10 | os livros para esse setembro…

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Eu deveria ter descido os livros das prateleiras, como fez a Renata — nesse fim de semana. Espalha-lho pela cama-chão-mesa… escolher os livros para setembro, que já começou e avança firme em direção a outubro e a cada livro-limpo imprimir um novo olhar pelas páginas… permitindo um novo sentimento em velhas-novas leituras.

Mas depois de observar as prateleiras na manhã fria de sábado… agi por impulso. Peguei o que a mão alcançou… sem me preocupar com autor-cor-forma.  O clássico: escolher por escolher somente.

Escolhi livros que já foram lidos em outros tempos — ignorando a pilha de inéditos ao lado da cama. Exceção feita a ‘todo aquele jazz‘ que não conquistou meu olhar no primeiro contato.

Os ensaios escritos por Mr. Geoff Dyer — que utilizou o Jazz como trilha sonora para narrar a trajetória de alguns monstros do gênero — não me fez avançar nas páginas e seguir viagem com os personagens. Cair na estrada — rumo a um show — é a proposta, mas minha alma não quis sair de casa na ocasião.

Quem sabe na companhia da poesia de Ginsberg… eu caia nessa estrada e vá de encontro a esse horizonte.

 


 

Livros para setembro

1 — Aqui de dentro — Sam Shepard
2 — Todo Aquele Jazz — Geoff Dyer
3 —  Morreste-me — José Luis Peixoto
4 — O papel de parede amarelo — Charlotte Perkins
5 — Uivo — Allen Ginsberg

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Beda | meu personagem favorito

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Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy

Abro o livro… e a frase — “é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar à procura de uma esposa” — me posiciona no século XVII… a famosa era vitoriana. Sou transportada imediatamente para a fictícia Meryton… onde vive Elizabeth Bennet.

Jane Austen foi feliz em suas escolhas… não a descrevendo de imediato, não nos oferecendo muito — o que nos permite ir conhecendo-a aos poucos. Porque essa é a proposta da trama: conhecer-se.

Elizabeth é uma jovem com uma personalidade marcante — algo pouco comum as moças de seu tempo. Ela consegue se impor e ter opinião própria, a ponto de não concordar com as atitudes da mãe, sempre em busca de maridos ricos para as suas cinco filhas.

Gosto, sobretudo, quando diante do erro de julgamento, Elizabeth se encolhe e evita o olhar de Darcy. Tímida, como ainda não havia se mostrado na trama e, já sem a segurança de antes… chega a temer seus próprios passos. E, numa sociedade onde bons casamentos são o desejo de toda e qualquer moça, ao saber-se diante da enorme propriedade, daquele que é, sem dúvida alguma, o personagem mais apaixonante da literatura inglesa, não é de se espantar, que ela tenha engasgado… no que considero ser a melhor cena escrita por Jane Austen para uma de suas personagens.

Gosto de imaginar que nesse momento, Elizabeth Bennet tenha ouvido a própria voz… recusando o pedido de casamento feito por Darcy. E respirou fundo ao recordar toda a perplexidade sentida diante de um homem que lhe confessa admiração e amor, de maneira nada gentil… como se lhe fizesse um imenso favor ao lhe confessar que não é capaz de reprimir os sentimentos contra os quais vem lutando — em vão.

Obviamente que Darcy não esperava ser rejeitado — “ele é um tipo de homem a quem não se deve dizer não” — mas Elizabeth o fez, corajosamente, dirão uns… talvez se não existisse a recusa, a história tivesse outro rumo e acabaria ali mesmo, com o famoso ‘e foram felizes para sempre’. Mas com uma personagem decidida-forte-e-teimosa não poderíamos esperar outra atitude da jovem Bennet.

Darcy é pego de surpresa… e talvez por isso, exija uma explicação de sua pretendente — que não economiza palavras e tem todos os seus motivos enfileirados em mente e os apresenta de maneira incisiva, sem deixar margem para que o cavalheiro a sua frente os questione, restando a ele, apresentar um pedido de desculpas e uma retirada estratégica.

Darcy e Elizabeth são personagens cheios-imensos… oriundos de mundos totalmente diferentes. Ele é um nobre, acostumado as cortesias, deferências e as mulheres com quem convivia estavam sempre a aguardar por sua aprovação… ao contrário de Elizabeth, que era uma criatura rural, que encontrou no pai uma saída para uma realidade limitada: viver a espera de um pretendente.

Os dois são personagens que não dependem um do outro para serem o que são. Mas, em determinado momento dependem-se… porque se permitem olhar nos olhos um do outro e ver além das primeiras impressões — título que Jane Austen chegou a propor para a trama —, e, ao se permitirem conhecer-se, reconhecem seus defeitos e qualidades, e a admiração começa a existir gradativamente — sem pressa.

 

“Tenho a certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente. Minha afeição permanece inalterada; basta porém uma única palavra sua para fazer com que me cale para sempre.”

Mr. Darcy

 

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O meu segundo livro…

img_20180426_154132_049…pouco antes de me dedicar a escrita de lua de papel — meu primeiro livro — vivia dias de não saber. Aquela fase em que se imagina os caminhos, observa as paisagens, as pessoas… e escreve por escrever somente. Sem mapa ou norte.

Alinhavei dezenas de frases… amarrando-as uma às outras e sometimes conseguia qualquer coisa de ritmo que logo se esvaia.

Minha trilha sonora nesses dias era o som das folhas de papel sendo impiedosamente amassadas entre os dedos, de maneira grosseira-ríspida-rude.

O cansaço crescia… se apoderava da minha pele-alma e o questionamento fatal era um eco avassalador a urrar das profundezas desse eu que trago dentro: “tem certeza de que essa é a vida que escolheu e de que ela te aceitou?”

Nessas horas o cuore parava-desacelerava-engasgava e, desgostoso, chegava a abandonar o peito. Diante de tantos contrastes — o branco da folha sobre a mesa e as bolas de papel manchadas-amassadas no chão — me questionava: vai mesmo acontecer?

Eu escrevia dúzias de ensaios-diários… sobre tudo que percebia pelo caminho. Ainda não sabia o ritmo das mãos, dos olhos, do lado de dentro-fora. Sabia, contudo, ouvir o pulsar e essa vontade de ser história no papel.

Uma necessidade que me acompanha desde menina… contar histórias. Algo que aprendi com o mio nono — durante os almoços de domingo na varanda na parte de trás do velho casarão de pedras e madeiras a estalar ao vento. Ele narrava com emoção-alegria-tristeza os causos que trazia dentro. Tinha uma sonoridade tão gostosa que ficava fácil avistar todos os cenários de suas vivências — reais ou imaginárias.

Eu apenas queria fazer o mesmo… e se apanhei pela falta de experiência com lua de papel — foi completamente diferente com o segundo livro — vermelho por dentro —, que já estava escrito e guardado no fundo da gaveta, a viver o tempo das esperas.

Eu sabia tão bem a personagem principal da história — uma artista plástica que conheci nas ruas de Paris antes da fama lhe abraçar — e dialogava com Eva… sempre que pousava o olhar nas poesias de Al Berto.

Foi fácil encontrar o ritmo-tom e escrever apoiada nas minhas vontades de contar a vida dessa mulher que fez suas escolhas sem se deixar pautar por arrependimentos. Ela confiou em si e na vida — like me — amou-sofreu-caiu-levantou… foi sua própria bússola em dias tristes, o sol para o dia seguinte. E ao concluir seu segundo ciclo, resolveu aparar as arestas para não deixar pontas soltas, e poder dizer sim ao cuore uma vez mais.

Sou sempre eu e minhas personagens femininas… porque gosto imenso da maneira como se apresentam através do meu reflexo. É para elas que olho quando deixo o rascunho em fase de repouso em cima da mesa-cama-sofá e vou molhar o rosto com água fria — para baixar a temperatura da pele porque dentro é esse vermelho intenso-rubro, que ferve.

BEDA | não lembrar…

Deixo-te com tua vida | teu trabalho | tua gente | com teus pôres do sol
e teus amanheceres | semeando a confiança | deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis

Mario Benedetti

Caríssima M.,

 

A noite está quente e não há ventos como eu tanto gosto. As folhas não se mechem. A natureza parece ter feito uma pausa… como se tivesse deixado de existir por alguns segundos. Uma pequena eternidade… a dissolver-se em algum momento

Talvez o mundo tenha se acabado e eu não tenha me dado conta.
Talvez nada mais reste lá fora e eu esteja aqui dentro, a viver contrários.
Um mundo a parte do mundo… onde esse personagem novo se deixa aconchegar.

Conversamos pela manhã… e ela me falou do quanto lhe faz falta as lembranças perdidas. Eu não sei como é não lembrar. Já me esqueci de onde tinha deixado as chaves, o celular, um livro. Estava distraída com as coisas da vida literária. Pouco atenta aos meus movimentos. Mas, bastou rever os passos, refazer o traço — e pronto.

Às vezes, fico presa as histórias, atrelada aos personagens… a imaginar o que o autor não narrou: o dia seguinte. Não sou de pensar o futuro. Não sou dada a antecipar o amanhã. Leituras de mãos-cartas-búzios-estrelas. Não preciso saber. Não sinto vontade. Mas, ao finalizar uma trama bem escrita, antevejo esse futuro impossível e a ele me agarro durante horas inteiras.

O passado é esse lugar seguro… meu porto. Onde lanço âncora e finco a ponta da lapiseira. É o ponto de partida da minha escrita. Não lembrar seria perturbador, com certeza. Olhar no espelho e não entender meus traços. Atravessar a matéria. Não compreender o que vai na pele — por dentro e por fora —, se o que sinto é: frio-calor-fome-cansaço-medo-tristeza-alegria. Não saber-me enquanto pessoa-bicho. Como no livro ‘para sempre Alice’, de Lisa Genova. Ainda ouço a frase da personagem, vítima de Alzheimer — “não suporto a ideia de um dia olhar para você, para esse rosto que eu amo, e não saber quem você é”.

Ao mesmo tempo, sinto que seria interessante trabalhar um personagem sem passado… sem rosto — e descobri-la através das relações da vida apagada, conforme a história avançar capítulo a capítulo.

Escrever sem Norte será um desafio, uma novidade. Sempre recorri ao backstory como guia. Talvez seja o mesmo que sair as ruas sem mapas.

O que somos para o outro? — foi a primeira anotação que fiz quando o dia surgiu lá fora. Estava anestesiada. Agora, de posso de uma xícara e chá, penso que será instigante trabalhar a partir da resposta… com a qual convivo desde o meu ingresso na faculdade de psicologia.

O olhar não é nosso melhor sentido… mas é o que mais usamos. Eu prefiro o tato. Certa vez me disseram que para aprender a enxergar, é preciso fechar os olhos. É a melhor maneira de liberar os outros sentidos. Uma vez no escuro, sempre vamos em busca de tato.

— parece que vou passar um bom punhado de horas-dias, com esses argumentos todos. Deseje-me sorte…

Au revoir

 


 

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BEDA | Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado…

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Não era manhã de sábado… mas eu estava à procura de um antigo material — um artigo sobre a loucura, escrito num tempo anterior a esse. Revirei caixas-gavetas… espalhei tudo por cima da cama — como quem chega à casa, vindo da rua… e despe a derme das roupas impregnadas da realidade.

Quinze minutos depois… estava eu com uma xícara de chá em mãos… a voz deliciosa  de Carly Simon a ecoar pelo espaço e a minha generosa porção de Hopper — a revirar cada um dos meus rascunhos… como quem percorre calçadas sem destino — algo bastante comum a essa minha alma — amparada no desejo de caminhar, nem tanto em chegar…

Esbarrei em dúzias de coisas… até em textos que eu acreditava destruídos… em um desses momentos de fúria, que coleciono e me leva a amassar-rasgar-mutilar — o papel. Não sou dada a acumular coisas. Gosto de esvaziar-me… renovar-me. Mas há escritos que guardo para depois porque certos rascunhos me pedem a quietude das caixas-gavetas… o dia seguinte as convulsões da pele-alma.

Sempre fui dada a construção de linhas… escrever por escrever somente — enquanto exercício diário. É como ir à cozinha — abrir armários — e escolher ingredientes para as receitas que trago na memória.

Gosto de pensar em mesas postas… toalha, talheres, pratos, taças. Idealizar um Jantar para dois-três-quatro-meia-dúzia de amigos-personagens — porque é na vida real que o meu imaginário se alimenta. Gosto de fazer caldos, bolos, pães, massas. E escrever segue exatamente o mesmo ritmo.

Infelizmente não encontrei o artigo… mas não fiquei de mãos vazias. Acabei com um envelope plástico e suas folhas azuis a servir de divisórias para uma trama — escrita durante os anos colegiais. Imediatamente na primeira folha estava o título — de corpo e alma — riscado rispidamente em vermelho, como recusa severa. O sentido se perdeu.

A lápis mais abaixo… o motivo da recusa justificado por um poema — de Juan Luis Panero. Tinha encontrado um novo ritmo para as duas personagens principais da trama. Duas mulheres… fortes e conscientes das escolhas feitas no Passado que emergiu em Futuro. Decisões de vida tomadas no calor do momento — sem fôlego. Era ir ou ficar… entrar ou sair… direita ou esquerda. Não carregam arrependimentos na pele-alma… mesmo sabendo que tudo poderia ser diferente. Não se importam com o que não aconteceu… o que não foi. Estão satisfeitas com o pulsar, o sorrir, o existir. E avançam, conscientes que o melhor foi feito… e a sorte lançada.

 


 

‘Diante da vida sim, diante da morte,
dois corpos que porfiam exorcizam o tempo
construindo a eternidade que lhes é negada –
supõe eterno o sonho que os sonha.
É negro o espelho em que se replica a sua noite’.

 


 

Se tem uma coisa que me fascina na realidade… é essa bússola imantada a apontar sempre para o Norte… que no momento atende pelo título de ‘vermelho por dentro‘… resta ver se o romance não irá estranhar o novo corpo que lhe será dado.

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