Missiva de primavera | As horas estão escritas num futuro impossível

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Caríssima,

…a madrugada não trouxe os trovões que eu esperava… apenas um silêncio imenso dentro das horas em pares — vividas, minuto a minuto, na companhia de suas linhas. Li e re-li a tua resposta, que chegou no meio da tarde, como um raio no azul… e me afundei em sensações. Fui para o meu canto favorito da casa, e levei comigo outras linhas tuas — guardadas na ‘gaveta da alma’.

Espalhei os versos sobre a cama… a mesa, o chão — o quarto todo… e, aos poucos, o papel se fundiu à minha matéria: embriagando-me! Foi assim que eu vi nascer a certeza: publicar os versos teus.

De repente, estava a dobrar e amassar folhas… a tramar qualquer coisa de futuro em meu íntimo… a imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito.

Passaram-se segundos-minutos — não sei precisar o tempo das minhas urgências. Fui para a cozinha ferver a água. E, enquanto esperava… admirava sua fisionomia serena-calma — da qual não consegui retornar.

Li teus olhos, tua boca… o rosto todo. Colhi um punhado de gestos calculados. Percebi a tua respiração… acompanhei o teu silêncio! Ouvi tua voz murmurar segredos humanos-urbanos… me perdi!

Ao despertar — dentro de um gole de chá —, percebi o inevitável… ao espiar o azulejo que reveste a parede da cozinha: a vida é feita de esperas. E ninguém nos ensina isso. Temos que aprender por nós mesmos. Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…

Eu esperei por ti! E, depois que te vi chegar… outras esperas aconteceram. Agora mesmo… espero que te vás. Preciso que regresses a ti e me deixe só… no limbo de minhas insanidades — a flutuar no vazio que sou, para beber a mim em pequenos e generosos goles…

Por enquanto, convivo com a tua janela e devoro a paisagem que sorves. Observo como olhas a rua e os passos que chegam aos teus olhos. A cidade vista do alto é tão singular. Vejo teu sorriso agridoce aquecer os teus lábios nesse refletir de vidraças. Num movimento abrupto — apenas teu —, vejo tuas mãos fecharem as cortinas que pesam sobre tuas janelas. É tua maneira de calar o mundo… mantê-lo longe, para não se sufocar nessas insanidades contemporâneas — tão antigas quanto o passado que tu recusas em ‘preces’ feitas antes de dormir.

Aproveito para me despedir… preciso recolher as folhas à ‘gaveta de minh´alma’ antes que o ‘dia seguinte’ desperte com seu sol de verão…

Beijo-te, certa de que outra espera acaba de começar…

Catarina

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19 – Queimávamos madrugadas de fio a pavio…

wazemmes lille

Caríssima AA.,

A tarde começa a cair lá fora, por cima da cidade com suas ruas em “movimentos” de sexta-feira. Passa das cinco e eu ainda não aconteci para o mundo. Sempre que chove fico dentro da pele — em suspenso. Minha alma se equilibra em desacordo com os ritmos da realidade… faço chá, reviro caixas, abro antigos cadernos-diários, arranco folhas para rascunhar o momento e me perder — como se estivesse a arrancar de mim alguma coisa indevida.

Faz dias que não chove por aqui… uma vida inteira-imensa e me incomoda essa falta de previsão de trovões e nuvens. O ar pesado me causa cansaço e há tanto por fazer e viver.

Ainda há pouco… antes de me sentar aqui para escrever-te — abri meu velho diário e um envelope antigo saltou lá de dentro… foi ao chão. O detive em minhas mãos por alguns segundos — enquanto espiava o passado contido em seu avesso. Recordei tudo que foi e não foi…

Senti a textura na ponta dos dedos… o resto de perfume que o papel guardou. Provei de sua cor opaca — já reparou como envelhecem os papéis? É tão poético acompanhar o efeito do tempo.

Mergulhei pouco depois… nas duas folhas de papel, onde adormecia a conhecida caligrafia descuidada-irregular-indócil… difícil de ser lida. E uma fotografia, que traz a data e o lugar onde foi tirada: Wazemmes — 2003.

Fiquei em suspenso por alguns segundos… provei da falta de coisas não vividas — como propõe um poema escrito por Simone Teodoro, em seu livro ‘astronautas’.

Viajei para dentro do cenário… conduzida pelas linhas de Pr., que falava da vida, de seus medos e vontades, incertezas, sonhos, ilusões. E confessava escrever do segundo andar de um prédio velho e escuro — em Wazemmes.

Nas primeiras linhas… reclamava de um jovem músico, que se repetia em notas — todos os dias, no mesmo horário. Dizia rezar — mesmo sendo ateu — para que ele aprendesse a dominar o instrumento e as notas… já que estava a gostar do lugar, que levou semanas-meses — uma vida inteira — para ser encontrado.

Ele era o tipo de pessoa, que precisava vestir os cômodos… uma espécie de barco encalhado a convocar ventos e marés. Não era qualquer lugar que lhe servia e se dizia amaldiçoado por ser assim, mas não fazia o menor esforço para ser diferente-mudar.

E era uma pessoa exigente… o quarto precisava receber sol pela manhã — a melhor hora do dia para se aquecer os lençóis… segundo ele.  A sala tinha que ficar no meio — caminho de algum outro cômodo. Fazia questão de uma varanda para as ruas e janelas grandes onde pendurar cortinas brancas.

Não cheguei a conhecer a morada… não houve tempo — apenas vontade-desejo. O imaginário, no entanto, foi e voltou de lá inúmeras vezes — a cada missiva que chegava, com novidades. Acompanhei a escolha dos móveis. As inúmeras visitas a lojas. A primeira compra de ingredientes num desses empórios antigos. O ajudei a preencher os armários. A escolher a louça… pratos azuis, canecas amarelas e talheres pesados. Eu lhe enviei um mensageiro dos ventos, que levou meses para atravessar o oceano e ser pendurado na janela do quarto para as noites-manhãs-tardes de ventos. Ouvimos juntos a primeira ventania enquanto tomávamos uma xícara de chá de anis com folhas de laranja — o nosso favorito.

E hoje — passado tanto tempo — visitei novamente o espaço… como se para lá tivesse me mudado no último minuto. Habitei por alguns segundos a fotografia. Converti a minha figura em personagem-transeunte… e vivi dentro de um fim de tarde, quase noite… a suturar levemente o cuore. Sentei-me no sofá, ao lado dele. Encostei a minha cabeça em seu ombro e lhe contei as novidades — sobre meu novo romance — enquanto esperávamos o apito sonoro de sua chaleira prata…

Ocupei todo o espaço… colei novos cartazes de filmes nas paredes. Grudei uma bandeira inglesa atrás da porta do quarto de hóspede. Espalhei os nossos livros russos pelo chão da sala, sobre o tapete de linhas. Pendurei algumas peças de roupa no armário. E o lugar pequeno-escuro, com poucos móveis, calmo e lúcido aos poucos se moldou a minha anatomia.

E no quase fim de tarde… vi o sol lamber a pequena janela da frente… a resvalar no vidro, deixando aquele rastro de poeira solar no ar… e ir embora len-ta-men-te pouco depois. Todo o cenário se converteu em sombras… a escorrer na parede de meus olhos fechados.

Voltei para cá… amparada pelo breu e o silêncio de quem lê uma missiva, observa uma fotografia e conversa com alguém, que talvez compreenda o silencio do meu corpo em suspenso nessa primeira-última hora.

À tout à l’heure!

 

 

selo para o BEDA

17. Limito o meu silêncio ao seu silêncio…

2017-02-18 18.59.10

Caríssima M.,

Cai a noite e com ela o cansaço de um dia inteiro, que começou cedo, pouco depois das oito. Despertei das sombras-páginas do livro a caderneta vermelha  que eu lia enquanto as horas avançavam firmes por essa segunda-feira — a última de maio.

Algo curioso aconteceu esse ano, não vi uma única flor de maio. A que tinha a casa antigamente florescia — estranhamente — em junho ou julho… jamais em maio, tanto que dizia pelos cantos da casa que algum equivoco existia. Mas, sempre as encontrava por aí, em algum lugar da cidade. Esse ano, no entanto, passou em branco.

Mas eu tive de volta a rotina dos trovões… e recordei — ao ler as suas linhas — as sonoridades da infância, que tanto prazer causava em minha pele e tanto pavor nos corpos mínimos das crianças do colégio.

Não sei se já lhe contei de uma manhã de Maio em que o céu desceu a terra com suas pesadas e negras nuvens. Escureceu cedo e de repente um estampido causou gritaria na sala de aula. Ainda era a primeira aula. Dez horas. Fazia pouco que tínhamos ocupado nosso lugar as mesas. Uma das crianças desandou a chorar — inconsolável. E para evitar maiores desconfortos…  reuniram todos os alunos numa mesma Sala.

…fiquei para trás — propositalmente — com os olhos grudados na janela… a contar os espaços entre o clarão e o trovão. Vi quando as grossas gotas foram se aconchegando na vidraça… e a velha e conhecida sensação de tristeza — naqueles dias eu não sabia ser melancolia o que sentia — reviveu… empalidecendo todos os ‘sempres’ dos meus olhos.

…fui impiedosamente arrancada de lá — num susto que quase desalojou a minha alma — e levada para junto da turba. Nada de poesias-trovões-chuva-tristeza… apenas o grito estridente daquelas humanas criaturas miúdas — a cada trovão… a me aborrecer e entorpecer cada um dos meus sentidos.

Agachei-me num canto e tapei as orelhas… apavorada. Lembro-me de ouvir a voz enferrujada da professora dizer — ‘já vai passar, já vai passar’ — no intuito de devolver a paz — perdida. Foi meu primeiro assassinato, minha cara. Fuzilei a infeliz da mulher em seu avental de educadora… com um raio fatal e sorri satisfeita.

Hoje não troveja no céu, minha cara. Apenas cá dentro da pele, onde as lembranças são pesadas nuvens. O mês está prestes a findar… maio foi inquieto e desembestou sonoro em minha pele, sem flores, mas com muitos movimentos de xícaras. E nas últimas horas lhe escrevo e vou ao teu encontro — entre um trovejar e outro… tu  me recebes?

Au revoir

2 – Gosto de ficar nas sombras das coisas e no segredo delas…

Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.

Georg Trakl, “Outono Transfigurado”,

 

 gosto-de-ficar-nas-sombras-das-coisas-e-no-segredo-delas

Caríssima AA,

…a paisagem amanheceu esbranquiçada por aqui e eu fiquei a espiar os prédios amontoados ao longo das vias por alguns segundos, enquanto percorria as linhas de sua última missiva, pela qual esperei, como no tempo de minha juventude…

Gosto de observar os elementos urbanos, embalada por frases que conversam comigo no silêncio de meu olhar e na quietude dos meus gestos… e me sentir conduzida por uma espécie de vôo pela paisagem. Já lhe disse que, às vezes, me sinto uma gaivota a zombar dos humanos em seus vôos sobre o mar? Essa é uma das lembranças antigas que trago na memória…

Mas, ao contrário dessa maravilhosa ave, meu mergulho se dá nas muitas janelas a dizer realidades infinitas e a narrar um punhado de histórias dissolutas. Imaginar as facetas que se escondem por trás de cortinas coloridas é o mesmo que tragar um pesado gole de vinho branco… pouco depois de um brinde, que não resvala em outra taça. Fica no ar… em suspenso… dentro dos olhos, como a gaivota, que sobrevoa sua unidade de ar…

É quase verão, minha cara… mas a chuva despejou qualquer coisa de outono por toda a cidade… que parece embriagada por essa fina camada de névoa-garoa, que me remete aos dias, em que dezembro era um mês branco… e pediam xícaras quentes entre as mãos, mantas aquecidas para os pés, luvas de lãs para as mãos e uma bela acha em chamas, na lareira.

É dezembro… quase natal, fim de ano… tudo isso junto, mas ao contrário de você, não penso pessoas… porque o calor tropical me causa imenso cansaço e acaba com a pouca paciência, que resta em meus flancos. Fica mais difícil aturar os humanos e suas tolices de ocasião…

Alguns já começaram a tecer as insuportáveis listas de fim de ano por aí… os melhores livros-filmes-lugares… do ano. Não entendo essa mania de somar o melhor e o pior da realidade… eu não seria capaz de te dizer o que foi melhor ou pior… em 2016. Me causa preguiça pensar em analisar tudo que fiz ou deixei de fazer. E daqui a pouco começam as promessas – aquelas que nunca serão cumpridas, mas que todo mundo faz.

Eu sei dizer pouco ou nada a respeito do ano que se esvai a cada dia… li bem menos do que eu gostaria. E não posso me limitar a dizer que foi por ‘falta de tempo’. Afinal, a leitura é parte integrante do meu trabalho. Faltou ânimo-vontade-disposição. Ver tantos livros coloridos… amontados nas ilhas das livrarias… foi fator determinante. Várias vezes eu saí com as mãos vazias das Livrarias Cultura, Leitura e da Vila… algo pouco comum a uma pessoa viciada em livros.

Fui poucas vezes ao cinema… porque a ‘sétima arte’ nesse ano par, resolveu contar as mesmas histórias, sob a perspectiva de diferentes diretores. Não foi o bastante para me fazer sair de casa  e enfrentar as ruas dessa São Paulo, cada vez mais habitadas por máquinas. Acabei por permanecer a casa, nas noites de sábado. Vi o que já tinha visto milhares de vezes e não lamentei. Me aconcheguei nos bons e velhos clássicos ‘singing in the rain’ e ‘an affair to remember’… e na versão francesa de ‘pride and prejudice’ um sem-fim de vezes… e confesso que preservo a sensação de ‘primeiríssima vez’.

Uma coisa, no entanto, ganhou imenso destaque nesse ano par, prestes a caducar… as pessoas estão cada vez mais pobres… imersas em falsas lógicas-certezas-conhecimentos-rótulos… limitadas ao próprio umbigo. O preconceito parece um vírus a infectar mais e mais pessoas, que continuam experts em apontar os erros e defeitos… nos outros. O dedo segue em riste. Os diálogos cada vez mais escassos e pautados por uma necessidade desconfortável de estar sempre certo.

A tão anunciada crise, só serviu para escancarar essa infeliz realidade que grita: ‘ainda somos os mesmos e vivemos’… mas não posso dizer ‘como nossos pais’. Tenho para mim, que eles não eram tão retrógrados.

O que me leva a questionar: como se desengata essa ré, minha cara?


Au revoir.

Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

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Caríssima M.,

…sentei-me aqui para responder sua missiva que há dias queima em minhas mãos. Mas eu tenho pequenos hábitos que preservo…

Para escrever uma missiva preciso que meu corpo anoiteça e que o som da chaleira se faça presente… ressoando sonoro pelos cantos da casa, me permitindo uma ilusão confortável de futuro — a única que eu aceito — através da fusão do chá.

Gosto de me sentar aqui, na mesa da cozinha… de frente para a janela para pensar a realidade que me atravessa a partir das linhas que me fizeram porto. É como bebericar um pesado gole de chá…

Já não dependo mais das manhãs de sábado para escrever… mas, as respostas que escrevo continuam a se precipitar dentro de mim, muito antes de eu estar diante da folha de papel — da qual ainda sou dependente, tanto quanto dos envelopes coloridos — sendo uma cor para cada correspondente, que já não são tantos quanto antes.

Também já não existe mais a questão da espera e confesso que sinto falta desse gesto. Era delicioso passar pela caixa de correspondência, no portão de casa, com a ansiedade típica de uma criança em véspera de natal. Era bastante singular ser surpreendida com certos envelopes.

Eu tive muitos correspondentes… um deles — um signore português — confeccionava seus próprios envelopes em papel de pão. Durante anos, ele foi o meu contato com uma pequena cidade do mundo, que antes dele, eu nem imaginava existir. Ele me contava da esposa, a bordo de seus sessenta e poucos anos, os netos que passavam os fins de semana em sua casa e da filha, sempre ocupada e distante.

Em tempos modernos, as missivas dispensam carteiros e caixas de correspondência. Chegam rapidamente através do e-mail, redes sociais, posts e livros. Não me aborreço com a modernidade, mas sinto falta da ‘espera convertida em surpresa’ daqueles tempos…

E eu ainda preciso sentir as palavras brotando da ponta do grafite junto ao papel. Preciso ser noite, xícara de chá, silêncio, folha de papel, envelope, selo…

É minha pausa nessa realidade insistente e também nesse imaginário sempre tão agudo e pulsante. É meu delicioso instante de silêncio em que posso ouvir o som do meu cuore badalar minhas reticências… como disse Tarsila em suas missivas ‘aí vai o mio cuore’

bacio
L