

Rotina alterada. Gritos. Freadas bruscas… a criança nem sabe o que fez. A mãe — com o cuore fora do peito — a alcança. Dispara falas-gestos-corretivos-sem-efeito. A criança — a bordo de sua inocência — parece achar tudo muito exagerado.

A vida volta a normalidade… uma estranha se senta ao meu lado. Lamenta a quase morte-da-menina. Saia da farmácia com dúzias de remédios para a voz-garganta-nariz-olhos-sofrimentos-eternos-da-mente-e-do-cuore. Morreu no lugar da menina. A moça espirra-tosse-reclama do outono… e dispara falas sobre o assunto de todos os dias: algum político foi preso. Aquele velho-conhecido discurso sobre corrupção do qual me afasto len-ta-men-te…

Um estranho se senta do outro lado… coloca sobre o balcão o copo brando de latte, um livro-conhecido — 1984 de George Orwell — com marcações coloridas… e um pequeno caderno com Hopper na capa. Me interesso… seria ele o personagem que procuro para me habitar-ocupar. Me apresso por sua figura. Tomo emprestado seus moldes.

Ele percebe meu interesse. Sorri… corre o olhar por minha figura. Desbrava-me… e se apressa em falas bobas-agudas. Tudo e nada. Sobe o dia-lugar-café-livro-mundo. E eu lamento sua fala.

Bebo o que resta de café no copo. Me despeço… ainda tenho um punhado de coisas por fazer. Calçadas para andar. Pão para comprar. Meio fio onde me equilibrar. Um personagem para encontrar. Um punhado de páginas para ler. Uma folha que se desprenderá do alto de alguma árvore para colher. E uma crônica sobre as manhãs de abril… para escrever.

 

BEDA | Pessoas são personagens…

Na noite de ontem, durante uma diálogo entre esquinas-e-cafés… um autor me disse — quase como quem se confessa —, ‘não quero encontrar personagens em todas as pessoas‘. Eu ri — como sempre faço nessas horas —, enquanto observava em paralelo a ele e a mim.

É só o que vejo… pessoas são personagens — figuras únicas-turvas-abstratos. Um punhado de linhas que se puxadas forma alguma coisa… um novelo, talvez.

Não me lembro se ele disse alguma coisa depois disso, mas eu guardei sua frase num dos bolsos da calça, para acariciar enquanto caminhava pelas ruas da cidade. E lá estava eu, sentada em minha mesa ao canto, a degustar o meu tradicional latte quando a mesa foi ocupada por esse casal — estranho-imaturo —, com suas filosofias de botequim. Discutiam o que não existia: a relação. Dois estranhos a dizer silogismos nada categóricos.

Ela insistia… ‘você não me ouve’. Ele, com sua cara de homem-de-meia-idade… cansado-das-coisas-que-não-vê-não-ouve-não-sabe, retrucou… muito mais por estar acostumado a fazê-lo… ‘claro que ouço’. E ela continuou seu diálogo solitário-pardo. Um pássaro sem azul. Beberam o café… e foram embora exatamente como chegaram. Ele estava muito mais preocupado com o jogo do Barcelona que com a parceira. Ela… talvez arrumasse um amante mais jovem, homem bonito e sorridente, sem dinheiro e que precisasse dela para ser Homem algum dia.

Pouco depois, um casal de senhoras ocupou a mesa para falar dos netos que nada fazem-sabem. Tem idade pouca. Vontade nenhuma. Passam os dias com os olhos grudados nas telas de seus smartphones e comem no automático de seus gestos, cada vez menores. São figuras sem vida, que nomeiam as coisas sem, no entanto, identificá-las. Não olham… não ouvem… não sabem… um dia serão velhos — pensei. Ops! Essa era a outra cena.

Enquanto isso, no sofá da área externa, duas meninas se descobriam entre provocações singulares. Tudo era toque. Pressa. Uma queria mais. A outra queria menos. Beijaram-se depois de um divertido duelo. Ninguém se ocupou das duas figuras. Não houve reclamação-queixa-palavra. As duas estavam livres… confortáveis no meio de uma tarde que não sabia se sol-chuva-nuvens. Sabia apenas que era preciso passar.

…e passou!


beda

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | A ROTINA DO MEU DIA…

Eu costumava dizer que não suporto rotinas… mas, ao admirar meus movimentos de vida, percebi que minha realidade é como minha música favorita — ligada no repeat. Atualmente, vivo na companhia de Carly Simon…

Saio para as ruas, percorro calçadas, escrevo notas mentais-textos futuros. Bebo café-chá-vinho e aprecio os cenários, as pessoas e espero pelo toque de midas, que irá transformar tudo em argumento para as coisas que faço-vivo-sinto…

No mais amanheço, entardeço, anoiteço entre encontros e desencontros… cada dia tem o seu sopor que eu aprecio e admiro.


Perceber o dia, a manhã… em seus diferentes estágios de vida-realidade!

Alinhavar combinações possíveis-impossíveis… e tentar extrair dela o melhor. Ser como as abelhas — na poesia de Dickinson: ‘uma ambição em pleno vôo de vida’…

Rever narrativas antigas-e-novas — novas-e-antigas… rascunhar realidades alheias!

Perceber novos personagens… possíveis ensaios futuros! Porque é na realidade que eu alimento o meu imaginário!

Abraçar o outro, através das linhas que escrevo… quando a noite se aconchega em meu íntimo com seus matizes insanos…

Fazer pausas no meio do passo para compreender o ritmo da realidade, que nem sempre é o mesmo do mio cuore! Mas em algum momento acertamos os nossos ponteiros…


Participam desse desafio
Avesso da CoisaFrasco de MemóriaO lado de dentro — Retratos e Diários